Quinta-feira, 10.05.12

O falso dilema

por rui david às 13:35

Será que alguém consegue perceber isto?

Seumas Milne, no Guardian.

European elections: if the left doesn't lead revolt against austerity, others will

"As the cost of the establishment's austerity deepens, the polarisation between left and right is portrayed in much of the media as the rise of "extremes". But it's both absurd and repugnant to equate racist or xenophobic nationalists, which have kept supposedly centrist governments in power from Denmark to Italy, with leftist parties rooted in social movements that stand for a progressive political and economic alternative."

 

Terça-feira, 08.05.12

Aula de História em "Realidade Aumentada"

por rui david às 10:04

Intrigam-me aqueles que falam nos "extremos" que implodiram o "centro" grego, como "duas faces da mesma moeda".

Geralmente os mesmos que acham que um partido como, digamos, o Bloco de Esquerda, é o "equivalente", do outro lado do espectro político, à extrema direita neo-nazi que vai re-emergindo na Europa e se sentem desconfortáveis por não ser geralmente reconhecido a esta última o mesmo "estatuto" de participante do processo político "normal".

O vídeo da Conferência de Imprensa do líder do Partido que acaba de obter cerca de 7% do voto dos gregos, é, assim, para desgraça dos gregos e nossa ilustração, enquanto formos a tempo, uma peça educativa chave que deveria ser mostrada nas escolas, às criancinhas. Isso, que seja nas tais aulas de Educação Cívica que alguns acham tão supérfluas.

Também é edificante, no vídeo, a reacção da "Imprensa Livre" que abarrotava a sala à procura do "frisson" da "novidade" e que mansamente obedeceu à intimação do serviço de ordem do candidato a Fuhrer grego para que se levantasse "em sinal de respeito". Obedeceram, sim, como cordeirinhos e ao que é dado ver na peça, a esmagadora maioria ficou na sala ordeiramente escutando a arenga. O que seria se uma repórter qualquer cobrisse discretamente a cabeça para entrevistar um qualquer ayatollah iraniano... o que seria!

 

Segunda-feira, 07.05.12

E ao primeiro dia “os mercados” reagiram ...

por rui david às 17:23

E ao primeiro dia “os mercados” reagiram ...

Faz parte de um novo estádio superior da democracia, uma nova extensão do Pensamento Único, é o retorno – para ficar -do Fim da História.

Para além dos políticos e das suas propostas existe agora uma elite opiniosa com abundante representação nos media que entre discursos apologéticos da “liberdade” e da “democracia” se auto-erigiu como porta voz dos “mercados”.

Oráculos, sacerdotes, mediúnicos pára-raios-os-partam com pernas por onde desce à terra a energia criativa dos mercados...

Ao sufrágio universal, sobrepõe-se agora o mandato dos “mercados” por interposta pessoa dos seus médiums.

Em certas forças políticas mais vocacionadas ou mais rápidas no processo de aggiornamento, já começa a não se distinguir entre uns e outros.

Felizmente que os partidos que compõem o nosso Governo já empreenderam essa crucial reforma estrutural.

Previamente aos actos eleitorais, esta elite previne-nos num tom entre o compungido ( “não há alternativa...”) e o eufórico, percorrendo consoante o protagonista e a circunstância todas as tonalidades da escala histriónica da arrogância (não há alternativa!”), das consequências inevitáveis das reacções dos “mercados” a cada uma das nossas escolhas.

Sem nos dar escolha.

Porque escolher, pode ser nefasto.

Portas-te bem (fazes o que te dizem e permites ao “mercado” “serenar”, tranquilo quanto às “medidas” com que te vai entalar entre elogios que soam ao afago que o dono prodigaliza ao cão que lhe foi apanhar um galho de árvore na passeata matinal pelo parque e protestos de que tu estás disposto a todos os sacrifícios pelo dono) ou portas-te mal, não elegendo quem os mercados ou os seus médiums te “aconselharam”, e arcarás com a culpa pela reacção naturalmente “negativa” desses mercados.

Complementarmente, os médiums transformam-se em oráculos que alertam atempada e preventivamente “os mercados”.

Olhem que o Monsieur Hollande é “dangereux", delatava há dias a capa da libérrima Economist, procurando descaradamente influenciar as eleições francesas.

Nesta fase de progressiva irrelevância dos políticos e da política e a sua substituição por este espiritismo sem mística, pergunta-se se não seria mais fácil (mais racional, menos “despesista”) mais honesto até, e mais divertido, acabar de vez com o sufrágio universal (vendo bem, uma chatice...) e instituir a eleição das figuras de topo do Estado (os “nossos” representantes) por um colégio de opinion makers, jornalistas da área económica e empresários aos quais procuram desesperadamente agradar (é que “não há alternativa!”) os jornalistas da área económica e os opinion makers.

Não precisamos já de deputados, precisamos é de gente – desejavelmente muito menos do que os deputados e por isso maior a poupança – Estado mais pequeno - um dogma essencial da Fé - que saiba interpretar o sentir soberano dos mercados. E agir em consonância. Uma nova Igreja.

Nós manter-nos-mos tranquilos consumidores, “rebeldes” nos anúncios de jeans, cheios de vitalidade no apoio à selecção nacional.

É uma utopia (diziam que eram perigosas) realizada. E é mau? É que não há alternativa. Podemos começar a balir.

Domingo, 06.05.12

Médicos, Doutores e Engenheira. Há muitos. MAC só temos uma.

por rui david às 13:32

A polémica sobre o "encerramento da MAC" é um bom exemplo de como as premissas do pensamento único que se impôs nos últimos anos no domínio da economia e logo depois, da política, se vão espraiando pelas mais variadas áreas, incluindo a da Saúde.

O refrão, é sempre o mesmo. "Não há alternativa"...

A "urgência" de acabar com os "graves desperdícios" que se verificarão devido à existência da nossa mais importante Maternidade, faz lembrar a dos vendedores de casas ou automóveis em segunda mão quando nos querem impingir uma qualquer "oportunidade", não poucas vezes ruinosa.

