Quarta-feira, 16.05.12

(Os "sítios" por onde ando)

por João Simões às 11:23

(Podemos ter tudo na vida e eu tenho tudo. Ou quase. Tenho dois filhos fantásticos. Tenho oito cães. Tenho o Mar. A Serra. O Rio. Tenho o dinheiro que não tenho e, sobretudo, o que não quero ter

Tenho músicas bonitas nos sítios por onde vou estando. Tenho no meu coração a Mulher que perdi e que me deu tudo nos últimos trinta e dois anos. Tenho a Farrusca que me obriga a levantar cedo e me ajuda a não me refugiar num sedentarismo estúpido. Tenho saúde (embora ande preocupado com o que espero ser uma simples hérnia). E trabalho quando e, sobretudo, onde me apetece

Tenho tudo. Ou quase. Porque de nada vale aquele conforto se eu não sentir que as pessoas de quem gosto estão felizes. Porque de nada vale aquele conforto se o coração (a alma...) não estiver feliz. E o meu vive em sobressaltos. Não por não estar feliz mas por constante inquietude

Porque venho descobrindo que a felicidade é apenas uma construção, um conceito. É uma conquista permanente. É imaterial. E que vale a pena lutar. E, se for preciso, com cedências. E se para ser feliz se tem que ceder a tudo, então, que seja. Porque os afetos são tudo, estes sim, são tudo e não apenas quase tudo).

Terça-feira, 15.05.12

(Mar Chão)

por João Simões às 21:09

("Sou um deserto que fica, Sou um capitão sem barco")

E descendo o molhe, apanho o Mar. Com uma mão pego na espuma da onda que se acaricia nas rochas

Ouço lindas letras e vozes quentes. Pedro Abrunhosa. E o eterno António Variações

Nas ondas da rádio que me confortam

(E sinto uma noite de amor, o suor ainda quente dos corpos...)

Voo rente a um Mar Chão, tão próximo que sinto a fresquidão da espuma ausente, sem brisa, numa manhã tão calma que me arrepia

E amarro a onda com a outra mão. Do outro lado. Do outro lado do Mar. Abraço a sua imensidão

Com uma força imensa, que me esgota

E sinto que a felicidade é algo de imperfeito, uma procura por vezes quase louca

("E vou sem hesitar, E morrer se tu quiseres agarrado a ti...")

Estou por aqui, ouvindo lindas letras e lindas músicas, desde hoje por outros lados mas sempre regressando aos lugares antes de costume, em princípios do final da manhã. Está um dia lindo

("Eu sei que vou ficar, Que este amor é meu, Quis ser o que fui, Eu não vou mais fugir, E não vou mais chorar, Que eu quero é ser feliz"...).

Domingo, 13.05.12

(Reconstruindo-me)

por João Simões às 07:46

(Há muito tempo, há alguns anos mesmo, que não dormia mais de três horas seguidas sem recorrer a medicação. Hoje consegui essa “proeza”. É quase um recorde olímpico, deve ser, seguramente. Na semana que vem, assim espero, vou continuar a reencontrar-me com uma normalidade que não tenho conseguido nos últimos anos, em que, pelo menos por duas vezes, caí ao fundo de um poço e me levantei. Com a ajuda de boa gente, sobretudo de dois psiquiatras, e duas psicoterapeutas, uma das quais, diz a outra, por quem me apaixonei.

Mas a maior ajuda fui eu próprio, pois consegui perceber (tive essa sorte, a sorte que outros nem sempre têm…) que, por muita “merda” que se ponha aqui para dentro, por muita psicoterapia que se faça, só nós próprios (nos) conseguimos resolver.

Vou viver para um sítio parecido com o que onde vivi trinta anos com a minha Companheira de uma vida. Vou viver sozinho. É uma opção deliberada e uma tarefa que não se afigura fácil, mas pior seria, julgo, continuar na morbidez da presença das fotografias e dos cheiros que já não existem. E os afetos que já não existem em nada nos ajudam quando estando muito por perto, embora fiquem sempre aqui dentro por muito longe que se esteja e felizmente que ficam.

