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Gargantas Fundas

por rui david, em 31.12.11

Relativamente a esta questão da venda da EDP a uma empresa chinesa com o sugestivo nome de Três (e supostamente profundas) Gargantas, acho o seguinte:

Na minha opinião, a falta de estratégia é (foi), pura e simplesmente, vender.

Tendo-se decidido vender e vendendo, as críticas, sem um conhecimento aprofundado, detalhado, de insider, dos trâmites e detalhes do negócio, são pura estultícia.

Desde o momento em que se decidiu vender (e pode dizer-se que a isso "fomos" "obrigados pela troika", mas suspeito que a troika apenas ajudou a impulsionar uma questão programática para a actual maioria), parecem-me muito frágeis os argumentos "estratégicos" dos críticos da venda à China, pelo menos enquanto não se souberem os contornos exactos das propostas e do negócio.

Claro que se nos colocarmos na perspectiva de que qualquer negócio feito pelo nosso governo (qualquer que ele seja) é uma vigarice, a dificuldade não é tirar as bolas do saco, é escolher o tom da "paleta" argumentativa de um exercício infelizmente largamente estéril.

O argumento de a China não ser uma democracia, então, e sobretudo quando é avançado pelo Bloco de Esquerda é de um ridículo atroz. E então quando é avançado pelos "liberais", é de rir.

Quem é que faz (ou não faz) negócios com a China por razões "humanitárias"?

Os americanos?

Os australianos?

Os franceses e os alemães?

Os ingleses?

Os portugueses?

E as "vantagens" da Alemanha? E as do Brasil?

Porque a Alemanha é nossa "parceira" na Europa?

Mas afinal isto é um leilão económico, ou é um leilão político? Ai agora já se reconhece a importância política estratégica para a nossa economia de uma empresa como a EDP (estas considerações, como é evidente, não se aplicam ao Bloco)?

A Alemanha, repito, a Alemanha da senhora Merkel e do "rigor orçamental", é nossa "parceira" amiga do peito e solidária estremosa que justifique que eventualmente se torçam as regras de avaliação das propostas por razões de política, numa contradição com os pressupostos de "transparência dos mercados" que levaram a vender a EDP e a andarmos há dois anos a sofrer a arrogância das críticas de "falta de rigor" (alcoólicos viciados, como nos chamou recentemente um imbecil qualquer de um banco alemão) com que qualquer esperto com domicílio a Norte dos Pirinéus e com um teclado, câmera ou um microfone à mercê, nos dirige amiúde com sobranceria impune?

O mesmo para o Brasil: adoramos o Lula, gostamos da Dilma, achamos o samba fantástico, o futebol, somos países irmões.

Mas o Brasil (e ainda mais uma empresa brasileira...) moverá uma palha enquanto Estado ou enquanto empresa responsável perante os seus accionistas que sabe-se lá quem são, para "favorecer Portugal" (se é que se poderá hoje entender o que será para um outro país soberano "favorecer Portugal"), não procurando maximizar os resultados económicos de qualquer operação, isto é, "prejudicando-se”?

A que título? A que propósito?

Os chineses têm má fama. Têm maus antecedentes em África. São de longe. Estão a "invadir-nos". São criticados porque têm sucesso económico com um sistema que desrespeita os direitos humanos, em países onde reina o despeito porque mesmo com o nivelamento para-chinês que têm vindo progressivamente a impôr aos direitos do trabalho e o aumento da desigualdade alcançado numa violenta Reavolução que dura há mais duma década e não mostra sinais de abrandamento, não conseguem apresentar estatísticas suficientemente auto congratulatórias. Tudo certo.

Mas nem ao nível do “cidadão” há notícia de engulhos com a ausência de direitos humanos na China (essa pecha vai, felizmenten desaparecer em Portugal, agora que a EDP é "chinesa". Agora sim, vão multiplicar-se as campanhas, as indignações...).

Ninguém se lembra dos direitos humanos dos chineses e da sua liberdade de expressão na hora em que, como "consumidores" (o proletariado iluminado dos ultra-liberais, a par com essa outra arma de arremesso que é o "contribuinte"), vamos às lojas comprar produtos luxuosos a preços “competitivos" porque fabricados nos sweat shops onde não há horários de trabalho nem direito à greve nem nada, o paraíso realizado dos coelhos, álvaros e respectivos apoiantes. Pelo contrário, indignamo-nos porque há ainda uns atrevidos que fazem greves, CÁ.

Ah! Dizia num outro dia um sagaz comentador: a EDP foi nacionalizada pela China.

Boa e acutilante laracha.

Pois se calhar foi. Mas o relevante é que esse comentador e muitos outros que andam eufóricos com “redução do peso do Estado”, esquecem que para a China nos nacionalizar aos bocados, nós tivemos que desnacionalizar esses bocados. Alegremente. Quem é que nos mandou ser, quem é que nos manda estar a ser, mais uma vez, estúpidos?

Colocando-me no mesmo plano especulativo de avaliação de hipotéticos méritos e deméritos dos concorrentes, parece-me que a escolha dos chineses, naquilo que eventualmente extravase o puro e simples enquadramento económico do negócio, que eu imagino escassíssimo, tem duas grandes vantagens:

1-      É uma associação estratégica com uma das economias mais poderosas do planeta neste momento, provavelmente a única que não está endividada até ao pescoço.

2-      Pelo facto de não ser uma democracia liberal (o que, neste momento, começa a tornar-se um eufemismo para designar regimes sem autonomia política em relação aos mercados financeiros), a par de ser um país onde se atribui grande importância a um certo simbolismo, é provavelmente o único concorrente em condições de, em determinadas condições e locais, nos oferecer (ou a alguns empresários portugueses) vantagens políticas convertíveis em benefícios económicos.

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publicado às 14:18


2 comentários

De Francisco Clamote a 31.12.2011 às 17:22

Concordo. Como escrevi há dias: "Assim como assim, antes assim".

De Luis Moreira a 01.01.2012 às 02:37

Eu já disse isto e o seu contrário, por isso concordo.Mas tendo como parceiros estratégicos a UE e os PLOPs, vender à China, pode encher os cofres, mas de estratégia e de coerência estamos conversados.

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