Está para aqui um gajo descansado, no meio das depressões e ansiedades que lhe couberam, e morre-nos parte da alma. Uma falésia traiçoeira. Gelo!
Gelo!, gelo, gelo… E depois calor. Muito quente. Como quem passa as mãos da água que ferve para a água que gela. E passamos de homens com chagas a seres sem sentidos. Sem sentido. Vermelho com azul dá transparente. Uma transparência de quem vê por nós, não em vez de, mas através de nós − como se não estivéssemos lá...cá...
E, sim, paramos de respirar por um momento – e a quantidade do tempo sem ar, tempo que morde, põe o despertador para a hora certa; seja para nos envolvermos, seja para resistir.
Tudo como que sem ar numa caixa-forte. Fechados por dentro… E a vontade imediata é mesmo essa. Voar em vez de tropeçar. Os sentidos baralham-se. A garganta ouve, cheira-se o grito, apalpa-se o sabor, vê-se o berro. Lambe-se a escuridão. E depois baralham-nos tudo e voltam a dar.
Os sentidos resumem-se. São agora um só! e podem ter caras – espécie de fé. Coroas nenhumas. Cinco trocados num sentir que não se sente. Dói!, mas não se sente. Sente-se sem doer. E esta inflexão da normalidade faz-nos apertar mais aquela mão que nos segura.
Acaso não esteja lá − aquela mão! −, o natural é que o apelo acabe por vencer.
E aí? Aí vamos! Arriscamos voar. À falta dos demais, ousamos crer num sexto sentido que justifique a ausência dos outros. A ausência da regularidade do tic-tac.
E voamos, voamos sem asas…
Assim é! Assim será…
Haja mão que por nós resista, que mãos não temos. Só asas…
Asas!
Em alturas dessas, olho a foto que trago dentro de mim e, invariavelmente, o cheiro volta a cheirar. Ouço os sons remotos que são. A Primavera entra-me nariz adentro. Vemos o horizonte e mais além.
A vida apalpa-nos e é fiel depositária das asas que não temos.
E mantemos as asas, sim, mas voamos para dentro.
Por dentro…