Sempre fui um cético, e cada vez estou mais cético, de tal forma que me interrogo se não tendo a ser cruel, porque as coisas só fazem sentido se eu as perceber, e vejo-me na recusa sistemática em entender as coisas pelo seu lado místico e sobretudo recuso-me a terapias esotéricas, as quais, hoje, se calhar sempre, parecem, pelo que me apercebo, estar muito em voga para resolver os males da alma.

Conversas e factos recentes, que não reporto aqui por evidente pudor, têm-me feito perceber que a solidão é, em dados momentos, a melhor companhia, mas não sendo uma solução para coisa nenhuma. Nesta procura da normalidade sinto que magoei uma pessoa, não porque a tenha querido deliberadamente magoar mas porque me apaixonei por ela. E sinto que assim ainda estou. É assim. Simples. E sobretudo complicado. Tem sido um sentimento ambivalente, que me tem posto à prova, num conflito entre o passado e o presente, entre o que deixou de existir e o que existe, direi antes, que tem que existir, numa prova que me parece uma procura de perceber se me mantenho vivo. Interrogo-me, hoje, se devia ter sido assim, mas o facto é que as coisas, por vezes, no momento errado ou no momento certo, se atravessam à nossa frente.

Não sinto culpas, ou talvez sinta algumas mas que julgo que são aquelas que todos sentimos, nem remorsos, muito menos o sentimento de que me servi de alguém para fazer uma espécie de prova de vida. Mas sinto a mágoa de ter percebido que nem todos se desprendem, se conseguem resolver. Que procuram afetos em (des)encontros nas redes sociais, em comunidades virtuais, e em que muitos “pescam” afetos, aproveitando-se das solidões e daqueles que não se conseguem resolver.

Esta minha forma muito livre de estar, admito, pode ser confundida com um certo egoísmo, tendendo para uma atitude narcísica. Mas o que magoa mesmo é que seja confundida com uma atitude de quem quer dar umas “cambalhotas”, de quem é desonesto, de quem deliberadamente utiliza os outros para se “satisfazer”. E o problema complica-se quando me apercebo que tenho a sorte de perceber problemas onde outros os não conseguem perceber e se confundem num processo maquiavélico, mesmo delirante, de putativas traições. Então, fica a mágoa (não a culpa, e seria estúpido pensar sequer em remorsos) de nada poder fazer quando outros não conseguem perceber que as coisas nem sempre são simples e que nem todos somos uns filhos-da-mãe.)

Sexta-feira, 11.05.12

(Desencontro)s

por João Simões às 13:37

(As coisas são o que são, ou o que tiverem que ser. A marina estava melancólica, ou apenas o estivesse eu

No café sobranceiro, onde quase sempre estou por aquela hora, refletia

As decisões, há algum tempo, certo que há pouco tempo, talvez apenas no final da tarde do dia anterior, pareciam estar tomadas, pressentia-o

Eu sou assim, vou “processando” decisões sem perceber e quando decido já “decidi”

E o meu receio confirmou-se: o ciúme foi mais forte e deitou tudo a perder

E eu sempre gostei de relações sem desconfianças, porque, quando estou, estou mesmo. Não suporto o ciúme. Tende a ser mórbido. E estúpido, sobretudo

Paciência: há que ir em frente, procurando outros desencontros, porventura até os mesmos…

Em vidas que, nos tempos que correm, são cada vez mais desencontradas

Resta que me habitue aos desencontros que me esperam, porque ir ao fundo já chega, mesmo que chore, dizendo-o sem vergonha

Hoje é outro dia, tem que ser…).

Terça-feira, 08.05.12

O poder não se ganha, perde-se (e, por mim, podem ir dar-banho-ao-cão)

por João Simões às 15:25

O 'palavreado' do atual líder do partido socialista tem o mesmo 'cheiro' de todos os líderes políticos do bloco-central quando na oposição.

É um discurso redondo e sem consistência, porque é um discurso óbvio na medida em que não pode ser outro, e que, por isso, soa a falso, sem ideologia.

