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Onde é que eu estava no 25 de Abril?

por António Filipe, em 25.04.12

No dia 25 de Abril de 1974 estava a cumprir o serviço militar no quartel de Lanceiros 2, na Ajuda, em Lisboa, como polícia militar.
Pouco mais de um mês antes, a 16 de Março, tinha havido uma tentativa de derrubar o regime fascista, a que só o Regimento das Caldas tinha aderido. Por serem poucos, estes militares foram facilmente interceptados à entrada de Lisboa e alguns ficaram presos no RAL1, donde só sairiam no dia 25 de Abril.
Sendo eu polícia militar, fui destacado para aquele quartel, para ficar de guarda aos militares que tinham sido presos. Como já andava nas lutas antifascistas há alguns anos, aproveitei a oportunidade para tirar algum partido da situação. Como é óbvio, não foi tarefa fácil conquistar a confiança daqueles militares. Mas, cerca de duas semanas depois, com todo o cuidado que era exigido na altura (nem nos próprios colegas se podia confiar), consegui convencer alguns de que estava do lado deles. Cedo me apercebi que o General Spínola estava, de certo modo, envolvido naquela intentona. Coisa que não me agradou muito, mas nem por isso deixei de me interessar pelos acontecimentos. Spínola tinha escrito o livro “Portugal e o Futuro”, cuja publicação tinha sido autorizada por Marcelo Caetano um ou dois meses antes, o que, só por si, gerava algumas suspeitas. Na realidade, Spínola não era a favor da independência dos povos colonizados, embora defendesse o fim da guerra colonial. Era, antes, apologista de uma espécie de federação, em que as colónias continuariam a fazer parte de Portugal. De qualquer maneira, o livro, que, se bem me lembro, esgotou imediatamente, serviu para despertar muitas consciências, tanto nos meios militares como civis. Como gerou alguma polémica, era tema de discussão à mesa do antigo café Monte Carlo, onde se reunia muita gente de esquerda e que, de vez em quando, era alvo de rusgas. Acho que Marcelo Caetano, ao autorizar a publicação do livro, tinha em mente dar a ideia de que havia alguma liberdade (não estivéssemos nós na chamada Primavera Marcelista). Mas teve azar. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Mas, adiante.
Devido a várias conversas com os militares detidos no RAL1 e com os quais consegui travar alguma amizade, foi possível aperceber-me que aquilo não ficava por ali. Que, mais tarde ou mais cedo, uma outra tentativa de derrubar o governo iria ter lugar. E, com o passar dos tempos, fiquei convencido, que, à segunda volta, iria ser bem-sucedida. Era evidente que o povo já estava farto e que bastava um pequeno rastilho para provocar um grande fogo. Por esse motivo, a partir do início de Abril, passei a dormir no quartel, coisa que não fazia já há muito tempo, a não ser que estivesse de serviço. Sempre à espera que, em qualquer altura, alguma coisa acontecesse.
E aconteceu. Por volta das 3 da manhã do dia 25 de Abril, fui acordado bruscamente por um colega (ou “camarada”, como era hábito chamar-se). Note-se que este colega era também camarada da luta antifascista.
- Acorda, Filipe, há um golpe de estado!
- E quem é que está à frente disso? – perguntei, já adivinhando a resposta.
- Consta que é o Spínola.
Como estava cheio de sono, pois tinha adormecido cerca de duas horas antes, respondi, com tom irónico:
- Então, deixa-me dormir, porra.
A verdade é que, quase ao mesmo tempo que dizia isto, levantei-me e comecei a indagar sobre o que tinha acontecido. Havia poucos pormenores. Na rádio já se ouviam indícios de que alguma coisa estava a acontecer e começavam a ser transmitidos comunicados do MFA. Mas os pormenores eram poucos, embora já se ouvissem muitas canções do Zeca Afonso, Letria, Adriano, José Mário Branco, etc. Seja como for, vivi aquele dia intensamente e com alguma esperança de que as coisas iriam mudar.
