Em resumo: a procura agregada está de rastos nos nossos países e está a cavar um buraco em direção… à China (à medida em que a troika impõe o seu mandato e que os bancos caem mais profundamente em estado de 'zombiedade').
– Yanis Varoufakis
O que Yanis Varoufakis escreveu devia ser senso comum, puro e simples. Devia mostrar-nos a todos (!) a loucura profunda dos austeritários que tentam resolver os problemas de liquidez dos Países do Sul, reduzindo os seus Povos à miséria. No entanto, receio que, mais uma vez, estejamos perante um problema de comunicação.
A menção do autor ao "...buraco em direcção à China...", recordou-me outro problema de comunicação, uma das mais impressionantes demonstração de arte perfomativa de que me recordo: Jack Lemmon (Jack Godell) consegue comunicar a falha de comunicação. Vejam-se aquelas cenas, a partir dos 03:35. Nós assistimos a tudo, sabemos o que Jack Godell vai dizer, quando sequestra a sala de controlo daquela central nuclear, e exige ser entrevistado em directo; sabemos que ele vai falhar, que se vai perder em pormenores e em especificidades que vão tornar o seu discurso incoerente e hermético. Sabemos como a verdade vai ser ocultada.
A interpretação de Jack Lemmon foi nomeada para um Óscar em 1979, apenas para ser preterida pelo mais choramingas Kramer contra Kramer. Fica a memória, mas fica também um interrogação, nestes tempos em que adoramos aquela divindade obscura a que chamamos comunicação: qual é a responsabilidade do receptor?
Quer o assunto seja o primeiro ou o segundo dos síndromas da China, em ambos os casos os destinatários são seres pensantes; em ambos os casos, os destinatários estão em risco; em ambos os casos, os destinatários são, em última análise, cidadãos soberanos de Estados Soberanos. Não sei se será possível colocar o assunto em termos mais claros e mais simples do que Varoufakis o faz neste artigo.
Há uma coisa que eu sei: os cidadãos-soberanos-receptores-da-narrativa, não têm mais desculpas; não podem mais dizer "...nós não sabíamos, ninguém nos explicou...". Está na hora de dizer basta!, nem que nos queiram pôr a voz em off.
Epá, os teus post são viciantes e a forma como juntas as coisas é curiosa, inovadora e faz com que um tipo saia diferente depois de ler o que escreves. Parabéns, Licínio.