O exercício da política, desde os últimos quinze, vinte anos, é conjuntural, pragmático, feito de frases feitas, e que na oposição apenas se preocupa em 'queimar' o partido no poder.

A alternância resulta do desgaste do partido no poder e não da ideologia, resulta do cinismo vazio das ideias e centra-se na adaptação do discurso às desilusões dos eleitorados.

O discurso político tornou-se mais próprio de vendedor-de-banha-da-cobra, que se 'constrói' em itinerários-de-carne-assada mas que detesta o 'fumo' dos 'assadores'.

Serra

por João Simões às 00:15

Sono

por João Simões às 00:14

Papagaio

por João Simões às 00:13

OVNI

por João Simões às 00:09

Sábado, 05.05.12

(Afetos e palavras)

por João Simões às 12:41

(Há alguns dias que não escrevo, o que, para mim, dependente dos afetos das palavras, me põe numa espécie de apneia, é como não respirar

Tudo o que escrevo é por impulso, como algo que se impõe, e eu sou um instrumento, apenas me limito a pôr nas palavras os estados de alma

Não consigo estruturar um texto onde as emoções fluem, porque se o tentar fazer perco a espontaneidade e, então, a objetividade se impõe à subjetividade da alma

E a alma é algo de pouco objetivo, a alma não se organiza, a alma não é racional, a alma são as nossas emoções à solta).

São mais de meia-manhã de um dia lindo e em que a alma me assalta, e, hoje, já chorei de emoção e também de culpa…

Quarta-feira, 02.05.12

Vida de... cadela

por João Simões às 16:18

(Em processo de desparasitação)

por João Simões às 15:07

(No próximo dia quinze do mês em que estamos vou-me exilar. Fujo dos filhos-da-puta que estou farto de levar pela frente. Vou viver para um condomínio, com campos de ténis, piscina e mais umas coisas de que não quero saber mas que espero poder usufruir. E onde andam passarinhos a cantar pela madrugada e pelo cair da noite, que é o que mais me interessa. Coisa barata para as condições oferecidas

O problema é que também por lá vivem uns filhos-da-puta que conheço mas, assim espero, vai ser possível vê-los ao longe, até porque lá param pouco tempo em casas de segunda habitação (alguns bem queria eu saber onde foram arranjar recursos para tão grandes carroças, mas isso é outra conversa que não me interessa nada numa fase da minha vida em que estou cansado de me cansar, puta-que-os-pariu, portanto…)

Também espero andar por lá sem capacete na mota, porque das coisas mais absurdas que conheço nas leis deste país é obrigarem-me a andar com a cabeça protegida como se eu partindo-os-meus-cornos esteja a pôr em perigo a vida de terceiros. E tenho o (meu) Mar a dez minutos a pé. E não me falta onde comer a preços de saldo, embora seja meu propósito aprender a cozinhar

O problema está nos afetos, mas as coisas também se resolvem, basta que se viva um dia de cada vez, um a seguir ao outro, e mandando as arrelias às urtigas ou, não sendo tal possível, aceitar as arrelias como coisas que assim são mas que bem podiam não ser. E quando se está todos os dias junto as coisas tendem para o torto pelo que é sempre bom alimentar o desejo de estar junto com ausências que tornam aquele desejo mais desejável, e acabamos por ter mais tempo para estar, estando

Estou a ser egoísta? Talvez! Mas que se lixe. Até porque vou continuar a trabalhar, coisa que faço desde os quinze anos de idade, tendo subido a corda-a-pulso e sem dever um chavelho de um favor-que-se-diga a ninguém, e porque quem paga as contas sou eu. Continuar a trabalhar, sim, o que espero fazer até a alma me doer. E tendo a sorte de poder trabalhar em qualquer sítio desde que tenha um placa de Internet no bolso. Fiz por isso! Agora começo a estar cansado de levar-pela-frente com tanto filho-da-puta pelo que o que quero mesmo é desparasitar-me

E espero poder escrever de forma mais estruturada (mas isso também é outra conversa…)

Vou dando notícias. Minhas. E da Farrusca, que vai comigo e que está ali no sofá a dormir como uma… cadela).

