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A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem o ouvir & falar.

 

 



Eu, dona de casa

por Maria Suzete Salvado, em 22.09.12

No fim de um dia de trabalho  e enquanto fazia as tarefas de casa, ouvia o noticiário.

Iam fazer uma ponte que custaria muitos milhões. 

Eu ficava a imaginar, enquanto lavava a loiça, quanto representava aquela quantia e não conseguia ver em cima da minha mesa qualquer coisa parecida.

Passado algum tempo ouvia  que iria ser feito um hospital e que custaria muitos milhões.

Enquanto passava a ferro, depois de um dia cheio no meu serviço, voltava a fazer contas. Meu Deus, quanto dinheiro!

E depois era uma estrada, uma auto estrada, outra auto estrada e ainda outra. "Para desenvolver o nosso país","Para acompanhar o progresso do estrangeiro", diziam.

Depois, outra ponte. Desta vez eu baixava as bainhas das calças dos garotos, que cresciam mais depressa do que eu ganhava para comprar umas calças novas.

Enquanto passava o óleo nos móveis de madeira barata, para lhes dar o brilho que eles nunca teriam, ouvia falar numa Expo que traria mundos e fundos ao nosso país. E mexendo a sopa que iria comer nos próximos dias, quando chegasse do trabalho, via limparem uma parte da cidade, deitarem abaixo edifícios, mudarem de local grandes estruturas, fazerem estradas, construirem pavilhões e restaurantes e prédios e esplanadas e fontes e... Eu fazia cálculos como simples dona de casa, se renderia o suficiente, a tal Expo, para cobrir todas aquelas obras.

Mas se eu falava nessa minha inquietação, havia logo quem me dissesse que tinhamos de dar os passos para o progresso. Eu achava que o governo teria de fazer milagres para arranjar pernas para passos tão largos.

Continuava  a sair cedo para o trabalho, preocupada com o que tinha para pagar, com o frigorífico que se encontrava outra vez sem grande coisa, com os garotos que continuavam a crescer e a ter novas necessidades, com o medicamento que necessitava comprar e me abalava o orçamento. Enquanto isso, aproveitava o descanso de ir sentada no autocarro, embalada pelos solavancos e as entradas e saídas de gente tão pensativa como eu.

E logo falaram  num estádio de futebol novinho em folha, com isto e aquilo, tal como lá fora. Outro estádio e ainda outro. Eu nunca tivera coragem para gastar o dinheiro num bilhete para entrar num estádio, mas sabia que muita gente teria. E também a honra que era termos um evento daqueles!!! E via nascerem enormes estádios de futebol, coloridos, invadindo a paisagem e escurecendo monumentos com séculos, que ficavam com ar humilde e cinzento a seu lado. As luzes ténues que iluminavam o castelo de D. Dinis, pareciam pobres como eu, perante o brilho ofuscante dos projectores do novo estádio.

E eu, enquanto aspirava a sala, pensava onde se ia buscar tanto dinheiro para tanta obra grandiosa. Nenhuma delas ainda tinha alterado a minha vida, a não ser a auto estrada que percorria uma ou duas vezes por ano para ir à terra onde nasci.

Depois falavam noutra ponte, noutras estradas, em centros comerciais, em aeroportos, em comboios de grande velocidade...

Tinha ido um dia a Coimbra num comboio mais rápido e estranhei vê-lo com meia dúzia de passageiros. Um assistente veio perguntar-me se eu precisava de alguma coisa, se estava a fazer boa viagem e fiquei muito atrapalhada com tanta cerimónia. Fiquei a pensar e a sorrir, durante minutos, naquela gentileza para comigo, que antes de entrar no comboio tivera que deixar a casa arrumada e a comida feita.

O noticiário era um vício para mim. Talvez porque me trazia esperança de que depois de tantas obras, a minha vida mudasse, chegasse a minha vez.

Falavam em conferências a alto nível, em fundações de todo o género, em spread, em juros, em cotações da bolsa, em milhentas coisas que eu não percebia. Concentrava-me na camisola que fazia, em fibra que imitava a lã, por ser mais barata.

Foi então que começaram a falar em falências, em dívidas, em termos gasto mais do que podíamos... Eu parava de passar a ferro e admirava-me. Falavam em cortar o meu vencimento e de tantos outros como eu, porque tinhamos vivido acima das nossas posses. Aumentavam os impostos e avisavam-me que teria de pagar submarinos, centros comerciais, auto estradas, carros de luxo, obras milionárias nos gabinetes dos ministros, computadores para os deputados, viagens ao estrangeiro com comitivas de centenas de pessoas... Comecei a desconfiar que não percebia o locutor, ou que ele falava de outro país.

