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Nenhum homem é uma ilha,
Inteiro em si próprio.
Todos são uma peça do continente,
Uma parte do todo.
Se um torrão for levado pelo mar,
A Europa fica diminuída,
Como se fosse um promontório.
Como se fosse a tua casa,
Ou a casa de um dos teus amigos.
A morte de um homem diminui-me,
Pois eu sou parte da humanidade.
Por isso, não perguntes por quem os sinos dobram,
Eles dobram por ti.

John Donne — Nenhum homem é uma ilha

Recordo-me de ouvir a minha falecida mãe dizer que ainda se recordava do tempo em que não havia frigoríficos, mas já não se recordava como "...se faziam as coisas..." nessa altura. Ao longo do tempo, aquele esquecimento selectivo (!) começou a assumir um sentido claro para mim. Comecei a associá-lo àquela ideia vaga a que chamamos progresso. Pessoalmente, recordo-me de, lá pelo início dos 1980's, ter ido algumas vezes a uma fábrica de gelo que existia então em Cacilhas, junto ao rio. Não me lembro, de todo em todo, o que ia lá fazer, mas o que terá gerado a persistência da memória, foi provavelmente uma sensação física: havia sempre um ligeiro odor a amoníaco no ar; naquela altura, aquela fábrica — grandota, alimentava toda a frota artesanal e uma boa parte da frota costeira e do largo — ainda usava compressores de amónia. Nada de errado, diga-se. Continuam a ser utilizados hoje em dia, talvez sobretudo pelos escandinavos e não há nada de errado na sua utilização, desde que em ambientes industriais controlados.

Mas assim, nunca teriam existido frigoríficos domésticos. Os fluídos refrigerantes sempre constituíram uma área de nicho, especializada e frustrante, em grande medida. Os melhores eram ou muito tóxicos ou muito combustíveis; alguns, eram as duas coisas. Foi imediatamente antes e durante a 2ª Guerra que investigadores da DuPont de Nemours realizaram descobertas surpreendentes: ao substituir algumas cadeias carbono-hidrogénio, em hidrocarbonetos saturados, por átomos de flúor, a molécula resultante tornava-se menos combustível ; ao fazer uma substituição análoga por átomos de cloro, a substância resultante tornava-se menos tóxica. O inventor principal, tornou-se notório ao realizar algumas demonstrações..., digamos, inebriantes, tais como inalar as novas substâncias — que viriam a ser designadas por freons — e depois soprar o gás inalado para apagar a chama duma vela. Era quase inacreditável, aquelas substâncias eram não-tóxicas, não-combustíveis e extremamente baratas de produzir. Ligeiramente (?) inebriantes; a alegria do inventor, após as demonstrações, era..., ahn! Uma pedrada das antigas, mas daí decerto que não viria mal ao Mundo. Parecia demasiado bom para ser verdade. E era. Mas foi assim que o frigorífico da minha mãe se tornou possível.



A relação com as maldições dos hidrocarbonetos fósseis não é óbvia, mas é essencial. Cerca de 99% da massa total da atmosfera é formada por moléculas simétricas: azoto e oxigénio, dois átomos do mesmo elemento, ligados um ao outro. Estas moléculas são virtualmente transparentes a todas as bandas de radiação. A luz do Sol que passa através delas, aquece-as, mas muito, muito ligeiramente. As outras, que tornam a Vida possível no nosso Planeta, naquele 1% restante, são assimétricas e diferencialmente opacas a bandas específicas de radiação. Uma destas, é formada por três átomos de oxigénio e acumula-se sobretudo na alta atmosfera. Chamamos-lhe ozono e já todos ouvimos falar nele.

A camada de ozono absorve a radiação com frequências superiores ao violeta extremo e torna a Vida possível. Os freons destroem a camada de ozono e este é um exemplo concreto da ideia contida no título: os venenos rápidos, os que matam muito depressa, podem não ser os mais perigosos. A nossa espécie consegue ser inteligente, colectivamente inteligente, sobretudo quando apanha um cagaço a sério. O processo que conduziu, desde a confirmação do buraco da camada de ozono, sobre o pólo Sul, até ao Protocolo de Montreal, demorou pouco mais de quatro anos. A camada de ozono, essa..., está aleijadita, mas lá vai recuperando. Às vezes, conseguimos ser inteligentes.



A outra molécula assimétrica, sem a qual a Vida na Terra não seria possível, é um caso mais complicado e requer muito maior preparação. A ASHRAE chama-lhe R744 e tem vindo a atrair interesse crescente como refrigerante e substituto dos freons e dos halons que lhes sucederam. Tem um índice de deplecção do ozono igual e zero e um índice de aquecimento global igual a 1; alguns dos halons previstos no Protocolo de Montreal, como substitutos temporários dos freons, têm índices de aquecimento global superiores a 1000. Vá lá minha gente! Cliquem neste link, e com excepção dos que já souberem, os outros vão ter uma surpresa muito grande.

Os hidrocarbonetos fósseis são outro exemplo da dicotomia venenos rápidos-venenos lentos. E pelo motivo mais simples deste Mundo: todos eles contêm contaminantes. A industria petrolífera classifica os crudes (entre outros critérios) em "doces" e "azedos". Um crude "sweet" é aquele que contém um teor mássico de enxofre inferior a 0,6% em massa; todos os outros são "sour". E a situação simples é que, em qualquer combustão, o enxofre que estiver presente nos reagentes, vais estar presente nos produtos. SOX! Sem tirar nem pôr. Há um problema com esta mensagem e o problema é que requer explicação, o que provavelmente lhe faz perder eficácia. Sobretudo em redes sociais, muitos, ao verem aquelas três iniciais, são capazes de pensar que o assunto tem a ver com peúgas sujas. Mas não tem. Vamos escrevê-lo como deve ser escrito: SOx; o x significa é irrelevante!, pois estamos a falar em radicais ácidos que, na presença de água líquida, dão origem a ácidos fortes. Será que se começa a perceber porque foi que eu disse que a diferença entre PCI e PCS é essencialmente não utilizável?

