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A pretexto das declarações de Oliver Stone

por Isabel Moreira, em 12.01.10

Estas declarações de Oliver Stone, que não dizem respeito apenas a Hitler, mas também, por exemplo a Estaline, dão que pensar. O famoso realizador diz-nos, por exemplo, que Hitler foi um bode expiatório fácil ao longo da história e que não podemos julgar as pessoas apenas como 'más' ou 'boas'. Hitler é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito. Muitos americanos não entendem, afirma, a ligação entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Também, Estaline, que não quer pintar como herói, ele que lutou tanto contra a máquina alemã, tem de ser analisado objectivamente.


Não vou, como se calhar se esperaria, repetir o evidente. Os mortos, os torturados, os deportados, os desaparecidos, os números que atingem tantos milhões. Não é esse o ponto que me interessa. O que me interessa, quer para estas personagens, quer para outras, é os limites do contexto como fenómeno de desculpabilização.


No caso de Hitler, todos sabemos da relação entre a primeira e a segunda guerra mundial, nomeadamente da humilhação alemã, resta saber se podemos continuar a oração desta forma: donde a singular construção jurídica de um sistema destinado a eliminar um grupo identificado, os judeus, passo a passo, lei a lei, retirando-lhes metodicamente direitos civis, um a um, para que o povo se fosse habituando e absorvendo como natural que aquela gente fosse outra gente, até ao resultado pretendido, que era o da desconsideração total do judeu, a não-pessoa e portanto carne para fogão.


Ora nada, circunstância alguma, permite aquele donde. O mesmo vale para Estaline que matou todos, mas todos os que o rodearam e tem nas costas milhões e milhões de mortos.


Não há contexto que suavize estes actos, estas pessoas.


Isto vale para qualquer pessoa. Todos nós conhecemos homens e mulheres com traços de personalidade marcados por traumas passados, por experiências concretas, pela vida que lhes calhou. Sabemos disso e passamos por cima da dureza, da frieza, da incapacidade de comunicação, da dificuldade em confiar, às vezes de antipatias, de amargos de boca, de tantas coisas.


Vidas há muitas. Sofrimentos há mais. Quanto a carácter, tem-se ou não se tem.


Por mim, dou por inútil deitar um pulha num divã de consultório.

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publicado às 11:30


22 comentários

De Ana Martinez a 12.01.2010 às 11:41


Concordo inteiramente com o seu texto e particularmente com o final de ser "inútil deitar um pulha num divã de consultório".

De f. a 12.01.2010 às 11:56

deitar um pulha num divã, só por curiosidade. pode ser instrutivo ver a q ponto se conseguiria vitimizar.

De nuvens de fumo a 12.01.2010 às 11:57

Foi um bode expiatório , Talvez no sentido de que não foi o único culpado pelo que se passou, todo o povo alemão lá foi dando a sua ajuda: denunciando, ajudando a gestapo, vivendo o nazismo, os generais prussianos comandaram e só muito tarde perceberam a trama que tinha sido urdida com as hierarquias das SS e afins. É todo um processo de loucos em que os mais capazes ficaram a olhar como pategos.
Não foi tudo culpa do senhor, mas teve um papel de relevo, na criação dos campos de extermínio, na condução de uma guerra choné, e no fim na tentativa de terra queimada encenação rasca do Götterdämmerung . ( não é só JPP qu epode usar coisas na língua bárbara Image)

Diz quem viu que o alto comando nazi estava a ouvir Wagner na queda de BErlim. Image

a afirmação sem ser muito sustentada é uma patetice.
acho Image

De nuvens de fumo a 12.01.2010 às 12:02

Nenhuma das criaturas julgadas mostrou qualquer tipo de arrependimento ou sequer noção de ter feito algo de mal.
Seria uma seca ouvir um tipo pequenino, com bigode daqueles, meio enfezado a falar das virtudes de uma raça superior Image.

De Nuno Cruz a 12.01.2010 às 12:12

Deitar um pulha num divã também dá azo a uma das melhores séries que a HBO produziu :)

De Isabel Moreira a 12.01.2010 às 12:32

sim, nuvens...
há milhares de culpados, milhares de cúmplices
mas o meu ponto é outro

De Marcelo do Souto Alves a 12.01.2010 às 12:42

Parece-me que Oliver Stone vai bem mais longe do que ao divã, ou até ao consultório. Se ultrapassarmos o superficialismo (tão fácilmente mediático...) de ver nas suas palavras apenas uma janela para a "desculpabilização", ou uma relativização dos crimes monstruosos atribuídos a estas figuras históricas, veremos que a sua questão fulcral é outra se centra antes na co-responsabilidade de outras figuras históricas, nomeadamente americanas (e também europeias, acrescentaria eu) nesses mesmos crimes.


