Hoje não são palavras demonstrativas de que a Política foi mandada enterrar a um lambe-botas, de que as leis da Ciência Económica estão a ser rasgadas por uma manada de asnos, de que a Ética foi sequestrada por bandoleiros que escarram na Ciência por um canudo, de que a Cidadania abafa as forças debaixo de um reles cabresto. Há dias em que um homem, cansado de tão malbaratada ciência, já não cabe em palavras frias.
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Este território já não é o solo de uma Pátria – é o balcão de uma agência
Aqui não há poemas – há contas
e as contas não se prestam – ajustam-se
Não há administração – há ajustamento
Não há governantes – há cobradores
porque não há mandato – há mandança
porque não há salários – há juros
porque não há cêntimos para repartir – há milhões para pagar
António, João e Joaquim não são nomes – são dígitos;
A1, A23 e A25 não são estradas – são fitas de máquina registadora
Subsistência não é trabalhar – é emigrar
Não há homens – há recursos
Não há famílias – há encargos
Não há doentes – há despesa
Não há idosos – há sustentabilidade
Não há exemplo de cima para ir mais acima – há tirania para baixo e para ir mais fundo
Não há templos a garantir a esperança do céu – há sacristias a apontar o pavor do inferno
Não há o direito à alimentação – há o dever da dieta
Não há o ónus de evoluir – há a sujeição ao sacrifício
E não há limites para os limites
Não há o direito a querer viver – há a imposição de deixar-se morrer
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