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Encaro com horror o desfecho [do discurso]. Nós não somos inimigos, mas sim amigos. Não devemos ser inimigos. Embora a paixão os possa ter levado ao ponto de ruptura, não deve ser-lhe permitido que quebre os nossos laços afectivos. Os acordes místicos da memória, estendendo-se de todos os campos de batalha e túmulos de patriotas, até todos os corações vivos e todas as pedras de todas as lareiras, por toda esta vasta terra, irão ainda entoar o coro da União, quando forem de novo tocados, como certamente o serão, pelos melhores anjos da nossa natureza.

Abraham Lincoln — 1º Discurso Inaugural

Slavoj Zizek achou importante importante contrapor e denunciar aquilo a que ele chama (por outras palavras) ...O optimismo dos fundamentalistas de livre mercado.... Óptimo! No entanto, os seus argumentos são fracos e, pior ainda, são defensivos. Para arrumar uma parte delicada numa única penada, seria bom que Zizek começasse a ler com regularidade A Pegada, e não o digo por mim, mas por todos os autores, e pela leitura mais objectiva da qual sou capaz.

Outro assunto que deve ser arrumado com presteza, tem a ver com um dos bestsellers que Zizek cita (o outro não o li), como exemplos da disseminação mediática daquele "progresso". Os melhores anjos da nossa natureza, sub-titulado Razões para o declínio da violência, até pode ser dito conter conclusões animadoras: existe um declínio objectivo da violência; até os terríveis conflitos do século vinte foram, relativamente ao total da população, menos assassinos do que, por exemplo, as guerras da religião que devastaram este continente no passado, já sem falar dos morticínios sangrentos dos campos de batalha napoleónicos; a própria violência do poder é hoje incomparavelmente menor, do que no tempo em que os condenados eram empalados ou assados vivos em touros metálicos, com uma abertura no lugar da boca, para que a populaça pudesse ouvir os gritos do supliciado.

Ora um dos motivos que me levaram a lê-lo teve a ver com algum do trabalho anterior do Steven Pinker, nomeadamente a sua conclusão, a respeito da 2ª guerra do Iraque, de que as sociedades avançadas ainda conseguem fazer a guerra e de forma extremamente letal, mas já não conseguem estar em guerra, ou seja, já não conseguem transitar para aquele nível de empenho colectivo, com que meio-mundo se confrontou com o restante, durante os séculos passados. Por isso também o recurso da antiga administração Bush àquilo que, noutros tempos, todos chamariam mercenários; por isso também o recurso àqueles meios hiper-tecnológicos em que o homem com o dedo no gatilho está sentado ante uma consola de vídeo, a milhares de quilómetros de distância. As conclusões do autor são animadoras, mas ele avisa-nos frontalmente que não as devemos encarar como a manifestação dalgum "gene bonzinho", mas como a resultante de processos históricos que levaram à concentração do poder militar no estado, ao seu monopólio da violência, em paralelo com o aumento do controlo desse mesmo estado -- e dos seus agentes -- pelo colectivo dos cidadãos; se esses processos entrarem em reversão, tudo o resto seguirá o mesmo caminho. É um pouco já a isso que assistimos hoje, na Europa; é pelo menos, um pouco a isso que assistimos quando os organismos policiais seguem e intimidam organizadores de manifestações pacíficas. E todos sabemos do que estou a falar, não sabemos?

Slavoj Zizek pega no assunto pela ponta certa: a questão não é saber se "...as coisas afinal até melhoraram...", durante este ou aquele período de tempo, mas como é que a realidade concreta se relaciona com as expectativas das populações onde alguma coisa, no computo final e aritmético, "...alguma coisa melhorou". Tal como ele o expôs, poderia contrapor-se que, no fim de contas, algumas dessas expectativas eram apenas irrealistas; é muito isso que nos dizem a nós, hoje, latinos.

Mas depois falha, ao não levar a crítica àquele "optimismo neo-liberal" às suas últimas consequências. Comecemos pelo tal cantoçhão britânico que ele refere (quem quiser que procure no artigo inicialmente citado. Eu, não o propago): a maior parte são apenas mentiras, factualmente falsas, como a tal "idade da abundância de energia"; outras, são banalidades que nada têm a ver com o assunto e, em última análise igualmente falsas — se o capitalismo neo-liberal é assim tão progressista, porque carga d'água é que a malária ainda não teve o mesmo destino que, por exemplo, a varíola? A resposta simples é que não há lucros substanciais a realizar com a sua erradicação, ao contrário daquele outro exemplo.

