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Em geral, celebra-se uma Efeméride na ausência do Momento. Serve para trocar um Valor ético-cultural que deveria ser vivido quotidianamente, por uma celebração da sua ausência. É um ritual.

Assim acontece com ‘o Dia da Mulher’ – em que se ‘relembra’ a igualdade de género depois de, consecutivamente a sociedade tolerar 365 dias de salários desiguais nas exemplares ‘empresas privadas’; o trabalho doméstico desigual depois do emprego; o conceito jurídico de ‘cabeça de casal’ a par da Constituição, a hombridade viril casada com o ‘recato’ feminino moralizador.

Assim acontece com o 1º de Maio – em que a sociedade festeja a ‘integração’ das classes trabalhadoras no mito da ‘igualdade’ cidadã, depois de tolerar sucessivos 365 dias de exploração económica (isso agora tem outro nome: “competitividade das empresas”), de desigualdade nas relações laborais (isso agora tem outro nome: “racionalidade empresarial”), de supressão de direitos e garantias (isso agora tem outro nome: “viabilidade das empresas”).

Assim acontece, também – e ‘naturalmente’ – com o 25 de Abril – em que o ‘corpo nacional’ (abramos assim os braços, para caber toda a gente…) celebra ‘a Democracia’ e ‘a Liberdade’ depois de se atolar, durante 36 anos, em parlamentarismo formal,

em puro roubo do direito à sua voz (já que a ‘delegação de voz’ num Partido resulta num ‘cheque-em-branco’ para os ‘nossos representantes’ fazerem o que lhes der na real gana durante 4 anos sem terem o seu mandato cassado por despudoradamente trairem os Programas políticos pelos quais os diversos estratos sociais os elegem…),

e alienação numa pseudo-igualdade consumista (já que, embora com uma amplitude do leque salarial de 1 a 15 salários mínimos, somos todos ‘iguais’ se tivermos Cartão-de-Crédito…)  - e quem é que se quer reconhecer numa tradicional classe menorizada?   

Todos falam em Democracia – mas qual democracia?

- É que, seguramente, a de 75 não é a mesma de 77. A democracia de uns não é, seguramente, a democracia de outros – e já nem essa verdade simples somos capazes de admitir!...

Quanto à ‘democracia-com-todos’ – essa, é pura falácia; um Conto Fantástico para embalar bebés.

Que Liberdade se convida a celebrar no 25 de Abril? Tão-só a ‘saída pela Direita-baixa’ do grupo dirigente da Ditadura, que nos ofereceu as Forças Armadas – mas só depois de se sentirem abandonadas e mal-amadas pelas cabeças políticas da Ditadura Fascista. Foi o ‘fantasma’ de Goa que as assustou – e a percepção que já dormiam com ele na Guiné, e que haveriam a breve trecho de dormir com ele em Moçambique…

Porque, pelos esforços da grande mole da Nação, a Ditadura, essa, durou 50 longos anos – e viu passar ao lado a oportunidade dourada da derrota dos fascismos formais; alemão, italiano, japonês, romeno, húngaro, etc. preferindo ‘acreditar’ que tinha sido poupada aos horrores da 2ª Grande Guerra à sombra da bengala do nosso caritativo ditador-de-serviço… - e mais outros tantos anos duraria.

A mim, ensinaram-me que “a Liberdade não se recebe, oferecida – ganha-se, conquistada”.

Foi isso que interiorizei – com os exemplos da Revolução Americana, da Revolução Russa, da Revolução Argelina, com a Guerra do Vietname e, até – quero lá saber se ofendo o imaginário megalómano de algum saudosista – com as Guerras que nos moveram os Guineenses, os Angolanos e os Moçambicanos.

Por isso, fui daqueles que sempre olharam o MFA como aquilo que sempre foi na sua razão de ser original: um movimento corporativo que levou a sua avante tendo que, para isso, refundar a sede da sua legitimação – isto é: coroar o Golpe de Estado com uma nova Constituição.

É verdade que, com o 25 de Abril, o País reencontrou o Mundo: no Parlamentarismo Formal das ´democracias’ ocidentais e, sobretudo – e por muito que custe aos megalómanos nacionais -, no reconhecimento do ‘direito à Autodeterminação’ dos povos indígenas das nossas colónias, ainda frescamente rebatizadas de ‘Províncias Ultramarinas’ para ‘ONU ver’.

Mas a liberdade – a liberdade verdadeiramente popular – só começou a exercitar-se depois.

E assustou muita gente instalada! …Os que chamávamos ‘situacionistas’ – um irónico carimbo para situar todos os que, por contraste com os que militavam pela Liberdade à custa da sua vida e segurança pessoal, medravam à sombra do desenvolvimento que o País vinha usufruindo desde o início dos ‘Planos de Fomento’, e para quem, cínicamente, “não havia falta de Liberdade” – já que nunca ousavam tentar afirmá-la:

- Os outros, os que eram presos e cilindrados pelo aparelho repressivo da Ditadura, é que eram parvos, sociopatas, quiçá criminosos perturbadores da boa Ordem social!