No caso da MAC, faz impressão como há o atrevimento ignorante de pretender justificar o seu encerramento com fundamento numa hipotética melhoria da "segurança" nos cuidados de saúde prestados.

Na MAC, um dos pilares do nosso SNS, que contribuiu de forma decisiva para o gigantesco progresso conseguido em Portugal em todos os indicadores de saúde pública na sua área de intervenção, a nível mundial!

Os contornos são outros, como se pode ler em dois textos que me parecem relevantes sobre a polémica.

 

Do primeiro, publicado no site "Iniciativa para uma auditoria cidadã à dívida", com o título "A MAC e o Novo Hospital de Loures"e assinada por Bruno Maia, destaco:

"A MAC é a maior maternidade do país, a que realiza o maior número de partos por ano, a que tem uma diferenciação científica e técnica mais desenvolvida, e tem vindo a aumentar o seu montante assistencial nos últimos anos. Mais de 5000 partos foram realizados o ano passado naquela unidade. Mas em Lisboa existe capacidade instalada para partos que é superior àquela que de facto é necessária. Porquê? Porque existem na cidade 4 serviços de obstetrícia-ginecologia: MAC, Santa Maria, Estefânia e S. Francisco Xavier. E nos últimos 10 anos, o Estado decidiu aumentar a capacidade instalada na Estefânia e em S. Francisco Xavier, sabendo de antemão que nestes dois locais o número assistencial era baixo e não se previa que aumentasse. Na MAC também foram realizados investimentos avultados de melhoramento das instalações. A única diferença da MAC para as outras duas é que esta tem vindo a aumentar o número de mulheres que atende. Existem três investimentos, dois fúteis e um muito proveitoso – então qual é a decisão do ministro? Fechar o investimento que valeu a pena! Já os seus antecessores foram negligentes com o Estado ao gastarem dinheiro em algo que não era necessário, mas Paulo Macedo quer ser ainda mais negligente, deitando ao lixo o único dinheiro que foi bem aplicado."

"Em primeiro lugar, uma boa parte do movimento assistencial realizado pela MAC diz respeito à área que abrange o concelho de Loures. Sempre foi assim: enquanto as mulheres de Loures não tinham um hospital perto, recorreram, durante anos, à MAC. Ora, no contrato da PPP de Loures, Estado e grupo BES acordaram a abertura naquele Hospital de um novo serviço de obstetrícia-ginecologia para a realização de um total de 1800 partos por ano. Isto sabendo que havia um excedente histórico na cidade de lugares para partos. Ou seja, quem negociou este contrato da parte do Estado não se baseou nos estudos que apontavam para este excedente, e foi negligente, pois atribuiu uma função ao novo Hospital de Loures que não era necessária e que é paga à entidade privada.

Em segundo lugar, custa bastante acreditar que o grupo BES Saúde, tendo conhecimento deste excesso de oferta, tenha aceitado assinar este contrato sem contrapartidas. Apesar do anúncio oficial ter sido muito recente, os rumores do fecho da MAC têm já alguns anos. Talvez a informação prestada àquela entidade privada na altura da celebração do contrato não tenha sido apenas rumor, mas promessas futuras.

Em terceiro e último lugar, está em risco o financiamento estadual ao grupo BES Saúde. A renda anual que é dada àquela entidade para gerir o novo hospital está, contratualmente, dependente do serviço assistencial previamente definido. Ou seja, se os 1800 partos anuais não forem atingidos, o grupo BES perde uma parte pré-definida na renda. Isso aliás está bem explícito no contrato da PPP, na cláusula 72, relativa a falhas de desempenho da entidade gestora do estabelecimento, onde se refere claramente que “Quando ocorram falhas de desempenho, a Entidade Pública contratante tem o direito de proceder a deduções aos pagamentos a realizar à Entidade Gestora do Estabelecimento”. Ora é esta parte da renda que a eng.ª Isabel Vaz não quer perder de forma nenhum e é aqui que o fecho da MAC contribui para os seus bolsos.

O fecho da MAC deita ao lixo uma importante verba pública, gasta nos últimos anos com a renovação desta unidade, para no futuro colocar mais uma parcela de dinheiros públicos na carteira de um grupo privado."

Do segundo, publicado no blog Cidadania LX, com o título MAC, e assinado pelo geógrafo João Seixas, destaco:

"A MAC é futuro: é onde nascem mais bebés. A MAC é sucesso: no nascimento de cada novo ser, no excelente serviço público, no combate à mortalidade infantil.
A MAC é cosmopolitismo: no centro da nossa cidade principal, acessível a todos e pelos mais variados meios. A MAC é identidade: todos, mesmo os que lá não nasceram, sentem a MAC como útero urbano. A MAC é um dos centros efectivos e afectivos de toda uma sociedade.
O hospital de Loures, no alto de uma colina e longe de qualquer centro (vê-se Loures lá em baixo, a oeste umas torres de Santo António dos Cavaleiros) é enorme. Imponente. Obeso. Construído pelos grupos Mota Engil e Opway, gerido pela Espírito Santo Saúde, irá prover a centenas de milhares de utentes, como nós tributários somos chamados. Custou centenas de milhões de euros, investimento a ser evidentemente rentabilizado.
Mas a saúde não tem preço. Adaptaram-se quatro carreiras de autocarros, mas quase só se chega lá de automóvel. À disposição, uma vasta gama de fast-food, perdão, de fast-road. Um novo-riquismo territorial, cheio de molhos e maioneses, de grandes marcas, claro, que nos deu cabo da saúde.
Pois uma metrópole dispersa tem custos altíssimos. Gasta imensa energia, consome loucamente, é bastante esquizofrénica. É muito doente.
A contínua concentração económica e de poder, em Portugal, feita sem qualquer visão integrada de território e de promoção da qualidade de vida; feita sem uma real estratégia de saúde colectiva; continua assim a promover a desconcentra-ção territorial da sociedade, e a deslocação tectónica das nossas centralidades, mobilidades e identidades. Se não é intencional, é grande a irresponsabilidade. Se é intencional, é a maior loucura."

Sexta-feira, 06.04.12

Fim de um ciclo

por rui david às 21:49

Têm-me deixado estupefacto algumas reacções à medida do Governo de congelamento das reformas antecipadas.

