Sábado, 12.05.12

"Isto não está a resultar, dr. Gaspar" *

por Francisco Clamote às 17:43
"Em 2010, o sector de construção empregava mais de 600 mil pessoas. No final de 2011, já só dava trabalho a 450 mil. E a previsão é que em dezembro deste ano não empregue mais de 250 mil pessoas. Responsáveis do sector dizem que se não forem tomadas medidas urgentes nos próximos seis meses, o colapso do sector será inevitável.

Nos primeiros três meses do ano, mais 27.822 famílias deixaram de conseguir cumprir os  compromissos que tinham assumido com os bancos à média de 306 famílias por dia (...)

Nas empresas, o incumprimento também está a aumentar rapidamente. (...) Olhando para o conjunto, mais de um quarto das empresas não consegue cumprir as suas responsabilidades (...)

O poder local encontra-se numa situação "dramática"  de asfixia financeira (...)

(...) a crise tem provocado novas injustiças e acentuado outras que vêm do passado (...)

O Governo em geral e o ministro das Finanças em particular acreditam na tese de que aplicando uma brutal dose de austeridade à economia, ela ressurgirá forte, dinâmica, inovadora e exportadora no final da aplicação da receita. Como é óbvio, chegaremos ao final deste ajustamento mais pobres, com maiores desigualdades, mão de obra muito barata e com os melhores fora do país - e não à terra de leite e mel que Passos e Gaspar nos prometem. É necessário, imperioso e urgente inverter o rumo. A economia portuguesa está a morrer, varrida por um tsunami fundamentalista. E sobre os seus escombros só será possível construir um país que perdeu o comboio do futuro:"


(*Título de um artigo de Nicolau Santos, publicado na edição de hoje do "Expresso", donde transcrevi os extractos supra)

Sexta-feira, 11.05.12

Não estará na hora de ser ele a mudar de vida?

por Francisco Clamote às 23:19
Perante as previsões avançadas pela União Europeia, traçando um cenário, para 2012, bem mais negro do que o desenhado pelo Governo (recessão de 3,3%, contra 3%;  desemprego de 15,5% contra 14,5%, com o défice público a suplantar a meta dos 4,5%  a que o governo se  obrigou) Cavaco, refugiando-se na afirmação de que não tem delas conhecimento, prefere acreditar na "possibilidade de inversão da tendência da produção na parte final do ano" , se bem que a sua fé não seja por aí além, pois,  ninguém [nem ele]  consegue dar garantias. Cavaco, cada vez mais consciente de que se meteu num grande sarilho, entrou, definitivamente, num processo de negação da realidade. 

Mas não é o único. O ministro Gaspar, o tal que não mente, não engana, nem ludibria os portugueses, escusou-se hoje simplesmente a comentar as previsões, fugindo a sete pés dos jornalistas que o questionavam sobre o assunto. Perante a insistente exibição dos números, o ministro recusa-se a vê-los ou a ouvi-los, quanto mais a comentá-los. 

Mas o cúmulo do desplante na negação da realidade não pode deixar de ser atribuído à dúplice figura que dá pelo nome de Passos Coelho. Para o em má hora designado primeiro-ministro de Portugal, o drama maior que é o estar desempregado (digo eu)  não pode, ser visto (disse-o, também hoje,  Passos/Coelho) como "um sinal negativo", defendendo  mesmo que o "despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida".

Quem profere afirmações destas não está só a dar provas duma enorme insensibilidade para com os milhares que se encontram na situação de desempregados, situação pela qual é ele, presentemente, o maior responsável   devido às políticas que adoptou e que desde sempre se soube que só poderiam ter um desfecho possível: o desastre social. O fulano está também a gozar com todos nós, a começar por quem votou nele e por quem o designou como primeiro-ministro. 

Não terá ainda chegado a hora de também ele mudar de vida? 

Quinta-feira, 10.05.12

Mais um que não sabia o que era a Ongoing

por Francisco Clamote às 22:41

 


Tal como o ex-deputado Branquinho e companheiro de partido de Miguel Relvas, também este não fazia a mínima ideia do que era a Ongoing. E muito menos sabia ainda que o ex-espião Jorge Silva Carvalho, já era quadro da Ongoing, quando lhe enviou, "por correio electrónico,  um relatório detalhado com um plano para reformar os serviços de informação, propondo para directores do SIS (Serviço de Informações de Segurança) e do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) funcionários da sua confiança e apontando ainda os nomes daqueles que não deveriam assumir cargos dirigentes."
É "claro" que Relvas não sabia, nem uma coisa, nem outra e eu muito menos sei se o relatório foi elaborado a pedido do destinatário, ou se a sua elaboração e consequente envio foi da inteira responsabilidade e iniciativa de quem o elaborou e remeteu a Relvas, embora esta hipótese se apresente como algo inverosímil. Seja como for, o facto é que não sei e por uma razão muito simples: é que, na verdade não conheço a que é que a Ongoing se dedica e ignoro por completo se a elaboração de relatórios daquela natureza faz ou não parte dos trabalhos cometidos pela Ongoing ao seu novo colaborador. Não sei, mas confesso que gostava de saber, porque, se a iniciativa da elaboração do relatório partiu do ministro Relvas, é óbvio que a este não restava outro caminho que não fosse o de arrumar, de imediato, os papéis e de zarpar do governo, o quanto antes. 
(imagem daqui)

Quarta-feira, 09.05.12

"Pro domo sua"

por Francisco Clamote às 00:18
É comum dizer-se e a realidade confirma-o todos os dias que há duas espécies de justiça: uma célere e efectiva que visa os pobres e os fracos; e outra lenta, quando sob a sua alçada caem os ricos e poderosos que, por meio de recursos e expedientes de toda a ordem, conseguem, com frequência, para não dizer as mais das vezes, que a justiça se transforme, muito simplesmente, em virtual.

Há, porém, uma justiça de  tertium genus, de que se fala menos, mas que nem por isso é menos real. Falo da justiça feita pro domo sua, género que se desdobra em duas espécies: uma, de que agora não curo, mas de que há por aí vários exemplos, quando o visado é um dos da "casa"; outra quando o odioso do processo recai sobre alguém que se atreveu a pôr em causa os interesses ou a honra dos da "casa". 

Temos no recente  julgamento de Emídio Rangel um bom exemplo desta espécie.

Embora me pareça que ofensas bem mais graves já passaram impunes pelos tribunais, não ouso considerar, por não conhecer o bem fundado da sentença, que a absolvição de Emídio Rangel pelos dois crimes  de ofensa a pessoa colectiva, se impunha.

Já não tenho dúvidas em considerar que a pena aplicada é excessiva e a que a indemnização atribuída às pessoas colectivas ofendidas [a  Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) e o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP)] está para lá do que se pode considerar uma exorbitância. A pena e a indemnização (100000 euros) só podem ser entendidas à luz duma justiça do tipo  tertium genus.

