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Isto é tudo uma farsa

por Rogério Costa Pereira, em 04.12.11
Isto da crise, dos mercados, da troika, do governo-fantoche. Isto desta democracia que de democracia mantém apenas o nome, em que o povo vota e é o próprio governo eleito, bem sei que não se elegem governos, e é o próprio governo eleito que abdica de governar, aceitando ser testa-de-ferro de um casal franco-atirador, perdão, franco-alemão. Casal que, por sua vez, é a voz de donos bem mais poderosos. Isto é tudo uma farsa. Petróleo e armas, tudo se resume a isso, é certo. E nem ousem chamar-me ingénuo, vós que acreditais em mercados sem ser os do peixe e da carne; vós que por eles se governam. Outra ficção. A democracia funciona, que Não restem dúvidas, a questão é que já há muito que não vivemos em democracia. A ilusão da liberdade de expressão, com essa é que eles nos levaram. Por aí nos deixámos perder. Deram-nos a ilusão da vitória, a ilusão que contamos para a decisão. E enquanto olhávamos para outro lado, deliciados com tanta liberdade, não nos apercebemos que nos iam enfiando uma camisa de onze varas (são onze, não sete) e conduzindo como um rebanho. Para aqui. E aqui chegados, para aqui empurrados, pintam-nos as casas de azul e nós dizemos que sim, depois arrancam-nos o tecto e rebentam com as paredes. E nós que sim. Que a gente cá se governa, mal ou bem, cá se vai andando. Afinal se nos juntarmos todos, assim muito juntinhos, nem sentimos o frio. É mesmo necessário, não é? Então seja. Levem o que quiserem. Os dedos? Se tiver de ser, que já não tenho anéis e não preciso dos dedos para nada. Levem, levem. E se me apanharem a pisar a relva, abatam-me. É a lei que diz. Agora não se pode pisar a relva. É um dos muitos crimes ora punidos com a pena capital. Parece que tem de ser, que a pirâmide inverteu-se e estamos a viver demasiado tempo e depois somos um estorvo para o Estado. É muita gente dependente, gente que já não produz. E o Estado Social assim não se aguenta. Agora puseram-nos este chip explosivo na cabeça com relógio a apontar para os 65. Que temos de compreender. E a gente compreende, caramba. Há que respeitar o défice. São uns números que têm de ser assim pequeninos, percebem? E as empresas fecham e as pessoas morrem à fome ou com falta de ar; agora que se paga para respirar há muitos a quem cortam o ar. Sem pré-aviso. Diz no contrato que já vinha assinado nos dois lados. Que nos cortavam o ar. Um vizinho meu morreu assim, depois de ter sobrevivido duas semanas a respirar-me o ar que se me fugia pela porta mal calafetada. Mas a gente habitua-se a tudo, até às injecções na testa que agora temos de levar todos os dias. É tudo pelo país, catano. É para trabalhar mais tempo sem que nos venha o sono, que as dezoito horas diárias afinal não chegam e tiveram de passar para as vinte e duas. E nós vamos andando, de sorriso tatuado no focinho, que também saiu uma lei que a isso obriga. E o trabalho liberta. E agora chamam-me para o banho; espero que seja desta, espero que seja desta, espero que seja desta... Tem sido uma desilusão ver água sair daquelas torneiras. É que começo a ficar cansado, dói-me o corpo todo. E tenho saudades do início deste post, em que a vida era mais fácil.
Isto é tudo uma farsa, percebem? Nada disto é fado, basta acreditar que é possível uma só pessoa mudar o mundo. E se forem duas já são duas. E assim por diante. É que isto é tudo uma farsa, percebem?

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publicado às 02:48


3 comentários

De António Filipe a 04.12.2011 às 16:17

Eu vou mais longe e arrisco-me a fazer uma afirmação que, há poucos anos, acharia pouco feliz e até reaccionária: “O povo é a farsa”. A esta triste e infeliz conclusão cheguei nos últimos (poucos) anos. Demasiado simples de justificar. Senão, vejamos:
Estou à mesa do café, em amena conversa com um grupo de pessoas e todos, mas todos, estão de acordo que tudo isto está mal, que este governo só nos prejudica, que temos de fazer alguma coisa, que..., que..., que... Refilam, barafustam, protestam. Dois ou três dias depois, numa manifestação contra as portagens nas SCUTs, quantas destas pessoas lá encontro? Zero. Mais alguns dias depois, numa manifestação contra as medidas de austeridade, quantas destas pessoas lá encontro? Zero. Chega a altura das eleições e quantas destas pessoas votam sempre nos mesmos (aqueles contra os quais refilam, barafustam e protestam)? Todos ou quase todos.
Por estas e por outras, tenho que afirmar: “O povo é a farsa”.
Querer mudar as coisas com conversas de café não chega. Convençam-se disso. Eu já participei numa “revolução” com um cravo vermelho na ponta do cano de uma G3 e nem isso resultou. Demorou pouco tempo até que os farsolas regressassem. E o povo deixou. E o povo perdeu. E o povo, de humilhado passou a pisado. E o povo gosta assim, embora diga que não.
O povo é uma farsa. E os farsolas aproveitam.

De Luis Moreira a 04.12.2011 às 17:28

Pois, essa é a verdade, meu caro.Mas as pessoas apesar de sentirem que isto é muito injusto têm as suas vidas e têm muito a perder. Não é por serem burras.

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