Nem tanto quanto à medida em si, mas relativamente à forma como foi implementada.
Quero dizer... o PSD não me admira nada, a multidão dos seus comentadores "independentes" nos media concorda que a ausência de comunicação prévia foi um mero "erro de comunicação"...
Admira-me sim, que o Secretário Geral da CGTP (já nem falo da alforreca da UGT, cuja opinião não interessa ao Pai Natal, ou melhor, interessa que se cale) tenha classificado a medida como "um embuste"...
Um "embuste"! Este homem devia voltar para as Novas Oportunidades (se é que ainda as há...). Este sujeito regurgita burrocraticamente uma palavrita que aprendeu em 30 anos de "contestação", sem perceber as implicações qualitativas deste acto do governo (a forma como foi implementado) relativamente ao seu relacionamento com o povo português.

Mudámos de "regime".

Este acto do Governo é a reentrada no sistema salazarista de governo.
Isto é um tipo de actuação que mostra com o que o povo português e particularmente, ou sobretudo, quem trabalha, pode esperar dele a partir deste momento.

Uma actuação traiçoeira que impõe medidas de enormes consequências pela calada da noite apanhando as pessoas totalmente desprevenidas.

A partir deste momento está demonstrado que não há leis, não há "estado de direito", não há possibilidade de se fazerem "planos", tudo depende da vontade absoluta da seita que nos governa.

As "leis do trabalho" e o arremedo de "concertação social" volatilizaram-se de uma penada.
E a "oposição" que continue a ser "responsável" e a debitar as bocas gerais e inconsequentes, civilizadíssimas, dos Drs. Seguro e Zorrinho, e o estimado irmão coreano Bernardino que continue a bater na tecla de que este governo é "igual aos anteriores" (o Bloco recolheu ao leito, se excluirmos o facto de que Louçã escreveu um livro e um tal Gil Garcia formou um novo partido que tanta falta fazia) ... bom proveito lhes faça.

A "responsabilidade" de uns e a irresponsabilidade de outros, são afinal o reflexo ou o prémio da serenidade do povo (tão elogiada lá fora e tudo...).
E um sinal verde para o Governo: meus senhores, neste momento não há simulacro de legitimidade democrática no País. Podem fazer o que quiserem. Não se dêem ao trabalho, sequer, de manter a rábula sobre a reposição dos subsídios, algures no futuro, deixem-se de "erros de comunicação". Instituam desde já um programa televisivo semanal com o título "Conversas em Família" tendo como protagonista o Dr Coelho em que na primeira emissão ele assuma desde já e de uma vez por todas que acabou.

Ah! falta (ainda) de forma visível a parte policial... descansem que por este caminho não há-de faltar muito tempo.

Golpada?

por rui david às 09:52

A medida de boquear as reformas antecipadas e, sobretudo, o "estilo" como é imposta não é nem uma mera golpada nem (oh Meu Deus!) uma medida que preserve o emprego de quem o tem.

É uma medida humilhante, traiçoeira, que revela uma feroz desconfiança e antagonismo relativamente a quem trabalha e que é digna de um regime ditatorial.

É uma medida salazarista.

É uma medida que evidencia, como nenhuma outra até agora, a natureza perversa desta seita que os portugueses elegeram.

E é totalmente absurdo achar-se que "reforça o emprego" de quem quer que seja.

Em primeiro lugar, porque graças às medidas que têm vindo a ser tomadas, o Governo, ou quem quer que seja, têm hoje, quase que se diria os incentivos para despedir sem qualquer justificação ou custos.

Em segundo lugar, porque o emprego a que hipoteticamente a sua ausência daria lugar seria um emprego precário e desprotegido que se tivesse  efeito nos números do desemprego seria de mera cosmética.

Em terceiro lugar por uma razão de evidência quase lapalissiana: porque era o regime em vigor até agora, e foi com ele em vigor que se chegaram aos números do desemprego. Isto é, o seu impacto, nessa matéria, é zero.

Komo nicar o povo

por rui david às 09:20

Talvez para realçar o carácter de comentador político independente de Marques Mendes, o Público on line titula hoje que ele "acusa" (wow, nada menos do que "acusa"...) o Governo.

Mas o problema de Marques Mendes com o Governo não é nem a má fé das medidas arbitrárias e humilhantes anunciadas de surpresa, como o bloqueio das reformas antecipadas (um dia destes aparece de surpresa uma "polícia solidária" qualquer com correntes para amarrar as pernas das pessoas às das mesas de trabalho), nem as mentiras descaradas (infelizmente há hoje uma proliferação de memórias documentais que dificultam o spin de afirmações factuais registadas), acerca de assuntos com impacto directo na vida de centenas de milhares de pessoas. O problema de Marques Mendes é com a "desastrosa comunicação" do Governo.

De forma mais polida, já Ricardo Costa dissera o mesmo num comentário televisivo, o que mostra que nem tudo está fora de tom em termos de afinação comunicacional.

Terça-feira, 13.03.12

Sede de Heróis

por rui david às 10:15

A coisa está de tal maneira que hoje em dia, qualquer Secretário de Estado, por absolutamente incapaz que seja, demitido deste Governo por divergências com Passos e Gaspar, é logo promovido a uma espécie de "herói do povo", Robin dos Bosques, Zé do Telhado que pretende tirar "aos grandes" para "dar ao pequeno"...

No meio da crise e da crítica generalizada a este Governo, havia, afinal, uma tábua de salvação... que se afundou agora, oh Zeus! Vamos para a rua!

Até o PC e o BE parecem alinhar nesta explicação aprofundada...

O Secretário de Estado queria "reduzir os custos da energia para os portugueses", diz, sem ironia, o Bloco... pelo amor de Deus, baza, Gil Garcia, se não, ainda vais ter de engolir mais este candidato presidencial!

E o PC... diz que o Secretário de Estado sai por não ter cumprido as medidas a que se propusera! Boa, ah! grande Passos, agora é que sim, se este não serve e não cumpre as promessas, é em ti que confiamos para pôr lá um que traga a tal "energia barata"!

