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Li com atenção este artigo do Pedro Lomba. Sobretudo porque me interessa o que o jurista tem para dizer, já que estamos numa área cara ao Pedro, aquela em que, tão bem, concluiu o seu mestrado.
O que mais me preocupa no nosso sistema de governo, é a dificuldade que se tem verificado, nestes 33 anos de democracia, em garantir a tão falada estabilidade governativa, sem a qual não é possível, como se compreende, levar a cabo políticas de continuidade e incutir o clima necessário de confiança económica ao desenvolvimento do país. Para se perceber este ponto, basta comparar o número de Executivos que, em democracia, Portugal e Espanha tiveram e o desenvolvimento de um e de outro país.
O Pedro explica-nos, em parte, a origem do nosso sistema semipresidencialista, desde logo o por quê do estatuto do PR, em diálogo com Vasco Pulido Valente, que entende que o sistema já não funciona. Até aqui tudo bem.
Subitamente, abandona a análise do sistema para analisar o uso que alegadamente Sócrates faz do sistema. Nas suas palavras, "Em 1960, o Governo de Salazar tinha poder. Em 2009, em inúmeros sentidos o Governo de Sócrates detém ainda mais poder. Não prende, mas tem muitas formas de silenciar. Não mata, mas se quiser persegue. O que tem para distribuir arbitrariamente pelos seus "amigos políticos" são recursos que o paroquial Salazar desconhecia. Essa é a contradição mais impressionante
Confesso que me caiu a alma aos pés. O Pedro pode, livremente, estar dedicado a atacar o PM, mas iniciar um artigo como analista do sistema de governo para justificar a manutenção em abstracto do papel do PR por causa do que é para si, em concreto, como analista político, a actuação de José Sócrates não entra nos conceitos mais elásticos que aprendi de análise do sistema. Este é, talvez, o ataque mais requintado que tenho visto a José Sócrates. O homem é tão perigoso, tão mafioso, que merece o estatuto estrutural de justificar um pensamento abstracto sobre o sistema de governo.
E já agora: por que é que Sócrates é comparável com Salazar, que já agora matava, torturava, prendia arbitrariamente, e não tinha de se preocupar em distribuir muitos lugares na fantástica vida económica do país, já que esta estava reservada a uma pequena quota de famílias privilegiadas? Pedro Lomba não concretiza. Arrepia-me e penso que ofende muita gente a comparação com Salazar. E gostaria de saber se o Pedro entende se houve abusos nas maiorias absolutas de Cavaco. Pedro Lomba nãoconcretiza. Mas devia. Porque ele exige isso dos outros, como exigiu de Pedro Marques Lopes. E aqui, Pedro Lomba, está a acusar Sócrates de crimes. Diferente, diria.
Mas eu voltaria à estabilidade governativa e diria a Vasco Pulido Valente que o sistema não está morto, mas que pode melhorar, como o Pedro também sabe. Concordo com o Professor Jorge Reis Novais quando este defende a introdução, no nosso regime, da moção de censura construtiva, por exemplo. A oposição só poderia votar a moção se tivesse um governo alternativo pronto para assumir funções. Uma solução parecida, em termos de votação, pode ser avançada, para leis fundamentais. Estas propostas permitem que governos minoritários tenham condições de governabilidade. Mas isto sou eu a voltar ao que é a análise desinteressada do sistema de governo. Não é excitante.
A ignorância:
Não sei a idade do Pedro Lomba mas leva-me a crer que não a tem para comparar a governação de Salazar e a de hoje.”Em 1960, o Governo de Salazar tinha poder. Em 2009, em inúmeros sentidos o Governo de Sócrates detém ainda mais poder”. Se a tivesse sabia um pouco mais o que era a ditadura e a democracia. Comparar uma coisa e outra até dá vómitos.
Se tivesse todos os dias de manhã de se deslocar, enquanto miúdo de escola, para tomar uma tigela de leite em pó e receber um bocado queijo amarelo sem pão «carcaça», não o fazíamos por vaidade ou capricho, mas sim por necessidade, de certeza não comparava o incomparável.
Se trabalhasse numa fábrica e tivesse de ir uma vez em cada mês – era um dia destinado na semana para o fazer - pedir um pouco de aumento de ordenado, numa fila indeterminada, ter de tirar o chapéu a boina e a vergonha, diante dos seus donos e patrões, e na maioria das vezes saber de que nada valia, não dizia bacoradas.
Continuação
Se tivesse de esperar meses e meses pelo abono de família dos seus filhos que, os patrões aproveitavam para negociar com ele, de certeza que não falava assim.
Se tivesse de pedir por favor para lhe ser concedido os livros escolares que os seus filhos tinham direito, de certeza media as palavras que vocifera.
Se tivesse de pedir por favor ao merceeiro para lhe fiar mais uma quinzena – recebia-se à quinzena – de certeza tinha mais respeito pela comparação que faz.
Se tivesse de ir para a tropa ganhar por mês 5 escudos e os pais suportarem todas as despesas de certeza que media mais as palavras.
Se tivesse de se meter num barco e ir para a guerra ultramarina, defender o que era de meia dúzia de pessoas e as promoções dos oficiais e ainda suportar os custos para curar certas doenças tropicais, tinha mais tento nas suas palavras.
O que de certeza o faz falar assim é que sempre teve a carteira e a barriga cheia. A estes por vezes desejava que voltássemos a esses tempos para ver o que era a vida.
Coisas de ignorantes.
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