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"Sei que, frequentemente, os sinais e os símbolos exteriores, visíveis e tangíveis da sorte e da ascensão, só aparecem quando, na realidade, tudo já se põe de novo a declinar."

Thomas Mann – Escritor alemão – Os Buddenbrook

Enviaram-me a parábola da formiga e da cigarra nas versões alemã e portuguesa (ver abaixo). Cá temos mais uma vez o eterno e enganoso esquema do “you are ok, I am not ok” enraizado em certas cabeças.

A resolução do problema consiste na adopção de um objectivo/desígnio diverso a nível nacional e a nível da UE. Isto reduz automatica e grandemente os problemas abaixo descritos, deixando apenas valores residuais de “cigarrice” que são normais e desejáveis em cada sóciosistema aberto. Uma vez que os antigos objectivos/desígnios da UE – maximização do bem estar para os países da UE – se encontram esgotados, a versão alemã da parábola hoje aproxima-se bastante à versão portuguesa. O potencial de diferença – tal como entre os partidos políticos – deixou de existir, sendo a confusão total.

Antes que o sistema “Merkozy” não baixe a bola, enquanto continuar a cavalgar “cavalos mortos”, não haverá fim pacífico da actual crise, precisamente porque todos os restantes parceiros da UE continuam a pensar que a solução consiste em cavalgar “cavalos mortos” – indicados pela troika, claro.

Diga-se de passagem: a não adianta que algumas “formigas” fujam e refaçam a sua vida em alguma “Suiçã”, o problema terá que ser ressolvido localmente, em Portugal. O país terã que continuar porque ainda tem muito para dar ao mundo – e para receber dele em troca. Com a estratégia certa e não a da troika!

P.S. Foram os “sinais e os símbolos exteriores, visíveis e tangíveis da sorte e da ascensão” aparentemente áureos e referidos por Thomas Mann, que se viu aqui em Portugal nos anos 90, nos tempos das “subsidiocracias de sucesso”. E o mesmo se passava a nível da UE – mas ninguèm quis saber.

Versão alemã

A formiga trabalha durante todo o Verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.

A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, bebe umas bejecas, dá umas quecas, vai ao Rock in Rio e deixa o tempo passar. Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada. A cigarra está cheia de frio, não tem casa nem comida e morre de fome.

Fim

Versão portuguesa 

A formiga trabalha durante todo o Verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.

A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, bebe umas bejecas, dá umas quecas, vai ao Rock in Rio e deixa o tempo passar. Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada.

A cigarra, cheia de frio, organiza uma conferência de imprensa e pergunta porque é que a formiga tem o direito de estar quentinha e bem alimentada enquanto as pobres cigarras, que não tiveram sorte na vida, têm fome e frio.

A televisão organiza emissões em directo que mostram a cigarra a tremer de frio e esfomeada ao mesmo tempo que exibem vídeos da formiga em casa, toda quentinha, a comer o seu jantar com uma mesa cheia de coisas boas à sua frente.

A opinião pública tuga escandaliza-se porque não é justo que uns passem fome enquanto outros vivem no bem bom. As associações anti-pobreza manifestam-se diante da casa da formiga. Os jornalistas organizam entrevistas e mesas redondas com montes de comentadores que comentam a forma injusta como a formiga enriqueceu à custa da cigarra

e exigem ao Governo que aumente os impostos da formiga para contribuir para a solidariedade social.

A CGTP, o PCP, o BE, os Verdes, a Geração à Rasca, os Indignados e a ala esquerda do PS com a Helena Roseta e a Ana Gomes à frente organizam manifestações diante da casa da formiga.

Os funcionários públicos e os transportes decidem fazer uma greve de solidariedade de uma hora por dia (os transportes à hora de ponta) de duração ilimitada.

Fernando Rosas escreve um livro que demonstra as ligações da formiga com os nazis de Auschwitz.

Para responder às sondagens o Governo faz passar uma lei sobre a igualdade económica e outra de anti descriminação (esta com efeitos retroactivos ao princípio do Verão).