Olha, isto é tão lamentável e estúpido que quase sinto saudades do PC sectário, fanático e intransigente, dos tempos recentes do Governo PS. Ao menos esse PC sempre teria comezinha honestidade intelectual para disfarçar a sua ignorância com um lacónico "são contradições no seio da burguesia".

A mim, na relativa ignorância das coisas, mas juntando os dados que é possível juntar, a demissão do Secretário de Estado de Energia que pouco mais fez, que se saiba, do que encomendar 3-estudos-3 até encontrar um que provasse mais ou menos aquilo para o qual ele foi impingido ao governo em primeiro lugar (lembram-se da forma prazenteira como os amigos do povo Patrick Monteiro de Barros e Mira Amaral o citavam no Prós e Contra montado para arrasar com as renováveis, aqui há poucas semanas atrás?), isto é, para começar, "comprovar" a tão apelativa teoria "da roubalheira" que estará a ser perpretada pelos operadores energéticos, parece-me mais um revês, pelo menos temporário, do Grupo do Manifesto pró-nuclear, do que outra coisa.

A ver vamos.

 

Domingo, 11.03.12

Fukushima, um ano

por rui david às 20:56

Passou um ano sobre a catástrofe no Japão.

O país tenta hoje lidar com a destruição causada pelo tsunami, de entre cujas consequências avultam a necessidade de processamento de uma quantidade de detritos gerados que só não é inconcebível porque infelizmente é bem real e a alteração das características dos solos costeiros pela invasão de água salgada que impede, para já, a sua utilização na agricultura, para além da necessidade de reconstrução de inúmeras infra-estruturas.

Um dos danos colaterais causados pelo tsunami foi a destruição da central nuclear de Fukushima.

Tanto quanto se sabe, a situação nessa central está alegadamente "estabilizada", mas as contaminações radioactivas nas regiões limítrofes ainda mantém dezenas de milhares de pessoas afastadas das suas casas, situação que, provavelmente se manterá por décadas.

A industria nuclear japonesa foi ferida de morte neste processo. O Governo e a opinião pública acordaram para décadas de prepotência, ocultação de dados e pressão sobre as entidades reguladoras, por parte dos operadores energéticos.

Dos 54 reactores existentes, apenas dois se encontram neste momento em funcionamento.

Daqui não veio, por paradoxal que se pudesse pensar, nenhum problema excessivamente grave.

Com a evidência do desastre a poucos quilómetros de distância, a sociedade japonesa adaptou-se à nova realidade, sem excessivos dramatismos e sem necessidade de adaptações catastróficas do seu modo de vida, o Japão mostrou que é possível a um país, ainda que dependente dessa energia, adaptar-se à sua ausência.

Para comemorar a triste efeméride, a AlJazeera publicou vários artigos sobre o tema.

Um deles, um lamentável artigo do cientista nuclear inglês Martin Freer, atribui a generalizada desconfiança no nuclear que se seguiu, em todo o mundo, ao desastre de Fukushima, ao "desconhecimento" e mereceu-me um comentário, o mais brando de que fui capaz, que reproduzo, com pedidos de desculpa pela redacção tosca mas foi escrita a quente e pouco e insuficientemente editada:

"I find this article misleading.
Not that I object the need of a careful and rational assessment of nuclear energy, on the contrary.
If, one day, mankind will be able to tame the atom in order to tape on its energy, safely and cheaply that will be great! In order to do so, governments and private sector should keep on funding research on pure research and technological related fields.
The problem is not "nuclear energy" in itself, is the industry of selling nuclear power as it has worked during the past 50 years until today.
The problem, in fact, is that the widespread discussion, consciencialization, and knowledge concerning nuclear energy should have happened BEFORE the nuclear "revolution" and not just now, when that industry suffered (and imposed to unwilling and unsuspecting victims) serious blows materially and in credibility.
When this "solution" was imposed to the peoples all over the world (namely the farmers near Daiichi, the Chernobyl locals and Prypiat idealists), I doubt that these people were "objectively" informed about the "misconceptions"... or if they shouldn't have cared more or if this would have made a big difference now.
Moreover, some of the problems that the nuclear industry is going through right now, derive form the fact that only recently has people (namely public officials) started to challenge the myths of "cheap energy" and assess its hidden collateral finantial costs. See what is happening in England and France and elsewhere.
To say that "Some experts even argue that we may need a degree of radioactivity to stimulate our immune systems" in the context of discussing the future of the nuclear energy, and precisely at a time when thousands had to be evacuated from their homes, can only be a joke...."

Quinta-feira, 08.03.12

Mulheres a Dias(s)

por rui david às 11:23

O Dia da Mulher é aquele tipo de "dia" que me chateia porque só serve para perpetuar a desigualdade com que se diz que se pretende acabar.

Uma desigualdade que, de resto, têm sido essencialmente as mulheres a liquidar progressivamente. Da rua às trincheiras.

A sua existência é um sintoma da sobrevivência dos preconceitos machistas na sua versão mais “compassiva” e “cavalheirescamente protectora” da mulher.

Um tentáculo dos ridículos ideais arremânticos que a imprensa que veicula a ideologia dominante (não inocentemente designada como “côr de rosa”...) propala diariamente de forma irrestrita, dando-se ao luxo de incluir no seu reportório moralmente corrupto a piscadela de olho ao chamado “politicamente correcto” enquanto cumpre o dever cívico de “dinamizar o comércio e manter postos de trabalho”.

Não é o dia de florzinhas lamechas e pseudo-românticas, pretexto para reiteradas manifestações de mal disfarçado machismo e marialvismo.

A ser dia, todos os dias, é dia ou serão dias das sufragistas inglesas e dos seus “exageros”, tão soberbamente ridicularizados por tudo quanto era idiota com talento literário e pedigree aristocrático da época – nada de atirar pedras, é o mesmo que hoje.