As declarações imputadas a Emídio Rangel (que terá afirmado que juízes e magistrados do Ministério Público pertencentes aos sindicatos passariam informação em segredo de justiça aos jornalistas), se descontextualizadas, até podem ser consideradas ofensas graves. 

Em todo caso, constituem crime muito menos grave (é a própria moldura penal a confirmá-lo) que qualquer crime de homicídio de mulher ou de homem, casos em que não é raro serem atribuídas indemnizações de menor montante, por muito estranho que isso possa parecer.

Todavia, no caso em apreço, boa parte gravidade da ofensa desaparece se se atentar no contexto em que as afirmações foram proferidas. É que Emídio Rangel não fez muito mais do que dar expressão ao que, se não é voz corrente, é, no entanto, convicção muito generalizada. E, curiosamente, tal convicção não é baseada  em afirmações de terceiros, mas é sim alicerçada em atitudes das próprias associações sindicais pretensamente ofendidas.

Dou dois exemplos:

Ninguém ignora, suponho, o gritante silêncio de qualquer das ditas associações sindicais  (ASJP e  (SMMP) em relação às constantes e sucessivas violações do segredo de justiça verificadas em vários processos mediáticos quando os sistematicamente  visados pelas fugas de informação eram ou são personae non gratae àquelas associações

Por outro lado, também não é novidade para ninguém a existência de estreitas relações entre aquelas duas formações sindicais e o Correio da Manha, que é, a justo título, considerado um dos maiores, senão o maior, vazadouro onde vai parar todo o lixo provindo das violações do segredo de justiça. Essas relações traduzem-se quer numa colaboração semanal que, pelo menos, o SMMP ainda mantém, quer na abertura duma autêntica e ampla via verde posta à disposição pelo jornal para acolher quaisquer declarações provindas de dirigentes sindicais de qualquer daquelas estruturas, declarações outrora usadas para "bater" no Governo cessante, agora, depois da  mudança de governo, mais utilizadas para dar expressão ao "namoro" que aquelas formações sindicais vêm mantendo com a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz.

Isto para dizer que onde, para preservar o bom nome das associações em causa, se impunha um grande distanciamento, tem-se assistido, isso sim, a uma inesperada e mais que suspeita proximidade.

O que justifica que se diga que se a honra e o bom nome das estruturas sindicais dos magistrados estão postos em causa, na matéria em questão (respeito pelo segredo de justiça) é antes de mais por culpa própria. A fraca consideração de que gozam  não é fruto das declarações de Emídio Rangel. Se se quiserem queixar, deviam começar por se queixar delas próprias.

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Sexta-feira, 04.05.12

Passos ou Coelho?

por Francisco Clamote às 23:02
"O modelo de crescimento assente em baixos salários e dívida insustentável não é um modelo de crescimento, é um modelo de empobrecimento." 
Tanta "lata" não está ao alcance de qualquer um. Só de alguém, como Passos/Coelho, que é capaz, simultaneamente, de promover e seguir uma política de empobrecimento e de baixos salários e de defender, em palavras,  precisamente, o contrário.
A minha única dúvida, no caso, é saber quem terá usado da palavra: o Passos ou o Coelho? 
Pergunto, porque gostaria de saber a qual deles é que planto esta notícia, à frente dos olhos: Portugal foi o país que mais cortou nos salários do Estado em 2011, tendo a redução da massa salarial superado a meta inicial negociada com a troika e, em 2012, Portugal volta a ser o que mais corta.
Um deles anda a gozar connosco. Às tantas, se calhar, são os dois.

Ala, que se faz tarde!

por Francisco Clamote às 14:33
Anda por aí à solta um irresponsável brincalhão que dá pelo nome Jorge Moreira da Silva e é vice-presidente do PSD. O engraçadinho, aqui há dias, perante uma alegada "radicalização discursiva" por parte do PS, não encontrou melhor forma de a criticar, que não fosse assumir o papel dum mau humorista capaz de proferir declarações que, para além de ridículas pelo non-sense, não podem deixar de ser consideradas insultuosas para o partido visado. Disse o nosso homenzinho, e cito o que veio publicado nos jornais,  que "não se deve pedir ao PSD e ao Governo que obrigue o PS a ser responsável" acrescentando que "o PSD não pode andar com ele ao colo" e "muito menos fazer o papel de babysitter".

O insulto é evidente, na medida em que é atribuída ao PS uma atitude irresponsável, mas o ridículo das afirmações não é menor. De facto, o senhor Moreira da Silva está a ver o "filme" exactamente ao contrário. No "filme" que tem passado perante  os nosso olhos, quem tem feito o papel de babbysiter responsável tem sido precisamente o PS que até agora não foi além da famosa "abstenção violenta" e quem, na verdade, carece de "colo" é o governo que, como o citado brincalhão reconhece, precisa que se mantenha o "amplo consenso" com o PS, para credibilizar as políticas seguidas por este governo perante o exterior.

A esta postura (a meu ver, excessivamente) responsável por parte do PS tem o governo Passos/Coelho respondido com sucessivas desconsiderações, a última das quais traduzida na aprovação e no subsequente envio para Bruxelas do denominado Documento de Estratégia Orçamental, sem que o maior partido do oposição tenha sido ouvido nem achado.

Diz agora o impagável Moreira da Silva que o documento aprovado pelo governo e remetido às autoridades europeias  não passa duma "base técnica e provisória". É caso para perguntar ao brincalhão se o documento não passa dum papel para "inglês ver", por que razão foi enviado a Bruxelas e não endereçado ao primeiro-ministro inglês, o destinatário óbvio dada a alegada natureza do documento? 

Está visto que Moreira da Silva gosta de brincar, mas, desta vez, a brincadeira pode sair-lhe cara, a ele, ao seu partido e ao governo.

Para já fica o aviso de Francisco Assis, na sua crónica habitual, ontem, nas páginas do "Público".

Cito: "Esta atitude [entre o desprezo e a hostilidade] atingiu o seu ponto máximo com as declarações desastrosas proferidas no último fim de semana pelo vice-presidente do PSD Jorge Moreira da Silva, que se permitiu tratar o Partido Socialista em termos que configuram um verdadeiro insulto institucional. Ficou, assim, claro que, para o PSD, o PS não passa dum refém a instrumentalizar em qualquer momento. Face a tal evidência, não resta ao Partido Socialista, em nome da salvaguarda da sua dignidade e tendo em consideração o contributo que deve dar para o debate democrático, a prossecução de outro caminho  que não seja o da afirmação cada vez mais clara da sua identidade programática e política. Esta opção terá consequências práticas mais ou menos imediatas. Não são vislumbráveis razões ponderosas que devam conduzir o PS  a adoptar em relação ao próximo Orçamento de Estado atitude idêntica à que manifestou face ao Orçamento anterior."

Ala, que se faz tarde!