Sábado, 28.04.12

(Por entre uns pingos de chuva)

por João Simões às 10:15

(A Farrusca é uma chata porque me faz cumprir horários, o dia por esta hora está fresco, sopra uma agradável brisa que atravessa a Cidade

A fernandinha tem o raro privilégio de apenas não comer à mesa, o que eu também lhe permitiria não fosse o facto de não ter modos de faca e garfo

Também porque, sem que eu sempre vislumbre o porquê, se põe a falar com ladrares, sem que ninguém lhe pergunte, nos sítios que frequento, e assim não deixa de ser chato para quem não gosta de ladrar (quem sabe se porque preferem morder...)

Ontem fui a Aveiro ver uns amigos com quem não tinha o prazer de estar há uns anos, foi agradável, e levei a Farrusca, que, desta vez, ficou fora do carro, presa pela trela, porque se lhe deu a mania de roer os cintos de segurança (no seu instinto libertino, talvez...)

Um dos meus amigos tem mais vinte e três anos que eu, mas eu sou mais velho uns trinta, pelo menos. Com setenta e oito anos o meu amigo é um eterno enamorado.)

São princípios do dia de hoje, quando começam a cair do Céu uns pingos de chuva fria.

Sexta-feira, 27.04.12

(Avaria)s

por João Simões às 17:09

(Deve existir uma teoria que explique isto e se não existe devia existir nem que seja eu a ter que a inventar

Pois a circunstância de uma coisa se avariar tender a que outras se avariem não deixa de me pôr a conjeturar

Mas estas avarias em cadeia servem sobretudo para me foder a cabeça porque arranjar um técnico para reparar a máquina de lavar não é coisa fácil

Depois a torradeira manda com a luz abaixo e na correria para o disjuntor dou com o joelho num móvel qualquer e que há anos está naquele mesmo sítio

E lá sai mais uma caralhada pois não bastando o autoclismo andar a verter há meses sem que se arranje sozinho o papel higiénico acaba quando toda a merda tende para avariar

E já na rua correndo atrasado para uma bica rápida e foda-se que não levantei dinheiro no multibanco e na pressa o cartão foi recolhido à terceira inserção errada do código

E até o pão tinha de cair ao chão com o lado onde lhe foi barrada a manteiga, tinha que ser. E já chega: Bom dia, hoje está um dia lindo.)

São meia-manhã e hoje não estou no sítio do costume: Vim saber por que ontem me foram selar o contador da água deixando-me a seco!

Quinta-feira, 26.04.12

(As (a)normalidades que (não) conseguimos discernir)

por João Simões às 11:29

(Quando a perceção que temos da realidade se confunde com a realidade podemos ter um problema

E a perceção da (a)normalidade depende do discernimento que se consegue ou não ter na avaliação dos comportamentos

Dos comportamentos dos outros e dos nossos o que é a mesma realidade porque não vivemos sós

É que quando "avariamos" a nossa autoestima perdemos objetividade e tendemos a avaliar os comportamentos fixados numa rigidez

Tendemos a perder o sentido crítico e deixamos de ouvir e sobretudo de nos ouvir assumindo atitudes fixadas em traumas

E quando neste processo entram afetos o resultado é um "complicómetro" que se torna difícil de "reparar"

Podemos fingir que o "complicómetro" não existe só que desta forma estamos a "avariar" o "complicómetro" e o fingimento é endógeno já que se centra dentro do problema

E podemos até ficar "malucos" se a perceção da realidade se (des)focalizar e nos tornamos "surdos".)

São meia-manhã no sítio do costume e à hora do costume e onde me "fixo" em coisas do "costume" neste ano que vai andando. E é assim, temos que ir andando, um dia de cada vez...