Entre a necessidade de aumentar a sua base de apoio popular no ‘país profundo’, tentando quebrar as grilhetas duma enraizada cultura patriarcal (de que o Caciquismo paroquial era uma política expressão formal) – que as ocupações de terras abandonadas bem começaram com o incentivado exemplo da Torre Bela -, e a luta pela mera europeização das tabelas salariais do Labor urbano, o MFA abriu a ‘Caixa de Pandora’.  

Nos ‘Anos de Brasa’, dito Processo Revolucionário Em Curso, foi preciso ‘tomar partido’, escolher o lado da barricada – as famílias dividiram-se; a autoridade patriarcal dos ‘salvadores da Pátria’ começou a ser contestada; as pessoas começavam a acreditar em si-próprias, a integrar na sua prática os seus Direitos, a sua Dignidade:

- Os ‘instalados’ chamaram-lhe ‘bandalheira’ – tementes de perder as suas prerrogativas -, os novos arrivistas, ‘albanização’, ‘ditadura de proletas’ – assustados pela erosão da sua credibilidade e estatuto de ‘dirigentes de massas’ -, mas, verdadeiramente, aquilo foi uma festa em que a nação reencontrava a sua voz.

E tudo muito fora das ‘receitas’, tudo espontaneamente novo:

- Nem a Direita nem a Esquerda souberam lidar com a festa!...

Em Setembro do 2º ano, um grupinho minúsculo de militares – o ‘Vermelho 8’ – espaldados na mole dos arrivistas e no apoio da sua antena militar – ‘o Grupo dos 9’ – acabou com a festa … pela Força e com sucessivas e prepotentes ‘golpadas hierárquicas’ que acusavam a outros.

Não foram só os militares que ‘regressaram a Quartéis’ – foi toda a sociedade que regressou ao isolamento dos seus lares:

- Tal como tinha recebido ‘a liberdade’ dos militares – e não a tinha conquistado - assim se resignou ao seu confisco pelos militares. Sobrava o teatro da democracia Formal…

…E voltaram a apoiar ‘salvadores da Pátria’ – até a votar neles para a Presidência do Reino!

Houve qualquer coisa, aqui, que não se completou – qualquer coisa de cultural:

- Não nos ‘emancipámos do Pai’ – psicanaliticamente falando;

- Não rejeitámos - conscientemente - a cultura patriarcal;

- Não avançámos em qualquer revolução sexual…

Sobretudo, a sociedade não assumiu a sua responsabilidade social e não se substituiu à administração/gestão do Estado.

Porque a liberdade é isto: responsabilidade social. E sociedade alguma se libertará, se não ousar assumir a responsabilidade perante todos - e o seu consequente auto-governo.

Regressámos aos chefinhos e aos ‘salvadores da Pátria’.

Democracia?

- As massas têm medo da Liberdade!

Hoje, aceitamos que uns quaisquer eleitos-a-termo nos roubem a vida com prepotência autocrata:

- “Porque foram eleitos” – dizem os demagogos – não têm que respeitar limites Éticos; podem violentar milhões – que se lhes relembrarmos limites logo chiam que “assim não podemos governar”!

E agem, no seu próprio interesse egótico, em completa autonomia da sociedade que os elegeu:

- Até a ‘separação de Poderes’ consagrada na sempre remexida Constituição, - pois que as Leis, quem as faz, já nem é o ‘Parlamento’: esse, passa-lhes sucessivas ‘Autorizações Legislativas’ para aqueles autocratas fazerem o que competia aos nossos ‘representantes’!

E pretendem subverter a representação democrática nas Autarquias com o insidioso conceito de votação ‘uninominal’. Em nome da ‘eficiência’ económica, pois claro:

- Houve o tempo em que os ‘políticos’ eram Advogados – agora são Gestores e Economistas.

…O resultado – económico – de tanta proficiência está aí.

E diz-me a minha memória que ter economistas no Poder é muito, muito mau…

António Chinita 

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publicado às 17:33


2 comentários

De Luis Moreira a 02.05.2012 às 18:32

."..a sociedade não assumiu a sua reaponsabilidade social e não se substituiu à administração/gestão do estado." . de estalo! inebriados com as cores partidárias não queremos assumir que a verdadeira questão é esta, não tomamos em nossas mãos o que só a nós, cidadãos, nos compete fazer. Não há um só  partido ou corporação que alguma vez apoie o reforço da sociedade civil. Muito bom, este texto.

De António Leal Salvado a 03.05.2012 às 01:04

Uma reflexão excelente e oportuna!
Não me admira se o autor (surpresa para mim) for o mesmo António Chinita que conheci há uns anos aqui pela minha cidade, por sinal bastante mal tratado pelos poderes da burocracia por causa do seu desassombro cívico.
A reflexão sobre a colectiva demissão das responsabilidades cívicas é, a meu ver, profunda e certeira (tornámos-nos, enquanto Povo, numa multidão de clientes que quadrienalmente passam procuração plena a novos advogados, dizendo-lhes que façam o que quiserem da nossa honra e da nossa fazenda mas não nos chateiem, que nós também lhes não perguntamos pelos nossos negócios). Na análise de uma sociedade em septisémia, este é o cancro cerebral com severas metásteses no coração.
Obrigado a António Chinita - e ao meu companheiro da Pegada que o convidou a enriquecer a nossa inquietação cívica!

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