       A frase-chave a reter de Stone é "bode expiatório fácil", não vale ler aqui "bode expiatório inocente", ou seja, incriminar Hitler e Estaline será tão fácil e cómodo, que terá permitido elidir outras personalidades históricas da galeria do "maus", ou pelo menos dos "tão maus".


               O que ele pretende não será reabrir a eterna e mais que rebatida discussão sobre a malvadez dos Ditadores, mas antes abrir talvez uma nova e nunca colocada questão, sobre a (eventual) responsabilidade de governantes e Países tidos por democratas, ou "bonzinhos", na criação, consciente ou não, das condições (ou até das armadilhas) propícias a um aproveitamento cínico e indetectável desse carácter previsivel e declaradamente iníquo dos sistemas ditatoriais, que me parece importante questionar. 


         Depois do Iraque e de Guantánamo, depois de Gaza e de Beirute, depois do Vietname e de Hiroxima, insistir na inocência imaculada das Democracias, em termos históricos e diplomáticos, poderá ser tão ou mais prejudicial para a Paz e para a defesa dos Direitos Humanos do que apontar sistematica e obsessivamente o dedo a Bin Laden, a Saddam, a Teerão, ou à Coreia do Norte...

De João Galamba a 12.01.2010 às 12:49

Isabel,

Nestas coisas do Mal, temos o dever de compreender — mas não de desculpabilizar. Sobre isso penso que o conceito de Banalidade do Mal (Arendt) é útil, pois permite-nos alargar a nossa compreensão do fenómeno, sem diminuir a sua perversidade, sem que nos reconciliemos com a sua realidade., aceitando-a como inevitável. Hitler (e outros) era certamente diabólico, mas nem todos os que participaram na industria da morte podem ser entendidos através da imputação de intenções diabólicas (a forma com que a nossa tradição judaico-cristã sempre abordou o fenómeno passou por uma atribuição de um certo tipo de intencionalidade). Por isso o livro Heichman em Jerusalém é tão perturbador, sem nunca ser desculpabilizador.

Beijinhos,
Joao

De pedro m. correia a 12.01.2010 às 15:22

Isabel,
embora concorde em absoluto com as suas palavras, da leitura do artigo do Público retenho outra interpretação. Parece-me que a intenção de Oliver Stone não passa pela menorização da responsabilidade de Hitler (ou Estaline), mas sim pela responsabilização de um conjunto de entidades que tornaram possivel a sua acção politica.
Os processos históricos constituiram, efectivamente, Hitler e o seu circulo próximo como bodes expiatórios de um movimento que está longe de se circunscrever a Berlim. Ou à Alemanha. Ou sequer à Europa. Tão pouco ao nacional-socialismo ou a qualquer forma de totalitarismo.

Olhando para Hitler isoladamente o que vemos é, no fundamental, um doente mental. Mas analisando todo o contexto histórico acabamos por desvendar a forma como Hitler acabou por se constituir como um testa de ferro de um conjunto de interesses defendido ou permitido, incentivado activa ou tacitamente, por um conjunto de pessoas, organizações, empresas e até estados, alguns dos quais democráticos.

Creio que a intençao de Stone não é limpar a imagem de Hitler, mas explicar como foi possivel que de soldado anónimo da Grande guerra e estudante de artes frustrado passou a fenómeno político extremo e dai a encarnação do mal, aproveitando para denunciar aqueles que, escudados pelo papel da América, nunca foram denunciados nos julgamentos de Nuremberga.

Pelo meio, há efectivamente algumas afirmações a necessitar de algum esclarecimento, em particular quando se diz que Estaline "lutou contra a máquina alemã mais do que qualquer outro".

De Luís Lavoura a 12.01.2010 às 15:40

"Estaline que matou todos, mas todos os que o rodearam"

Nisso não fez ele grande mal, que todos os que o rodearam (e outros que não o rodearam, como Trotski) eram tão maus quanto ele e bem mereciam ser mortos. Não verto uma lágrima por esses que rodearam Estaline e que acabaram mortos por ele. Quem com ferro mata, com ferro morre.

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