Quinta-feira, 03.05.12

No pelourinho da opinião publicada

por Francisco Clamote às 16:48


O tom geral do artigo de opinião de Maria João Avilez (MJA) publicado hoje na edição impressa do "Público", sob o título  "Água que devia correr e não corre", até nem é de critica e, em boa verdade,  nem tal seria de esperar vindo de quem vem, pois a autora é uma devota do passismo, como o demonstra  a opinião expressa das "qualidades óbvias" por ela atribuídas a Passos/Coelho, qualidades que "só não as vê quem não quer". É, por sinal, o meu caso, não porque as não queira ver, mas porque muito simplesmente as não vejo. Disso me penitencio, desde já: mea culpa.

O escrito tem mais o ar dum conselho que, depois de dado em privado, a autora achou por bem tornar público. Por razões que ela lá saberá e de que não curo.

Não obstante, a verdade é que MJA acaba por cometer o deslize de atacar o governo passista por um dos seus flancos mais vulneráveis. Com efeito, a dado passo, escreve MJA o excerto que a seguir transcrevo e do qual, a benefício da autora, expurgo alguns comentários dirigidos a terceiros, menos próprios de quem se arma em "gente fina". Feita a observação precedente, passo a citar:


"4. Nem era preciso haver muitos cérebros políticos em São Bento ou nalguma assoalhada governamental para aconselhar ao executivo mais atenção pelo valor (sem preço) do "apoio" do PS em passos cruciais da caminhada imposta pela troika. (...)

Para não falar do respeito devido ao líder da UGT. Um caso. Em situação "impossível", pisando solo minado (...) salvaguardando sempre a sua independência, dizendo sempre o que "acha", João Proença faz o que entende que o país - e não o Governo - dele espera. Há quem dê pela diferença, hélas, há quem não dê. Dando ou não dando, levem Proença ao colo." (Negrito meu)


Dizer do executivo passista que não tem cérebros políticos, nem em São Bento, nem em qualquer "assoalhada governamental" é  uma crítica que não pode deixar de ser tida na conta de violenta e de  virulenta. 


Para chegar a tal ponto, a frustração da "devota" deve ser enorme!


Seja ou não seja, a verdade é que não era este o ponto a que queria chegar. Se trago para aqui o artigo de MJA,  é porque a crítica que dele transparece parece confirmar a ideia expressa, ainda que por outras palavras, neste outro post, no sentido de que Passos/Coelho começa a dar os primeiros passos a caminho do julgamento no pelourinho da opinião publicada. É meio caminho andado para também subir os degraus do pelourinho da opinião pública.

E já não era sem tempo, digo eu,  tantas são as desgraças por que é responsável, umas já concretizadas e outras que, anunciadas, vêm já a caminho.

Quarta-feira, 02.05.12

Metam, de vez, na cabeça que não é "apesar de"; é "por causa de"!

por Francisco Clamote às 14:48
A chaga social do desemprego continua imparável. Graças aos  esforços do governo Passos/Coelho, Portugal não só bate, uma vez mais, todos os anteriores recordes, já da responsabilidade deste governo, como atingiu finalmente o pódio dos países da União Europeia com o desemprego mais elevado.  À frente de Portugal, com 15,3% de desempregados, já só vemos a Espanha (24,1%) e a Grécia ( 21,7%) . 

Mas, pelos vistos, Passos/Coelho não está satisfeito com o último lugar do pódio. Com efeito, o seu governo acha que a subida do desemprego torna mais urgente a reforma laboral, como se as medidas já tomadas na área laboral não tivessem até agora contribuído para agravar o flagelo.

Parecem tolos, se é que o não são mesmo. E se o não são, cegos, pela ideologia ultraliberal, são-no pela certa, para não verem os resultados a que a política seguida já conduziu, resultados que no futuro não irão ser diferentes se a política continuar a seguir os mesmos passos de Coelho.

Por acaso, tão raras são as vezes que passos os olhos pelo ecrã, acabei de ver, na televisão, o ministro Relvas a dizer, com ar apalermado, devido certamente às noites mal dormidas, que o desemprego, apesar das reformas, não diminui, situação que lhe tira o sono. 

Ó homem, meta na cabeça, duma vez por todas, que, se o desemprego sobe, não é apesar das reformas. Sobe por causa das reformas. 

Entretanto o que vemos? Enquanto esta e outras desgraças se acrescentam e avolumam, o povo, ou mete a cabeça na areia, ou, no próprio dia do trabalhador, cai, de pés e cabeça, na cilada armada pelos donos do Pingo Doce. 

Se já nada me espanta, também nada me impede de concluir que nunca foi tão verdadeiro o dito de que cada povo tem o governo que merece.

Domingo, 22.04.12

Eu quero aplaudir...

por Francisco Clamote às 22:13
Não, não são os dados da execução orçamental relativa ao primeiro trimestre  deste ano que é, dêem-lhe as voltas que derem, um autêntico fiasco, prova de que este governo não sabe governar. Desgoverna.
De facto, que outra coisa se pode dizer dum governo que parou tudo quanto é investimento público, que corta nos salários dos funcionários públicos e nas pensões, como faca em manteiga, que aumenta tudo quanto é imposto e que consegue a extraordinária proeza de simultaneamente aumentar a despesa (+ 3,5%) e  baixar a receita (-5,8%) levando o défice das contas públicas para o dobro (1637 milhões de euros, face a 892 milhões) em relação a idêntico período do ano anterior, quando Sócrates ainda era primeiro-ministro?

Se para esta direita que nos (des)governa) Sócrates era "esbanjador", perante estes números, o que serão eles? 

Incompetentes e mentirosos, pela certa. Que são incompetentes, são os números a atestá-lo. Que a especialidade da "casa" é mentir, também não há a mínima dúvida. Ainda ontem um dos "capitães de  Abril", o coronel Rodrigo Sousa e Castro, o disse na SIC Notícias, com todas as letras, perante um António José Teixeira francamente incomodado.
Não, o que eu quero "aplaudir" é a "confiança" que o "povo" continua a depositar nos partidos deste governo, cujo primeiro-ministro "mente com quantos dentes tem na boca" e que não só está a pôr uma grande parte da população a pão e água, como, não contente com isso, está a tirar o pão da boca a muita gente - aos mais carenciados. 
Que mais será preciso, para que o sino comece a dobrar a finados a anunciar a "morte" deste (des)governo? 
A quantas mais desgraças teremos ainda que assistir para que tal aconteça?

Sábado, 21.04.12

Nem todas, Gaspar, nem todas!

por Francisco Clamote às 13:56
No meu país, as pessoas estão completamente dispostas a sacrificar-se e a trabalhar mais para que o programa de ajustamento seja um sucesso desde que esse esforço seja repartido de forma justa” (mais uma tirada de Vítor Gaspar, durante a sua recente passagem pela sede do FMI). 
Gaspar, manifestamente, não estava nos seus melhores dia. Então não é que os factos, também neste particular, se encarregam de o desmentir.
Pelos vistos, nem todas as pessoas estão por tais ajustes. Os administradores da RTP, pelo menos.

