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É importante existir o 31 da armada

por Isabel Moreira, em 06.01.10

Cada vez que se lê uma piadola homofóbica no 31 da armada, que aqueles marialvas, no seu mundinho fechado, estou certa, devem achar que não tem importância alguma, eu volto a ter presente, precisamente, a importância desta causa, a do acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo.

Recordo-me daquilo que é totalmente indiferente a pessoas como este rapaz, que nunca deve ter visto ou ouvido dizer de alguém morrer por causa da homofobia; que nunca deve ter parado na sua vida para pensar o que é que deve ser saber que a lei nos vê como criminosos em plenos anos oitenta; que nunca deve ter ouvido o choro compulsivo de um adolescente esmagado por uma família que não o aceita e que lhe diz és doente, como de resto se dizia oficialmente até há poucos anos; que nunca, espero que nunca, deve ter presenciado aquele morrer de amor que acontece a tantos, mas com a diferença de não poder ser partilhado em voz alta, acolhido nos braços da família, apaziguado e defendido por um acto público.

Cada vez que se lê uma piadola no 31 da armada, eu agradeço. Porque me recordo que há uma razão essencial para acabar com a homofobia legal. É que a homofobia existe. E cabe à lei, no caso de discriminações injustificadas, dar o sinal à sociedade, esse sinal que se chama inclusão.

Se a lei vier a ser promulgada, o Estado deixa de estar ao nível da ofensa gratuita que as palavras do Manuel Castelo-Branco encerram. E como essas, tantas que foram escritas no 31 da Armada, com as caixas de comentários devidamente ecancaradas e permissivas a todo o tipo de insulto pessoal, à homofobia mais furiosa. Não vou fazer nenhum link, por razões  evidentes. As ofensas eram dirigidas a pessoas concretas, como nome, portanto, e o 31 da armada descansado.

Falei com alguns membros daquela casa que não concordam com tal coisa, até já houve por lá um protesto contra um post, mas aquilo tem dono, que fazer?

Vem agora o Manuel Castelo Branco exibir talvez falsa ignorância, para fazer uma piadinha, referindo-se ao "flagelo dos casamentos gays clandestinos".

O falgelo, como expliquei, é outro, mas não o impressiona, claro. Este rapaz faz parte da raça dos que só se incomoda com o que o incomoda pessoalmente. Está visto que não é homossexual. Bom para ele?

Desconhece a irrelevância dos números, a importância de se ter uma lei que diz: tu não és anormal para o efeito. Desconhece, também, a importância da lei para o futuro, sim, para os gays e lésbicas que daqui a 10, 20, 30 40, 50 anos queiram casar.

E não faz uma estatística dos casamentos inter-"raciais" para os proibir de seguida. Quantos conhece em Portugal? São poucos, não são? Quer proibí-los, pelo seu maravilhoso e fascista critério da estatística?

Se eu acreditasse em deus, diria: deus conserve o 31 da armada, para que eu nunca me esqueça do por quê desta luta. E quanto a casamentos clandestinos, Manuel Castelo Branco, a expressão lembra-me mais a homofobia também existente em alguns gays, sobretudo da vossa área política e moral, que vivem o paradoxo de serem o que são e de abraçarem partidos políticos e mundos morais que os negam. São pessoas que querem que o casamento possa continuar a permitir-lhes uma clandestinidade de "vícios privados e públicas virtudes", na cabeça deles, claro, essa de de se ser homossexual e de se casar com pessoas de sexo diferente. Eles e vocês que gostam do mundo assim que não se preocupem. Vai continuar a ser possível.

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publicado às 12:07


179 comentários

De Ana Matos Pires a 06.01.2010 às 13:13

Pois é, Isabel, vai continuar a não ser possível saber-se a orientação sexual através do estado civil, portanto.

De Carlos Marques a 06.01.2010 às 13:23

Bem dito. Vi-a ontem com o Mário Crespo, que aprecio bastante, e percebi que a Isabel lhe deu algumas alfinetadas, com elegância. Acho que ele foi um pouco provocador, como é seu timbre e se espera dele, e a Isabel esteve à altura. A sua "contratação" veio subir bastante o nível deste blogue. Pelo seu equilíbrio, honestidade e liberdade de pensamento,  seria bom que também tivesse uma palavra a dizer sobre o investimento público que se avizinha. O tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo está felizmente resolvido, pelo menos o principal, e agora devia ser tempo de as pessoas mais capazes se envolverem noutras causas pela modernização do país e contra a manutenção das más práticas. 

De Maria Tuga a 06.01.2010 às 13:56

Isabel

Tenho mais ou menos acompanhado esta "istória" do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a homofobia da Tugalândia.  Lembrei-me de uma "istória" da minha vida, ou seja as "marcas" que essa gente hipócrita deixa nas pessoas. Sou filha de um jovem casal de namorados que há 65 anos fez com que eu fosse gente. Pois apesar de o meu pai ter aceite a paternidade, vivi com uma certidão de nascimento com a palavra "ilegítima". Ilegítima?? Eu?? O que é que eu fiz de mal? Bastarda??? Porquê?? Pois...mais um exemplo de como a sociedade pretende "rotular" as pessoas, impondo-lhes preconceitos e assim  descriminalizá-las  e   segregá-las.   Bem haja.
Cumprimentos
Maria Tuga 

 

De Marcelo do Souto Alves a 06.01.2010 às 14:11

Muito bem.
 