E a palavra crise era a mais vezes repetida. Crise nacional, crise na Europa, crise mundial, crise na indústria, crise na construção.

Agora, depois de me congelarem a subida na minha profissão, de congelarem o meu vencimento, de reduzirem o meu vencimento, de me tirarem os subsídios com que eu orientava a minha vida duas vezes por ano, de aumentarem tudo, depois disso, ainda dizem que eu nunca trabalhei nada e que posso ser despedida por ter sido incompetente, preguiçosa, ter ganho mais do que merecia e ter vivido acima das minhas possibilades.

Ouço as notícias e vejo os protestos de tantos como eu, enquanto arranjo a sandes e o copo do chá para o almoço, depois de um dia estafante no meu serviço onde se aposentaram mais de metade dos funcionários e tenho de  fazer a minha tarefa e a deles.

Os edifícios da tal Expo são transformados em sucata. O comboio de alta velocidade (que viria ajudar a transportar a meia dúzia de passageiros que eu vi naquele dia que tive de ir a Coimbra) já não se faz, mas tem de se pagar na mesma. Alguns  estádios estão para ser demolidos, pois nem chegaram a ser concluídos. O aeroporto continua congestionado e já foram gastos milhões para decidir se seria feito aqui, ou ali. Nos centros comerciais fecham a maioria das lojas. Os restaurantes fecham, as mercearias fecham, as retrosarias fecham, os mini mercados fecham.

Só persistem os restaurantes de luxo, os stands de automóveis de luxo, os hipermecados, as boutiques de luxo e custa-me a perceber porquê.

Os jovens deixam de poder estudar. Os pais emigram para poderem sustentar a família. As filas de desemprego engrossam todos os dias.

E penso, enquanto colo a sola dos sapatos gastos, como poderia ter trabalhado mais, o que teria feito acima das minhas possibilidades económicas, para que os meus filhos não tivessem futuro.

Então os governantes estudam, falam coisas que ninguém percebe, vão ao estrangeiro e convivem com reis e presidentes, sabem de tudo e não sabem que se comprarem a tv a prestações têm de a pagar, se pedem dinheiro ao banco para ir para o Algarve, têm de pagar as férias a triplicar?

Vejo os protestos e tenho raiva.

Apetecia-me que entre todos decidissemos não pagar, não pagar, não pagar.

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publicado às 08:45


A luta

por Maria Suzete Salvado, em 21.09.12

Fomos esperando que nos ajudassem, que lutassem por nós, que nos dessem a paz, mas o inimigo mostrou-lhes o tesouro e ofereceu-lhes alguns despojos.

Venderam-se e ignoraram-nos.

As contas que nos prestaram, foram mentiras.

As promessas que nos fizeram, não foram cumpridas.

Agora, enquanto seguram o despojo da sua infâmia, querem que continuemos a tratá-los como guerreiros.

O povo, virou-lhes as costas.

Teimam em esconder o que não lhes pertence e convencer-nos que vão lutar por nós.

E nós, o povo, dobra as costas, mas desta vez para apanhar pedras e se defender.

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publicado às 08:39


Requinte e dom da palavra

por Maria Suzete Salvado, em 27.07.12

Os "piegas" são umas "baratas tontas" e depois "sai-lhes do lombo"! "Que se lixem" as eleições!

A linguagem dos bairros dormitórios no governo... (vá lá, vá lá, ser "lixem"...)

"Que se lixem" os mano, pá!

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publicado às 08:27


Justo

por Maria Suzete Salvado, em 29.06.12

Eu, às vezes, digo que sou apolítica.

Na verdade defino-me melhor se disser que sou pela Justiça, já que considero que a política é indispensável. 

Se na mais simples decisão se tivesse em conta a Justiça, o que é justo mesmo, acho que estaríamos todos bem melhor.

Justos a receber e a pagar, justos a avaliar e a ser avaliados, justos no que dizemos, no que fazemos, no que esperamos dos outros.

Tudo é possível, tudo está certo se fôr o mais justo.

A Justiça é mesmo a minha religião, o meu partido, o meu clube!

