Muito Bom Ano
Lembro-me bem, era de Verão e discutia-se qualquer coisa sobre o mercado e a sua auto-regulação. A noite até se ia prolongando bem, apesar de eu ir sentindo um ligeiro mal-estar pelo pressentimento fundo de que estavam a levar-me, vagarosamente, para onde não queria.
Lembro-me de ter tentado evitar falar de vísceras (que é uma maneira como outra qualquer de devolver algumas excitações humanas à sua basal e humana condição) e recordo-me, finalmente, de não ter conseguido. De ter soltado o freio ao burro doudo que me escoicinha dentro, de ter aludido à regulação dos intestinos. Estava era longe de sonhar o salto excrementário a que tinha servido de trampolim.
Num repente, a noite iluminou-se como se fosse ocasião de festa ansiosa - ficou clara demais de tão escura.
Hoje percebo melhor o que se passou: sendo os intestinos (ao menos o grosso deles) dados à fácil penetração endoscópica, deu-se ali um salto de coelho para o mercado das colonoscopias. Não sabiam que há esse mercado? Eu também não. Aliás, continuo a crer que não o há. Mas suponhamos que a conversa descambou - e descambou - baseando-se na suposta certeza de que o há.
Disseram-me que "nem nisso tens razão", o que me desconcertou um pouco: eu não dissera nada, ainda. "Mas pensaste", disseram-me, que "tu pensas sempre da mesma maneira". E isso aborreceu-me porque tinha ideia de ser essa uma das maiores das minhas pequenas virtudes, pensar mais ou menos sempre da mesma maneira. E não era.
Escutei. "Se um médico, em dez horas, conseguir fazer cem colonoscopias - e recuperar, assim, listas de espera nisso do espreitar de cus adentro, é justo que seja mais bem pago do que outro que só faça trinta".
Não consegui alhear-me do surrealismo dos números indicados, de maneira que fiz as contas em voz alta, dividi cem por dez e entreguei, baixinho, "se um tipo, em dez horas de trabalho seguidinho, consegue invadir cem cus, fica esse tipo com seis minutos para cada cu e cada um desses cus em risco de não ter sido outra coisa senão espreitado - o que não é o pretendido". Estava ainda disposto a regressar ao remanso da cabeça fria, mas sobreaqueceram-ma com o "e porquê?" que se seguiu. Respondi de esguelha.
"E porquê? Olha, porque seis minutos é pouco tempo para se ver, até dum intestino, como está. E porque, em prosseguindo na tua velocidade - que hoje mais parece só de ponta -, vais acabar a defender que o alucinado médico que faça duzentas colonoscopias em dez horas merecerá ainda mais ganhuça do que o equilibrista que já fazia cem".
"Exactamente! Por que não?".
Apeteceu-me ajavardar sorrindo e conceder "que sim, olha, vai para dentro e que Deus te ilumine na tua vertigem, desde que o cu seja teu". Mas tentei calar-me ali, que ainda se estava bem. Não me deixaram. Largaram-me os cães.
"Julgas que não te percebo, mas olha que sim; aliás, o que dizes só me dá razão: se o tipo que fizesse duzentas colonoscopias em dez horas, três minutos para cada uma, fizesse uma mal feita e isso prejudicasse um que fosse dos colonoscopados, haveria sempre tribunais para dirimir esses assuntos e repor as coisas no seu devido lugar". Eu até estava capaz de ficar assim, que já estava encostado às cordas, mas há uppercuts que são impiedosos: "Como vês, o mercado, seja onde for, mesmo nessa espécie de santuário ridículo que invocaste, auto-regula-se: esse médico pagaria a sua culpa e seria impedido de reincidir e, se se atrevesse ao mesmo e lhe corresse mal, por maior culpa pagaria. Não entendes?".
Apeteceu-me um banho, que tomei logo que pude. Mesmo sentindo não ser eu quem mais dele carecia.



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