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O Tripé Manco

por Licínio Nunes, em 30.08.12
O poder nasce no cano duma espingarda.
– Mao Tse Tung
O dinheiro fala...
– Provérbio anónimo americano
Conhecimento é poder.
– Roger Bacon

Foi com estas três citações que Alvin Toffler iniciou o seu livro Powershift – O Deslocamento do Poder, "Os Novos Poderes" na tradução portuguesa. É caso para dizer que estamos perante uma entrada de leão, se alguma vez existiu alguma.

Toffler reflectiu sobre a natureza do Poder e identificou aquelas três componentes essenciais: o poder da violência (monopólio do Estado-Soberano, espera-se), o poder económico e o poder do conhecimento. Um tripé! A estrutura de apoio mínimo que garante o equilíbrio; se, ou enquanto a vertical do respectivo centro de gravidade passar pelo triângulo formado pelos seus três apoios. Por outras palavras, desde que o tripé não esteja manco.

Se atentarmos na primeira e na terceira citações, verificamos que são sintéticas e directas. A do meio, é um acto falhado. O autor estava a referir-se ao poder económico, e no entanto..., falou em dinheiro. Sendo americano, poderia, por exemplo, ter citado "O que é bom para a General Motors, é bom para a América", certo ou errado, seria algo mais em consonância com a maior potência industrial que o Mundo já conheceu. Em vez disso, citou aquele provérbio ordinário ("...and bullshit walks"). Terá sido acto falhado, ou reflexo premonitório inconsciente? Talvez apenas o prenúncio daquilo a que a voz do povo associa às tais entradas de leão, ou seja, saídas de sendeiro, facto aliás comum num autor interessante a muitos títulos.

Mas vamos deixar estes aspectos de lado e vamos olhar para a frase de Bacon. Escrevendo nos finais dos anos oitenta do século passado, Alvin Toffler anteviu de forma brilhante o potencial revolucionário daquilo que, nessa altura, ainda era pouco mais do que uma experiência militar e a que hoje chamamos Internet, associada ao crescimento exponencial do poder de cálculo dos computadores. Depois, Toffler confundiu conhecimento com informação.

O que teria Roger Bacon pensado a respeito desta distinção? Penso que lhe teria parecido bizantina. No fim de contas, seja lá a informação o que for, é a matéria-prima do conhecimento e, naquele tempo, os conhecedores profundos eram também os principais receptáculos de informação. E foi, por exemplo, com o poder dessa informação e desse conhecimento, que os seus compatriotas chamaram um figo àquela nada invencível amálgama de embarcações mediterrânicas que Filipe II de Espanha enviou contra eles, ignorando até que reinava sobre o país que, na época, dominava as técnicas da artilharia naval.

Mas afinal, o que constitui aquele Terceiro Pilar? A informação ou o conhecimento? Podemos ser tentados a uma resposta ingénua: "o poder de controlar os fluxos da informação". Durante milhares de anos, este foi um atributo do Primeiro Pilar; depois transferiu-se para o segundo. Por lá continua, por mais que valorizemos estes novos meios de comunicação, como o que estou a usar neste momento. O que é realmente poder, conhecimento ou informação? A minha resposta: nem uma coisa nem outra.

Letrados como eram, tanto Genghis Khan como o seu teta-tetra-neto Akbar, concordariam com a estrutura proposta por Toffler. A grande diferença, é que um teria apostado no desequilíbrio dessa estrutura e o outro no seu equilíbrio. O poder não é o tripé; o poder é a capacidade de influenciar o ponto onde a tal vertical do seu centro de gravidade cai. Como teriam ambos tratado, por exemplo, a mais recente iniciativa do ministro Crato? Genghis, com as suas centenas de filhos varões, tê-lo-ia tratado como bastardo, tornado-o mais baixinho e eliminando assim aquele apêndice inútil em cima dos ombros; Akbar, apesar da sua postura contrária, teria feito exactamente o mesmo, talvez ainda mais depressa, uma vez que a cristalização social hindu foi um dos seus alvos preferidos durante décadas. O Crato, ministro, irá conservar a cabeça em cima dos ombros, episódio ridículo, apenas, consequência daquilo a que chamamos progresso.



Estou-me nas tintas para o ministro. O poder tem de facto, aquela estrutura que Alvin Toffler identificou. Mas o Poder, verdadeiro, consiste na capacidade de influenciar os seus equilíbrios ou desequilíbrios. Entfremdung e Verbindung, assim, em alemão, para dar um ar de seriedade e profundidade.

Karl Marx foi um autor de escrita contundente, mas neste particular, tentou suavizar o impacto ao máximo: Entfremdung tem o sentido de "...separação do que está naturalmente em harmonia"; Verbindung é o seu oposto: ....união do que está separado contra natura. As línguas latinas atraiçoaram aquele propósito original: Alienação tem a violência, talvez adequada, que o autor evitou. A alienação entre o ser humano e o produto do seu trabalho, consequência do modo de produção industrial; a alienação entre o ser humano e a comunidade que é a sua. A alienação entre o conhecedor e o produto mecânico do conhecimento; a alienação entre a economia real, onde tudo se produz, e o saque dessa produção.

Hoje em dia, os proletários não têm um rancho enorme de catraios, o termo reflecte apenas o tempo em que foi criado. Não são menos vítimas de toda aquela alienação do que dantes; são-no mais ainda, porque até aquela soberania que é formalmente sua lhes é roubada. Mais do que nunca, a união é a resposta. Acontece que aquela alienação mais moderna, entre informação e conhecimento, não pode existir sem gerar a sua própria antítese: a entropia aumenta, e com ela, os graus de liberdade. Por isso, a união do que está separado contra natura é não só urgente como cada vez mais possível. Cada vez mais urgente.

Por isso, proletários de todo o Mundo: uni-vos. Sem isso, até pedras irão chover do céu.

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publicado às 20:32



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