Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




As maldições fósseis (VI): O paradoxo verde

por Licínio Nunes, em 28.05.13
Pareceu-me um matemático...

Franklin Roosevelt, a respeito de John Maynard Keynes


Vamos imaginar que eu sou o executivo duma companhia de petróleo. Nada de coisas mixurucas, uma das Grandes Irmãs.

Sendo um "homem do petróleo", eu não sou um CEO de aviário; nasceram-me os dentes dentro do ramo e conhece-o como a palma das minhas mãos. Como também gosto mais de dinheiro do que da minha família toda, o estado das coisas não me agrada. E sendo um homem do petróleo, aquele calo no sítio onde os macacos se sentam, diz-me que tenho ao meu dispor o maior corpo de conhecimento, jamais acumulado por qualquer empresa privada. Está na hora de tirar partido dele. Fui ter com o meu pessoal de Investigação & Desenvolvimento e disse-lhes isto:

— Meus senhores, como é do vosso conhecimento, o nosso espectro de produção é 40-20-40 (50-10-40 na versão americana). 40% de produtos leves, de alto valor e alto preço. Mais 20% de produtos intermédios, de valor ainda muito interessante. Finalmente, 40% de produtos pesados, coisa de uva mijona. Não perdemos dinheiro com a uva mijona, mas não consegue passar disso. Portanto, quero que vocês me digam o que é preciso e quanto é que vai custar, para que daqui a 10 anos, o nosso espectro passe a ser algo como 60-30-10. Não mais de 10% de uva mijona.

Eles fizeram lá um daqueles conciliábulos, por sinal bastante rápido, para o que é comum na malta de I&D, e responderam-me:

— Olha, boss. Isto não tem nada que saber. O hidrogénio é o elemento mais abundante do Universo, mais de 30% da sua massa total é hidrogénio e o que para aí não falta é água. Abre os cordões à bolsa e daqui a dez anos (ou menos) tens aquilo que pretendes.

Eu disse-lhes "Muito bem. Preparem tudo, porque eu tenho que verificar mais um pormenor. Depois dou-vos a resposta final". Fui ter com os meus contadores-de-feijões, com os meus economistas e coloquei-lhes o assunto.

— Caríssimos, o nosso pessoal de I&D assegura-me que daqui a dez anos, poderemos estar a produzir muito mais gasolina e muito mais gasóleo, e muito menos fuel pesado. Vai-nos custar os olhos da cara, mas mais do que vale a pena. Ora a situação é simples: aquilo que vendermos hoje ao preço do fuel, não vamos ter amanhã, para vender ao preço da gasolina. Por isso, quero que digam qual deve ser a percentagem das nossas reservas que devemos guardar, para este propósito.

Estes, nem piscaram os olhos. A resposta foi imediata:

— Zero, boss. A resposta é ZERO! Mantém-te firme nos essenciais: Drill, baby, drill! Burn, baby, burn! Lembra-te do principal de HH.(1)

Foi nesta altura que eu decidi estar na hora de os "homens do petróleo" começarem a untar a barriga com manteiga de amendoim e darem lugar aos produtos de aviário. No fim de contas, os Mexias deste Mundo têm tudo o que é necessário para os tempos que correm, e ainda conseguem ser mais malandros do que eu.




Esta história é completamente inventada, mas os pontos essenciais não são. Em particular, a resposta final dos contadores-de-feijões. Está connosco desde 1931 e é matemática pura; Teoria dos Conjuntos, pura e dura. A citação inicial é um fait-divers sem qualquer importância na actualidade. Roosevelt e Keynes sabiam bem da sua influência mútua e, aquando duma deslocação académica de Keynes aos Estados Unidos, foi arranjada aquela entrevista, a única entre os dois homens. Não saltou qualquer patanisca. Keynes assumiu a posição snob dum dandy inglês, sim, aquele americano era um rapaz bem intencionado e esforçado mas..., não passava dum labrego lá das berças do Novo Mundo. Roosevelt foi muito mais sintético. Disse apenas aquela frase, que na época e sendo aplicada a um economista, era um insulto subtil e profundo. A sofisticação matemática não era nada bem vista, os economistas deviam limitar-se a recolher dados e interpretá-los, usando o bom senso e o seu conhecimento da economia real. Harold Hotteling viu o seu trabalho ser rejeitado por diversas revistas académicas, devido à sua "dificuldade matemática" e o Journal of Political Economics, da Universidade de Chicago, publicou-o antecedido de solenes avisos: "Cuidado, que este assunto requer uma sofisticação matemática fora do comum".

