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Não entres tão depressa nessa noite escura — António Lobo Antunes
Do not go gentle into that good night


Ainda Janeiro não vai a meio e já a promessa dum admirável mundo novo se adensa sob um céu razoavelmente azul. Antigamente, estes eram os dias dos Reis; dias para guardar o presépio, ainda com o brilho dos olhos das crianças bem frescos na memória; para deitar fora o pinheirito do Natal, testemunha verde dum Planeta que se renova ante nós, todos os anos. Eram dias para cantar as janeiras: Já nos cansa esta lonjura / Só se lembra dos caminhos velhos / Quem anda à noite à ventura.

A idade da razão deve arder e delirar ao fechar do dia
Rasga, Fulmina a morte da luz.


Hoje, as máscaras caiem, uma após outra. Sabemos, sem margem para dúvidas, ao que vêm o pedro e a laura. Para o pedro e a laura, "Estado Social" é uma expressão feia, neo-alvo das neo-janeiras, indomitamente exorcizados pelo habitual coro (coiro?) dos imbecis. Que importa ser o tal demónio da coesão social, a condição sine qua non para a existência daquele agente histórico a que chamamos consumidor? "Em frente, soldados da fé!"..., nem que seja com um camelo à cabeça.

Mesmo que os sábios, no seu final, saibam que a escuridão é certa,
Porque as suas palavras não se bifurcaram em raios,
Não deslizam suavemente nessa noite escura.

Houve-se hoje, com demasiada frequência, aquela frase que coloquei no título: "Isto nem no tempo do Salazar...". Inquieta-me: a que será que me obriga a "idade da razão", como escolhi traduzir o verso de Dylan Thomas? Evoca-me memórias desse tempo, como quando o meu avô paterno se sentou, pela primeira vez, à frente duma televisão. A minha avó tinha-o convencido a ir a casa da filha mais nova, assistir à reportagem da inauguração da ponte sobre o Tejo: "Era isto que querias que eu visse? Já os conheço a todos". Lá se deixou convencer a comprar o caixote, Telefunken, claro. Mas depois não olhava para ele. A sua fonte principal de notícias era um rádio, um monstro a válvulas, Grundig, claro, onde ele costumava ouvir o Fernando Pessa, nos noticiários da BBC, durante a guerra; "São todos uns boches, mas ninguém faz rádios como eles".

Homens bons, na última onda, chorando o brilho
Com que os seus actos frágeis teriam dançado numa baía verde,
Rasgam, Fulminam a morte da luz.




Lembro-me dum salão de bilhar, em Almada, coisa de alto gabarito (para quem gostar da arte, claro). Ainda existe, mas..., ah! perdeu o carisma. E lembro-me dum fulano que por lá sempre parava. Um dia disse-me "...tu falas demais...". Logo me avisaram: "cuidado que o gajo é um bufo da Pide"; bem o sabia. A sensação desagradável, foi que aquele bufo gostava de mim, e estava a tentar proteger-me. Desapareceu, depois do 25 Abril, nunca mais o vi.

Os violentos que capturam e cantam o Sol no no seu voo
E aprendem demasiado tarde que o choraram na sua rota,
Não deslizam suavemente nessa noite escura.

Lembro-me. De ouvir contar histórias sem fim a respeito dos tempos do "racionamento"; já era taludo, e já depois do 25 de Abri, quando fiquei a saber, com espanto ingénuo, como esse racionamento, o tempo do "Livro-vos da guerra mas não vos livro da fome", se iniciou para exportar bens alimentares para a Espanha nacionalista de Franco, entre 1936 e 1939. Tudo a bem da balança comercial, claro.

Homens graves, próximos da morte, vendo com vista deslumbrante,
Como olhos cegos podem arder, tais meteoros, e sorrir
Rasgam, fulminam a morte da luz.

Lembro-me da Cecília Jonet, ou da Isabel Supico-Pinto, ou lá como é que a megera da comendatriz se chamava, e do asco que me causava aquela solicita propaganda de guerra. Não me lembro dos soldadinhos que ela adorava, que nunca conheci nenhum. Esses, acho que só as mães os recordaram; talvez os filhos que nunca viram e que nunca os viram a eles.

E tu meu pai, nesse teu cume triste,
Amaldiçoa-me, abençoa-me, com as tuas lágrimas ferozes, te peço.
Mas não deslizes suavemente nessa noite escura.
Rasga, fulmina a morte da luz.


Compreendo hoje que não conheci "Os tempos do Salazar". Assisti ao extertor da sua agonia, mas nada do que eu relembro, por memória própria ou próxima, tem a ver com os dias que vivemos. Falámos e abusámos da palavra fascismo, ao ponto de o termos banalizado. Hoje, assistimos a algo diferente, à ascensão do monstro, que na sua encarnação anterior, teve lugar nos anos trinta e quarenta do século passado. É a mesma agressão, a mesma arrogância, na criação dum "mundo novo". O mesmo desprezo e a mesma loucura. Não vou comparar os dias de hoje com os tempos da "sardinha para três"; esses, nunca os conheci. Mas se há algo que eu sei, é que todas as encarnações do monstro têm algo em comum e esse algo chama-se dor. Se há algo que eu sei, é que a dor dói.



N.B.: O título do Lobo Antunes é incontornável como glosa do primeiro verso de Dylan Thomas. Os restantes, como é óbvio, só me comprometem a mim.

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publicado às 22:44



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