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O Tanas e o Badanas!

por Licínio Nunes, em 03.08.12

"Nós não sabíamos..."

Este é um filme de culto, por excelência. Filme de actores, com algumas das maiores estrelas de Hollywood da época a desempenharem pequenos papéis secundários. No entanto, são os dois monstros sagrados, Spencer Tracy e Marlene Dietrich que, de alguma forma, o definem, sobretudo naquela cena a partir dos 1:50:00. Relatando alguns dos fait divers da rodagem, Spencer Tracy contou como a Dietrich esteve impossível durante aquele período, mais impossível do que o costume. E tudo por causa daquela frase, que escolhi para título.

Marlene Dietrich emigrou para Hollywood, por motivos profissionais, mas também por não querer viver sob o regime nazi. Depois, envolveu-se no esforço de guerra com mais profundidade (incluindo o assumir de riscos físicos), do que a maioria dos seus colegas. Ela sabia como aquelas frases que proferia eram falsas. "Nós não sabíamos..."? O tanas e o badanas! É claro que a vasta maioria dos alemães não conhecia os detalhes sórdidos, e a profundidade do monstro que eles próprios tinham criado. Mas sabiam, por exemplo, como os seus vizinhos e conhecidos de origem judaica, tinham desaparecido da vista, e como os filmes de propaganda de Goebels os representavam em "campos de trabalho", de condições austeras mas dignas e, inclusive, com acesso a bens de consumo de que eles próprios estavam privados há anos. A Dietrich sabia bem como os seus próprios compatriotas sabiam.

Vamos repetir a pergunta no presente: o que é que nós próprios, enquanto Povo, não sabíamos, quando elegemos o nosso desgoverno actual? Não conhecíamos a profundidade da loucura neo-liberal, certo; não imaginávamos a profundidade cósmica das nossas trindades rascas, é correcto. Tirando isso, sabíamos perfeitamente o que estávamos a fazer. Estávamos a golpear.

O António Pinho Vargas escreveu algo importante, aqui há algumas semanas, na sua própria página do Facebook, e vou citar de memória. Ele escreveu como, vivendo numa democracia de intensidade mínima, os poucos graus de liberdade que nos restam, nos levam a golpear e a "pôr estes fora", ignorando que, num estado profundamente clientelar, isso equivale também a "pôr os outros dentro". A resposta certa, obviamente, consiste em quebrar a natureza clientelar do Estado Português. O problema é que isso, ninguém o vai fazer por nós e não parece que qualquer auxílio externo esteja no horizonte.

Dum ponto de vista histórico, "Julgamento em Nuremberga", retrata o último dos julgamentos políticos do nazismo, o "Julgamento dos Juízes". Coincidiu com o primeiro bloqueio terrestre do Exército Vermelho aos acessos por estrada a Berlim e com a primeira ponte aérea da Guerra Fria. Era politicamente essencial que a população germânica sentisse que "pertencia" a um dos lados do conflito que se desenhava; a desculpabilização colectiva, consubstanciada no "...nós não sabíamos...", teve a sua oportunidade histórica. O juiz Hayward não esteve pelos ajustes, mas isso quem quiser saber que veja o filme.

Sem a necessidade geo-política de fazer uma ponte aérea para as Berlengas, o nosso futuro colectivo fica nas nossas mãos. O que é que, de realmente importante, nós ainda não sabemos?

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publicado às 00:55


2 comentários

De jelinek a 03.08.2012 às 19:19

Alhos e bugalhos a fingirem uma intelectualidade que disfarca o vazio...

De Licínio Nunes a 04.08.2012 às 19:02

Já lá dizia a minha falecida mãe: "Não costas dos outros, lemos as nossas".

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