O comandante de Lanceiros 2 não se queria render. A porta de armas continuava fechada. Cá fora, na Calçada da Ajuda, uma multidão exigia a nossa rendição. Foi-nos transmitido pela população que, nas ruas de Lisboa, reinava o caos, principalmente porque o povo já não respeitava a polícia civil e havia pouca polícia militar na rua. Por isso, era imprescindível que saíssemos do quartel o mais depressa possível. Passámos toda a manhã no quartel, com as portas fechadas. Centenas de homens frustrados, como prisioneiros, na parada, sem saber o que fazer. Discutiam-se todas as hipóteses. As dúvidas eram muitas. A esmagadora maioria apoiava o golpe. O sentimento de impotência era constrangedor. Os fascistas ainda conseguiram usar o quartel para servir de refúgio aos ministros do exército e da defesa. E foi na tarde do dia 25 de Abril, por volta das 3 horas, que assisti à cena mais impressionante e aquela que mais me marcou em todos os eventos que se seguiram: como os ânimos dos militares de Lanceiros 2, principalmente de um ou dois capitães, dos alferes, dos furriéis e praças, já estavam muito exaltados devido ao facto de o comandante não se render, o governo fascista, ainda em funções, decidiu que seria mais seguro retirar os ministros refugiados naquele quartel. Um helicóptero pousou na parada para levar os ministros para outro lado (suponho que iam para Monsanto). Ao mesmo tempo que os dois ministros se dirigiam para o helicóptero, começámos todos a ir ao paiol, arrecadação onde eram guardadas as armas e munições, e, contra todas as regras e sob o protesto do 1º cabo que aí estava de guarda, fomos buscar todo o tipo de armas que encontrámos, principalmente, metralhadoras G3 e pistolas Walter. Éramos mais de 400 homens. Dirigimo-nos para o helicóptero, rodeando-o. Quando o helicóptero levantou voo, ouviu-se um som que eu nunca tinha ouvido antes e que ficou na minha cabeça durante muito tempo: o som de mais de 400 armas a carregar as balas ao mesmo tempo. As armas foram apontadas para o helicóptero. Mas nenhum militar teve a coragem de disparar. Se só um tivesse disparado, seriam centenas de balas a atingir o helicóptero. Entretanto, já nos tinha chegado aos ouvidos que, no Cristo-Rei, se encontrava um ou mais carros de combate com os canhões apontados para o nosso quartel e prontos a disparar, caso não se concretizasse a rendição. Quando o helicóptero se afastou, reparo que, ao meu lado, um furriel chorava como um bebé. A revolta era enorme. A frustração indiscritível. Abracei-me a ele, ao mesmo tempo que, aos soluços, me dizia: “Temos que fazer qualquer coisa. Armas já nós temos.” Foi nessa altura que, acompanhados de um capitão e um alferes, nos dirigimos ao quarto do comandante para o obrigarmos a render-se. A tarefa foi mais fácil do que tínhamos pensado. O “velhote”, logo que viu 4 armas apontadas para ele, telefonou para a porta de armas, dando autorização para abrir as portas do quartel. Não sei o que se passou depois com o comandante, porque só me lembro que, ao ouvir o telefonema, saí a correr para a parada, gritando: “Já se rendeu, já se rendeu!”. A confusão foi grande e só depois de várias peripécias e mais de três horas passadas é que as portas do quartel se abriram. E o cenário foi deslumbrante! Ao som das palmas de centenas de pessoas que se encontravam na Calçada da Ajuda e dos gritos de “O Povo está com o MFA!”, os jipes e outras viaturas da Polícia Militar, iam saindo do quartel. Uns para patrulhar as ruas, outros para o Quartel do Carmo e para outros locais onde eram necessários. A mim calhou-me ir para junto da sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Só sei que passei a noite, no Largo de Camões, quase sempre debaixo de um Unimog, para me proteger dos tiros que, esporadicamente, eram disparados do telhado da sede da PIDE.
Não fui a casa durante quase uma semana. Ia ao quartel, uma vez por dia, tomar um banho e dormir umas (poucas) horitas. Todo o tempo era pouco para andar na rua, no meio da multidão, que nos tratava com um carinho que nunca mais senti. Comida não faltava. O povo trazia-nos tudo, desde sopa a feijoada, embora nós insistíssemos que só queríamos sandes, porque eram mais fáceis de comer em andamento. E, caso curioso, quando agradecíamos, a resposta era quase sempre a mesma: “Nós é que estamos agradecidos”. O primeiro “Dia do Trabalhador” em liberdade (1º de Maio) foi um dia memorável. Nunca tinha visto tanta gente nas ruas. E, mais importante, nunca tinha visto tanta alegria e tanta força popular. A panela de pressão tinha rebentado. O poder era, nitidamente, do povo.

E o resto é história.
E muitas histórias se passaram nos dias e meses seguintes. Só não as conto agora, porque esta crónica já vai longa e não quero maçar muito. Talvez para o ano, continue. No mesmo local, no mesmo dia e à mesma hora. Se, entretanto, o governo, se ainda lá estiver, com a ajuda da “abstenção violenta” do PS, não decidir aplicar “uma revolução tranquila” a esta Pegada.
Viva a Liberdade! Viva a democracia!
25 de Abril, sempre!

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publicado às 11:15



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