 

Sexta-feira, 20.04.12

Em marcha atrás

por Francisco Clamote às 17:48

O ministro da vespa a fazer marcha atrás, numa manobra mal calculada. De facto, se pensa assim, não se percebe porque é que veio, há dias, remexer no assunto.

Com problemas na visão

por Francisco Clamote às 12:33
Quando alguém afirma, como Vítor Gaspar, que as “políticas fiscais expansionistas” do anterior governo socialista são a única causa do 'défice orçamental “insustentável” que desencadeou uma crise e o pedido de ajuda financeira a entidades internacionais"' e que Portugal é um exemplo a evitar e "a  prova de que “as políticas expansionistas não são uma condição favorável ao crescimento” é porque é míope e incapaz de ver que o fraco crescimento da economia portuguesa se ficou a dever a múltiplos factores, incluindo a maior crise  económica mundial dos últimos 80 anos (crise que, tendo uma tal dimensão, até é perceptível  para quem tenha fraca acuidade visual) e as dificuldades derivadas da entrada no euro, dificuldades que, na altura, muito pouca gente anteviu.

Os problemas visuais do ministro Gaspar não se ficam, porém, pela miopia. Com efeito, o homem não consegue ver as consequências da política de austeridade prosseguida pelo governo de que faz parte e por ele advogada. Essas consequências estão, no entanto, bem à vista, com a a economia portuguesa em recessão (-3,3% este ano, segundo as previsões do próprio governo, havendo porém quem, como o Citigroup,  avance já com previsões bem mais alarmantes: recuo de 5,4% do PIB, este ano e de 3%, em 2013) e com o desemprego a atingir números impensáveis até à posse deste governo, desemprego que já vai nos 15% e a subir, para atingir, segundo as previsões do citado banco de investimentos, os números dramáticos de 15,6% este ano e de 17,3% em 2013. Isto, para já não falar do alastrar dos casos de penúria alimentar; do aumento do número de falências de pessoas individuais e do número de alunos do ensino superior a desistir dos estudos por dificuldades económicas. Por exemplo. 

Se Vítor Gaspar, apesar dos avisos do FMI, é incapaz de encarar de frente estas realidades  e continua a garantir que o programa de austeridade do tipo "custe o que custar", programa que ele advoga e o seu governo  executa, tem “todos os ingredientes necessários para lidar com os problemas fundamentais da economia portuguesa”  é porque não tem os olhos no sítio certo.

Tê-los-à, porventura, na nuca?

Comecei por Vítor Gaspar, mas o certo é que o discurso de Passos/Coelho é idêntico ao do seu ministro das Finanças. Assim sendo, não é nada difícil diagnosticar que ele sofre dos mesmos problemas de visão.

Quinta-feira, 19.04.12

Gaspar não mente. Os factos é que o contradizem

por Francisco Clamote às 19:55
 “Temos tido o cuidado de proteger os menos favorecidos e os mais vulneráveis ao definir os cortes na Segurança Social e no sistema de saúde quando aumentámos os impostos."Vítor Gaspar, na sede do Fundo Monetário Internacional).

De humilhação em humilhação

por Francisco Clamote às 12:43
Sob o pretexto da fraca competitividade da economia portuguesa, o ataque desencadeado por este governo contra os direitos dos trabalhadores prossegue, anunciando-se, agora, que o governo pretende reduzir as indemnizações por despedimento ao valor de 6 a 10 dias por cada ano de antiguidade.
Digo pretexto, mas melhor diria falso pretexto, porque a falta de competitividade da economia portuguesa não resulta das "altas" remunerações pagas aos trabalhadores. A razão da fraca competitividade da economia portuguesa tem de ser procurada alhures. Para tal concluir basta atentar no que se passa na Alemanha e em vários outros países europeus que têm uma competitividade muito superior à portuguesa, não obstante pagarem salários muito mais elevados que os auferidos pelos trabalhadores em Portugal.
Pese embora a limpidez da conclusão, o certo é que governo português para melhorar a competitividade, nem estuda  alternativas, nem procura outra receita que não seja a de reduzir os direitos do trabalhadores. Não sei se é por simples preconceito da ideologia ultraliberal professada por Passos/Coelho e pelos demais governantes, se é por qualquer outra razão de que agora não curo.  
O que sei, e é inegável, é que esta nova medida é mais uma humilhação que irá somar-se a outras já concretizadas ou em vias de o ser, dirigida contra quem não passa, na perspectiva deste governo, dum mero factor de produção.
Note-se que, por irónico que seja, estamos a falar dum governo liderado por um partido (PSD) que se diz "personalista".
Quanto desplante, Zeus meu!

Quarta-feira, 18.04.12

O "fala-barato" também não é mais caro a escrever

por Francisco Clamote às 21:08

Marcelo reconhecia, há dias, que Passos/Coelho fala demais e, o que é pior, atendendo aos casos citados, é que não acerta uma. E, do mesmo passo, recomendou a Passos/Coelho que procure "alguém que fale por ele", conselho que só se pode dirigir a alguém que se considere como um "fala-barato".  

Passos/Coelho, no entanto, como se já não lhe bastasse o falar,  passou também a escrever artigos de opinião.

Perguntar-se-á: para quê?

Respondo: para provar, também por escrito, que é perito em tolices.

Justifico: Não vejo outra forma de classificar alguém que é peremptório a afirmar que “Portugal vai mostrar que os cépticos estão enganados”, para, logo a seguir, acrescentar, contradizendo-se em toda a linha, que “Numa época de incertezas, não há garantias.” 

Se Passos/Coelho pensa que é assim, com escritos destes no Financial Times, que conquista a confiança dos mercados, está muito enganado. 

Melhor lhe fora, digo eu, que seguisse os conselhos de Marcelo.

Nada na manga

por Francisco Clamote às 17:17
Diz a notícia que o Presidente francês Nicolas Sarkozy  depois de discursar na Place de la Concorde, em Paris, durante a campanha para as eleições presidenciais, deu-se ao trabalho, ao cumprimentar os seus apoiantes, de  tirar o relógio do pulso para o guardar no bolso, alegadamente, com receio que lhe roubassem a preciosidade avaliada em 55000 euros.

Tenho outra  interpretação: Sarkozy, como bom ilusionista, o que quis foi demonstrar que não tinha nada na manga.
O  que falta saber é se os franceses, no próximo domingo, se deixam "levar" pelo ilusionista.