É o dia das mulheres que lutaram na Resistência, das muçulmanas que lutaram pela independência da Argélia e das feministas que queimaram soutiens na praça pública nos anos sessenta, a quem as actuais “conservadoras” hoje, de costa mais alta, graças a elas, ridicularizam e cujo exemplo adoram vituperar – elas e os seus patéticos "eles" – ignorando, infelizmente, quanto lhes devem porque infelizmente elas, exclusivamente elas, conservadoras, não são já tão vítimas da sociedade miserável, ultra-católica autoritária e machista que asfixiava a maioria das mulheres nos idos do século passado, incluindo durante a “idade do ouro” marcelista.

O Dia da Mulher pressupõe uma certa atitude insuportavelmente paternalista e, convenhamos, anacrónico, em relação às mulheres. Enxerguem-se, rapazes.

Que precisam de um dia... coitadinhas... para nos “sensibilizar” ... tretas! Ou alguém (homens? alienígenas?), por elas, pretende fazê-lo... ou então, o também insuportável argumentário, proveniente sempre da mesma raiz, da particular sensibilidade da mulher, e que se fossem as mulheres a mandar, etc. e troca o passo, porque elas, (coitadinhas...) são tão gentis, femeninas, sensíveis, boazinhas, sensuais, fadas do lar, diligentes, compreensivas...

A única coisa que talvez convenha repetir para que se consiga duma vez por todas entender, é que os direitos da mulheres antecedem quaisquer justificações.

As mulheres devem ter direitos iguais, as mulheres têm de tê-los, exactamente, exclusivamente, porque sim.

O resto, os hipotéticos benefícios adicionais, bem reais, alguns, e “úteis”, quer colectivamente, quer para as mulheres, seres individuais, imaginários, outros (as lérias do “se as mulheres mandassem” (POUPEM-ME!)...), vêm atrás, muito atrás.

Quem se lembra de justificar a abolição da escravatura porque os escravos são melhores pessoas do que os seus donos?

Acaso diminuirá a necessidade de igualdade para castigar as cabras que se manifestaram com as panelas, dando alento ao golpe do Pinochet?

Eu diria mais, uma das provas mais claras do sucesso da progressiva emancipação da mulher é a ascenção irresistível de vilãs na política, da Marine LePen, à líder da extrema direita dinamarquesa, à enxurrada americana de Sarah Palins e Michelle Bachmans...

Assim é que o Dia da Mulher é tanto das mulheres que odiamos (como a Margaret Thatcher, sobre quem me apetece disparar), como das que amamos (para não ferir susceptibilidades refiro apenas, sem surpresas, as nossas mãezinhas).

Já agora: quando é que alguém se lembra do dia do Homem(zinho)?

Olhos nos olhos

por rui david às 07:52

Segundo o Público, a "Secretaria de Estado e Lusoponte contradizem Passos sobre portagens".

Isto é,ao contrário do que o PM disse no Parlamento, "a Lusoponte recebeu mesmo a dobrar as portagens de Agosto de 2011".

A questão não é se o PM mentiu. Parece-me fora de questão. Ainda por cima, pelos vistos a Lusoponte não irá, legitimamente ou não (a actual maioria resolveu abrir a caixa de Pandora com as costas muito largas dos "direitos adquiridos", pelo que nada é certo hoje em dia...), "proceder a qualquer reembolso dos quatro milhões e quatrocentos mil euros, que servirão para abater à divida que o Estado tem com a Lusoponte" era o procedias... e isso permitirá aos PR do PM explicar-nos tintim por tintim que "era isto que ele queria dizer"...

A questão é que demonstra que a sua ignorância dos assuntos não o impede de se lhes referir no tom sincero e a expressão circunspecta com que diz muitas outras coisas, quase todas as outras coisas.

Domingo, 04.03.12

Bem aventurado unanimismo

por rui david às 11:24

Afinal não eram só o Sócrates e o Ceaucescu. Contra toda a expectativa, o resultado das eleições para a presidência de um partido plural e democrático como o PSD, foram 95,5% de votos para o líder.

Com a vantagem de no caso do PSD não haver o perigo de o líder "secar" ideologicamente o partido.

Stairway to Heaven

por rui david às 09:48

 Numa entrevista ao LeMonde, Paul Krugman considera que nos próximos 5 anos, os salários dos países periféricos da Europa deveriam descer cerca de 20% em relação aos alemães.

(Pour restaurer la compétitivité en Europe, il faudrait que, disons d'ici les cinq prochaines années, les salaires baissent, dans les pays européens moins compétitifs, de 20 % par rapport à l'Allemagne. Avec un peu d'inflation, cet ajustement est plus facile à réaliser (en laissant filer les prix sans faire grimper les salaires en conséquence).)

Não se trata de cortar directamente nos salários, mas de congelá-los, permitindo uma inflação da ordem dos 4%.

Ainda que isto seja significativamente diferente do que foi papagueado nos media portugueses que deram a notícia de forma ambígua de forma a deixar no ar a sugestão de que se propunham cortes salariais directos, a questão que se me coloca é a seguinte: saberá o krug man, qual é já hoje, (qual era, antes da crise) a proporção entre os salários e o conjunto dos benefícios sociais de um trabalhador português e de um trabalhador alemão? E dada essa discrepância será possível falar seriamente numa união política?

Sábado, 03.03.12

Engana-me que eu gosto

por rui david às 21:29

Poucos dias após a tomada de posse do novo governo conservador espanhol, começaram a surgir na imprensa espanhola os ecos de uma fraude anunciada:

Rajoy incumple su palabra y sube los impuestos”, titulava o Publico.es em 31 de Dezembro

La reforma facilita y abarata el despido”, titulava o El País a 20 de Fevereiro.

A notícia referia-se a uma sequência de acontecimentos cujos desenvolvimentos e incidências, sendo sobejamente conhecidos dos portugueses, se repetem nas suas linhas gerais em Espanha, com poucos meses de intervalo:

Governo de direita ganha eleições cavalgando a crise económica e a suposta insuportabilidade dos “brutais” sacrifícios impostos por governos socialistas, tendo como programa aliviar a carga fiscal e "relançar" o “crescimento económico”.