Todas as discussões a respeito do optimismo e do pessimismo são, ao fim e ao cabo, a velha questão de saber se um copo, contendo exactamente metade da sua capacidade total de líquido, está meio cheio ou meio vazio. Esta imposição do optimismo aos descrentes e revoltados, é, como não poderia deixar de ser, algo completamente diferente, apenas um mecanismo de controlo da revolta e das aspirações dos que sofrem. No fim de contas, porque é que os alemães estão tão optimistas? Será porque ainda não lhes tocou a eles, ou será porque os seus sacrossantos défices orçamentais estão a ser equilibrados à custa dos países devedores, como o nosso? E o que acontecerá quando aqueles violinos de tombadilho do Titanic, que maviosamente cantam a "competitividade" da economia germânica se afundarem nas águas geladas do desaparecimento dos seus clientes? Ou será que aqueles toscos teutões pensam realmente que as "novas elites" chinesas irão continuar eternamente a comprar mercedes e bmw's, em vez de os fabricarem elas próprias, ou de importarem algo correspondente, por exemplo da Coreia, que está ali mesmo ao lado e que não tem as cargas históricas e emocionais dos Lexus, ainda talvez demasiadamente japoneses para o seu próprio gosto?

Zizek tem razão, ao colocar o acento tónico nas expectativas. Mas este é um acorde que tem que ser feito ressoar com mais ânimo. Os seres humanos criam expectativas e formulam prognósticos para o futuro, próximo ou algo mais longínquo. Não sei se esta tendência inata é devida a algum gene da antecipação temporal, ou se é um processo cultural muito básico, pelo menos desde que os homens do Neolítico tiveram que começar a antecipar e a confiar na próxima colheita. Seja qual for a sua origem, este impulso predictivo está em nós. E quando é defraudado, gera sofrimento. Ninguém gosta do sofrimento, com a excepção dos que vivem à sua custa. Mas mais do que isso, ninguém gosta das desigualdades gritantes e obscenas, excepto aqueles que com elas lucram.

Aquela frase no título inquieta-me. Já o disse, mas começo a compreender melhor porque me inquieta; porque tem tudo a ver com expectativas e porque há assuntos que só podem encontrar paz, se nos pudermos referir a eles num pretérito bem mais do que perfeito. Acho que a minha revolta mais antiga contra a injustiça aconteceu após ter feito o exame da 4ª classe. Na altura, tinha que se fazer a seguir, também um exame de admissão ao secundário; um de dois, para ser mais preciso, conforme se destinasse a permitir o acesso o acesso ao liceu, ou ao ensino técnico e comercial. Lembro-me do choque. Mas lembro-me sobretudo porque a minha falecida mãe o sentiu, e sentiu-se na necessidade de abordar o assunto. Porque é que existiam aquelas aptidões, de primeira e de segunda? ...Porque, em relação a alguns dos meus colegas, as famílias tinham a necessidade de que o seu percurso até à vida activa, fosse curto e direccionado para fins concretos... Mas porque é que os outros, os outros teriam que deixar de ser meninos e meninas, aos dez anos de idade? ...Porque muitas situações eram ainda bem piores, do que aquelas de que ela falara...

É isto que inquieta e é isto que magoa. A compreensão de que a realidade pode recuar ao passado, disfarçada de progresso. E o que inquieta mais, é a percepção bem realista de que o pior ainda pode estar para vir.



The killer lives inside me: yes, I can feel him move.
Sometimes he's lightly sleeping in the quiet of his room
but then his eyes
will rise and stare through mine;
he'll speak my words and slice my mind inside...
Yes the killer lives.

The angels live inside me: I can feel them smile.
Their presence strokes and soothes the tempest in my mind;
And their love
can heal the wounds that I have wrought,
They watch me as I go to fall - well, I know I shall be caught
While the angels live.

How can I be free?
How can I get help?
Am I really me?
Am I someone else?

But stalking in my cloisters hang the acolytes of gloom
and Death's Head throws his cloak into the corner of my room
and I am doomed
But laughing in my courtyard play the pranksters of my youth
and solemn, waiting old man in the gables of the roof -
he tells me truth...

I, too, live inside me and very often don't know who I am;
I know I'm not a hero - well, I hope that I'm not damned.
I'm just a man
and killers, angels, all are these:
Dictators, saviours, refugees in war and peace
as long as man lives...

I'm just a man
and killers, angels, all are these:
Dictators,
Saviours,
Refugees.


Peter Hammil — Man-erg

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publicado às 23:28


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