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Sábado, 14.04.12

Pela calada

por Francisco Clamote às 22:47
Pela calada, sem dar cavaco a ninguém, nem aos parceiros sociais, o governo aprovou em 29 de março, em Conselho de ministros, um diploma a congelar as reformas antecipadas, diploma que, depois de promulgado em conformidade por Cavaco e com a presteza requerida, foi publicado em Diário da República a 5 de abril para entrar em vigor 24 horas depois.

Alguma comunicação social, talvez porque a medida também pode atingir jornalistas, insurgiu-se contra o procedimento, como não o fez em relação a outras medidas ainda mais gravosas, como o corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e pensionistas, igualmente decididas sem mais aquelas.

A actuação seguida pelo governo, nestas matérias e noutras é, por certo, a que Passos/Coelho considera a mais adequada para "reconquistar a confiança". (Diga-se, entre parêntesis, que Passos/Coelho se referia à confiança dos mercados, mas parece-me legítima a extrapolação, pois faço o favor de supor que o chefe do governo não menosprezará a confiança dos cidadãos, visto que sem ela, nem o país, nem ele, irão muito longe.) 

Deve ser, aliás, em nome da tal confiança que o governo vai continuar a agir de forma idêntica. Com efeito, anuncia-se já que o executivo se prepara para criar, sem passar pela Assembleia da República, como legalmente se impunha, "uma taxa de saúde e segurança alimentar" que, prima facie, será cobrada aos estabelecimentos de comércio alimentar, mas que, como é evidente, vai sair do bolso do consumidor, ponto sobre o qual não resta a mínima dúvida, tendo em conta a posição tomada pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). Aliás, outra coisa não seria de esperar. Só que, com esta configuração, a taxa, porque não corresponde a qualquer serviço prestado ao consumidor assaltado, não passa duma forma encapotada de imposto que acresce ao IVA que o consumidor já paga. 

Diz a sabedoria popular que o ladrão é que actua pela calada, mas o dito popular está, manifestamente, desactualizado. Isso era dantes.

Quinta-feira, 12.04.12

Festejar é proibido?

por Francisco Clamote às 20:52
"Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, foi ao Parlamento defender a empresa pública Parque Escolar que geriu um programa de obras nas escolas, e deste disse: "Foi uma festa." Fico-me por essas palavras. Aliás, não estou sozinho, o deputado Sérgio Azevedo escreveu no seu blogue o seguinte: "Maria de Lurdes Rodrigues acaba de afirmar na Comissão Parlamentar de Educação, a propósito do desvario da Parque Escolar, que foi 'uma verdadeira festa para arquitetos e construtores'." O deputado poderia ter inventado frase ainda com maior acinte: "Ela disse que foi uma festa para patos bravos." Mas a ex-ministra, de facto, disse: "Uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitetura, para a engenharia, para o emprego e para a economia." Ou, em outro momento da audição: "[...] uma festa para o País." Chicanas iguais à do deputado foram muito repetidas ontem, com esse nosso jeito para agarrar palavras dos outros e insultá-las. É o que eu venho fazer aqui, pela metade: agarrar palavras. E depois dizer que num país onde os particulares gastam em jantes de liga leve o que não gastam em livros e os públicos fazem da paixão pela educação um mero slogan, num país pobre com bancos ranhosos que oferecem juros de 136 por cento ao ano, reconstruir escolas é uma festa. É uma festa. Sim, é uma festa. Dito isto - não, ainda quero insistir: reconstruir escolas é uma festa -, dito isto, passemos aos candeeiros de Siza Vieira."

(Ferreira Fernandes; Ponto prévio: sim, é uma festa; in DN) (Negrito meu)


- Para a direita no poder, sim , é proibido.

Como não acreditar ?

por Francisco Clamote às 17:58
"Em 2004, o CDS meteu um milhão de euros numa conta bancária em seu nome. Acção meritória, como já foi assinalado por Paulo Portas: quem não teme, deposita. Mas um milhão é conta calada e a PJ foi tentar pô-la a dar com a língua nos dentes: conta, donde vieste tu? O CDS explicou: da benemerência dos seus militantes. Não é próprio de (democratas-)cristãos dar a quem precisa? Mas a PJ, que é laica, insistiu: tá bem, militantes, mas quem? Aí, o CDS estendeu uma lista com quatro mil recibos.

Infelizmente, a PJ é contumaz na desconfiança. Pôs-se a ler os nomes nos recibos. E descobriu um: "Jacinto Leite Capelo Rego." É um nome como qualquer outro, mas a PJ, na sua sanha persecutória, pôs-se a ler o nome com pronúncia brasileira (abrindo as vogais). E com esse indício inventou uma cabala, em que os doadores seriam falsos e os recibos forjados para esconder uma verdadeira doação do Grupo Espírito Santo ao CDS, quando do caso Portucale. Na altura, o CDS estava no Governo e tal doação, a ter sido feita, faria suspeitar de pagamento por um favor ilegal.

Eu não acredito. Eu acredito na existência, mesmo, de um militante do CDS chamado Jacinto Leite Capelo Rego. Há anos, o jornal A Folha de São Paulo fez uma lista de nomes esquisitos brasileiros e encontrou um "Jacinto Leite Aquino Rego". Deve ser um primo emigrante do militante democrata-cristão. A PJ diz que não. Diz que dois funcionários do CDS, tendo de arranjar quatro mil nomes, inventaram o acima nomeado Jacinto. Assim, os dois funcionários ficaram arguidos no processo-crime "Portucale". Lembro: já há tempos dois procuradores arquivaram o caso agora reactivado. Um dos procuradores chamava-se Auristela Hermengarda. O que só prova que o caso Portucale atrai nomes esquisitos, embora legítimos.

Para mim, é natural que no CDS haja alguém chamado Jacinto Leite Capelo Rego. Afinal, o PSD tem um presidente da Câmara, em Mafra, chamado José Ministro dos Santos, o PS, em Cuba, tem Francisco Galinha Orelha e a CDU, em Sesimbra, Augusto Carapinha Pólvora. Agora, PJ, vai investigar outros partidos com nomes esquisitos?

Em todo o caso, a PJ não explica o que levaria dois funcionários do CDS a inventar um nome daqueles. Dar uma pista? Então, assinavam José Espírito Santo de Orelha. Inspiraram-se na lista da Folha de São Paulo? Pouco provável. No CDS, que é pela família, mais depressa copiavam outro nome da lista: Himineu Casamentício das Dores Conjugais. Ou, sendo pelo capitalismo: Chevrolet da Silva Ford. Ou, sendo católicos: José Padre Nosso. Naaaa... Jacinto Leite Capelo Leite existe mesmo. Apareça e desfaça este equívoco." 