Na hora de tomar posse “descobre” que afinal a coisa era muitissimo pior do que supunha, e “vê-se obrigado” a “medidas excepcionais”, cujo conteúdo, se por um lado revela confrangedora falta de imaginação (reservada para o seu empacotamento e distribuição através da caixa de ressonância duma miríade de opinion makers mais ou menos franchisados ou jornalistas subitamente imbuídos de um peculiar “sentido de responsabilidade patriótica”), no essencial procede dum sagaz pragmatismo ideológico:

- Aumento de impostos (ok, vamos deixar de lado o “brutal”, adjectivo já suficientemente gasto pelas oposições de direita e da extrema esquerda reunidas e conluiadas) com particular incidência sobre as camadas mais desprotegidas da população.

- Corte em gastos essenciais na protecção social.

- Disrupção do muito relativo equilíbrio pré-existente na relação de forças entre empregadores e trabalhadores, em flagrante favor dos primeiros, em nome de um putativo "aumento da competividade" da "nossa" economia.

O facto de se ter repetido em Espanha, estando bem presente a evolução da situação portuguesa, sugere que décadas de prosperidade ininterrupta desenvolveram no eleitorado de algumas democracias um estranho cinismo que a direita tem sido capaz de explorar com eficácia.

Líderes como Rajoy, ou Passos Coelho, mentem, sim, nas campanhas eleitorais, mas, na realidade, não enganam os eleitores que os seguem.

O que sucede é que cumprem a função essencial de mentir a um eleitorado que necessita de ouvir mentiras.

Como se o tempo se suspendesse pelo breve período da campanha eleitoral e as pessoas sentissem esse período como um momento dealheamento e fantasia, de que necessitam para encarar, submissas, a verdade do dia seguinte. Que não desconhecem, de todo, mas que apesar de tudo lhes acena com o irresistível apelo da “mudança”, qualquer que ela seja, ainda que seja para que tudo fique… pior.

Se tivessem dito a verdade sobre as suas verdadeiras intenções, Rajoy e Passos talvez não tivessem ganho. Talvez mentindo tenham cumprido a função essencial de dar ao eleitorado, consciente da mentira, mas desesperadamente necessitando de ilusão, a compensação emocional necessária para justificar o voto.E o desastre.

Alternativas?

Domingo, 19.02.12

Explicação Plausível

por rui david às 14:21

Entre a "visão" marinada em Hayek do professor Cantiga Esteves difundida obsessivamente pela TV e a falta de vergonha de João Vieira Pereira em aceitar que Vítor Gaspar é o novo cromo na colecção "heróis de Portugal", no Expresso, outras explicações plausíveis para a crise, surgem.

Por exemplo, uma baseada nos ciclos astrológicos proposta pelo presciente blog argentino "Contacto con lo Divino":

Agora está mau porque Plutão está em Capricórnio e é sabido as chatices que isto atrai, mas nada está perdido, porque daqui a uma década, com Plutão a entrar em Aquário, chegará uma nova ordem internacional.

Bom ou mau? Basta estudar mais Astrologia, mas tudo indica que será finalmente a famosa Era do Aquário de peace and love já anunciada há quase 50 anos no musical "Hair".

Dez aninhos. Basta esperar dez aninhos e estaremos em casa.

Quinta-feira, 16.02.12

O Zé e a Maria e os "piegas"

por rui david às 11:05

Ainda a propósito do último prós e contras, um texto de Viriato Soromenho Marques, publicado hoje no DN.

"

Centuriões e pretorianos

Uma das características do nosso tempo, como bem identificou Hannah Arendt, é a mentira organizada.

Só isso explica que a verdade factual seja disputada na praça pública como se fosse mera opinião.

Ainda há pouco, havia gente poderosa que contratava médicos para estes "demonstrarem cientificamente" que o tabaco não tinha relacão com o cancro!

Tive muita pena que o serviço público não tivesse sido servido no ultimo Prós e Contras, da RTP.

O debate crucial sobre a energia em Portugal mais parecia um cerco, organizado e esmagador, aos três convidados que representavam a aposta nas renováveis.

Mais uma vez, Carlos Pimenta, que já ficou na história da nossa democracia pela sua defesa intransigente de um Portugal civilizado, em paz com o ambiente, mostrou, com inteligência, o imperativo de defender a produção de eletricidade a partir dos nossos recursos endógenos:

do vento, da água, do sol, da geotermia, da biomassa, sem esquecer a eficiência energética.

Do outro lado, tanto no palco como na plateia, um coro lamuriento. Uns, apenas distraídos. Outros, que o tempo varrerá atá aos rodapés da história, ligados a interesses egoístas e de curto prazo.

Gente que tanto quer vender refinarias como reatores atómicos.

Os mesmos que acusam a tarifa elétrica de estar onerada pelo preco das renováveis querem desequilibrar a nossa balança de bens e servicos (que é a causa estrutural da nossa dívida) com mais importações.

Nos últimos dois anos, com a electricidade renovável nacional, poupamos a importação de 1203 milhões de euros de combustiveis fósseis.

Essa é a verdade incontornável.

É isto que separa os centuriões, que lutam respeitando a verdade, dos pretorianos, que têm a alma mais perto do bolso do que do coração.

 

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES Professor Universitário"

 

Relativamente a este texto apenas considero que é necessário esclarecer que o cerco foi mal sucedido, e que, ao contrário do que estaria programado, Carlos Pimenta e o seu lado da bancada demoliram os seus adversários.

 

Para além disto, parece-me que há ainda que realçar dois pontos:

1- o estranho encarniçamento do sector político que se revê no estilo "anti - piegas" do PM, contra 4% da factura da electricidade, (electricidade que mercê do recente aumento do IVA sofreu um agravamento de vários pontos percentuais que não lhes merece qualquer contestação).

2- a hipocrisia com que esse sector político se serve da demolição por que sempre pugnou, dos chamados "direitos adquiridos" dos trabalhadores e da população,  para torpedear contratos estabelecidos entre diversas empresas e o "Estado de Direito" de que se arvoram, na altura devida, como principais defensores.

Tranquilamente, à espera da nossa vez

por rui david às 07:38

Vários países rejeitam Grécia no euro e preferem incumprimento

Vamos acabar por assistir ao absurdo de a Grécia - e quem se lhe seguir - se suicidar para alcançar um objectivo que os parceiros europeus lhe recusam.