Nem todos os hidrocarbonetos fósseis têm a complexidade do crude. Alguns campos de gás natural, na Sibéria, conseguem produzir gás extremamente puro e de forma consistente. Alguns atingem os 98% de metano. Os 2% restantes são praticamente só sulfito de hidrogénio. Ainda alguém se recorda daquela fronteira entre crudes doces e azedos? É que isto ainda vai piorar.

O ar atmosférico é essencialmente azoto, e o azoto é uma substância inerte. Inerte, mas pouco. Todo e qualquer processo de combustão produz NOx. Mesma mensagem que a anterior a respeito de peúgas velhas, mas com a diferença de que esta é ainda mais incontornável. É claro que o teor de NOx pode oscilar entre o vestigial (apenas detectável por técnicas laboratoriais sofisticadas) e o letal. É o que acontece quando queimamos combustíveis pesados e, sobretudo, carvão. Chuvas ácidas, alguém ainda se lembra? Foi um assunto premente em todo o terço-norte industrializado, lá pelos inícios da década de oitenta do século passado.

Veneno rápido, solução rápida. Mas neste caso, temos que nos debruçar um pouco sobre a solução. Uma parte substancial do problema está associado à "indústria pesada" e sobretudo, à produção de energia eléctrica por via térmica. Para o carvão, hoje dominante, controlar a emissão de radicais de azoto, de NOx, significa reduzir as temperaturas adiabáticas de chama. Não vale a pena entrarmos no detalhe, pois estamos, mais uma vez, perante o dilema do título e perante a mesma opção. O carbono negro mata muito mais devagar do que as chuvas ácidas. Sobretudo quando estamos a queimar carvão, a opção que resta, consiste em controlar a granulometria das partículas sólidas emitidas. Na esperança (!?) de que estas se dispersem por uma área substancialmente maior. Talvez não sejam muitos os que são capazes de o assumir, mas os engenheiros, por vezes, também ficam reduzidos à crença nas fadinhas etéreas. Neste ponto, peço aos que estejam a pensar que o problema está limitado aos muito sujos hidrocarbonetos pesados, que reparem no que algumas das maiores empresas mundiais — estou a falar da enorme indústria automóvel — fizeram, a respeito dos combustíveis leves, ui, ui, muito limpinhos: passaram o problema e os custos respectivos aos seus clientes.

Hoje em dia, não há forma mais barata de produzir electricidade, do que a via térmica do carvão — com excepção das muito complicadas centrais nucleares francesas, de primeira geração. Mas o que significam os números oficiais? Os portugueses não se devem sentir muito mal, quando são confrontados diariamente com o falhanço de todos os números oficiais. A mentira que nos atinge hoje é apenas uma parte e pequena da grande mentira fóssil global. Se a indústria térmica do carvão fosse obrigada a assumir os custos que hoje lhe é permitido varrer para debaixo da carpete, o seu valor acrescentado desaparecia, pufh! E isto antes dos custos do carbono. Apenas os custos resultantes do envenenamento lento.

Devo dizer que não concordo em absoluto com o teor do artigo do sr. Krugman, no link anterior. Usei-o porque é mais directo do que o intrincado (mas não em demasia) trabalho original. De qualquer forma, o link para o original de Nordhaus et al. está lá também. Não é apenas um assunto de saber quais devem ser os preços da energia eléctrica, doutra forma estaríamos meramente a colocar um preço no envenenamento lento de muitos seres humanos. O problema real é mais simples. John Donne, naquela citação inicial, compreendeu-o. Porque é que nós não somos capazes de fazer o mesmo?

Se aquele inglês, mal saído da Idade Média, foi capaz de o compreender, porque motivo é que o Fritz não é capaz? Depois da n-ésima agressão, começo a suspeitar que nunca vai ser capaz de compreender. O Fritz que se dane! Vamos ter que nos amanhar sem ele, e, se preciso for, contra ele. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo e na pior altura possível. Quando as coisas correm mais ou menos bem, muitos são os que se conseguem preocupar com a sorte dos Ursos Polares; quando a situação é aquela que é hoje, neste País..., os Ursos Polares que se fodam.

Vamos mais fundo. Vamos até onde a dor dói. Será que aqueles pais que hoje, pela manhã, vestem os seus filhos para irem para a escola, sem saberem se eles irão comer durante todo o dia, têm disponibilidade para se preocuparem com as implicações dos 400 ppm de CO2 na atmosfera? Será que eu teria coragem para lhes tentar explicar? Cada um lida com estes assuntos à sua maneira. A minha, consiste em tentar perceber aquilo que os chineses, na sua sabedoria milenar nos dizem: maldição encerra sempre dois sentidos inseparáveis; ameaça e oportunidade. Decidi-me a escrever esta série de posts, por ter a consciência (ou a presunção, vai dar no mesmo) de compreender os problemas envolvidos. Neste momento, tenho apenas duas certezas. A primeira, é que, no que a maldições diz respeito, a procissão ainda mal saiu do adro; a segunda, a mais chinesa das duas, é que os Gaspares são todos iguais. Ou acabamos com eles ou eles acabam connosco.

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publicado às 00:28


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