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Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão

por António Filipe, em 21.12.11

Nos últimos dias os nossos governantes têm aconselhado o povo a emigrar. O povo que os elegeu, note-se! Primeiro foram os desempregados, depois os jovens, depois os professores. Um deles até se deu ao luxo de propor a criação de uma “agência nacional para ajudar os portugueses a emigrar”. Como ele se está marimbando para ajudar os portugueses, esta agência deve servir para criar mais uns tachos para mais alguns “boys” que ainda estão na lista de espera. A este último quero dizer que emigrar não é o mesmo que ter um tacho na Bélgica. Ir para um país estrangeiro, onde não se tem amigos e, muitas vezes, nem se sabe a língua não é a mesma coisa que ser eurodeputado em Bruxelas, onde já está garantido um emprego (por sinal, a ganhar muito bem e com todas as mordomias) e onde já tem amigos e colegas e, se não entender a língua, basta colocar uns auscultadores nos ouvidos (que é coisa que, muitas vezes, estes governantes não têm) e ouvir a tradução para a sua língua materna. Não, isso não é emigrar. Isso é deixar uma “zona de conforto” para ir para uma zona de maior conforto. Emigrar é aquilo que os meus pais fizeram há quarenta e tal anos, abandonando a família e os amigos, sem saberem nada sobre o país de acolhimento e onde não havia auscultadores para tradução. E eu só me pude juntar a eles mais tarde. E sabem porquê? Porque os governantes (fascistas, na altura) não me deixaram ir com eles. E agora, já de regresso, encaro com uns governantes (democratas, dizem eles) que me mandam emigrar. É irónico, não é?
Precisamente por ter sido emigrante durante cerca de doze anos é que estas declarações me chocam profundamente. Deixei o meu país por razões económicas. Alguns anos depois, ouvi alguns dos governantes portugueses da altura (entre eles, Mário Soares) a incentivar os emigrantes a regressarem a Portugal. “Vão para Portugal, que, agora, aquilo está bom e já existem condições para uma vida melhor”. Mais tarde, regressei a Portugal com a minha família. Não porque acreditasse nos políticos que me pediam para regressar, mas porque as saudades da minha terra e dos meus amigos me assaltaram. E também porque acreditava que o meu país estaria melhor do que quando o deixei uma dúzia de anos antes. Só eu sei como estava enganado. Ao regressar, percebi, em pouco tempo, que tinha deixado a minha “zona de conforto” no país estrangeiro. Mas nem por isso desisti. Arrependi-me algumas vezes, mas nunca, durante os vinte e quatro anos que já passaram, pensei em voltar a emigrar. Tenho tido muitas dificuldades, tenho aturado muitas coisas a que não estava habituado, mas há qualquer coisa que me ultrapassa e que sempre me deu a sensação de que aqui é que eu estou bem. Tenho um filho que nasceu no estrangeiro. Para ele seria facílimo regressar ao seu país de origem, onde, tenho a certeza, teria um futuro melhor. Mas nem a ele eu aconselho a deixar Portugal. É qualquer coisa inexplicável!
Por isso, Exmos. Senhores Miguel Relvas, Paulo Rangel e Passos Coelho, não lhes reconheço autoridade nenhuma nem acho que tenham competência nenhuma para me mandarem emigrar. Nem a mim nem ao meu filho. Para mim, já não peço nada. Vocês e outros iguais, já me tiraram quase tudo. Mas criem, isso sim, condições para que o meu filho possa ter, neste país, um futuro condigno, como é seu direito. É esse o vosso dever. Essa é a vossa obrigação. CUMPRAM-NA. Ou, então, emigrem vocês. Os portugueses agradeciam e, para fazer e dizer o que fazem e dizem, não fazem cá falta nenhuma.
 
ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO

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publicado às 17:30


6 comentários

De Rogério Costa Pereira a 21.12.2011 às 17:48

"É qualquer coisa inexplicável" (aproveitando parte das tuas palavras) o que se sente ao ler o que acabaste de publicar. Hoje sou eu que me ergo, Filipe. Não para ler de pé, mas para recordar, uma vez que acho que decorei cada palavra (ao menos o sentido).
E destaco um ponto, O PONTO que também a mim tanto me atenta. A questão dos filhos. O meu tem 4 anos, como sabes. Ando entre a raiva, o choro, o riso e a loucura. O que estes gajos estão a fazer ao meu filho não tem perdão. 
Abraço,
Rogério

De Luis Moreira a 21.12.2011 às 17:48

Toda a razão! Também tenho família que emigrou e sei como era dificil e como eu, que cá fiquei, andava angustiado por os ver longe da sua terra. Mas incentivei o meu filho a ir para o estrangeiro e ele lá percebeu que há uma vida melhor, que há horizontes, que há gente que nos aprecia ao contrário destes trastes que ao longo de vinte anos nos foram empobrecendo.

De António Filipe a 21.12.2011 às 18:39

Pois é, Luís. "Gente que nos aprecia". Foi disto que senti mais falta, quando regressei a Portugal. É triste verificar que somos mais apreciados no estrangeiro do que na nossa própria terra. Essa é, também, a minha experiência. Não me refiro aos amigos, que esses apreciam-nos em todo o lado. Portugal perde muito por não dar valor aos seus. Tive oportunidade de verificar e verifico ainda hoje que muitos portugueses que, lá fora, vencem e convencem, nunca conseguiram chegar a lado nenhum no seu próprio país. E não me venham com a cantiga que é porque, no estrangeiro, trabalham mais. Cá só se dá valor ao Sr. Doutor, ao Sr. Engenheiro, ao Sr. Prior, mesmo que não valham nada.

De Luis Moreira a 21.12.2011 às 19:02

É isso mesmo António Filipe. O meu filho esteve em Itália a tirar o curso de Arquitectura. Á porta da faculdade convidaram-no a ir para a Holanda trabalhar. Foi incorporado numa equipa que arquitectos que fizeram várias coisas em Portugal. Centro Comercial de Almada, Hotel no Chiado, Casa da Música. Tratavam-no como um colega. Mais novo mas como colega. ganhava como arquitecto. Os colegas dele que ficaram aqui ganhavam 500 euros e andavam a tirar fotocópias. Esta atitude profissional e digna  só vinga em sociedades assentes no mérito. Aqui o tipo que nos olha do alto da burra é o gajo do emprego certo que tem dois empregos e que sabe que o "conhecido" o mete noutro lugar qualquer. Ainda hoje em Portugal há muito gajo que julga que nos pode calar, porque conhece a,b ou c! Sei do que estou a falar! Experiência própria e ai de quem não verga a cerviz...

De António Leal Salvado a 22.12.2011 às 16:41

Esta tua carta aberta, caríssimo Companheiro, nunca chegará aos seus três destinatários formais diretos, nem aos destinatários formais indiretos (nem sei quantos são estes).
Mas deveria chegar ao destinatário e interessado direto, esse imenso Coletivo que pode e deveria compreender-te - e de quem, afinal, tu recebeste e recebes sempre a voz que te sai.
Por uma razão e pela outra, associo-me a ela respondendo-lhe pelo meio que me parece mais próprio. Chamar-lhe-ei protesto. Só para dizer que estamos vivos, tu e eu. Só para dizer, a quem o possa ouvir, que me mantenho vivo sempre que percebo como tu estás vivo - e a tua Honra de homem de consciência de outros tempos vive como a Honra do Homem de sempre. Do futuro, portanto.
Um fraterno abraço.

De Ana Paula Fitas a 23.12.2011 às 23:35


Caro António Filipe,
Fiz link...
Votos de Boas Festas :)
Um abraço. 

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