Sábado, 04.02.12

Paga o que deves ou...

por rui david às 11:16

Mais um malandro a soldo do Sócrates...

O antropólogo norte-americano David Graeber, professor da Universidade de Londres, em entrevista à EXAME reproduzida no site do Expresso:

" A divida e o incumprimento "é algo normal do capitalismo" "Secretamente todos os economistas o reconhecem. A ideologia de que a dívida é um pecado e de que ninguém pode ser libertado desse vexame e dessa culpa nada tem a ver com economia. É um discurso moral, que tem sido difundido como um meio de controlo social há milénios""

Não é que seja grande, a novidade, mas vinda de um académico do mundo anglo saxónico, na fase actual é quase assombroso...

 

 



Sábado, 28.01.12

Os suspeitos do costume

por rui david às 08:51

A companhia aérea Spanair, na eminência de falência, cancela voos e deixa mais de 22 mil passageiros em terra.

Que alívio, a falência de uma companhia é um facto normal e, consequentemente, normalmente aceite numa economia de mercado.

Dizem até, que é parte de um contínuo processo de renovação que é benéfico para economia e, mais uma vez, consequentemente, sobretudo para os "mais necessitados".

Este caso pode ser assim ser interpretado como um bom exemplo de "destruição criativa" de que todos lucrarão.

E assim, por uma vez, ninguém se pode queixar dos sindicatos.

Sábado, 31.12.11

Liberdade para os Bloggers Presos!

por rui david às 15:21

Habitualmente consideramos a blogosfera como um local relativamente impune e seguro.

Não é exactamente assim.

Para muitos, a blogosfera é um campo de luta arriscado.

Existem bloggers presos em muitos países do mundo.

Um abraço para eles e que 2012 os traga de regresso à Liberdade.

Gargantas Fundas

por rui david às 14:18

Relativamente a esta questão da venda da EDP a uma empresa chinesa com o sugestivo nome de Três (e supostamente profundas) Gargantas, acho o seguinte:

Na minha opinião, a falta de estratégia é (foi), pura e simplesmente, vender.

Tendo-se decidido vender e vendendo, as críticas, sem um conhecimento aprofundado, detalhado, de insider, dos trâmites e detalhes do negócio, são pura estultícia.

Desde o momento em que se decidiu vender (e pode dizer-se que a isso "fomos" "obrigados pela troika", mas suspeito que a troika apenas ajudou a impulsionar uma questão programática para a actual maioria), parecem-me muito frágeis os argumentos "estratégicos" dos críticos da venda à China, pelo menos enquanto não se souberem os contornos exactos das propostas e do negócio.

Claro que se nos colocarmos na perspectiva de que qualquer negócio feito pelo nosso governo (qualquer que ele seja) é uma vigarice, a dificuldade não é tirar as bolas do saco, é escolher o tom da "paleta" argumentativa de um exercício infelizmente largamente estéril.

O argumento de a China não ser uma democracia, então, e sobretudo quando é avançado pelo Bloco de Esquerda é de um ridículo atroz. E então quando é avançado pelos "liberais", é de rir.

Quem é que faz (ou não faz) negócios com a China por razões "humanitárias"?

Os americanos?

Os australianos?

Os franceses e os alemães?

Os ingleses?

Os portugueses?

E as "vantagens" da Alemanha? E as do Brasil?

Porque a Alemanha é nossa "parceira" na Europa?

Mas afinal isto é um leilão económico, ou é um leilão político? Ai agora já se reconhece a importância política estratégica para a nossa economia de uma empresa como a EDP (estas considerações, como é evidente, não se aplicam ao Bloco)?

A Alemanha, repito, a Alemanha da senhora Merkel e do "rigor orçamental", é nossa "parceira" amiga do peito e solidária estremosa que justifique que eventualmente se torçam as regras de avaliação das propostas por razões de política, numa contradição com os pressupostos de "transparência dos mercados" que levaram a vender a EDP e a andarmos há dois anos a sofrer a arrogância das críticas de "falta de rigor" (alcoólicos viciados, como nos chamou recentemente um imbecil qualquer de um banco alemão) com que qualquer esperto com domicílio a Norte dos Pirinéus e com um teclado, câmera ou um microfone à mercê, nos dirige amiúde com sobranceria impune?

O mesmo para o Brasil: adoramos o Lula, gostamos da Dilma, achamos o samba fantástico, o futebol, somos países irmões.

Mas o Brasil (e ainda mais uma empresa brasileira...) moverá uma palha enquanto Estado ou enquanto empresa responsável perante os seus accionistas que sabe-se lá quem são, para "favorecer Portugal" (se é que se poderá hoje entender o que será para um outro país soberano "favorecer Portugal"), não procurando maximizar os resultados económicos de qualquer operação, isto é, "prejudicando-se”?

A que título? A que propósito?

Os chineses têm má fama. Têm maus antecedentes em África. São de longe. Estão a "invadir-nos". São criticados porque têm sucesso económico com um sistema que desrespeita os direitos humanos, em países onde reina o despeito porque mesmo com o nivelamento para-chinês que têm vindo progressivamente a impôr aos direitos do trabalho e o aumento da desigualdade alcançado numa violenta Reavolução que dura há mais duma década e não mostra sinais de abrandamento, não conseguem apresentar estatísticas suficientemente auto congratulatórias. Tudo certo.

Mas nem ao nível do “cidadão” há notícia de engulhos com a ausência de direitos humanos na China (essa pecha vai, felizmenten desaparecer em Portugal, agora que a EDP é "chinesa". Agora sim, vão multiplicar-se as campanhas, as indignações...).

Ninguém se lembra dos direitos humanos dos chineses e da sua liberdade de expressão na hora em que, como "consumidores" (o proletariado iluminado dos ultra-liberais, a par com essa outra arma de arremesso que é o "contribuinte"), vamos às lojas comprar produtos luxuosos a preços “competitivos" porque fabricados nos sweat shops onde não há horários de trabalho nem direito à greve nem nada, o paraíso realizado dos coelhos, álvaros e respectivos apoiantes. Pelo contrário, indignamo-nos porque há ainda uns atrevidos que fazem greves, CÁ.