Quarta-feira, 25.04.12

(Inverno)s fora de tempo)

por João Simões às 16:07

(Tao frágeis, assim. São gestos. Em fundo, Paulo Gonzo. Uma voz quente. Com sabor a chocolate. E eu. Ambos por aqui. No sítio do costume. À hora do costume. Fazendo o costume. Nada. Ouvindo o Café da Manhã. Esperando o tempo

Um tempo fora de tempo. Que traz um inverno fora de tempo. Uma chuva atrasada. Um vento zangado. Que até as palmeiras se espavorecem. Em gestos de braços retorcidos. Quase se arrancando do chão. Como que ensaiando um voo, desordenado

Um voo perdido. Numa revolução perdida. Desbaratada em mais de um quarto de século. Ilusões que as primaveras nos trouxeram. E os invernos vão levando

Um vento suão. Que o (meu) Mar assopra. Com força. E as palmeiras, atordoadas. Nos atordoam. E revoltam. Um Portugal que se perde numa Liberdade que nos engana. Políticos. Cheira a bafio. A merda. Tresanda

E a luz. Escura. Cinzenta. E as velas dos veleiros, recolhidas. Não se galanteiam ao vento. O tempo está ventoso. Parece mesmo zangado. E a chuva que bate neste janelão, fria. O tempo está a chorar...).

São meia-manhã, aos 25 deste mês e deste ano.

 

Terça-feira, 24.04.12

(Fugacidade)s

por João Simões às 17:28

(Vivemos (vivo...) num tempo em que temos a sensação de que os "destinos" nos podem aparecer em qualquer momento

Em que as "fatalidades" parecem poder acontecer numa esquina qualquer, traiçoeira, das nossas vidas

Um tempo fugaz, rápido e tantas vezes alucinante, e em que viver o presente se confunde com a pressa de viver o futuro

Procuramos a felicidade, mas damos conta de que uma protuberância qualquer nos sítios dos nossos corpos nos perturba

Vivemos assustados, temos pressa no futuro...)

Segunda-feira, 23.04.12

(Ambiguidade)s

por João Simões às 10:29

(Procuro silêncios mas preciso das falas, procuro a solidão mas preciso das companhias, procuro ausências mas preciso das presenças.

Já pensei na companhia de um papagaio mas não tenho forma de o ter comigo sem que esteja engaiolado ou preso por uma corrente e eu não gosto de gaiolas nem de correntes.

Preciso de sentir que se respira quando me ausento no refúgio dos meus cantos, mas preciso de mais.

Preciso de (muito) mais, preciso dos odores, do ressonar ao meu lado.

Preciso...

Preciso de estar só, mas preciso sobretudo de não estar só.)

Sexta-feira, 20.04.12

(Algo especial (hoje...) tinha que me acontecer)

por João Simões às 19:26

(Não resisto a uns olhos lindos: bem-vinda Farrusca)

(A Tua Casa Nova: N.08out1956-F.28mar2012)

por João Simões às 19:12

(Não Te levo flores, nem velas. Nem lápides. Nem saudades eternas. Nem fotos expostas. Apenas quero as memórias. Felizes. Dos 32 anos de uma relação perfeita.

Não me convidaste, mas tinha que vir. À Tua Nova Casa. De uma divisão única. Uma casa simples. Linda. Como Tu. Sem enfeites, com linhas direitas. Pura e bela. Tranquila.

E na próxima visita sei que nas paredes já vão estar dependurados os teus quadros de ponto-cruz.

Também sei que queres que eu apareça feliz. Sereno. Sem culpas. Sei que Tu sabes que eu sou de afetos fortes, emotivos. Envolventes. E que queres que eu deixe que a vida me aconteça.

Sei que Tu desejas que outros afetos me aconteçam. Porque se eu estiver feliz, então, Tu ficas feliz. E bem me parece que já estás a tratar disso. É que tu pensas sempre nos outros, em mim, então, sempre estive primeiro...

E que dois filhos maravilhosos me deixaste.

Eu sei. Não precisas de mo dizer. Eu sei que vai sendo tempo de enxugar as lágrimas. Sei que me queres alegre. Mas que vou fazer, se eu sou um chorão mimado. Mas, acredita, embora triste por me teres deixado aqui, com tantos passeios que ficaram por dar, que estou feliz e que vida vai continuar.