Os impostos da formiga são aumentados sete vezes e simultaneamente é multada por não ter dado emprego à cigarra. A casa da formiga é confiscada pelas Finanças porque a formiga não tem dinheiro que chegue para pagar os impostos e a multa.

A formiga abandona Portugal e vai-se instalar na Suíça onde, passado pouco tempo, começa a contribuir para o desenvolvimento da economia local.

A televisão faz uma reportagem sobre a cigarra, agora instalada na casa da formiga e a comer os bens que aquela teve de deixar para trás.

Embora a Primavera ainda venha longe já conseguiu dar cabo das provisões todas organizando umas "parties" com os amigos e umas "raves" com os artistas e escritores progressistas que duram até de madrugada. Sérgio Godinho compõe a canção de protesto "Formiga fascista, inimiga do artista...".

A antiga casa da formiga deteriora-se rapidamente porque a cigarra está-se cagando para a sua conservação. Em vez disso queixa-se que o Governo não faz nada para manter a casa como deve de ser. É nomeada uma comissão de inquérito para averiguar as causas da decrepitude da casa da formiga. O custo da comissão (interpartidária mais parceiros sociais) vai para o Orçamento de Estado: são 3 milhões de euros por ano.

Enquanto a comissão prepara a primeira reunião para daí a três meses, a cigarra morre de overdose.

Rui Tavares comenta no Público a incapacidade do Governo para corrigir o problema da desigualdade social e para evitar as causas que levaram a cigarra à depressão e ao suicídio.

A casa da formiga, ao abandono, é ocupada por um bando de baratas, imigrantes ilegais, que há já dois anos que foram intimadas a sair do País mas que decidiram cá ficar, dedicando-se ao tráfego da droga e a aterrorizar a vizinhança.

Ana Gomes um pouco a despropósito afirma que as carências da integração social se devem à compra dos submarinos, faz uma relação que só ela entende entre as baratas ilegais e os voos da CIA e aproveita para insultar Paulo Portas.

Entretanto o Governo felicita-se pela diversidade cultural do País e pela sua aptidão para integrar harmoniosamente as diferenças sociais e as contribuições das diversas comunidades que nele encontraram uma vida melhor.

A formiga, entretanto, refez a vida na Suíça e está quase milionária...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:00


4 comentários

De Luis Moreira a 18.01.2012 às 18:30

Pois, está muito bem retratado.

De António Leal Salvado a 19.01.2012 às 00:47

Versão escandinava:
Durante o verão, a formiga trabalhou, armazenou víveres e voltou a trabalhar; a cigarra cantou, aprendeu novos poemas e voltou a cantar.
Chegado o inverno, a formiga recolheu ao seu celeiro, onde dormiu e comeu os seus víveres, por não poder trabalhar e continuar a trabalhar. A cigarra convidou a formiga para o seu abrigo, onde lhe transmitiu os poemas e as canções aprendidas no cumprimento da função que a Natureza lhe cometera.
Depois de um inverno de recíprocos convites e visitas, a formiga pôde voltar a trabalhar e a armazenar - e trabalhou e armazenou mais, graças à cultura que não só deu um sentido à sua existência, como a estimulou a trabalhar, como a ensinou a trabalhar mais produtivamente. A cigarra pôde voltar a cantar e aprender melodias, poemas e o sentido da Natureza - e cantou e aprendeu mais, porque a formiga trabalhou mais alegremente e a Natureza favoreceu que ambas sobrevivessem melhor, por terem cumprido solidariamente as funções complementares que tornaram ambas realizadas e permitiram a ela, Natureza, que continuasse o equilíbrio que não teria se tivesse apenas os reinos vegetal e mineral.
A fábula não teve fim - porque a Natureza, renovando-se e evoluindo, renovou o reino animal e deixou aos vegetais e minerais que continuassem a vegetar e a permanecer inertes, em exclusividade. Para todo o sempre

De Luis Moreira a 19.01.2012 às 00:57

António está muito bom, é de publicar como poste. Então com um link para este,,,esta visão poucos a têm...

De Anónimo a 06.01.2014 às 11:43

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