Ah! Dizia num outro dia um sagaz comentador: a EDP foi nacionalizada pela China.

Boa e acutilante laracha.

Pois se calhar foi. Mas o relevante é que esse comentador e muitos outros que andam eufóricos com “redução do peso do Estado”, esquecem que para a China nos nacionalizar aos bocados, nós tivemos que desnacionalizar esses bocados. Alegremente. Quem é que nos mandou ser, quem é que nos manda estar a ser, mais uma vez, estúpidos?

Colocando-me no mesmo plano especulativo de avaliação de hipotéticos méritos e deméritos dos concorrentes, parece-me que a escolha dos chineses, naquilo que eventualmente extravase o puro e simples enquadramento económico do negócio, que eu imagino escassíssimo, tem duas grandes vantagens:

1-      É uma associação estratégica com uma das economias mais poderosas do planeta neste momento, provavelmente a única que não está endividada até ao pescoço.

2-      Pelo facto de não ser uma democracia liberal (o que, neste momento, começa a tornar-se um eufemismo para designar regimes sem autonomia política em relação aos mercados financeiros), a par de ser um país onde se atribui grande importância a um certo simbolismo, é provavelmente o único concorrente em condições de, em determinadas condições e locais, nos oferecer (ou a alguns empresários portugueses) vantagens políticas convertíveis em benefícios económicos.

Terça-feira, 20.12.11

Mala de Samsonite

por rui david às 07:52

A ideologia oficial do PSD/CDS adoptou agora como ícone um novo personagem fetiche: o emigrante.

Enquanto comentadores e opinion makers cumprem abnegadamente a sua quota de enquadramento das massas, estão já a ser contratados na Coreia do Norte escultores especializados em estatuária de grandes dimensões para celebrar em tamanho macro as proezas dessa figura viril: o "nosso bom emigrante".

Oportunidade para Linda de Suza ressurgir das sombras e compor, com a ajuda preciosa de Toy, é óbvio, o hino que imortalizará este novo desígnio que vai fritando os miolos ao Primeiro Ministro: "a mala de samsonite".

Este desenvolvimento arrisca-se a provocar a desertificação dos seguidores de Passos Coelho.

O que será do PSD se o levarem a sério e desertificarem o País?

Fiquem alguns, por favor, vos peço. Ainda há tacho para uns quantos. A sério!

Resta-nos a esperança de que mais uma vez prevaleçam os valores autênticamente portugueses: "Faz o que eu digo..."

O odioso discurso anti-imigrante que ainda até há bem pouco tempo se insinuava, ganha, também, a conotação positiva de uma fraternal palmadinha nas costas: não imigrem, por favor, que isto aqui é um buraco, o fundo das calças da Europa, emigrem pela vossa rica Mãezinha. Para a vossa terra.

Quinta-feira, 08.12.11

Fukushima: ainda muito pano para mangas

por rui david às 22:00

Para alguns portugueses será assunto trivial apenas merecedor da atenção da imprensa sensacionalista ( e só a portuguesa...), mas o certo é que Fukushima, nem por ser muito longe daqui, quase nos antípodas, deixou de mexer.

Para os japoneses, claro. Cá parece que apenas serve de pretexto a alguns para "provar" a "segurança" do nuclear.

O último desenvolvimento potencialmente lourd de conséquences (desculpem, mas adoro esta expressão francesa por culpa de certas bandas desenhadas) é relatado na página 12 do Le Monde de hoje:

Parece que a maioria dos 12 membros da comissão de inquérito nomeada pelo governo para estudar as causas do desastre, pensa que não é claro que tudo tenha acontecido apenas devido ao tsunami.

Isto é, o cruzamento das leituras de diversos instrumentos e o apuramento do momento exacto em que se deram determinadas variações em determinados parâmetros críticos, parece não permitir excluir a hipótese de que tudo poderia ter acontecido sem o tsunami.

Teríamos assim, não um acidente nuclear, mas dois em um:

1- A combinação terramoto mais tsunami, uma ocorrência irrepetível para aqueles que inicialmente a declararam impossível (embora considerada como provável por muitos especialistas e ocorrida uns meros 30 anos depois do comissionamento da central, o que é notável em termos de probabilidades) e 

2- Terramoto violento (relativamente ao qual até agora prevaleceu a tese de que a central seria imune), fenómeno muito mais frequente e com implicações nas centrais que ficam longe do mar.

Esta hipótese, que se opõe à explicação avançada pela operadora da central, Tepco e generalizadamente aceite, de que tudo aconteceu pelo efeito combinado de um terramoto violento e a ocorrência subsequente de um tsunami que gerou ondas de uma altura excepcional que desactivaram os sistemas de back-up energético, tem potenciais efeitos catastróficos para o nuclear japonês, já que a ser oficialmente aceite implicará reformular completamente os testes de segurança anti-sísmica das centrais, não só ao nível do  seu conteúdo e exigência como, sobretudo, alterar a forma pouco transparente como foram até agora efectuados, com as implicações que isto terá em investimentos a efectuar e nos custos da energia produzida que já hoje são, note-se, elevados.

Atendendo a que hoje apenas se encontram em operação 9 dos 54 reactores nucleares japoneses, com restrições de consumo mas sem que nenhuma catástrofe energética tenha advido, parece que temos mais um país "farol" do nuclear para fins pacíficos a caminho de abandonar esse barco.

Terça-feira, 06.12.11

Punky's Dilemma

por rui david às 09:55

Yin Yang , Ping Pong.

Este jogo está a fazer torcicolos e é tempo de ir pondo os pés ao caminho.

Segunda-feira, 05.12.11

Chorinho

por rui david às 11:22

O Vídeo da Ministra italiana do Trabalho não controlando as lágrimas durante o já institucionalizado acto de anúncio de “os sacrifícios”, faz-me lembrar o conselho às crianças que há uns anos atrás, por alturas de Natal, ouvi no Chiado algumas vendedoras ambulantes de brinquedos e bugigangas de época gritarem em voz plangente:

"Chooora! Chora que a Mãezinha compra!”.

 

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