 
 

 

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publicado às 20:36


Para onde?

por Maria Suzete Salvado, em 28.06.12

Na restauração vai haver mais 60.000 desempregados até ao fim do ano!
Para onde caminhamos?

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publicado às 20:47


Fome a chegar.

por Maria Suzete Salvado, em 28.06.12

Em Castelo Branco já vão 700 em 2 dias. Sim, 700 desempregados, numa zona já tão pobre e tão castigada. Em 2 dias!

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publicado às 20:45


Discursos

por Maria Suzete Salvado, em 07.06.12

Eu acho que chegou a hora do P.M. despedir quem lhe escreve os discursos e escolhe as frases bombásticas, pois não está a resultar.

Ele insiste, esforça-se, tenta emendar, mas cada vez se sai pior.

E deve ser o mesmo para o seu mais próximo, para M.R., pois os dois têm dito coisas tão absurdas, que até eles se devem arrepiar ao decorar aquilo.

Despeçam-no, antes que ele acabe convosco.

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publicado às 09:58


Patrocínios

por Maria Suzete Salvado, em 07.06.12

Abençoado futebol que tantos e tão fortes patrocínios consegue das empresas portuguesas.

Pena é que essas empresas não consigam dar trabalho aos nossos jovens, que apesar de se formarem e especializarem, continuam a fazer reposição nos supermercados, a servir à mesa nos cafés ou a entregar pizas.

Ah! Mas o futebol vai proporcionar maior visão da marca e maiores lucros. 

E  os dinheiros públicos que pagam e subsidiam o futebol???

Que interessa um doutoramento? Para quê doutores no nosso país?

Com o futebol o país evolui, é considerado, enriquece.

Os estádios transpiram sabededoria e geram riqueza. Com eles, todos os dias os portugueses resolvem os seus problemas de emprego, de educação, de saúde. 

No estádio de Leiria, por exemplo, todos os dias se avança no estudo das possibilidades de cura do cancro!

Alguns jogadores fazem fortuna, ostentam palácios e carrões. Os dirigentes também. E mais?

Muita alegria para o povo, que continua analfabeto, a chupar no caroço de uma azeitona e sem  sair da cepa torta, gerações e gerações.

Então venha lá bastante alegria para o povo!!! 

Quanto aos doutores... Que  trabalhem no estrangeiro, nos países onde aproveitam o seu valor nessas tretas da ciência, da saúde, da arte.

Para nós, a bola!

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publicado às 09:14


À portuguesa!

por Maria Suzete Salvado, em 03.06.12

Dos 1280 candidatos a uma bolsa de estudo para fazer doutoramento, em todo o país, só 80 estão previstas possam vir a ser concedidas.

No entanto, o que custou a recepção oferecida pelo Presidente da República aos príncipes de Espanha, chegava e sobrava para subsidiar todos os candidatos, que teimosamente  tentam evoluir, necessitando tanto dessa pequena ajuda.

A selecção portuguesa para o campeonato da Europa de futebol, estagiou em hotel de primeiríssima linha, fazendo uma despesa de 35.000 Euros por dia, equipados por estilista de primeiríssima moda. Foi a selecção do Europeu que mais gastou, ficando em primeiro lugar na extravagância, enquanto a da França foi a que menos gastou.

Quando se diz "gastar à grande e à francesa", deve dizer-se " gastar à grande e à portuguesa", (não no que diz respeito a fomentar o conhecimento). Até os ditos populares devem adaptar-se à modernidade dos tempos no nosso país.

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publicado às 21:16


De que é feita a saudade?

por Maria Suzete Salvado, em 26.05.12

Desenho e música

 

As minhas recordações da infância e adolescência passam obrigatoriamente pela presença dos meus pais, da quinta, dos carros e dos meus irmãos.

O meu irmão mais velho interessava-se já por outras coisas e afastava-se das minhas brincadeiras.

A presença do mais novo, no entanto, era constante.

Passávamos horas a desenhar em folhas de papel que colocávamos no centro da minha cama, de forma a ficarem acessíveis aos dois, cada um de seu lado, de joelhos no tapete. 

Eu desenhava a lápis os carrinhos do Tonô, carrinhos de modelos que ele adorava e eu reproduzia em desenho à vista.

Também os cowboys, os cavalos e as pistolas eram dos nossos escolhidos para reproduzir a carvão, em pormenores que só as crianças sabem valorizar. Viamos então o "Bonanza" e o "Robin dos Bosques" ainda a preto e branco.