Aquele trabalho seminal não foi ignorado, nada disso. As folhitas de cálculo do gaspar hão-se de estar mais pranhas do que um ovo com as fórmulas de Hotteling, nenhum economista lhes consegue escapar. O que eles não querem que se saiba, são as conclusões, tão puramente matemáticas como o resto. As "duas economias" não são invenção minha, são a conclusão incontornável da análise de Hotteling. As economias de recursos renováveis podem ser tudo e mais alguma coisa, e à vista do pano é que se talha a obra; as economias de recursos exauríveis são loucas, e, mais do que isso, são um exemplo do falhanço total do mercado.

Num quadro de recursos não-renováveis, existem apenas três estruturas possíveis e todas três são más. A pior (dificilmente alguma vez terá existido) é o mercado livre. A outra a seguir (a mais comum, na prática) é o duopólio; podemos associá-lo à ideia de cartel, embora vá para além disso. A alternativa menos má é o monopólio. Hotteling comentou como, em algumas hipóteses sendo verificadas, os monopólios públicos conseguem ser ligeiramente melhores, ligeiramente menos negativos (!) do que os monopólios privados. Mas não mais do que isso. A economia de recursos exauríveis é amaldiçoada, culpem a Teoria dos Conjuntos.

Tudo isto nos leva ao Hans. Ao meu e ao Hans real, o mais importante. No fim de contas, seria inconcebível que a mesma cultura que produziu Leibniz e Kant, tivesse ficado reduzida a produzir clones rastejantes do Fritz.

Hans-Werner Sinn é professor de economia e reparou num pormenor paradoxal: à medida que as alternativas renováveis se vão tornando mais eficientes e mais acessíveis, os donos de recursos fósseis são presenteados com a escolha entre venderem hoje a baixo preço e venderem amanhã a um preço ainda menor. Adicionalmente, se os donos dos fósseis forem confrontados com a possibilidade da introdução de controlos regulatórios, obrigando-os a manter uma parte das suas reservas no subsolo, isso irá aumentar a pressão para os extrair e vender o mais rápido possível, enquanto essa regulação não existe.

Acontece que, e isto não é para provocar o Hans, o paradoxo não tem que ser verde. Como foi que a Alemanha Nazi travou a 2ª Guerra? Foi um conflito já muito mecanizado e os alemães nunca tiveram acesso a outras fontes petrolíferas, para além dos campos de Ploesti, na Roménia, que nunca foram grande espingarda. Como foi que eles conseguiram? A resposta: com o recurso a combustíveis sintéticos. Mais de 75% de todos os combustíveis líquidos, usados pela máquina militar-industrial nazi, foram destilados a partir do carvão. São ainda mais porcos do carvão, mas isso é irrelevante para o meu argumento. As patentes-base datam do início do século XX, tanto o processo de Bergius como o Fischer-Tpropsch têm mais de cem anos. No início deste século e perante o aumento dos preços petrolíferos, resultante da procura chinesa, algumas empresas americanas tentaram voltar a utilizá-los. Falharam, porque o mercado com que eles contavam para o arranque lhes foi vedado. A administração Bush, que negava as alterações climáticas, usou a legislação ambiental, herdada das administrações Clinton, para proibir (!) o Pentágono de comprar combustíveis sintéticos destilados do carvão. E pronto, já disse tudo de positivo que sou capaz de dizer a respeito do George W.

O paradoxo não tem que ser verde, qualquer alternativa produzirá os mesmos efeitos, o Hans sabe-o bem. E o que é que ele propõe? David Hilbert e Karl-Fiedrich Gauss concordariam, Beethoven seria capaz de compor uma sinfonia em sua honra. Hans-Werner Sinn propõe um Monopólio Mundial e um Governo Mundial.

Ah! É um governo mundial muito suave, muito kantiano. Baseado nas Nações Unidas e capaz de ser construído gradualmente e por consenso. Mas não é menos mundial por isso, nem menos monopolista, por melhor que o autor o disfarce e fá-lo muito bem e de forma muito convincente. Em absoluto, vale a pena lê-lo. Nem sequer me importava de dar para este peditório. Pura e simplesmente não acredito que a urgência do assunto o permita.

E pronto! Isto conclui as maldições e confesso que escrevo estas frases com um suspiro de alívio. Resta o mais importante, a superação, mas as cores são outras. Vamos começar com um poema.
Vastos, vastos, nove rios atravessam a China
E apenas um caminho-de-ferro de Norte a Sul


Mao Tse Tung — Para onde foi o Grou Coroado? (2)




(1) O "principal" é um termo que já fez parte do léxico português. Eça de Queirós usou-o várias vezes e não como um estrangeirismo. Não faço a menor ideia porque é que caiu em desuso. Refere-se àquela parte do capital que não se gasta; só se gastam os lucros do capital.

(2) Estou a citar de memória. Aquele livro é uma raridade e o mais certo é tê-lo perdido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:37


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



página facebook da pegadatwitter da pegadaemail da pegada



Comentários recentes


Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Pesquisar

Pesquisar no Blog  



subscrever feeds