Há muito, muito tempo, houve um faquir que deu um espectáculo de hipnotismo de massas no Coliseu. Descalço e vestido (despido?) a rigor, era a imagem perfeita da ideia que os ocidentais têm a respeito do seu mister. No ponto culminante do espectáculo anunciou: "Quando eu acabar de dar três voltas a esta mesa, vocês estarão todos hipnotizados e vão fazer tudo o que eu vos mandar!". Uma volta e "Bazoon!", duas voltas e "Tafoon!". Quando estava a concluir a terceira, deu um topanço em cheio na perna da mesa com os dedos descalços do pé direito e disse "Ai! Merda...". Foram precisas duas semanas para limpar o Coliseu.
Existem nestes assuntos de espionagem e privacidade, componentes de psicologia de massas que eu compreendo tão mal como a diferença entre o esparguete e os cannellonis: com os olhos fechados, o sabor é o mesmo. Mas, massas à parte, o assunto já foi importante, extremamente importante. Até ao final da Segunda Guerra. Aqueles tempos foram a Idade das Trevas e por um motivo simples, isto é, ninguém sabia exactamente o que estava a fazer, mas o público em geral, atribuía-lhes poderes quase divinos. Um dos autores que tiraram partido dessa, ingenuidade, chamemos-lhe assim, foi Edgar Allan Poe. Em "O Percevejo Dourado, Poe expõe os rudimentos da construção de códigos criptográficos e depois opina que todos eles podem ser quebrados porque "...o que a imaginação dum homem concebeu, o engenho doutro irá revelar".
A verdade é que os factos sempre pareceram dar razão a Poe, sempre, até ao final da tal Idade das Trevas. Quem estiver interessado nos seus últimos dias, pode, por exemplo, assistir à representação fabulosa da Kate Winslet. Quanto ao resto, o filme exagera algo da importância militar e estratégica que a quebra do Enigma alemão teve. O facto simples é que, a partir do desembarque na Normandia, os generais aliados preferiram ignorar as informações que lhes chegavam de Bletchley Park, exactamente como os generais alemães tinham escolhido ignorar a mensagem Verlaine, que os serviços de informações da Whermacht tinham identificado correctamente. Só para terminar as referências ao filme, que se deixa ver com agrado, o "Tom Jericho" é a personagem que mais se afasta do rigor histórico, embora o facto de a personagem real não gostar de mulheres não tenha qualquer importância e a sua semelhança com o Guião da Reforma do Estado termine rigorosamente aí. O Tom Jericho real desconfiou que o motivo da confirmação repetida da opinião de Poe se encontrava numa área obscura da matemática, designada por Teoria dos Grupos, mas também não foi mais além.
A Idade das Trevas foi a idade do ouro da espionagem e da criptografia. A sua importância real é assunto que nunca consegue produzir qualquer consenso. Será que Stalin deslocou os exércitos do extremo-oriente para a frente de Moscovo por ter finalmente acreditado nas mensagens de Richard Sorge, ou porque já não tinha outra alternativa? E, voltando muito brevemente ao filme, o que é que os Aliados ocidentais sabiam realmente a respeito dos massacres de Katyn?
Entretanto, a Idade das Trevas acabou quando um fulano americano criou três novas ciências, em pouco mais de um ano, entre 1948 e 1949. A Idade Moderna fica para depois.
(*) A melhor referência que eu conheço para este assunto, é do site da NSA. O link dá erro, a paranóia, essa, nunca dá tréguas: