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O político light recuperado

por Miguel Cardoso, em 06.03.12

 

A propósito da “literatura light”, escreve Silvina Rodrigues Lopes, ensaísta a quem valeria a pena dedicar mais atenção: “É preciso impedir que a banalidade que aparece hoje consensualmente como literatura não se assuma em breve um direito de exclusividade” (in Literatura, Defesa do Atrito). Substituamos “literatura” por “políticos”. Haverá com certeza políticos para além disto, deste resto, fundo de tacho, políticos para além da náusea das ideias prontamente descartáveis, da contradição e da falta de substância, do “aqui e agora” e do futuro logo se verá tão caro ao “político light”. Vemo-nos confinados à espectacularização que esteriliza, “relegando o humano para o mais triste da vida animal  -  a domesticação” (idem). Arquitecta-se uma imagem e dizem-nos “esta é a tua vida”, “olha para aqui”, “a felicidade é isto”. Ficção. Vivemos num mundo ininteligível ao “político light”, que vive em função do espectáculo e para quem o espectáculo é tudo quanto há, monstro que a comunicação social ajuda a perpetuar. Assim deverá ser para nós, resignados consumidores de espectáculo.

Falta-nos a “estratégia de saída” da fantasia. Fabricou-se uma espécie de insidiosa realidade televisiva que diluiu a fronteira entre real e espectáculo (já alertava Guy Debord) e à qual temos de nos curvar. Se ao político-filósofo de Platão coube outrora conduzir os demais no caminho da virtude e do saber, é agora o mesmo que nos empurra para as trevas ou nos fecha numa redoma ficcional, como em The Truman Show de Peter Weir.

Percamos a ingenuidade, apesar dos aparatosos números de equilibrismo e ilusionismo, o pão continuará a faltar. Antes que o “político light” nos devore ou nos convença de que o caminho da felicidade passa por nos devorarmos uns aos outros, antecipemo-nos e comamo-lo já. 

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publicado às 21:25


6 comentários

De António Leal Salvado a 06.03.2012 às 22:40

Brilhante!
O segundo parágrafo - quanto a mim, o cerne desta análise - só se digerirá adequadamente, só fará sentido (ou dará sentido ao global da reflexão) se dele se retirar, a contrario, a "chave" que da origem da desgraça conduz à optimista solução dela: a "estratégia de saída da fantasia" só pode encontrar-se na restauração do primado do político-filósofo - do político que rege o seu pensamento e a sua acção pela compreensão profunda dos problemas que lhe compete solucionar, do político que, vendo a vida à luz da scientia rerum per altissimas causas, por um lado convoca os membros da comunidade a informarem-no a cada momento e por outro lado se submete ao permanente escrutínio da filosofia dos seus administrados. Convocando-os, ganha sabedoria e legitimidade; convocando-os, partilha com eles as angústias das grandes questões que a vida coloca no quotidiano e reparte com eles a responsabilidade pelo rumo a dar aos destinos comuns.
Está longe de nós esse político. Está longe (no espaço e no tempo) dos portugueses esse 'género' de político. Mas há porventura outro género a quem possamos, própria e verdadeiramente, chamar político?

De Luis Moreira a 06.03.2012 às 22:46

Belo poste, tal como o do Miguel. E, realmente, não há...

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