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De que é feita a saudade?

por Maria Suzete Salvado, em 05.05.12

 

A boleia

O caminho da quinta era feito várias vezes, diariamente, desde que naquele Natal tinhamos ido para lá viver.

Frequentávamos, eu e os meus irmãos, a escola primária no Fundão e o meu pai encarregava-se de nos trazer para as aulas. No trajecto obrigatório encontrávamos muitas crianças que iam a pé para a escola, estivesse calor ou frio de rachar.

Um ou outro mais pequenino dava a mão ao mais velho, que levava o saco com os livros e a "bucha",  alsa atravessada no peito franzino, a caminhar junto à berma.

Todos sabiam que se o carro do Sr Salvado passasse naquele momento, cabia sempre mais um.

Enquanto avançavam, iam olhando para trás e se o vissem ao longe, espreitavam tímidos, os olhos a brilhar, sorriso rasgado, mas sem coragem para pedir. Quando o carro parava e nós abriamos a porta,  aqui uns,  além outros, entravam eufóricos e a cachopada lá se ia encaixando, encavalitados uns nos outros, a rir, sempre a rir, apesar de encharcados ou enregelados, contentes de poder “ir a cavalo”, como eles diziam.

Entre eles, vinha muitas vezes a filha do rendeiro duma quinta nossa vizinha, uma miúda ruiva, de pele branca e sardenta, de olhos grandes e muito vivos.

 (O proprietário da quinta era médico na Covilhã e a esposa, uma senhora muito elegante e de cabelo loiro, um pouco misteriosos para mim, já que raramente os via)

O meu pai gostava de a arreliar só para ouvir as respostas que ela tinha sempre na ponta da língua e que dava com sorrisos envergonhados.

Naquele dia o meu pai brincou com o seu cabelo ruivo:

-Então cachopa, a quem é que tu sais com essa cor de cabelo?

Ela riu e desenvolta respondeu:

- À minha patroa.

As gargalhadas do meu pai encheram o carro e todos rimos sem sabermos bem a que é que achara graça, se ao geito divertido da miúda, se à sua resposta.

Os 2 Kms eram feitos por aquelas crianças que viviam nas quintas, a pé, anos a fio, sem queixumes (as escolas não tinham aquecimento e se as crianças chegavam molhadas, assim ficavam das 9 da manhã às 3 da tarde) e sendo felizes com coisas tão pequenas como era aquela boleia.

Já no colégio, lembro os meus amigos das Donas, do Casal, do Souto da Casa, da Aldeia de Joanes e outras aldeias perto do Fundão, que eu via, com alguma inveja,  voltarem a pé para suas casas, em grupos que enchiam a estrada de risadas e de brincadeiras, no fim do dia de aulas.

 

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publicado às 10:14


4 comentários

De Luis Moreira a 05.05.2012 às 13:24

Muio bonito. Faz-me lembrar a correria em Castelo Branco desde o Cansado até ao Liceu. Como éramos felizes.

De desconhecido a 05.05.2012 às 13:56

Escreves muito bem, Maria, simples e afetuoso.
Não te vou "largar"...

De António Filipe a 05.05.2012 às 16:15

Também eu tinha que me deslocar, a pé, do Souto da Casa para o Colégio de S. António, no Fundão, e vice-versa. Eram 5 Kms de manhã e outros 5 à tarde. E tinha dois colegas que eram de Lavacolhos. Eram 12 Kms!
De manhã, era quase uma festa. Saíamos todos do Souto da Casa, às 8 menos um quarto. Com chuva, sol ou neve (e naquela altura havia muita) eram muitos os rapazes e raparigas que se juntavam na Casa do Povo para iniciar a caminhada. E o número quase duplicou quando abriu a Escola Industrial.
À tarde era um pouco diferente. Como nem todos saíam à mesma hora, éramos menos. Havia dias em que fazia sozinho a caminhada de regresso a casa.
E havia poucos condutores como o Sr. Salvado. Muitos passavam por nós como boi por palácio. E se nós estendíamos o braço a pedir boleia! Mesmo com o carro vazio, havia muitos que nem olhavam. Viam, mas não olhavam. Mas outros havia, que paravam sempre.
Eram bons tempos. Por vezes, difíceis, mas deixam saudades.

De Carlos Serra a 05.05.2012 às 18:37

O seu texto fez-me voltar à década de 1950.

Depois da escola primária fui para o liceu, em Coimbra. Todos os dias apanhava o comboio no apeadeiro de Montemor, a um quilómetro de casa. Mas, no regresso, tinha dias em que o horário não dava para vir no comboio que ia para a Figueira, e o de Lisboa não passava em Montemor (excepto o do Oeste, um pouco mais tarde), pelo que tinha de descer na estação de Alfarelos. Isso significava dois quilómetros a andar a pé.

Era então que, também eu, olhava para trás quando ouvia os motores dos raros carros que então circulavam, na esperança de que fosse o Dr. Sousa Branca, que era o nosso médico, ou o Sr. Avelino, comerciante abastado. Qualquer dos dois parava sempre para me dar boleia.

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