Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem o ouvir & falar.

 

 



O Deserto

por Licínio Nunes, em 30.07.12
Pois eu tornei-me a Morte, o Destruidor dos Mundos

Vi estas imagens pela primeira vez, miúdo ainda, sem compreender nem os factos relatados nem as suas implicações. Tenho a certeza que o que me marcou foi a determinação daquele homem. Julius Oppenheimer não está a praticar um acto de confissão, não está a fazer uma auto-critica; não se purga das suas culpas, fala para que não se repita.

Muitos anos depois, tive oportunidade de assistir às comemorações do 6 de Agosto no segundo "Ground Zero" da História. Mas Oppenheimer fala-nos do primeiro de todos, quase farsa ante o que veio depois, e é esse depois que nós vemos na sua face torturada e que ouvimos nas suas palavras.

Pensem nas crianças, mudas, telepáticas

Ante o depois, a emoção — mas também a determinação — de Julius Oppenheimer quase poderiam parecer uma farsa. Acontece apenas que ele não se confessa, não se auto-critica; diz apenas nunca mais.

Pensem nas meninas, cegas, inexatas

Isto mostra-nos como as repetições da História podem até violar a sequência temporal de que Marx falou, continuando a verificar o essencial, ou seja, o carácter dos seus protagonistas.

Pensem nas mulheres, rotas alteradas

Vivemos tempos de farsa. Nós, portugueses, somos confrontados com ela quase todos os dias, mas devo dizer que só consegui compreender sua génese quando me recordei daquelas imagens. Vejamos, a nossa Trindade Cósmica é ridícula, o nosso seráfico Brama só consegue manter a dignidade requerida enquanto não quebra o silêncio. Por mais bramânico que se queira fazer aparecer, o nosso Silva torna-se sempre banal quando fala da vidinha; da sua e dos seus, claro. Que outras poderiam ter relevância para serem mencionadas?

Pensem nas feridas como rosas cálidas

O nosso Shiva de Massamá é fraco. Quer que se lixe; não destrói no brilho de mil sóis; corrói apenas. É apenas mais lento; não menos destrutivo, apenas mais vagaroso. O nosso Shiva é um apenas. Está bem acompanhado, é preciso dizê-lo.

Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa

Se o Shiva que nos tocou em sorte é apenas um apenas, o nosso in-Seguro Vishnu é uma alforreca: não harmoniza, amolece. Como todos os deuses criados pelo Homem, visa a criação duma realidade à imagem dos seus próprios criadores, tão gelatinosa como ele próprio. E contudo, a nossa, inimitável, portuguesíssima, Trindade Cósmica, mais não faz do que revelar a sua incomplitude essencial. Tal como "Os Três Mosqueteiros", a nossa Trindade tem quatro elementos. Nunca ficaria completa sem o Relvas.

Da rosa de Hiroxima, a rosa hereditária

Convenhamos que seria de esperar. Todas as troikas são sexualmente ambíguas, todos os triunviratos se desfazem; todas as trindades mais não fazem do que revelar o outro, o gascão, o princípio activo. Juro que não quero saber se é possível obter uma licenciatura com quatro exames, ou com quantos créditos se faz um canudo de circunstância. O Relvas tinha que ser dê-érre-ponto, ponto.

A rosa radiotavia, estúpida, inválida

O que eu precisei que o anti-Relvas Oppenheimer me mostrasse, foi a resposta a um paradoxo bárbaro e revoltante: como é possível que alguém seja licenciado numa licenciatura que ainda não existia à data em que ocorreu?. E no entanto, a resposta é simples: o Relvas não é uma farsa; o Relvas é a farsa.

A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica

O Relvas é, a um tempo, o espaço em que os outros três se movem e o criador desse mesmo espaço. O Relvas é o Deserto. Não um "deserto de ideias", não um "deserto de competências", não um "deserto de méritos": o Deserto, que tudo faz à sua imagem. Nem a rosa de Hiroxima cresce no deserto, onde até os escorpiões sofrem de paranóia suicida. A trindade suprema é o monumento à sua obra; até que a sua obra dispense o monumento que sobre ele se ergue.

Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada— Vinicius de Moraes

Um dia, se o próprio Tempo for capaz de resistir à voragem do deserto da farsa que tudo engole, perguntar-nos-emos como foi possível insultarmo-nos ao ponto de nos fazermos governar por esta trindade quártica e completa; talvez apenas os nossos filhos o venham a fazer. Espero que corem da vergonha que não temos.

Pois eu tornei-me o Deserto, o criador de mim mesmo

E a farsa fez-se.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:43


2 comentários

De Rogério Costa Pereira a 30.07.2012 às 11:33

E a farsa desfaz-se. 
Se a sociedade a faz, ou permite que ela se complete, a sociedade a desfaz, embora sempre a destempo. Porque no momento em que ela se faz a respectiva implosão já vai a destempo. Apenas porque nunca devia ter acontecido. O problema é que Relvas é a spitting image de uma parte substancial dos homens e mulheres portugueses. Que sobrevivem da cunha, sobem em bico-se-pés em cima do cartãozito, respiram o arranjinho, não conseguem viver doutra forma e nem sequer sabem tentar porque nasceram no meio disso mesmo. Quando falo em parte substancial,  felizmente, falo em termos de quantidade. E a quantidade não me assusta. É apenas um número. A qualidade dos que vivem há-de sempre sobrepor-se. Como que uma inevitabilidade. 
O problema é o tempo que estas marchas demoram a lavar, sabes? Assusta-me pegar um Eça, num Antero, num Ramalho e ver aquilo cheio de relvas. Ano após ano. Século após século deixámos a nódoa entranhar-se Isso assusta-me, sim, mas ao mesmo tempo ajuda-me a ganhar consciência que não será coisa fácil. O que me assusta ainda mais é o facto de a outra parte, aqueles que não vivem de cartão em cartão, se entregar  como se não fosse possível a mudança. "Que é que um gajo há-de fazer?". E esse é o ponto, não há nada para fazer, resta apenas desfazer. Não é apenas um jogo de palavras, atenção. Havemos de falar mais disto. 

De Ariel a 30.07.2012 às 11:44


"o Relvas não é uma farsa; o Relvas é a farsa". Muito bom.

Comentar post



página facebook da pegadatwitter da pegadaemail da pegada



Comentários recentes

  • Anónimo

    Olá, senhor / senhoraObtenha acesso fácil para gar...

  • Anónimo

    Oferta de empréstimo entre sério e honesto em Port...

  • Anónimo

    SE VOCÊ PRECISA DE UM SERVIÇO GENUÍNO E PROFISSION...

  • Anónimo

    Olá, você precisa de um serviço de hackers? Você s...

  • Anónimo

    Olá, você precisa de um serviço de hackers? Você s...

  • Anónimo

    OLA você precisa de serviços de hacking? Você se d...

  • Anónimo

    OLA você precisa de serviços de hacking? Você se d...

  • Anónimo

    OLA você precisa de serviços de hacking? Você se d...

  • Anónimo

    Cartões ATM vaziosVocê sabe que você pode hackear ...

  • Anónimo

    Olá,Você deseja receber um crédito para a execução...


Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Pesquisar

Pesquisar no Blog