(Ferreira FernandesO DIREITO A TER NOME ESQUISITO E PODER SER BENFEITOR DO CDS) (Negrito meu)

(Via)

Sim, como não acreditar, depois da sentença hoje proferida, comentada aqui

Quarta-feira, 11.04.12

Até onde chega o descaramento

por Francisco Clamote às 22:27
Dizem os do governo que o plano de ajustamento está a correr como previsto. No entanto, os números já conhecidos e os agora avançados no Orçamento Rectificativo (OR) estão muito longe de baterem certo com as previsões do memorando acordado com a troika. Senão vejamos:

O OR aponta para uma queda do PIB de 3,3% contra os 1,8% previstos no memorando; o desemprego no final de fevereiro já ia nos 15%, ultrapassando as próprias estimativas do governo para o final do ano; o investimento, que era suposto sofrer uma quebra de 7,4%, já caiu, de facto, 10,2%; o consumo privado caiu mais do que o previsto (5,8% contra 3,8%) e, ao invés, o consumo público, onde se previa uma queda de 4,6% fica-se por uma descida de 3,3%, confirmando-se assim que o anúncio do corte das gorduras do Estado não passou disso mesmo, dum anúncio.

Os números alinhados são mais que suficientes para se poder afirmar, com verdade, que "o plano de ajustamento [não] está a correr como previsto". 

Costuma dizer-se que contra factos não há argumentos, mas, para este governo, não é bem assim. O descaramento é tanto que até dá para contrariar os factos. 

Terça-feira, 10.04.12

A honrosa excepção

por Francisco Clamote às 23:51
Por razões que não vêm ao caso, só agora verifico, ao pôr as leituras em dia, que o Tribunal Constitucional chumbou o diploma aprovado na Assembleia da República, com os votos favoráveis de todos os partidos, com a excepção, única, mas honrosa, do PS, que criava um novo tipo legal de crime impropriamente designado, a meu ver, por "enriquecimento ilícito", por violação dos artigos 18.º n.º 2, 29.º n.º 1 e 32.º n.º 2 da Constituição da República. 

Se a inconstitucionalidade derivada das duas primeiras normas, não era de invocação assim tão evidente, já a resultante do nº 2 do artigo 32º que consagra a presunção de inocência do arguido até ao trânsito em julgado da sentença condenatória era mais que óbvia, não tendo, aliás, faltado vozes autorizadas a chamar a atenção para a violação dessa norma. Outra não foi, aliás, como se sabe, a justificação repetidamente apresentada pelo PS para votar contra o diploma. Tão óbvia era, no entanto, a inconstitucionalidade que não passa pela cabeça de ninguém supor que os deputados que aprovaram o diploma não tivessem consciência disso. Crer no contrário seria pôr em dúvida a inteligência de tais deputados, ofensa  a que não me atrevo.

Assim sendo, não é difícil concluir que a  aprovação do diploma, por mais uma espúria coligação entre a direita e a extrema esquerda, não foi mais que um exercício de demagogia, em homenagem ao populismo, conclusão que é de tão mais fácil extracção quanto é certo que são mais que legítimas as dúvidas sobre a eficácia do diploma no combate contra a corrupção. De facto, a prova, a cargo do Ministério Público, de não ser conhecida qualquer forma legítima de aquisição a justificar o enriquecimento é uma prova simplesmente impossível, pelo que, a menos que o julgador se contentasse com a simples alegação do desconhecimento, o que não é sequer pensável, cada acusação não podia deixar de ter como resposta a correspondente absolvição.

O que espanta, em todo este caso, é a forma leviana como os partidos que aprovaram o diploma se atreveram a pôr em causa direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. E digo leviana, além do mais, porque sendo a medida ineficaz, outra utilidade não teve que não fosse a de servir de arma de arremesso contra o PS, por alegado pouco empenho na luta contra a corrupção. 

Ora a verdade é que até agora não vi medida mais eficaz e consequente na luta contra a corrupção do que a consubstanciada na proposta apresentada pelo PS na AR, ao encarar a questão do "enriquecimento ilícito" no plano fiscal, proposta que, conquanto ridicularizada pela "espúria coligação", não só removia desde logo o problema da inconstitucionalidade, como colocava a questão na sede própria. De facto, a expressão "enriquecimento ilícito" não é, seguramente, a mais adequada para traduzir a realidade. Mais apropriado será falar-se de "enriquecimento não explicado", pois o que está em causa é a disparidade aparentemente injustificada entre o património detido pelos cidadãos e os rendimentos declarados ao Fisco. E a verdade é que esta entidade é a única a dispor de meios para verificar a existência da disparidade e para, do mesmo passo, pedir explicações ao detentor do património aparentemente injustificado, explicações que este tem a obrigação legal de dar, sob pena de sofrer as correspondentes sanções fiscais. O contribuinte não justifica, não explica, logo paga. Nada mais simples, nada mais eficaz. Não duvido, por isso, que a luta contra a corrupção, depois do "chumbo" do diploma pelo Tribunal Constitucional, terá de passar por medidas como as contempladas na proposta do PS, ou por outras na mesma linha. Tenho, porém, as minhas dúvidas sobre se os partidos da "espúria coligação" terão capacidade para engolir a desfeita e seguir pelo caminho apontado pelo PS, caminho que, sabe-se agora com toda a certeza, é o único viável.

Seja como for, cabe agora aos partidos da "espúria coligação" fazer a prova do empenho na luta contra a corrupção. A do PS ficou feita.

Domingo, 25.03.12

Um imenso vazio

por Francisco Clamote às 23:51
Ouvi-lo, nem pensar. Vê-lo, só de raspão, antes de mudar de canal. Não é por nada, só que, ouvi-lo e vê-lo, provoca-me náuseas irreprimíveis. Mas para me manter informado, estou atento às "pérolas", como esta do "sai-nos do lombo" (melhor dito: "sai-vos do lombo"), "pérolas" que vai debitando e que a imprensa faz o favor de reproduzir.
Se o que li aquiaquiaqui e  aqui, traduzem com algum rigor o discurso proferido por Passos/Coelho no encerramento do congresso do PSD, então posso garantir que a sua narrativa não justifica mais que um imenso bocejo. A única resposta possível a um discurso que mais não foi que um imenso vazio.

Sábado, 24.03.12

Por falar em abutres

por Francisco Clamote às 22:15
Não serei eu, um declarado amante da natureza, a negar a importância da construção de 12 ninhos para facilitar o regresso do Abutre-preto (Aegypius monachus) ao Alentejo, dada a relevância ecológica da presença da ave de rapina em questão.
No entanto, como cidadão, tenho pena que a notícia não traga também dados sobre o número de ninhos construídos pelo governo de Passos/Coelho para albergar os abutres do género Catroga. Até porque, ao que parece, as espécies deste género são muito mais eficientes, quer na ocupação dos ninhos, quer como predadores. Quanto a este particular, julgo não haver dúvidas e dúvidas também não subsistem quanto  à ocupação dos ninhos. Enquanto os  preparados para o Abutre-preto continuam por utilizar, os ninhos construídos por Passos/Coelho têm, de antemão, ocupação garantida.