Outra das nossas preferências era a música.

O meu irmão levantava-se muito cedo, começando logo a cantar e a tocar bateria em tudo o que fizesse barulho, de caixas a panelas, para grande desespero da nossa mãe, que o "despachava" para o quarto do fundo na tentativa de descansar, ou pelo menos baixar o som àquele festival diário.

E eu, que nada sabia de música, lá estava presente na escolha do nome do seu "conjunto", no desenho do guarda roupa para os seus espectáculos e como motorista da rapaziada, já que o meu pai me emancipara para poder dar-me a carta de condução e me emprestava o carro, sempre que lhe pedia. Faziamos grupo com os Freires, o Sr Leitão, o Albino e outros com a mesma paixão. Ouviamos o Elvis, os Beatles e os Rolling Stones.

O meu jeito para desenho, não sei onde se meteu.

Nunca cheguei a aprender música, embora tenha alguma sensibilidade para o que é bom (como quase toda a gente), não tendo passado de parte integrante do público.

Mas o mais importante ficou e fez-me companhia em todos os momentos da minha vida, dos mais dolorosos aos mais alegres.

Não sei imaginar como teria sido a minha vida sem ele, nem como seriam essas recordações sem as nossas risadas.

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publicado às 09:22


Sim, mas...

por Maria Suzete Salvado, em 26.05.12

 

 

“Eu disse à Troika que Portugal não está no caminho certo, mostrei-lhe os graves problemas que estamos a enfrentar. Não houve qualquer alteração da sua atitude, mas mostrei-lhes as nossas preocupações.” Esta frase que ouvi hoje nas notícias da manhã, fez-me lembrar um produtor de fruta que conheci no Fundão, quando lutava por obter rendimento da quinta que o meu pai nos deixara e me informava dos mercados possíveis para a fruta que produzia. Enquanto me queixava do baixo preço que nos ofereciam, esse produtor dizia-me com ar fanfarrão: “Vendi os meus pomares muito bem vendidos, foi o preço mais alto que já vi por aí. Não me pagaram, mas foram muito bem vendidos!”

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publicado às 09:06


Fim de tarde

por Maria Suzete Salvado, em 16.05.12

Venho de acompanhar o pai de um amigo, à sua última morada.

Vivia numa pequena aldeia perto daquela em que eu vivo e não fora a tristeza do momento, até seria um passeio agradável, de tão linda a paisagem que se avista.

Na igreja reparei na viúva, pequena, franzina e com ar cansado.

Ficou sem pai aos 7 anos e teve de deixar a escola, que mal começara, para tomar conta de três irmãos mais novos e ajudar a mãe na lida do campo.

Passava dias inteiros à frente das vacas, ajudando o tio (irmão da mãe, mas pouco mais velho que ela) a conduzir o arado para cortar a dureza da terra, antes de lhe ser deitada a semente que daria de comer à família.

Aprender a ler, ficou-se no sonho.

Aos 19 anos casou e teve de continuar a amanhar a terra, a cuidar dos animais, a lavar no ribeiro, a cozer o pão para toda a semana, a carregar a lenha para o fogão.

Depois dos 70 anos de idade recebera 210 Euros de reforma, para juntar aos 150, que o marido já recebia. Tinham descontado pouco.

Trabalha ainda, embora com a doença do seu homem tenha passado a cuidar só da horta, logo ali à beira de casa, pois a vinha e o olival já há algum tempo que passaram a ser encargo dos filhos.

O que usufrui mensalmente não chega para os medicamentos que tem de tomar diariamente, mas os filhos vão à farmácia e resolvem esse problema, contra o seu gosto.

Agora, chora o homem ao lado de quem trabalhou anos a fio e apoia-se nos dois filhos de quem recebe mesada, como se trocassem de papéis e fossem eles os pais.

O luto será feito a trabalhar, já que não pode deixar de cuidar dos "vivos", da horta e das batatas.

O seu peito enche-se e um grande suspiro sai da boca sem expressão. Os olhos perdem-se nos nós da madeira do chão e de cabeça baixa permanece quieta, indiferente às condolências que os amigos dos filhos e dos netos lhe vão dando, perdida já nas saudades do companheiro de uma vida inteira, de quem não se quer separar.

