(Há muito tempo, há alguns anos mesmo, que não dormia mais de três horas seguidas sem recorrer a medicação. Hoje consegui essa “proeza”. É quase um recorde olímpico, deve ser, seguramente. Na semana que vem, assim espero, vou continuar a reencontrar-me com uma normalidade que não tenho conseguido nos últimos anos, em que, pelo menos por duas vezes, caí ao fundo de um poço e me levantei. Com a ajuda de boa gente, sobretudo de dois psiquiatras, e duas psicoterapeutas, uma das quais, diz a outra, por quem me apaixonei.
Mas a maior ajuda fui eu próprio, pois consegui perceber (tive essa sorte, a sorte que outros nem sempre têm…) que, por muita “merda” que se ponha aqui para dentro, por muita psicoterapia que se faça, só nós próprios (nos) conseguimos resolver.
Vou viver para um sítio parecido com o que onde vivi trinta anos com a minha Companheira de uma vida. Vou viver sozinho. É uma opção deliberada e uma tarefa que não se afigura fácil, mas pior seria, julgo, continuar na morbidez da presença das fotografias e dos cheiros que já não existem. E os afetos que já não existem em nada nos ajudam quando estando muito por perto, embora fiquem sempre aqui dentro por muito longe que se esteja e felizmente que ficam.
Sempre fui um cético, e cada vez estou mais cético, de tal forma que me interrogo se não tendo a ser cruel, porque as coisas só fazem sentido se eu as perceber, e vejo-me na recusa sistemática em entender as coisas pelo seu lado místico e sobretudo recuso-me a terapias esotéricas, as quais, hoje, se calhar sempre, parecem, pelo que me apercebo, estar muito em voga para resolver os males da alma.
Conversas e factos recentes, que não reporto aqui por evidente pudor, têm-me feito perceber que a solidão é, em dados momentos, a melhor companhia, mas não sendo uma solução para coisa nenhuma. Nesta procura da normalidade sinto que magoei uma pessoa, não porque a tenha querido deliberadamente magoar mas porque me apaixonei por ela. E sinto que assim ainda estou. É assim. Simples. E sobretudo complicado. Tem sido um sentimento ambivalente, que me tem posto à prova, num conflito entre o passado e o presente, entre o que deixou de existir e o que existe, direi antes, que tem que existir, numa prova que me parece uma procura de perceber se me mantenho vivo. Interrogo-me, hoje, se devia ter sido assim, mas o facto é que as coisas, por vezes, no momento errado ou no momento certo, se atravessam à nossa frente.
Não sinto culpas, ou talvez sinta algumas mas que julgo que são aquelas que todos sentimos, nem remorsos, muito menos o sentimento de que me servi de alguém para fazer uma espécie de prova de vida. Mas sinto a mágoa de ter percebido que nem todos se desprendem, se conseguem resolver. Que procuram afetos em (des)encontros nas redes sociais, em comunidades virtuais, e em que muitos “pescam” afetos, aproveitando-se das solidões e daqueles que não se conseguem resolver.
Esta minha forma muito livre de estar, admito, pode ser confundida com um certo egoísmo, tendendo para uma atitude narcísica. Mas o que magoa mesmo é que seja confundida com uma atitude de quem quer dar umas “cambalhotas”, de quem é desonesto, de quem deliberadamente utiliza os outros para se “satisfazer”. E o problema complica-se quando me apercebo que tenho a sorte de perceber problemas onde outros os não conseguem perceber e se confundem num processo maquiavélico, mesmo delirante, de putativas traições. Então, fica a mágoa (não a culpa, e seria estúpido pensar sequer em remorsos) de nada poder fazer quando outros não conseguem perceber que as coisas nem sempre são simples e que nem todos somos uns filhos-da-mãe.)