A Tua Vida. Sim. Também. Vai continuar. Num sítio muito especial. Sempre...). 

Quarta-feira, 18.04.12

(64 à Rua Joaquim Sotto Maior. Uma Viagem a Paris)

por João Simões às 22:16

(Dei de frente com os cornos do toiro, ícone plantado por cima de uma das portas do Coliseu Figueirense

E reconheci a garagem onde com onze anos aprendi matemática à estalada. Senti um regresso ao passado

O professor era magro como um cão, como um cão magro

E senti tempos já muito idos, nostalgias de salas de aulas que há mais de quarenta anos já eram pré-fabricados. Como hoje ainda lá estão, tal e qual

Senti nos cornos daquele toiro e na garagem que hoje ali se mantém, ao 64 daquela rua. Que o tempo foi rápido

E que a vida nos ultrapassa (talvez esteja a ficar velho...)

O professor de matemática que era magro como um cão magro preocupava-se com os alunos

Dava explicações no tempo em que os professores davam explicações à borla

Já não existem professores assim, hoje tudo tem preço (e os biscates das explicações dão jeito para umas viagens a Paris). E naquele tempo

Eu era um insurreto. E, hoje, sinto vontade de o voltar a ser...). 

Terça-feira, 17.04.12

(Narcisismo)s

por João Simões às 12:21

(Posso dizer que já tive tudo, nos afetos e na vida profissional, mas nos afetos perdi a mulher de uma vida e esta perda tem vindo a fazer com que reflita sobre o futuro.

A vida é o nosso passado mas é sobretudo o que ainda nos espera, porque se ficarmos presos às nossas memórias deixamos de ser felizes, e a felicidade merece a pena.

E a circunstância de uma perda fraturante, mais do que nos fragilizar, deve ser um pretexto para manter a vontade de querer continuar.

De continuar (de continuar...) na procura de equilíbrios onde os afetos são determinantes para nos reinventarmos e para deixar que a vida nos aconteça.)

Sábado, 14.04.12

(Nostalgia)s

por João Simões às 18:11

(Um dia de chuva. E a nostalgia vem ter connosco. A água bate nas vidraças. E vemos a praia. Passeamos de mão dada na areia. Uns beijos fugazes acontecem. O prazer acontece. Basta que nos olhemos na profundeza dos olhos. E enganamos as amarguras. E o vento afugenta os (maus) destinos.)

(Des)construções

por João Simões às 09:38

O facto é que por muito que nos convençamos do contrário vivemos presos a estereótipos. A convenções. A dogmas. A ideias e valores. O facto, e vamos usar a força não literal do conceito, é que vivemos presos ao preconceito.

O que acontece é que nas nossas atitudes e nos nossos relacionamentos procuramos não ser preconceituosos, e estabelecer regras de convivência "democráticas". E que querendo tratar as pessoas por igual nos esforçamos por nos libertar do preconceito.

Mas todos temos os nossos limites. E por muito que digamos que não somos preconceituosos a realidade, pura e dura, é que o somos. Uns mais do que outros seja por razões de sensibilidade, de educação, ou apenas porque "fica bem".

E uns esforçam-se mais do que outros para tratar as pessoas por igual. Mas muitos, temendo que demasiados, nem se preocupam em disfarçar, e segregam. Discriminam as pessoas em função da sua origem social. Em função das suas castas.

E quem assim não é (ou se esforça por não ser) vive no mundo "da Lua" e são o que se costuma "ser uso" dizer "boas pessoas". Porventura assim "rotulados". Mas o preconceito está presente. Apenas uns são mais "filhos-da-puta" que outros.

Mas a verdade é que os "filhos-da-puta" não são outra coisa do que isso mesmo.

(Está um dia invernoso, bom para preguiçar, porque para ir passear de mota o Sol está de mau humor e bem me parece que não vai ser hoje, talvez melhor seja continuar a dormir, assim a modos de "papo-para-o-ar", e esperar que a muda da maré amaine os ventos...).

