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Retrato de um Portugal alternativo

por Rogério Costa Pereira, em 29.05.09

Manuela Moura Guedes, incorrendo num manifesto erro de apreciação do carácter de Marinho e Pinto, convidou-o para o habitual desfile de sexta-feira. Claramente, MMG não fazia ideia de quem era MP, tirou mal as medidas ao adversário e a coisa deu no que deu. Quem diz o que quer, ouve o que não quer.


Curiosamente, isto aconteceu precisamente na única entrevista em que eu poderia subscrever algumas palavras da apresentadora do show – designadamente, ao demonstrar a contradição em que MP incorria por não convocar  agora a assembleia-geral a que, há cerca um ano atrás, perspectivando - mas não crendo - em tal cenário, tinha dito sim, senhores, não deixarei de o fazer.


Ao contrário de algumas opiniões que tenho ouvido, incluindo a do eclipsante Carlos Abreu Amorim, tenho a certeza que MP não ia preparado para o que sucedeu, o mesmo que dizer que não tinha planeado aquele tipo de reacção, nem sequer como plano B. MMG foi enchendo o copo, naquele seu aprazível estilo gota-a gota, e deu-se o inevitável. MP, honra lhe seja feita, não é de mandar recados e não reage a frio, que acredito será o equivalente dele ao conceito de extemporâneo.  


Só quem não conhece MP, e seria o caso da MMG, poderia esticar tanto a corda perante tal competidor (foi assim que a entrevista foi pensada: como um duelo).


Embora tenha apreciado algumas das verdades que MP bradou, não posso deixar de sublinhar que, mais uma vez, MP se esqueceu do cargo que ocupa. Esqueceu-se que quando fala, falamos todos, quando asneia, asneamos todos. Mas, ninguém mo tira da cabeça, MP tem a sua agenda fora da Ordem – não sei se política, se extra-política, mas tem-na. Claramente. Poderia elencar mais motivos, mas quedo-me pela inusitada proposta de revisão dos estatutos e a retirada, para a frente e em força, de apoios aos conselhos distritais.


Entretanto, o capital, chamemos-lhe mediático, que MP já amealhou começa a ser apetecível para grupelhos políticos cujo discurso demagógico não difere muito do daquele. Não há pedra que não revolvam, desgraçados a que não acudam, incêndio que não ateiem para depois fazer de conta que o apagam. MP, de metralhadora na mão, atira a torto e a direito, no que faz lembrar aqueles jogos de computador onde seria suposto matarmos apenas os maus que nos aparecem. Para MP e para quem o há-de apoiar noutras guerras, parece ser legítimo, e porque não?, arrancar o sobreiro se tal for necessário para abater a erva-daninha.


A ironia de tudo isto é que, o traço final do perfil que MP procurava desenhar para si foi feito, ao estilo do feitiço que se vira contra o feiticeiro, no menos expectável dos cenários, tendo em conta as recentes declarações de MP sobre o caso Freeport. Na TVI.


Entretanto, mudando de dia, e para baralhar mais ainda cabeça aos extra-terrestres que nos perscrutam, a ERC deliberou. E quando a ERC delibera tudo pode acontecer. Desta feita, começa por reprovar “a actuação da TVI por desrespeito de normas ético-legais aplicáveis à actividade jornalística”, após o que a insta (o quer que isso queira significar em termos de acção-reacção pretendida) a cumprir de forma mais rigorosa o dever de rigor e isenção. Qual seja, exactamente, a consequência do desrespeito por tão impositiva advertência ninguém suspeita. De seguida, e já no domínio do melhor nonsense, a ERC considera “verificada, à luz da análise efectuada, a possibilidade de a TVI ter posto em causa o respeito pela presunção de inocência dos visados nas notícias”. Considera verificada a possibilidade! Estamos, pois, perante um juízo em que o decisor não tem a certeza do que decide, porque, convenhamos, considerar verificada a possibilidade de algo ter acontecido é exactamente o mesmo que considerar verificada a possibilidade de algo não ter acontecido. E, na dúvida, absolva-se. Foi isso que a ERC, sem dizer, quis dizer – e curiosamente, ou talvez não, no mesmo ponto onde alude ao instituto da presunção de inocência. E para que ninguém fique com dúvidas, lá vai outra no cravo: a ERC reafirma, “sem prejuízo do antes exposto, o papel desempenhado pelos órgãos de informação nas sociedades democráticas e abertas como instâncias de escrutínio dos vários poderes, designadamente políticos, sociais e económicos”. Reafirmar sem prejuízo do antes exposto, quando o antes exposto é incompatível com que ora se expõe equivale, salvo melhor opinião, a dar o dito por não dito. Que é como quem diz, para a frente é que é o caminho.