Eu desconhecia que duas pessoas pudessem receber, depois de uma vida inteira de trabalho, quantia inferior ao rendimento mínimo de inserção que uma só pessoa recebe sem ter trabalhado sequer um dia da sua vida. Não é que seja caso raro, eu é que sou um tanto distraída.

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publicado às 21:37


Mais um...

por Maria Suzete Salvado, em 11.05.12

 

A grão a grão enche a rainha Isabel de Angola o papo.

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publicado às 22:49


Tempos de indiferença

por Maria Suzete Salvado, em 10.05.12

 

Tanto se ensinou que “ a vida dos outros não nos interessa”, que essa ideia se instalou e como é costume com as modas, de forma absolutamente exagerada.

Quando esperava o meu 2º filho, nos princípio da gravidez, tive um problema de saúde em que a tensão arterial baixava repentinamente.

Um dia fui ao supermercado ao lado de casa, no regresso do trabalho, levando a minha filha de 5 anos pela mão. Dentro da loja, como me comecei a sentir mal, deixei as compras e saí. Acordei algum tempo depois, deitada no chão, na rua, com a miúda a choramingar a meu lado. Tinha desmaiado e ali fiquei até acordar. Ninguém se aproximou para me ajudar. (Como a gravidez ainda não se notava, as pessoas lá pensaram que eu tinha bebido demais!!!)

Esse episódio assustou-me, por inesperado.

Entretanto, a prática do "não quero saber" foi ficando mais na moda e passou a ser obrigatoriamente cultivada por quem se tinha como “in”.

O lema passou a ser: A vida dos outros não nos diz respeito e o que os outros pensam de nós, não nos interessa.

Mas, por estranho que pareça, nunca se falou tanto de solidariedade, nunca houve tantas campanhas de ajuda a quem nasceu com diferença, a quem foi abandonado, a quem tratou problema de adição, de cancro, de diabetes, de hipertensão, de esclerose, sei lá de que mais maleitas.

Há concursos com celebridades, que dão os prémios a instituições. Há espectáculos para angariar fundos para fins beneméritos. Há todo o tipo de chamariz ao dinheiro para minorar os problemas com certo infantário ou hospital, rancho folclórico, corpo de bombeiros, banda filarmónica  ou associação recreativa. 

Houve tempo em que se brincava às caridadezinhas, agora é a época da pedinchice em grande estilo.

Fazem-se festas cheias de glamour, dão-se entrevistas na televisão e filmam-se os pratos de sopa quente distribuídos a altas horas, disfarçadamente, desinteressadamente, como quem não quer a coisa e é apanhado desprevenido a ser solidário, só por ser.

É a solidariedade dos felizardos de sorriso escancarado para com os desafortunados de costas arqueadas.

(É preciso um pouco mais de esforço e dá menos nas vistas,  saber o que se passa com o vizinho doente ou com a idosa sozinha. Ouvir a pessoa que precisa de desabafar é uma “seca”. Ser atencioso, simpático, prestável, é um “frete”. Só se lembra o velho do 4º andar quando foi encontrado em casa, morto há 10 dias.)

A indiferença instalou-se e de pernas cruzadas, passa o tempo no ipad, a fazer amigos virtuais e publicar chavões na rede social preferida.

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publicado às 23:41


De que é feita a saudade?

por Maria Suzete Salvado, em 05.05.12

 

A boleia

O caminho da quinta era feito várias vezes, diariamente, desde que naquele Natal tinhamos ido para lá viver.

Frequentávamos, eu e os meus irmãos, a escola primária no Fundão e o meu pai encarregava-se de nos trazer para as aulas. No trajecto obrigatório encontrávamos muitas crianças que iam a pé para a escola, estivesse calor ou frio de rachar.

Um ou outro mais pequenino dava a mão ao mais velho, que levava o saco com os livros e a "bucha",  alsa atravessada no peito franzino, a caminhar junto à berma.

Todos sabiam que se o carro do Sr Salvado passasse naquele momento, cabia sempre mais um.

Enquanto avançavam, iam olhando para trás e se o vissem ao longe, espreitavam tímidos, os olhos a brilhar, sorriso rasgado, mas sem coragem para pedir. Quando o carro parava e nós abriamos a porta,  aqui uns,  além outros, entravam eufóricos e a cachopada lá se ia encaixando, encavalitados uns nos outros, a rir, sempre a rir, apesar de encharcados ou enregelados, contentes de poder “ir a cavalo”, como eles diziam.

