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3 de Fevereiro de 1953 - o massacre de Batepá

por Isabel Moreira, em 03.02.10

Ontem tive uma conversa, entre outras coisas, sobre os direitos dos "indígenas", das populações das colónias portuguesas, das províncias ultramarinas. Hoje, por um acaso, lembrei-me da minha ida a São Tomé, um dos lugares mais bonitos que conheci, e terra de alunos que tive, de pessoas com quem me cruzei na vida. Hoje, não por acaso, diria, lembrei-me de São Tomé, porque passam 57 anos sobre uma nódoa do nosso passado ditatorial e colonial, que ficou conhecida como "massacre de Batepá".


Não sou historiadora, não sou certamente a pessoa mais indicada para falar sobre o assunto, mas quando estive em São Tomé fui visitar um dos locais onde muitos negros foram mortos às ordens do nunca punido governador Carlos Sousa Gorgulho. O número de mortos é indeterminado, fala-se em cerca de 1000. A causa da ordem da chacina, pelo que pude tentar saber, teve que ver com  o movimento dos senhores das roças contra o chamado "plano de fomento", que perigava a extensão do "maravilhoso" regime de trabalho forçado, que só viria a ser extinto no início da década de 60.


Há quem diga que o massacre teve que ver com o perigo de uma conspiração visando criar um regime de nativos de São Tomé.


Certo é que se formaram milícias -  compostas por voluntários -,  prontas para uma caçada ao "preto". Há relatos monstruosos de gente queimada, de gente torturada, de utilização da cadeira eléctrica para efeitos de confissão de participação na conspiração.


O lugar que visitei, de que falava mais atrás, é hoje uma sala de angústia. Uma sala comida pelo tempo. Uma sala vazia de objectos no seu interior, mas cheia da memória dos sons dos gritos dos homens e das mulheres que foram lá postos amontoados, com um guarda à porta, e que morreram por sufocação.


Acontece-nos isso ao caminhar pelos quatro cantos daquela sala, daquela cela: uma sufocação.


É verdade: o que aconteceu ao Governador Carlos Sousa Gordulho que ordenou a chacina? Parece que esteve para ser promovido e não foi.

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publicado às 15:47


9 comentários

De MFerrer a 03.02.2010 às 17:15

Impressionante!
Falta fazer os livros e os filmes da história da última fase do colonialismo.
Os relatos das gentes ainda andam por lá. Antes que se percam e a memória fique orfã. Fique mais viúva.
Tive o horrível privilégio de ouvir em primeira mão os relatos dos ex-prisioneiros do campo de S. Nicolau e que, com os olhos secos contavam, calmamente a um branco, a forma como tinham sido privados de tudo. Das famílias e da memória que deles restava.
Nesses Equadores que nos aguardam, as histórias são de sufoco.
Infelizmente não são romances!

De Shyznogud a 03.02.2010 às 17:17

No ano passado a data foi assinalada no Caminhos da Memória (http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/02/04/o-massacre-de-batepa/)

De Isabel Moreira a 03.02.2010 às 17:19

Obrigada, João.

De fernando antolin a 03.02.2010 às 17:51

E o do cais de Pidjiguiti em Bissau, da baixa de Cassange na zona algodoeira de Angola. Pois fomos tão maus colonos como tantos outros. Por isso o outro lado não hesitou nos massacres de Março de 1961 em Angola. As tais malhas do Império...

De Anónimo a 03.02.2010 às 18:36


tenha vergonha

De Palmira F. Silva a 03.02.2010 às 18:52

Tens um artigo sobre o massacre (http://www.telanon.info/sociedade/2010/02/03/2569/57%C2%BA-aniversario-do-massacre-de-1953/) no jornal digital de S. Tomé

De Isabel Moreira a 03.02.2010 às 19:17

obrigada, palmira

De Irene Pimentel a 03.02.2010 às 19:26

Muito bom o post, obrigada por te teres lembrado desse episódio tão sombriop do colonialismo português.


Lembro-me há uns anos de ter lido, no Arquivo da PIDE/DGS, uma carta, apreendida por essa polícia, à escritora de S. Tomé, Alda Espírito Santo, a relatar os terríveis acontecimento de Fevereiro de 1953, em que foram presos, torturados e massacrados muitos são-tomenses, às mãos do governador Gorgulho. Informado sobre o caso, o advogado da oposição Manuel João da Palma Carlos tomou a iniciativa de ele próprio proceder a um inquérito e dirigiu-se a essa colónia. O próprio regime salazarista preocupou-se e a PIDE enviou a S. Tomé e Príncipe, entre Março e Junho de 1953, o chefe de brigada Fernando Gouveia, para inquirir sobre o assunto. Como ele próprio contaria, «colaborou numa situação deveras confusa que havia provocado a prisão de 1200 ou 1300 nativos, acusados de fazerem parte de uma organização comunista e que, afinal, após o devido esclarecimento, se verificou a sua não existência, ilibando-se assim todos os delitos, que foram imediatamente soltos». A deslocação de Fernando Gouveia a S. Tomé e Príncipe foi elogiada, na PIDE, «pela forma compreensiva e disciplinada com que, dado o melindre das investigações a efectuar se desempenhou da missão e acatou as directrizes estabelecidas» (Arquivo Histórico Militar, Fernando Gouveia, proc 441/74, volume I, fls. 60-63)



 

De Isabel Moreira a 04.02.2010 às 11:03

obrigada, irene, por me dares (a mim e a todos) mais estes elementos. eu sabia da história assim, de memória, apenas, de ter lá estado. até hoje recordo em particular aquela sala. aquela sufocação.

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