A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem oouvir & falar.
Apenas os pequenos segredos precisam de ser ocultados. Os grandes, esses, ficam mais protegidos à vista de todos, tornados invisíveis pela incredulidade geral.
– Marshall McLuhan
A vasta maioria dos leitores recordará, vagamente, a primeira das duas Bertas. A versão oficial, diz-nos que aqueles grandes canhões alemães, da 1ª Guerra Mundial, receberam esse nome em honra da matriarca da família Krupp, Bertha Krupp von Böhlen und Albach. No fim de contas, eram o epítome da industria pesada alemã, e a empresa Krupp era o epítome dessa indústria.
Não devemos nunca, contudo, eliminar o génio humano em qualquer equação que envolva a espécie. Em O Meu Século, Günther Grass conta-nos uma história diferente e em pouco menos de duas páginas de puro génio, conta-nos a História de setenta e cinco anos da Alemanha, até aqueles anos fatídicos de 1914-1918. A Dicke Bertha de Grass era, afinal, a Berta Gorda, mulher dum operário da Fundição Krupp. Não era por mal, todos gostavam da Berta, amiga dos seus amigos, sempre pronta a ajudar. ...Que não se vivia nada mal, lá no bairro operário...". Por vezes, a fuligem da chaminé estragava a roupa, estendida a secar, mas era também nessas ocasiões que a Berta Gorda melhor revelava o seu carácter amistoso.
Então um dia, a Fundição recebeu a encomenda do tubo de aço vazado mais avantajado que já havia sido produzido, e maquinado com um grau de precisão que não deixava dúvidas quanto ao seu propósito. Perante as suas proporções, os operários da Fundição lembraram-se da Berta, assim, anafada; estava criada a alcunha e não era por mal, era por amizade. Era trabalho e assegurava o comer nas mesas, lá no bairro operário.
Depois..., bem, depois, o Ludendorff foi buscar o homem da Berta Gorda, mas quem quiser saber o resto que leia o livro. Günther Grass conta-nos magistralmente, como a coesão social, engendrada pelo Estado Social de Bismarck, produziu as massas disciplinadas que se precipitaram sobre as trincheiras de Verdun.
Ora, vem isto a propósito do mais recente episódio da nossa tragi-comédia colectiva: A Refundação. A vasta maioria dos comentadores interroga-se a respeito da semântica implícita. Foi nestas páginas que a verdade foi desvendada: Passos Coelho sofre de palato bífido; é assim a modos como um anti-texano: é virtualmente incapaz de produzir sons nasalados. O que ele quer mesmo é refoder.
Este é o momento em que as máscaras caiem. A nossa troika caseira atingiu aquele ponto de liberdade extrema em que já não há nada a perder. Exactamente como diria o(a) Bobby McGee. Esquecem-se que os portugueses estão a atingir rapidamente o mesmo ponto de liberdade: as nossas próprias "Bertas Gordas" estão a ficar mais esquálidas, de dia para dia. Algumas ainda acham que andaram a viver acima das suas posses, durante anos. São cada vez menos. Estão cada vez menos coesas.
Existe no entanto um aspecto, em que as nossas Bertas-cada-vez-mais-magras continuam manobráveis e esse tem a ver com aquele efeito de que McLuhan nos falou: como pessoas intrinsecamente sérias que são, continuam a acreditar na sacralidade das dívidas; como pessoas intrinsecamente de bom-senso, continuam a acreditar que a dívida foi criada porque os credores nos emprestaram uma parte do que tinham em caixa, em vez de ter sido criada, literalmente, ex nihilo, literalmente a partir do nada. Como pessoas ingénuas que são, continuam muito preocupadas com os 60 cêntimos que saem dos seus impostos, para pagar a actividade parlamentar que temos — incompleta, limitada, de intensidade mínima, democrática — e ainda não conseguem preocupar-se com os milhares de milhões do serviço da dívida.
Será que alguma vez serão capazes de ver para além daquele muro invisível que colocaram ante os seus olhos? Acho que a História é ambígua a este respeito. Talvez sejam capazes de reagir como Islandeses; o mais provável é que um qualquer "...comam brioches..." mais destrambelhado, leve as nossas Bertas à violência extrema. Esse será o dia em que já não vale a pena perguntar o que há de especial na proverbial palha que quebra as costas do camelo. Não hã nada de especial, é apenas uma em demasia.
Freedom's just another word for nothing left to lose, Nothing don't mean nothing honey if it ain't free. And feeling good was easy, Lord, when Bobby sang the blues, You know feeling good was good enough for me, Good enough for me and my Bobby McGee