Os cidadãos da União Europeia pagam em média 11,7 cêntimos por kWh de energia eléctrica, antes de impostos. E viva o Eurostat, que sempre serve para alguma coisa! Isto significa que deveriam pagar cerca de 1,43 euros por quilograma de combustíveis. No entanto, o custo dos fósseis anda pelos 84-87 cêntimos, esqueçam o Gaspar por uns instantes. Como é? Será que a energia eléctrica está excessivamente cara, ou serão os combustíveis que estão demasiadamente baratos?
A resposta é ambos (!), mas o assunto requer alguma base para ser compreendido. É muito simples, tem que ser muito simples, pois até o senhor Mário Soares foi capaz de o entender. Recordo-me distintamente, lá pelos idos de 1980 de o ter percebido e de o ter comentado nestes exactos termos: "...isto tem mesmo que ser muito simples!". 1 quilograma de equivalente petróleo (KEP) são 44 MJoule; que é como quem diz 12,2 kWh, a energia absorvida por 122 lâmpadas de 100 W que estivessem ligadas durante uma hora. Convém referir que este número foi recentemente revisto ligeiramente em baixa, mas para mim é mais ou menos como o acordo ortográfico: 44 MJoule e acabou a conversa!
O interesse desta unidade resulta dum facto físico simples: os combustíveis fósseis têm todos um PCI (Poder Calorífico Inferior) muito próximo; é uma distribuição muito estreita e aquele valor é a média: 5% para baixo temos o orimulsion, 5% para cima temos o gás natural. Note-se que PCI é uma unidade industrial imprecisa, e nem outra coisa é pretendida. É definido como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando todos os produtos da reacção estão em fase gás. Podemos colocar aqui uma primeira fasquia térmica, tão imprecisa como o resto: 200º C.
No entanto, define-se também Poder Calorífico Superior (PCS), como a quantidade de energia libertada na combustão completa de 1 quilograma de hidrocarbonetos, quando toda a água resultante da reacção está já em fase líquida. Outra fasquia térmica, tão imprecisa como a anterior: 40ºC. O conceito de PCS aproxima-se do conceito formal de entalpia de reacção e destrói por completo a uniformidade do KEP. O gás natural é essencialmente metano, em cada 16 quilogramas de metano existem 4 quilogramas de hidrogénio, o produto da combustão do hidrogénio é a água e o calor latente de condensação da água é substancialmente superior ao seu calor sensível (aquele que se manifesta por diferenças de temperatura): 55,5 MJoule por quilograma, quase 25% mais do que o valor do KEP. No essencial, a diferença não é utilizável.
Os hidrocarbonetos fósseis são substancias malditas. Tal como os cavaleiros do Apocalipse, estas maldições são essencialmente três, mas ao contrário das maldições bíblicas, estas estão fortemente hierarquizadas e é preciso começar pelo mais simples. A mais simples das maldições dos hidrocarbonetos fósseis, é que x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio produzem sempre x átomos de carbono mais y átomos de hidrogénio e, obviamente, as fadinhas dos gaspares são completamente impotentes ante a racionalidade simples da sôdona física, moça bacana, que, quanto a mim, tem apenas o senão de ser demasiado tolerante perante a loucura.
O petróleo bruto é uma matéria-prima muito rica, mas está já desequilibrado, à partida. Demasiado carbono para demasiadamente pouco hidrogénio e o processo de destilação acentua dramaticamente este desequilíbrio. A partir duma tonelada de crude, produzimos cerca de 40% de destilados leves, produtos de alto valor e baixo número de carbono, tais como as gasolinas, os GPL's e os petróleos de jacto. Se tivéssemos queimado apenas gasolinas, desde o início da Revolução Industrial, ninguém nos levava presos. Mas a sôdona física não deixa, pelo que produzimos também cerca de 20% de produtos intermédios, gasóleo e outros óleos diesel, zona esta onde tudo começa a deslizar. Finalmente, produzimos 40% de pesados, fuel e naftenos. E nesta zona, existem compostos alifáticos com números de carbono superiores a 3 000. Estamos a falar de macro-moléculas, com mais de 3 000 átomos de carbono e muito pouco hidrogénio. Será que se começa a perceber porque é que a bolha vai mesmo rebentar?
Deve ser dito que aquele espectro de produtos que eu descrevi de forma grosseira, 40-20-40, é típico da Europa e do Extremo-Oriente, mas não é geral. Os americanos produzem substancialmente mais gasolina e menos gasóleo. Produzem os mesmos 40% de pesados. x + y = x + y !
Neste ponto, levanta-se uma dúvida: as companhias petrolíferas não perdem dinheiro com aqueles 40% de produto pesados, que fique claro, mas..., ah! é uva mijona. Ora, as petrolíferas representam um dos maiores corpos de conhecimento armazenados pela espécie humana. Por isso, porque é que eles não se decidem a hidrogenar o fuel, para poderem vender o produto final ao preço da gasolina? Será que não gostam de dinheiro? Esta pergunta é demasiado difícil, para este ponto da discussão. Vamos tentar responder a uma outra pergunta mais fácil: a Rússia é a Arábia Saudita do gás; será que o senhor Putin não gosta de dinheiro?
Voltemos por instantes ao crude. É bombeado desde umas centenas de metros até à superfície, para depois ser bombeado umas largas centenas de quilómetros, antes de ser armazenado temporariamente num terminal de carga; depois, é carregado num navio, para fazer uns milhares de milhas através do oceano, antes de ser descarregado para um novo armazenamento temporário num terminal de descarga; a seguir, vai ser bombeado mais umas centenas de quilómetros até ser novamente armazenado numa refinaria para, final e misericordiosamente, ser processado. À boca da refinaria, os produtos finais têm uma componente de custos de armazenamento e transporte de cerca de 2,4-2,5% dos custos (!) finais. É extremamente barato transportar e armazenar líquidos.
O gás natural (GN) é essencialmente metano, e o metano é um gás muito mal-comportado. Os custos de transporte e armazenamento (?) do GN disparam para mais de 25% do preço final. Ora, acontece que o GN pode ser facilmente e a baixo custo transformado em metanol — o mais simples dos hidrocarbonetos, transformado no mais simples dos alcoóis — junto aos campos de gás, claro, para depois ser transportado ao custo dos líquidos. O senhor Putin ganharia cerca de mais $190 dólares em cada tonelada. Porque não o faz?
O senhor Putin gosta de dinheiro! Acontece apenas que ele também não passa de mais um vendedor de produtos amaldiçoados e é tão incapaz de deixar de o ser como os outros. Pior ainda, se ele fizesse aquele negócio altamente lucrativo que eu referi, estaria a mostrar aos seus clientes que podem passar sem ele. Acontece também que já alguém o fez.
George Olah recebeu o prémio Nobel da Química em 1994 e já este século, juntamente com outros colegas, dedicou-se a mostrar-nos como a maldição fóssil não é destino. Para Além do Petróleo e do Gás mostra-nos como as matérias-primas essenciais são apenas a água e o dióxido de carbono atmosférico (!!!). Devo dizer que não gosto do metanol enquanto combustível, as 500 milhas de Indianapolis que se danem, mas é completamente irrelevante. A maldição não é destino, malditos seremos nós, se não o escutarmos.