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Protesto à carta aberta de um emigrante

por António Leal Salvado, em 22.12.11

Li essa tua carta aberta dirigida a um alto figurão e mais a dois comparsas dele, o profissional que está de facto acima dele, de tantos yes que ajoelhou, e o outro profissional do yes candidato a chegar tão alto quanto os antecedentes dois, sabe-se lá que a gente já acredita em tudo.

Estou desapontado contigo, António Filipe! Tu, um homem para quem foi demasiado pequeno o país que estes merdas (ripostas? São mais do que isso?) estão a fazer regressar a essa minúscula e vil dimensão, que é a dimensão deles – tu, com a generosidade que fez toda a tua vida, escreveste a sábia e comovente carta que eu li, para a mandares a quem? Mandaste uma carta dessas à merda? É assim que se fala, é! – não estás tu farto de saber que só a verdade é revolucionária?

Não te perdoo os destinatários com que desonraste a tua honrosa escrita. E tu sabes, melhor que eu, porquê.

Escreveste a quem não sabe ler. Não sabem ler, eles, porque não querem, porque não sentem e sobretudo porque não lhes convém – e o que lhes convém é que conta, é o que toda a vida contou para eles, para as escolhas políticas que aceitaram que lhes fizessem, para o simulacro de formação académica ou profissional que agradeceram que lhes vendessem, para os empregos que aceitaram que lhes pagassem a indecência, para o património e a dignidade do seu país que aceitam barganhar por uns trocos pessoais.

Em segundo lugar, a tua carta é escrita a quem se vai servir dela com a mesma conveniência com que sempre se ajeita diante do polvo a quem serve.
Os destinatários da carta mostrarão 'bons serviços' e canina fidelidade aos seus amos, alertando-os para a tua perigosa lucidez e para o sinal de que a lucidez é o mais 'tóxico' dos ativos dos 'recursos humanos' a que outrora se chamava 'gente'. E os amos lhes darão (a eles, claro) mais um jeitinho em numerário e em 'cáusulas de salvaguarda' para que quanto antes se evite o 'contágio' do inconformismo. E receberão dos seus amos autorização e chancela para expoliar os contribuintes no bastante para comprar as colunas qb nos tablóides que servem de correio pela manhã. E mais as de um qualquer pasquim de público nome e privados negócios. E mais o ecran de um qualquer canal de sociedade independente-de-comunicação. E pagarão, por sobre isso, as décimas de défice público que forem necessárias pelos especialistas pareceres e estatísticas e números (devidamente sujeitos a notação internacional) qb para propagandear a inevitabilidade do empobrecimento e a fatalidade do eterno avolumar da desgraça nacional e a indispensabilidade da punição social.

Finalmente, escreves uma lição de vida a quem só conhece o caminho da morte. Escreves sentimentos a quem não tem coração e valores a quem não tem alma, escreves palavras de crítica a quem primeiro só aprendeu e praticou a política do yes – e agora apenas pratica e aceita yes dos men que o rodeiam. Escreves palavras de Homem a umas coisas reles quaisquer. Tu, meu caro, apontas alternativas a quem só admite e concede a opção entre ajeitar-se na lama do yes ou emigrar (para, de um ou outro modo, se despojar do que há de essencial no ser humano – isto é, o cívico suicídio). Tu disponibilizas razões a quem as receberá como pretexto. Pretexto para dizer, com outras e mais fortes palavras, o mesmo que já vem dizendo: “Alternativa? Suicidem-se!”

Quanto ao conteúdo da tua carta, nenhuma palavra sei dizer à altura. Reajo-lhe apenas com uma cívica, sentida e solidária Vénia.
- - -
P.S. – Para que não haja dúvidas de que qualquer coincidência é mera realidade, fique a constar que esta minha vénia se refere à crónica “Galiza, ficas sem homens…”. A minha assinatura está no topo do post.

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publicado às 00:03


1 comentário

De Luis Moreira a 22.12.2011 às 01:11

Uma carta que é de uma dignidade muito grande e um protesto onde para além do esmero da escrita, ressalta uma amizade que só alguns conseguem. Um abraço aos dois.

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