Entre eles, vinha muitas vezes a filha do rendeiro duma quinta nossa vizinha, uma miúda ruiva, de pele branca e sardenta, de olhos grandes e muito vivos.

 (O proprietário da quinta era médico na Covilhã e a esposa, uma senhora muito elegante e de cabelo loiro, um pouco misteriosos para mim, já que raramente os via)

O meu pai gostava de a arreliar só para ouvir as respostas que ela tinha sempre na ponta da língua e que dava com sorrisos envergonhados.

Naquele dia o meu pai brincou com o seu cabelo ruivo:

-Então cachopa, a quem é que tu sais com essa cor de cabelo?

Ela riu e desenvolta respondeu:

- À minha patroa.

As gargalhadas do meu pai encheram o carro e todos rimos sem sabermos bem a que é que achara graça, se ao geito divertido da miúda, se à sua resposta.

Os 2 Kms eram feitos por aquelas crianças que viviam nas quintas, a pé, anos a fio, sem queixumes (as escolas não tinham aquecimento e se as crianças chegavam molhadas, assim ficavam das 9 da manhã às 3 da tarde) e sendo felizes com coisas tão pequenas como era aquela boleia.

Já no colégio, lembro os meus amigos das Donas, do Casal, do Souto da Casa, da Aldeia de Joanes e outras aldeias perto do Fundão, que eu via, com alguma inveja,  voltarem a pé para suas casas, em grupos que enchiam a estrada de risadas e de brincadeiras, no fim do dia de aulas.

 

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publicado às 10:14


E esse tal TDT?

por Maria Suzete Salvado, em 02.05.12

Ouviam falar no assunto, mas os habitantes da pequena aldeia onde vivo, não entendiam nada do que aquilo era.

As pessoas mais humildes acham sempre que as coisas dificeis de entender não foram feitas para elas e deixam para depois ou para quem se destinam.

Na mercearia onde vou quando preciso comprar qualquer coisa e não me apetece ir de carro ao supermercado, ouço conversas iguais às que toda a gente deve ouvir por esse Portugal fora.

As telenovelas são identificadas pelas personagens principais, a quem conhecem como se fossem da família e os episódios relatados com entusiasmo. As notícias do homem que matou a família ou do assalto ao ourives do norte são comentadas em todos os seus pormenores. A estrangeira que fala com os mortos é tal e qual o caso que uma delas conheceu (e todas as outras se benzem) e melhor que ela, só a Maia que adivinha o futuro através das cartas…

Enfim, a vida das pequenas aldeias, depois que os mais novos assentaram arraiais nas cidades, resume-se à agricultura e à televisão, companhia de todos os serões cada vez mais vazios de gente e de meios.

De repente vem aquela novidade e quando compreendem que ou gastam dinheiro ou ficam sem o seu único entretém, ficam incrédulas.

Uma diz que já pagou uma data de dinheiro para poder continuar a ver televisão e as outras começam a ficar caladas e pensativas.

“Para alguns sítios, basta um aparelho”, dizem umas, “mas para aqui temos de comprar uma antena nova e um amplificador. E o electricista também custa dinheiro”.

A mais velha, habituada a ter pouco, conforma-se e sussurra: “Olha, paciência, não temos, não temos. Ouvimos rádio”.

Mas as mais novas exaltam-se: “E porque é que temos nós de pagar esta alteração? E se ninguém quisesse? A quem é que impingiam tanta publicidade?”

Por esse país fora a grande maioria terá já os canais pagos e não precisa de fazer outra despesa, mas quem não tem, é quem mais precisa e menos pode estar a gastar dinheiro numa coisa que já tinha como sua, há muitos anos.

E assim vão sendo esquecidos e postos de lado os que estão mais velhos, mais pobres, mais isolados e mais tristes, sem que reparem neles aqueles que aparecem na altura das eleições com ar amistoso e gestos de grande intimidade.

 

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publicado às 21:35


Amanhã

por Maria Suzete Salvado, em 01.05.12

 

"Crescimento, só para o ano!"

"Fiado, só amanhã!"

Porque é que me lembrei disto?

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publicado às 10:58


De que é feita a saudade?

por Maria Suzete Salvado, em 30.04.12

O amigo António Filipe falou-me das suas recordações do Fundão na nossa juventude e do meu pai, como parte  desse passado.

Quem se lembra do meu pai relaciona-o de imediato com a sua escola e com os seus automóveis.