Terça-feira, 10.04.12

(Que puta de vida, que a vida é tão boa)

por João Simões às 12:14

(Ando a dormir no carro. Literalmente. Não. Literalmente, não. Porque, simplesmente, não durmo. A casa tornou-se grande. Enorme. Uma vastidão. De emoções. De sentimentos. De memórias tão felizes. Mas que se podem tornar mórbidas. Contraditório? Não! Só é contraditório para quem não passa por isto. Não são medos. Muito menos culpas.

E entretanto a vida diz-me para viver. Para guardar o passado no meu canto secreto. Onde choro (como quase já chorei agora, e vou chorar ainda hoje) a certas horas, nos sítios mais incríveis e mais inesperados. A vida continua a pregar-me partidas. Tão amargas como felizes. Contraditório? Não! Só é contraditório para que não passa por isto. Pergunto-me se estou a ficar doido. Mas não estou. Se estou num processo de substituição, encostando a amargura a alguém com uns olhos tão profundos? Mas não estou. Mas como é isto possível?! Como é possível que a vida me ultrapasse tão vertiginosamente? Porque me apaixono assim? Acho que a resposta é simples. E complicada. Também. Ou sobretudo. Mas e o que é que isso importa? Se não mandamos nas nossas emoções. E a resposta, se ela existe, e eu acho que não existe, é simples, é que me apaixono pelas pessoas. Num impulso que não domino. Sofrendo por coisas tristes, depois por coisas boas. E assim pela vida fora. E sofro. Com um cuidado enorme para não magoar os outros. Mas magoando-me eu.)

Domingo, 08.04.12

(Talvez o defeito seja meu)

por João Simões às 01:28

(Acabei de fazer um chá de funcho. Desci à cozinha e fiz a única coisa que sei fazer. Chá. Está bem de ver. Peguei num saco ao calhar e saiu-me ervas de funcho. Confesso que nem sei para que serve, para além de se beber. Mas como me dizem que faz bem, e hoje tive uma sessão de esoterismo em conversa de fim de tarde no café, talvez o meu fígado se dê por agradecido. E o Fernandinho, que anda sempre na minha sombra, foi comigo e lá deve ter pensado que eu devo estar meio apanhado. E, se calhar, ando mesmo. Vejam bem, este tipo a fazer chá a esta hora em vez de estar a dormir e, pior que isso, a não o deixar dormir a ele, lá terá pensado o meu canídeo que com gente se parece, a pontos de aqui dormir ao fundo da cama e que bem jeito faz para me aquecer os pés. A chatice é quando se começa a lavar e me faz um barulho de lambe-lambe e tenho que o pôr no terraço para que faça lá a sua higiene na privacidade que também lhe é devida, e, claro, longe de me chatear com tal lambido. Depois pôe-se com aquela tromba arrombada típica da raça dos lados do Tibete e toca a ladrar para o pôr para dentro dos aposentos. Mas tudo bem, que ele tem bom dormir e não ressona, além de ser ainda mais mandrião que eu. E a gente cá se entende.

Mas a chatice foi a conversa esotérica. É que por muito que me esforce eu não entendo nada de conversa do outro mundo. De espíritos. De reencarnações. E de dar as mãos para passar energia ou lá o quê. E que as coisas estão determinadas por uma razão qualquer porque nada acontece ao acaso.

Mas, dizia eu, ou quero dizer, que sou um cético empedernido. E que me dava um jeito enorme ter um espírito qualquer que me explique esta obstinação. Porque seria mais fácil ultrapassar os desatinos que a vida (naturalmente…) nos traz, assim como nos traz (naturalmente…) tantas coisas boas.

É que não consigo deixar de acreditar que o que acontece é porque acontece, porque, simplesmente, é assim, tão simples como isso, que não temos que encontrar explicação para tudo e muito menos encontrar a resposta no divino-espírito-santo.

