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Wennes do Ceará, cultor da língua mátria

por António Leal Salvado, em 30.08.12

Conhecemos-nos no negócio. O dele, claro.
Wennes tinha 24 anos, a idade precisamente a meio entre as dos meus dois filhos mais velhos. Vendia cigarros, pastilhas e 'balas'. A mim, interessavam-me apenas cigarros, por causa daquela particularidade mórbida das fotografias desencorajadoras do vício, estampadas em grande no maço. Mas não me faltou nem um só dia - nem eu passei um único encontro sem lhe fazer uma compra com cláusula de entrega ao domicílio: comprava-lhe as 'balas' que logo em simultâneo lhe confiava para que ele as levasse ao garoto que me tinha dado a conhecer. É que em casa de Wennes havia um menino especial; tinha, para além de uma menina e um outro rapaz, um filho doente - que conheci pelo relato do infeliz parto de que resultou ter ficado "meio besta", no dizer do pai (carinhoso, emocionadamente carinhoso, ainda assim). E como se chamava o menino? Wennes explicou, com cuidado pormenor.

Gente pobre estava habituada a conformar-se com o que viesse. No hospital público, nem a classificação de parto de risco contrariava essa baixa expectativa: parto difícil era mesmo para esperar tudo - seria o que tivesse de ser. A amedrontada mulher contava com o conforto habitual, a Senhora da Boa Hora ou uma outra qualquer Senhora, já que a pobre parturiente não invocava instintivamente uma protectora predilecta.
O médico, atencioso e a transpirar bonomia, falou-lhe da Senhora de Fátima. Era português, está visto. O tempo de administração do soro foi asado a deleitar a mulher com a devoção dos crentes da Virgem dos pastorinhos. Se nascesse menina, havia de chamar-se Fátima - Maria de Fátima, para seguir à risca o guião do bondoso doutor.
Mas foi um rapagão que nasceu na hora afinal breve e afortunada. Havia de ter o nome do doutor que tanta esperança e tão boa sorte tinha trazido àquele transe que à partida se afigurara problemático.

Ao oitavo dia, quando acabou de arrumar as poucas roupas que a acompanharam ao hospital e fez as gratas despedidas do pessoal da enfermagem, não lhe souberam dizer logo como se chamava o doutor. Pois se ela não explicava direito quem tinha sido o parteiro! Durante aquela semana, o menino ganhara o 'nome' de Português - mas era evidente que semelhante nome não era nome de verdade, ainda para mais para uma criança com tão bem-aventurada personalidade, tal era já a aura daquela criatura de cheias bochechas, cores a vender saúde e sossegadas e longas noites.
Português era, afinal, a chave: o médico que ninguém sabia identificar pelas pistas vagas que ela sugeria (era o doutor "bonito e bom"...) não era nem mais nem menos que o médico português, o único clínico de lusa origem. "O Enes!" - exclamou o internista de serviço, com o espanto de ser tão rotunda falha o tempo que tinham perdido em busca da identidade da misteriosa e importante personagem.
"O Enes!". Abençoado grito que o doutor, o colega, tinha atirado à falta de perspicácia daquele pessoal distraído. "O Enes", inspirador benemérito daquele primeiro grito de viver, insistiu-se em sussurros no ouvido da feliz mãe, na corrida imediata e breve até ao registo civil. Wennes - ficou a chamar-se a criança. O dócil e bom amigo que 24 anos depois eu ganhei na praia.

Não percebi logo porque me contou a origem do seu próprio nome para me dizer como se chamava o filho - o menino a quem eu mandava diariamente os rebuçados. Fez-se-me luz quando, logo de seguida, Wennes me disse os nomes dos seus três meninos: Wemerson, Wanderson e Maria de Fátima.

Porquê pá?

Wennes recuou assim uma geração para me dizer, explicadinhos, os nomes dos filhos. Era homem dado às elucubrações gramaticais, pronto. Compreendi melhor, por isso, a curiosidade que me disparou logo que o fio da conversa lho permitiu:
- Vocês, os portugueses falam tanta vez o 'pá'...!
Dei-lhe a explicação que tenho para mim: 'pá' será porventura a abreviatura de 'rapaz'; nós teremos começado por dizer "anda cá, rapaz" ou "cuidado, rapaz" - e o tempo se terá encarregado de mostrar a facilidade de "anda cá, pá" e "cuidado, pá".
- Ah! Nós aqui no Brasil diz "cuidado cara!".
Nessa tarde despediu-se com um sonoro "até amanhã, pá". Eu tive o cuidado de retribuir adequadamente: "até mais ver, pá"!

No dia seguinte Wennes foi breve de conversa. Explicou que tinha um negócio a tratar com dois 'pás' seus amigos - e partiu quase de seguida, justificando que estava um 'pá' à espera dele.
Ainda hoje, a dez anos de lembranças, não sei qual de nós dois enriqueceu mais o seu conhecimento da língua mátria.

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publicado às 02:00


1 comentário

De Rogério Costa Pereira a 30.08.2012 às 05:35

Tenho um "Wennes", também. Chama-se Albertino e conheci-o em Porto de Galinhas. Um dia falo dele aqui. E do raio da puta da jangada de pedra que nunca se largou ao mar, Abraço, António.

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