Eu ligo-o a muitos mimos, a muitas gargalhadas, a muitas histórias e a muitos amigos.

As lembranças mais antigas ligadas à sua profissão são de quando era ainda muito pequena, antes de ir para a escola.

Parece que era diabrete e para não estar constantemente de castigo, o meu pai levava-me nas lições de condução. Eu cantarolava, ria com as suas brincadeiras ou dormia durante horas.

Era percurso obrigatório das lições, a ida à quinta, caminho que todos os alunos conheciam de cor, assim como as cerejas, as uvas ou até o vinho que acabavam por provar.

Sorrio ao recordar esses tempos e penso na dificuldade que o meu pai teria agora para se adaptar a tantas regras, tão vazias da paixão que ele punha em tudo o que fazia

Os seus alunos ficavam seus amigos para sempre e eu tive consciência de mim mesma pela primeira vez, como sua filha. 

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publicado às 22:55


Descaramento

por Maria Suzete Salvado, em 30.04.12

Será que os governantes deste nosso país não passam os olhos pelos seus primeiros discursos?

Que sentirão quando revêm as promessas que nos fizeram?

Será que desatam a rir da facilidade com que nos “levaram na conversa” ou ficam corados, como eu fico, de ver tanta falta de vergonha, tanto descaramento?

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publicado às 22:40


Abril em Portugal

por Maria Suzete Salvado, em 29.04.12

E já se vai o Abril, para dar lugar ao Maio, que como tudo, começa no 1º.
Antes que termine o Abril, busco algumas lembranças da minha adolescência, já tão distante. Abril era cantado com uma música muito conhecida, com letra adaptada e intitulada “Avril au Portugal”. Eu não entendia porque é que o meu país tinha tido a honra de ser cantado com a língua de Paris. Realmente “Abril em Portugal “ soava mais simplório, mais provinciano. Em francês era mais giro. Comecei por pensar que era por tanta gente da nossa terra estar em Paris. (Assim como pensava que nos filmes de cowboys, quando diziam “mãos no ar”, era para darem um tiro em cada mão).
Mas pouco me demorava nesses pensamentos pois em Abril havia a feira e os divertimentos que vinham com ela. Depois começavam os dias bonitos e já podíamos passear com os rapazes avenida acima, ou estar na esplanada durante o tempo que o dono do café achasse que valia o consumo que tinhamos feito. Aí, nunca era muito tempo, pois quase todos tinhamos o dinheiro de bolso que daria para um café ou um bolo, apenas.
Só que de vez em quando era alertada por alguma conversa diferente, como “o Jornal do Fundão teve problemas com a pide”, “o Sr Armando Paulouro foi incomodado pela pide”, “cuidado com fulano que é informador da pide” e eu perguntava ao meu pai o que se passava.O meu pai não queria que nós falássemos disso e advertia-nos com ar grave. Vieram eleições e achei entusiasmante, mas as pessoas não acreditavam nelas e diziam “votar para quê? Eles não os deixam ganhar”. Então pensava que as eleições eram como uma luta de boxe com golpes baixos.
Mas as pessoas encontravam sempre forma de ter esperança e ficaram cheias dela quando Salazar caiu de maduro e deu lugar a uma maçã da mesma árvore. Tudo parecia mudar, mas eu começava a desconfiar que era mesmo só de nome, mudar de Salazar para Caetano, de pide para dgs, etc.Tive a certeza, quando o meu irmão Tonô, que estava na Faculdade de Direito em Lisboa e vivia comigo, chegou a casa cheio de hematomas provocados pela polícia de choque, que invadira a Faculdade e desancara a “estudantada revolucionária”.
Aconteceu Abril em 1974, e a 25 eu não sabia se era para continuar a ter medo, se era para festejar. Mas o 1º de Maio veio dar-me a resposta e aprendi com o passar do tempo, que era mesmo para festejar.
Este mês de Abril de 2012, o noticiário abriu com a comemoração do aniversário do ditador e cerca de dezena e meia de portugueses, junto à sua campa, tinham ar consternado. O meu encolher de ombros daria por encerrada a notícia, se não fosse a surpresa de ver quem discursava, baixar o papel onde lia o que lhe ia na alma e levantar o braço, em saudação fascista, com orgulho.
Foi como se me desse uma bofetada. Por segundos, voltei a ter medo.

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publicado às 16:36


 

 

 

 

 

 

 

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