DEMOCRACIA E LIBERDADE – 38 ANOS DEPOIS [António Chinita]
Em geral, celebra-se uma Efeméride na ausência do Momento. Serve para trocar um Valor ético-cultural que deveria ser vivido quotidianamente, por uma celebração da sua ausência. É um ritual.
Assim acontece com ‘o Dia da Mulher’ – em que se ‘relembra’ a igualdade de género depois de, consecutivamente a sociedade tolerar 365 dias de salários desiguais nas exemplares ‘empresas privadas’; o trabalho doméstico desigual depois do emprego; o conceito jurídico de ‘cabeça de casal’ a par da Constituição, a hombridade viril casada com o ‘recato’ feminino moralizador.
Assim acontece com o 1º de Maio – em que a sociedade festeja a ‘integração’ das classes trabalhadoras no mito da ‘igualdade’ cidadã, depois de tolerar sucessivos 365 dias de exploração económica (isso agora tem outro nome: “competitividade das empresas”), de desigualdade nas relações laborais (isso agora tem outro nome: “racionalidade empresarial”), de supressão de direitos e garantias (isso agora tem outro nome: “viabilidade das empresas”).
Assim acontece, também – e ‘naturalmente’ – com o 25 de Abril – em que o ‘corpo nacional’ (abramos assim os braços, para caber toda a gente…) celebra ‘a Democracia’ e ‘a Liberdade’ depois de se atolar, durante 36 anos, em parlamentarismo formal,
em puro roubo do direito à sua voz (já que a ‘delegação de voz’ num Partido resulta num ‘cheque-em-branco’ para os ‘nossos representantes’ fazerem o que lhes der na real gana durante 4 anos sem terem o seu mandato cassado por despudoradamente trairem os Programas políticos pelos quais os diversos estratos sociais os elegem…),
e alienação numa pseudo-igualdade consumista (já que, embora com uma amplitude do leque salarial de 1 a 15 salários mínimos, somos todos ‘iguais’ se tivermos Cartão-de-Crédito…) - e quem é que se quer reconhecer numa tradicional classe menorizada?
Todos falam em Democracia – mas qual democracia?
- É que, seguramente, a de 75 não é a mesma de 77. A democracia de uns não é, seguramente, a democracia de outros – e já nem essa verdade simples somos capazes de admitir!...
Quanto à ‘democracia-com-todos’ – essa, é pura falácia; um Conto Fantástico para embalar bebés.
Que Liberdade se convida a celebrar no 25 de Abril? Tão-só a ‘saída pela Direita-baixa’ do grupo dirigente da Ditadura, que nos ofereceu as Forças Armadas – mas só depois de se sentirem abandonadas e mal-amadas pelas cabeças políticas da Ditadura Fascista. Foi o ‘fantasma’ de Goa que as assustou – e a percepção que já dormiam com ele na Guiné, e que haveriam a breve trecho de dormir com ele em Moçambique…




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