 
Mas ainda assim eu prefiro viver num Mundo em que a homofobia, como o racismo, seja criminalizada e severamente punida.
 
 
Nesse Mundo, será inviável a existência tanto de Partidos racistas, como de blogues homofóbicos. Perdoe-me o radicalismo, mas em minha opinião o maior culpado do horror da Segunda Guerra Mundial não foi o Hitler, mas sim Chamberlain, se é que me faço entender...

De nuvens de fumo a 06.01.2010 às 14:17

Isto sim é que são as prioridades do PR (http://dn.sapo.pt/desporto/interior.aspx?content_id=1462782)

A verdade desportiva ? Image

O Presidente encabeça a petição, dizendo ser "necessário que clubes, atletas, árbitros e dirigentes desportivos saibam tirar partido dos avanços tecnológicos para garantir a justiça e a verdade".


HA HA HA HA

Escutas na bola ? por exemplo Image


Apesar da firme oposição da FIFA ao uso de novas tecnologias, Rui Santos tem "esperança" no sucesso da iniciativa e pede uma posição forte do poder político. "Não é possível separar o futebol do que são os interesses da sociedade civil, o Estado tem de assumir as responsabilidades", aponta.


Pronto já me deu a volta à barriga de tanto nojo

De MRC a 06.01.2010 às 14:20

Isabel,
Acredita mesmo, está mesmo convencida, que é através da consagração legal do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo que as discriminações e piadas do dia a dia vão acabar ? Ou será que vão aumentar ? 
E parece-lhe bem que, no futuro, a partir desta nova consagração legal, uma pessoa, num país democrático, não possa exercer a sua liberdade de expressão e dizer, por exemplo, que "a homossexualidade é uma aberração da natureza" ?
Até como constitucionalistas, acha que uma pessoa que profere essa afirmação deveria ser criminalmente responsabilizada, no futuro ? 
E o que dizer da Bíblia que refere em ínumeras citações  condena e censura a homossexualidade ? Ou dos responsáveis pelas Igrejas cristãs que, no exercício da sua pastoral, proclamem e censurem tais actos ? 
Serão eles também homofóbicos e, no âmbito de um futuro crime de homofobia, deverão ser castigados ?
Acha que este será um Estado Democrático saudável ? 
Não será, antes, através da educação que se devem combater os comentários jocosos ?
E não são os próprios interessados que, com certos comportamentos como os que se podem ver nos desfiles de orgulho gay que se prestam ao gozo e à jacota ?

 

De António Parente a 06.01.2010 às 14:24

Cara Isabel Moreira

Parece-me alguma ingenuidade da sua parte acreditar que basta mudar uma lei  para que a homofobia, traduzida em chacota e piadas, termine. Conseguirá isso se aprovar leis restritivas da liberdade de expressão, mandar pessoas para a prisão, etc. Mas como calculo que a Isabel seja contra a lei da blasfémia duvido que enverede pela defesa de tal caminho legislativo.

Se existisse em Portugal alguém como a primeira-ministra da Islândia, assumidamente lésbica, suficientemente competente para resolver os problemas do país pode crer que faria mil vezes mais pela causa gay do que um milhão de leis.

Achei um erro o deputado Miguel Vale de Almeida ter dito que se ia especializar num campo restrito. Assumiu-se como representante dum nicho de eleitores sem mostrar interesse por outros problemas. Perdeu uma grande oportunidade de ganhar um prémio arco-íris.

De l a 06.01.2010 às 14:25

"E quanto a casamentos clandestinos, Manuel Castelo Branco, a expressão lembra-me mais a homofobia também existente em alguns gays, sobretudo da vossa área política e moral, que vivem o paradoxo de serem o que são e de abraçarem partidos políticos e mundos morais que os negam. São pessoas que querem que o casamento possa continuar a permitir-lhes uma clandestinidade de "vícios privados e públicas virtudes", na cabeça deles, claro, essa de de se ser homossexual e de se casar com pessoas de sexo diferente. Eles e vocês que gostam do mundo assim que não se preocupem. Vai continuar a ser possível".

Isabel, gostei particularmente deste parágrafo! É pena sermos demasiados pudicos para citar os nomes deles, porque todos sabemos quem são. Às vezes acho que respeitamos demasiado a vida privada desses cobardes. Mas enfim, mesmo eles têm direito à vida privada e assim deve ficar. Mas que às vezes dá vontade de os citar dá...

De Isabel Moreira a 06.01.2010 às 14:28

ora bem, ana. é isso.

De maiquelnaite a 06.01.2010 às 14:39

l, respeitar a vida privada de quem vilipendia a sua... Ele há limites aos direitos, quem se mete no forno tem de saber aguentar o calor.

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