É preciso que algo mude, para que tudo fique na mesma
Giuseppe de Lampedusa — Il Gatopardo
Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente; acho que ficámos todos, pelo menos a maioria sã de nós. No entanto, depois da catarse colectiva, entrámos no período mais perigoso. Estes são os dias do leopardo.
Se lermos de forma ingénua as reacções ao passado 15 de Setembro, podemos ficar com a sensação que o actual governo está condenado e a breve prazo. Espero que não. Espero que o domínio do inenarrável Relvas sobre o aparelho do PSD seja tão profundo como todos os comentadores afirmavam ser, até há poucas semanas; espero que o cinismo do sr. Portas tenha ainda muitas oportunidades de se manifestar; espero que Aníbal Cavaco Silva se revele tão intrinsecamente indeciso como revelou ser durante o buzinão da Ponte.
Estes são os dias do leopardo. Giuseppe de Lampedusa rever-se-ia nas declarações de Mário Soares. Estão perfeitamente alinhadas com a indigência eurocrática dos super-Mários e superam de longe as meias-tintas envergonhadas de Pacheco Pereira. É preciso um protagonista de ar grave e queixo prognástico. Se for Bento de nome, os eurocratas chamar-lhe-ão super. Que pena não ser Mário!
Estes são os dias do leopardo, em que já nos começaram a informar suavemente que nada existe para além dos ditames da troika. Têm razão. Enquanto o sorriso Pepsodent — que os portugueses elegeram, não esquecer — não decidiu ficar na História como o autor da maior reversão social desde a primeira partilha da Polónia (*), Portugal parecia condenado a seguir as pisadas da Grécia, no caminho da destruição social, lenta e triste.
Talvez Passos Coelho venha afinal a ser lembrado como a nossa Maria Antonieta. "...comam croissants..."? Qual quê! Comam merda, que se calhar até isso é bom demais para vocês, idiotas inúteis que sonharam poder construir uma vida com base no vosso trabalho e proporcionar um futuro melhor aos vossos filhos. Os seres superiores são como o Borges, prosperam nos mares revoltos da manipulação financeira. Por isso, estes são os dias do 'quanto pior melhor'. E recomeçam já na próxima sexta-feira.
Para isso, é preciso que os Portugueses resistam aos dias do leopardo. Quanto mais a situação do poder austeritário apodrecer, maiores as chances de que este velho continente sacuda a modorra da sua decadência. É adequado que sejam os Portugueses a fazê-lo. De novo. Quando Vasco da Gama zarpou para a Índia, os seus grandes inimigos eram banqueiros venezianos. Hoje, os traidores da Europa mudaram-se mais para norte. "Se Deus tivesse cagado cimento, o resultado teria sido Frankfurt", escreveu Günther Grass.
Seria bom que pudéssemos destruir a traição europeia a tiro de canhão, de longe, como Franciso de Almeida o fez ao largo de Diu. Provavelmente, vamos ter que pagar o preço. O preço de sermos um Povo Soberano.
(*) Quando Frederico Guilherme da Prússia assumiu soberania completa sobre os territórios da Prússia Oriental, uma das suas primeiras medidas foi reinstaurar a servidão da gleba, abolida quase cem anos antes, por Jan II Kasimierz Vasa.