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Terça-feira, 06.03.12

Patrocínios, imagem e conjecturas

por Francisco Clamote às 14:43
Por muito "altos" que tenham sido os patrocínios, exigidos, pedidos, ou oferecidos ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) para a realização do seu Congresso, eles não pagam, seguramente, a factura que esses patrocínios representam em termos de perda de credibilidade da própria magistratura do Ministério Público (Mº Pº). Mesmo que tais patrocínios não venham a pôr em causa, em concreto, a independência dos magistrados, nem de um só que seja, não é essa a mensagem que passa para a opinião pública. E se a imagem da magistratura do Mº Pº já não era boa, a atitude do SMMP não contribuiu em nada para a melhorar. Muito pelo contrário, o que aliás, vem na linha da actuação do SMMP que, sob a direcção do senhor Palma, tudo tem feito para a degradar, através, designadamente, dos constantes ataques de natureza política, dirigidos, quer à hierarquia do Mº Pº (que se mantêm) quer contra o Governo legítimo do país (que cessaram subitamente após a entrada em funções do actual governo).
A este propósito não deixa de ser estranho verificar que a sintonia actualmente existente entre o governo e a direcção do senhor Palma atingiu uma dimensão nunca vista, a ponto de se poder dizer que o SMMP passou a ser uma espécie de secção do partido da ministra da Justiça, precisamente numa altura em que os magistrados do Mº Pº sofrem às mãos deste governo, tal como os demais funcionários públicos, a par dos pensionistas, a imposição de sacrifícios também nunca vistos.
Como reparo que o senhor Palma se prepara para abandonar a presidência do SMMP, tendo já escolhido um "digno" sucessor, receio bem, até porque o seu discurso no Congresso permite essa leitura, que ele se esteja a preparar para mais altos voos, uma vez que se aproxima o final do mandato do actual Procurador-Geral da República. Isto tendo em conta a espécie de conúbio vigente entre SMMP e a ministra da Justiça. Esta hipótese já me assusta enquanto tal. Se ela viesse a concretizar-se estaríamos perante um verdadeiro escândalo e um autêntico ultraje infligido às instituições da República, porque, para não ir mais longe, a personagem não tem estatura para tão alto cargo. Espero que tal hipótese não venha a concretizar-se, mas lá que tenho medo, tenho.

Segunda-feira, 05.03.12

Coragem: da que abunda e da que falta

por Francisco Clamote às 22:33
Entusiasmado ao ler esta crónica de Viriato Soromenho Marques, leitura que também se recomenda, em que o autor põe em relevo a coragem de Mariano Rajoy ao falar verdade e ao recusar "guerrear o seu povo para agradar aos seus homólogos, ou à burocracia de Bruxelas", estive quase a cometer a injustiça de considerar que a coragem que não falta em Madrid é coisa que não abunda em Lisboa.
E digo que estaria a cometer uma injustiça, porque, na verdade, coragem também não falta a Passos/Coelho que ainda hoje deu provas dela ao declarar que Portugal não vai seguir o exemplo de Espanha, no sentido de rever as metas do défice, recusando, do mesmo passo, ensaiar qualquer tentativa de renegociar taxas de juro mais baixas, porque "os empréstimos portugueses já têm uma boa taxa de juros".
Boa só será para os credores, acho eu, mas a frase revela que no caso de Passos/Coelho estamos a falar doutra espécie de coragem, ou seja, da coragem própria de quem é servil perante os poderosos, mas forte perante os fracos. Que, neste caso, constituem o povo por ele condenado a empobrecer, "custe o que custar".
Como os custos são já hoje mais do que evidentes para toda a gente e insuportáveis para muitos, forçoso é reconhecer que há, não só em Lisboa, mas em todo o país, um défice de coragema de correr com ele, antes que seja tarde.

Domingo, 04.03.12

Uma "remodelação" por linhas tortas

por Francisco Clamote às 18:13
Duvido que ainda haja aí alguém, com dois dedos de testa, incluindo os muitos que aplaudiram a constituição do governo "mínimo" que Passos/Coelho andou a congeminar durante uns meses, que continue a considerar como uma boa solução a concentração no ministério da Economia e do Emprego,  entregue à responsabilidade de Álvaro dos Santos Pereira, sectores tão diferentes como a economia, o emprego, os transportes e a energia e de juntar num mesmo ministério,  entregue  a Assunção Cristas, a gestão da agricultura, do mar, do ambiente e do ordenamento do território, pois para tal concentração não se encontra nem lógica, nem justificação. E também não creio que alguém considere ainda que as individualidades escolhidas seriam as pessoas indicadas para arcar com tamanha responsabilidade, pois é óbvio que Santos Pereira, sendo um académico, não tinha, no entanto, qualquer experiência de gestão compatível com as exigências requeridas pelo super-ministério, nem, expatriado que era, tinha grande contacto com a realidade do país e que Assunção Cristas, para além de não ter experiência de gestão, também não tinha, nem tem, qualquer preparação em relação às áreas que tutela. 
Que tenhamos, em consequência, vindo a assistir à transformação dos dois super-ministros em alvos fáceis de risota, não espanta ninguém: Álvaro dos Santos Pereira, em termos de imagem, passa por ser o ministro da bandeirinhas e dos pastéis de nata e Assunção Cristas é a ministra das gravatas, ou antes, da ausência delas. Culpa de um e doutra, sem dúvida, já que a imagem que se lhes colou é fruto de iniciativas de um e de outra,  mas a responsabilidade maior é, sem dúvida, de quem concebeu uma estrutura de governo não funcional e de quem escolheu aquelas pessoas: Passos/Coelho, obviamente. Este, que não é tão burro quanto isso, já se apercebeu que meteu o pé na argola e que o governo por ele engendrado não tem modos de funcionar. Todavia, como tem mais de teimoso do que de burro, não dá a mão a torcer e em vez de proceder a uma reestruturação da orgânica do governo e, em consequência, a uma remodelação, anda, por caminhos ínvios, a levar a cabo uma remodelação encapotada traduzida, para já, na constituição de equipas ou grupos de trabalho a quem é entregue a responsabilidade por sectores integrados no âmbito da competência do ministro Álvaro dos Santos Pereira. É o que se passa com o acompanhamento das privatizações, as renegociações da parcerias público-privadas, a reestruturação do sector empresarial do Estado e a coordenação do programa de emprego jovem atribuída a Relvas (este sim um super-ministro que toca em tudo) e o mais que adiante se verá. O ministro da Economia e do Emprego, por este andar, qualquer dia mais não faz do que passear-se pelos corredores. O ministério de Assunção Cristas, até agora, ainda não sofreu qualquer esvaziamento, mas não é, seguramente, porque esteja a funcionar. Não é preciso ter grande  imaginação para supor que tal se deve apenas e só ao facto de  Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros em parte incerta e líder  do CDS, não estar pelos ajustes.
Não se vê que linha de pensamento ou que estratégica está na base desta remodelação encoberta, tão avulsas e descoordenadas são as medidas tomadas. O que mais parece é que é tão só fruto da teimosia e da burrice e como tal é de esperar que venha a dar maus resultados. Aliás, já está a dar: a última reunião do Conselho de Ministros, ao que conta a comunicação social, transformou-se numa barafunda, com o ministro Álvaro dos Santos Pereira a contestar, com o apoio de vários ministros, a transferência da gestão dos fundos do QREN para a tutela do ministro Gaspar. Para já e por aqui fazem-se votos para que a próxima reunião não termine à batatada.
No meio de toda esta confusão só não compreendo como é que Álvaro dos Santos Pereira, perante tantas e reiteradas desautorizações e provas de falta de confiança, ainda não tomou ele a iniciativa de bater com a porta. Não imaginava, depois de assistir às suas aguerridas intervenções no Parlamento, que tivesse tão "boa boca". Porventura é só mais um que é forte com quem está na mó de baixo e que é fraco em relação a quem está na mó de cima. Há por cá muita gente dessa estirpe.

