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As tóradas…

por Licínio Nunes, em 05.08.13
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.


Federico García Lorca — La cojida y la muerte

Todos os portugueses estão habituados às tóradas. Ainda recentemente, o inteligente, de Belém, tocou ao fim da crise política e um dos bois mudou-se para as laranjeiras; o outro boi principal foi de férias para o Algarve, que isto de tórear os portugueses é canseira de arrebentar.

Mas para além destas, existem as outras. Metem bois com cornos a sério, sangue q.b. e um fedor inigualável: cheiram a morte. São morte e violência e cheiram ao que são. Dizem-nos que fazem parte da nossa tradição e é verdade, exactamente como a escravatura — a que Carl Sagan chamou "a peste das civilizações do Mediterrâneo" — também fez parte da tal tradição e durante milhares de anos.

Mas desta vez, a tal tradição parece querer ganhar novos terrenos. No Fundão, mais exactamente. Como beirão relapso e em segunda mão (terceira, pelo lado paterno), sei perfeitamente que nunca foi terra deste tipo de tóradas (das outras, nenhum de nós, portugueses, aprendeu ainda a livrar-se).



Há muito distraído que pretende argumentar com o gosto, paixão com frequência, que Picasso, ou Hemingway, ou García Lorca, demonstraram por tal espectáculo. Dum ponto de vista lógico, é como se tentássemos justificar a tal peste mediterrânica com o agrado com que Homero ou Aristóteles encararam a prática da escravatura.

Mas como parece que o que está em causa é a defesa da tradição, quero fazer uma proposta: em vez da tórada no Fundão, vamos fazer uma a sério e na catedral do Campo Pequeno. Vamos juntar na arena o inteligente, de Belém, mais o boi e o vice-boi da ocupação estrangeira, sem nos esquecermos daquela choca que parece que leu Simone de Beauvoir. A protectora dos animais que diga de sua justiça a respeito da lide, se poderá ser à espanhola, ou na versão manhólas dos aficionados locais.

Pela minha parte, vou continuar a olhar Picasso e Hemingway e Lorca como os génios que foram, sem deixarem de ser os seres humanos, falíveis e limitados que todos somos.

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publicado às 13:00



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