Sobre a Política do Governo de Passos Coelho: Segredo, Necessidade e Razão de Estado
Em Massa e Poder (1960), o Nobel da Literatura - Elias Canetti -, dedicou um capítulo ao segredo e iniciou a sua reflexão de uma forma contundente: "o segredo está no núcleo mais íntimo do poder". Considerado, desde a doutrina clássica da Razão de Estado inaugurada por Maquiavel, como uma parte obscura e redutível do poder político, o problema do segredo regressa, creio, à esfera pública hodierna após a discussão e aprovação secretas do diploma que decreta o congelamento das reformas antecipadas. Ao que parece, os velhos segredos do poder, os arcana imperii, que permitiram a imposição e conservação do poder autocrático, estão de volta.
Estávamos a 29 de Março. Pedro Passos Coelho reúne o Conselho de Ministros (Conselho que de conselheiros a sério tem muito pouco), e aprova, em segredo, "a suspensão imediata das normas do regime de flexibilização da idade da reforma antes dos 65 anos". O diploma foi, posteriormente, promulgado pelo Presidente Cavaco Silva, não sabemos se "p'la calada da noite" ou se "p'la calada" do dia, e, por fim, tornado público, também no sentido de "visível", em Diário da República a 5 de Abril.
Ora, de um modo estremamente simples e exotérico temos a seguinte constatação: naquele que deveria ser o "governo do poder visível" (a democracia segundo Norberto Bobbio), o executivo de Passos Coelho recorre à chamada "política de gabinete", nas palavras de Carl Schmitt, para, a portas fechadas, realizar e impor deliberações que nem sequer se adaptam à democracia dos antigos - discutida na praça pública -, quanto mais àquela que deveria ser a democracia dos modernos - assente na visibilidade e na transparência das práticas do poder. É esta a racionalidade que rege a política do actual governo. Uma ânsia política, uma praxis que se liberta do Direito e da moral, que escapa ao controlo dos "súbditos", porque sabe que os "súbditos" não aceitariam tais disposições se estas fossem tornadas públicas no momento da sua discussão. E nem o Presidente da República escapa a tal praxeologia política. Ao alegar "interesse nacional" para promulgar o diploma, Cavaco Silva recuperou as técnicas racionais e objectivas da ratio reipublicae, dos meios racionalizados do poder que impõem, em nome do "interesse público", medidas que nem sequer necessitam de ser explicadas, porque está em causa a "sobrevivência do Estado"(Maquiavel, Giovanni Botero...).
Em resumo, e de forma assustadora, eis a três condições que determinam a política do actual governo: o critério da necessidade, pois estamos nas mãos da Troika; a justificação dos meios mediante um fim superior, com a benção de Cavaco Silva; e a exigência de segredo, para ludibriar o povo;
Nota: Sobre política, segredo e representação de interesses veja-se: Hélder Prior, O Segredo e o problema da Esfera Pública: como a partidocracia fomenta os segredos do poder, in, Caleidoscópio, Revista de Comunicação e Cultura, Nº10, Edições Universitárias Lusófonas, 2011.
Hélder Prior

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