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Arquivos do umbigo

"Perante as reações indignadas de tanta gente à decisão de devolver ao povo grego o veredicto sobre o seu futuro fica evidente uma coisa: anda por aí muito muito "democrata" que odeia a democracia. Porque ela pode travar a imposição de um programa ideológico que nunca seria sufragado pelo povo sem estar debaixo de chantagem. A Grécia deu o primeiro passo para travar esta ditadura perfeita. Se for até ao fim, pode salvar a Europa do caos político para onde se dirige. Pagará um preço alto? Mas ainda tem alguma coisa a perder?
Se os gregos aprovarem mais este plano de destruição do seu futuro - coisa nada improvável, perante o cenário que a Europa e os "mercados" lhes vão impor pelo seu atrevimento - pelo menos terão tentado dar um sinal de dignidade em tempos que ela parece ser um bem escasso."
* Abaixo a Democracia!, Daniel Oliveira, blogue Arrastão

Em função de uma entrevista no magazine DER SPIEGEL, resolvi escrever a seguinte carta aberta ao Ministro das Finanças da República Federal da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Os anexos abaixo referidos, entre eles o esboço estratégico “New Deal”, já são do conhecimento dos meus leitores e amigos; por isso os omito neste post.
“A história da filosofia, das ciências, da religião, mostra que as opiniões têm uma divulgação em massa, ganhando contudo sempre a primazia aquela opinião que for a mais compreensível, isto é, mais de acordo e mais cómoda ao espírito humano no seu estado comum. De facto, aquele que tenha evoluido num sentido superior, poderá sempre partir do princípio de que tem a maioria contra ele”.
Johann Wolfgang von Goethe, Obras – Edição de Hamburgo, tomo 8, Romances e Novelas III, Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister
Exmo. Sr. Schäuble,
De novo o verso vagueia
sobre as ondas
Um olhar distante se estende
No areal da praia ou no deserto
Onde silêncio ou vento agreste
se instalam
Na planura do lugar mais perto
Vivemos sonhos entre muralhas
Quotidianos de todos os dias
Das mais remotas cruzadas
Resto dum amor que se calou
E nos deixou
na vaga de ondas alteradas
Estamos entre força e o querer
Como sempre
Vivemos presos num amanhã
presente
E sem conhecermos o caminho
O vento leva-nos de mansinho
Da onda que se afastou erguida
Ficou imagem da nuvem perdida
Já há uns tempos o Rui Tavares levantou a lebre. A Bélgica tem a economia que mais cresce (várias vezes mais que a Alemanha), executa o Orçamento de dois anos antes, por duodécimos, não tem medidas restritivas nem expansionistas, trabalha, não perde tempo nem dinheiro com a classe política e, esta, avisada, também não consegue chegar a acordo para formar governo.
E, tem, na sua população, valões e flamengos que não podem nem ver-se mas que distinguem o essencial do acessório! Os mercados que chateiam países muito maiores e poderosos, com a Bélgica nem piam, tem uma economia forte e estável, não muda de estratégia por dá cá aquela palha, dá garantias aos credores, tem os seus deficits controlados...
Os anarquistas já tinham provado que o governo não serve para nada, agora é a Bélgica a provar que se vive melhor sem governo!
Parece fácil quando há competência e liderança...
A Portugal
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. ƒÉs cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não
Jorge de Sena
Mandaram-no entrar. Que se sentasse, disseram, ignorando-lhe a mão que havia estendido em cumprimento. Sentou-se. Ele deu-lhe um copo com água e dois comprimidos, um azul e um amarelo. Ela ordenou-lhes que os tomasse. Os comprimidos!, com a água! O Grego resistiu; nem pensar, disse. Demokratía, no pills! Sentiu uma outra presença na sala. Atrás de si. Soube sem virar; era ela. A mulher-Lagarto abriu a boca e todos os vidros se partiram. Em menos de um fósforo, já os comprimidos iam goela abaixo. A seco. Acordou com o coração a caminho de outro mundo. Agarrou-o a tempo e acendeu a luz. Bebeu água. Havia sido só um pesadelo. Só um sonho mau, pensou, mesmo apesar do ataque de tosse que lhe fazia subir algo dos pulmões em chamas. Levou a mão à boca e puxou, puxou, puxou. E outra vez. Liberto, olhou aquilo com medo e repulsa e atirou-o para o lado. Pegou no telefone. Stop Demokratía!, Stop Demokratía!, gritou antes de desmaiar. A um palmo do seu nariz, ainda molhada das entranhas do grego, jazia uma madeixa de cabelo branco platinado.
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