Apenas, isso sim, me esforço por acreditar nas pessoas, por ter a coragem de lhes dizer na cara quando não gosto que façam de mim parvo. Em acreditar que o destino fatalista não existe, ainda que, por vezes, muitas (más) coincidências (fatalidades) nos possam levar a pensar que o destino nos pode tramar. O destino não existe. E se existe vou esperar que me expliquem.)

Com licença… é que o chá está a ficar frio e depois não me vai saber a nada, coisa que o destino não tem culpa nenhuma porque o burro fui eu em o deixar arrefecer.

Sábado, 07.04.12

(Procuro)

por João Simões às 11:47

(Preciso de Espaço. Chega um estúdio. Com um sofá-cama. Um WC. E pouco mais. Sem televisão. Mas com uma janela.

Uma janela aberta. Sem cortinas. Virada para o Mundo. Virada para o Mar.

Contraditório? Não! (até porque sempre detestei fazer a cama e lavar a louça também não é tarefa que me agrade por aí além).

E também que não fique caro. Já agora.

E se não for pedir muito prefiro num rés-do-chão, que não me apetece galgar escadas.

Ou no cimo de um prédio de quinhentos andares. Perto das Estrelas.)

Sexta-feira, 06.04.12

Coisa de idiotas é o que é, pois que não pode ser outra coisa

por João Simões às 17:26

Tenho andado a pensar nisto (ia para dizer nesta merda, mas estou numa casa de gente educada e devo manter a compostura).

É que esta história da maquineta das SCUT à entrada da fronteira lembra exatamente isso: o regresso das fronteiras.

E imagem da fila de emigrantes que vêm passar uns dias a Portugal e a espanholada que cá vem, e vai deixar de vir se não forem parvos, a tirar um bilhete numas putas (desculpem…) de umas maquinetas, que, as mais das vezes, pelo que parece, estão empancadas, obrigando à presença de funcionários que não estarão ali a trabalhar de borla, só pode ser coisa de idiotas.

E pronto, apeteceu-me dizer isto. Também me apetecia mandar os idiotas para o caralho, mas, convenhamos, também já seria muita falta de educação.

Quinta-feira, 05.04.12

Esperemos que o Estado não vá mesmo pagar (porque…)

por João Simões às 18:18

Não gosto muito de falar destas coisas, mas, vá lá, não há bela sem senão, e eu não sou de ferro (e hoje quase que andei à estalada com um polícia, a sério…).

É que um dia o motorista de uma entidade oficial desabafa comigo que uma multa foi paga com horas extraordinárias.

Eu explico: tendo sido apanhado em excesso de velocidade, a solução encontrada foi a entidade oficial ter-lhe autorizado debitar mais umas horas extraordinárias para compensar o pagamento da coima. E assim um tipo que anda a aprender piano (e que ou muito me engano mas não toca uma merda da pianola e aquilo é só para inglês ver) não ficou a dever favores a ninguém. Só que se esqueceu que o motorista podia ser bufo, como foi, e como eu agora ordinariamente estou também a ser, mas, enfim, que diabos, ninguém é perfeito e eu também não.

Esta história, que já tem uns anos mas que bem podia ser hoje, garanto, mas garanto mesmo, nada tem que ver com isto

(Laura)

por João Simões às 16:48

("Às Cegas". A metáfora certeira (e implacável...) para os meus 55 anos. Um número que não tem ponta por onde se lhe pegue. Nem pelo futuro nem pelo passado, embora o passado tenha merecido bem a pena.

"Às Cegas". Um livro de Claudio Magris, um "retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva". Tal e qual. Como me sinto.

À deriva. Como dizia a alguém, hoje, numa longa conversa, na companhia da Zara, uma cadela linda com um olho de cada cor, fruto do amor libertino entre raças, cadela tão linda como inquieta na insubordinação dos seus poucos meses de idade (e na falta de autoridade de quem a adotou e que reflete, tantas vezes, as emoções que substituímos nos animais).

55 anos. Um número que me prende ao Amor Único de uma vida. E que me faz sentir desamparado, como que um coxo que perdeu a sua bengala.

Vou amar-Te sempre. Por muitos (des)amores que a vida me possa ainda trazer.)

 

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