Confusos? Habituem-se, que este retrato à desgarrada promete ser o do Portugal dos tempos que hão-de correr.


 


Em tempo: "O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas considera reprovável o desempenho da jornalista Manuela Moura Guedes na condução do "Jornal Nacional - 6ª", na sequência da discussão que a apresentadora teve em directo com o bastonário da Ordem dos Advogados." [DN]

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publicado às 16:12


27 comentários

De Clyde a 29.05.2009 às 17:41

A 23 de Maio de 1934, uma patrulha de agentes policiais conseguiu atrair Bonnie & Clyde para uma emboscada numa estrada poeirenta da Louisiana, onde foram assassinados a sangue-frio.

Na América dos anos 30, da Grande Depressão e das Vinhas da Ira, Bonnie & Clyde, através dum conjunto de assaltos audaciosos a bancos, bombas de gasolina e lojas, conseguiram captar a imaginação do povo americano, tornando-se ícones duma contra-cultura de insubmissão e resistência.

75 anos depois, o FBI divulga 1000 páginas sobre o mais famoso casal de gangsters. O mesmo FBI que só foi capaz de emboscar e assassinar Bonnie & Clyde, através da clássica delação de associados menores...

De fernando antolin a 29.05.2009 às 18:15

Palavras que dá gosto ler. Creio que, no entanto, alguns devotos do respeitinho atento venerador e obrigado, ao Líder, vão torcer o nariz...

De j a 29.05.2009 às 18:17

Não me revejo no estilo nem de MP nem de MMG. Nem de RCP.
Mas felizmente que existem pessoas (in)convenientes.
E que também existe o RCP, caso contrário, não estaria aqui a perder o meu tempo a “dar-lhe tempo de antena”.

Não sei se «MP tem (ou não) a sua agenda fora da Ordem». Nem tal me interessa.
Mas ainda bem que MP fala dos podres da advocacia e da justiça, também de algumas más práticas policiais, achando bem que se indigne publicamente.
Tal não significa, nem ele alguma vez o disse, que os advogados, os magistrados e as polícias, e os políticos, não sejam instituições dignas e que merecem respeito.

Quanto a MMG, não concordo com linha editorial como faz jornalismo, manifestamente provocatória e opinativa.
Mas bem pior é o jornalismo sectário mascarado de uma independência cínica.
Pior ainda são os fretes que algum jornalismo faz aos agentes políticos, da esquerda à direita.
Pior, ainda, é o analfabetismo de muitos profissionais da comunicação que chumbavam no exame de admissão ao antigo Ciclo Preparatório.

De jorge c. a 29.05.2009 às 18:20

Quem é o Carlos Alberto?

De jmvfaria a 29.05.2009 às 18:25

Marinho Pinto sabe quem é Moura Guedes. Marinho Pinto sabe o que é o Jornal Nacional da TVI. Marinho Pinto disse o que lhe ia no subconsciente ( atirar sobre MMG e a TVI), aproveitou a o epíteto de bufo! Quando esteve toda a entrevista a bufar, sem dizer nomes ( também não se diz o nome da prostituta ou do traficante de droga!). MP é um bombista à solta curiosamente sempre ao lado do PM . Há coincidencias.

De Rogério da Costa Pereira a 29.05.2009 às 18:29

Abreu, porra.

De jorge c. a 29.05.2009 às 18:30

No fundo, não és mau rapaz!

De Rogério da Costa Pereira a 29.05.2009 às 18:34

Era mesmo aí que eu queria chegar.

De fernando antolin a 29.05.2009 às 18:46

Estou comovidíssimo com o comunicado do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. Sei lá , lembra-me o motu do escutismo , "sempre alerta" ...

De Pedro Jordão a 29.05.2009 às 19:26

Tenho perfeita consciência de que o meu comentário é um pouco despropositado, pelo que não é para ser visto como argumento de ataque, mas tenho curiosidade: qual é o perfil ideal de um Bastonário dos Advogados? Alguém como o José Miguel Júdice serve, mesmo com acções como a que o levou a um processo disciplinar?

De qualquer modo, arrisco dizer que se não fosse o estilo e a proveniência não haveria este tumulto à volta das declarações do Marinho e Pinto. Aparentemente é a única pessoa neste país que não pode denunciar a corrupção e a incompetência sem concretizar nomes. Entenda-se: as generalizações são estéreis, não as defendo, mas vejo meio país com ditames do género, incluindo o Presidente da República e inúmeros notáveis, sem que haja qualquer onda de choque.

Por último, a ERC pode ser outro caso de inutilidade, mas já é tempo dos jornalistas não se limitarem a defender a liberdade de informação e passaram a defender com o mesmo vigor o dever de informação. Há uma responsabilidade que não se esgota na lógica do "só lê/vê quem quer" de que alguns se servem para defender a desinformação da TVI.

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