Sábado, 03.03.12

Passos será o quê?

por Francisco Clamote às 15:19
Se Mariano Rajoy, chefe do Governo espanhol, geralmente considerado como um político medíocre, é, no entanto, capaz de bater o pé à União Europeia e tomar a "decisão soberana" de reduzir o défice em 2012 para apenas 5,8%, mandando às urtigas os 4,4% impostos pelo pacto de estabilidade, que dizer do individuo que anda por cá a fazer de primeiro-ministro e que se mostra  incapaz de largar as saias (ou as calças) da senhora Merkel?
Verdade se diga que, se calhar, o facto do povo espanhol não falar português também explica muita coisa. Inclusive a "decisão soberana". Porventura, digo eu.

Sexta-feira, 02.03.12

A culpa deles há-de morrer solteira

por Francisco Clamote às 23:22
Disse ontem o "Álvaro" que o desemprego dos jovens, que já vai na casa dos 35%,  é uma epidemia europeia. ("Epidémico", disse ele e não "epidérmico" como, inicialmente, se escreveu no Jornal de Negócios. O homem anda perdido lá pelos corredores, sem saber o que fazer e, daqui a pouco, sem nada que fazer, mas ainda não chegou a ponto de fazer tamanha confusão entre palavras quase homófonas.) 
O desemprego dos menos jovens, se não é fruto da mesma ou de outra epidemia, é forçosamente culpa da herança deixada por Sócrates, sendo que  no tempo deste não havia "epidemias", como bem se sabe, pois a crise nasceu precisamente no dia em que o actual governo agarrou o "pote". A acção deste governo, a austeridade do tipo "custe o que custar" é que não têm nada a ver com isso. 
Ontem mesmo tive a oportunidade de obter nova confirmação ao ouvir o excelentíssimo ministro Relvas em animada cavaqueira com o não menos excelentíssimo jornalista Crespo, com este a puxar à corda e aquele a não se fazer rogado, fazendo uma parelha a todos os títulos excelentíssima.
E, claro que  a desconfiança dos mercados também não é culpa deles. Neste caso, seguramente, a culpa é de avarias nas comunicações. 
A falta de confiança dos consumidores e a dos empresários que não investem é culpa dos próprios que não vêm a vela ao fundo do túnel.
A austeridade decretada por eles também não é culpa deles. Ou é da troika, mesmo quando decidem ultrapassar as medidas resultantes do memorando, ou é, uma vez mais, do Sócrates, que assinou o acordo, pouco importando que eles próprios tenham participado nas negociações; que Sócrates o tenha feito na situação de demissionário, coagido por eles e por Cavaco, que tudo fizeram para não lhe deixar outra saída que não fosse a que há muito reclamavam.
Deles é que nunca é a culpa. Hão-de inventar sempre um bode expiatório. A culpa deles há-de morrer solteira.
Pergunto: quem não é capaz de assumir as suas próprias responsabilidades, é o quê? Irresponsável ? Não me digam!

Quinta-feira, 01.03.12

Exemplo prático

por Francisco Clamote às 22:35
Tendo em conta toda a encenação feita por Alberto João Jardim, no seguimento da descoberta do "buraco"  nas contas públicas da Região Autónoma da Madeira,  o convite endereçado ao dito cujo para ser um dos mandatários da recandidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD, só pode ser encarado como altamente surpreendente. 
Soube-se hoje, no entanto, que há, pelo menos, mais dois mil milhões de razões para a surpresa ser maior ainda. Com efeito, sabe-se agora que a dívida global da região da Madeira que, segundo o antes anunciado pelos governos da Madeira e da República, andaria pelos 6328 milhões de euros no final de Junho passado, vai ultrapassar a barreira dos 8000 milhões.
Mas tudo tem, afinal, a sua explicação e, neste caso, é o próprio Alberto João quem se prontificou a apresentá-la: “É uma altura de unidade partidária e foi por essa razão que eu aceitei ser o mandatário do líder nacional do partido”. 
Perante isto e se nos recordarmos que Alberto João não vai ter que pagar, até ao final do seu actual mandato, nem um tostão do empréstimo concedido pelo governo presidido por Passos para cobrir as loucuras do líder da Madeira, será ainda preciso explicar como funciona uma pandilha?

Quocientes

por Francisco Clamote às 17:53
QI, na versão de Ferreira Fernandes, hoje, no DN:
"Há dias, Eduardo Catroga disse uma coisa extraordinária. Tendo sido escolhido para presidente da EDP, explicou a decisão, assim: "Eu era um candidato natural". Na mesma altura, estando eu em Angola, li num jornal local a entrevista também extraordinária de um empresário. Perguntado sobre qual a refeição mais cara que teve, o empresário respondeu: "Ainda há dias, num almoço em Amesterdão, uma garrafa de vinho custou-me 1500 dólares." Qualquer candidata a Miss Mundo saberia dizer que se tivesse esse maço de notas dá-lo-ia a um hospital pediátrico... O despudor do empresário angolano era de quem ignora tudo da política (isto é, da relação de cada um com a gente à volta) a ponto de acirrar os que têm muito pouco e justamente se ofendem com a arrogância dos poderosos. O caso de Catroga é politicamente parecido. Em Portugal há escândalos recorrentes com o termo "boys". Daí as nomeações, que deveriam ser sempre na base da competência (o que é o caso Catroga/EDP), exigirem também discrição política. Ora alguém achar-se "candidato natural para a presidência da EDP" é um estardalhaço desnecessário e arrogante que não pode senão excitar indignações. Recorro ao imaginativo falar luandense para mostrar que ninguém se deixa enganar. Por lá se explica o que leva alguém a conseguir um alto cargo: "Esse tem um grande QI!" E não, não se referem a Quociente de Inteligência, mas sim a ter um grande e poderoso Quem Indicou."
(Bold meu)

 

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