É com imenso prazer, caro senhor, que lhe venho transmitir publicamente que não comparecerei mais no meu lugar de trabalho. Dirá que não estou no meu perfeito juízo, que os tempos não estão para pruridos como os meus. Honestidade, empatia e ética. São esses os meus pruridos, na sua boca. Para mim são qualidades únicas porque se deveriam pautar todas as relações, as profissionais incluídas.
Estou a prejudicar, gravemente, os propósitos da organização que julga chefiar. Fez-me sentar numa espécie de tribunal marcial: “Tem consciência dos graves erros que cometeu?”- perguntou-me VSª em frente da equipa de trabalho- “ Erros graves?...Não, conscientemente não cometi qualquer erro” [ fez-se silencio]” Pense bem porque eu interditei a sua entrada até hoje porque quis colocar a questão a nível da direcção nacional” “ Desculpe? Fala de quê?”[inquiri de olhos arregalados]” Não me diga que se refere ao fato de ter dado leite a uma mãe desesperada para alimentar o seu filho?”.
A ventania imperou e veio o veredito:” Claro que sim. Não devemos nunca dar nada do nosso bolso. Para isso há instituições que providenciam alimentos. Eles( este eles foi dito assim como se de coisas se tratassem) que esperem pela distribuição do Banco Alimentar ou outra coisa qualquer. Ou vai dar a toda a gente?”
De lágrimas a turvarem a visão apenas disse: “ Que faria se estivesse no meu lugar e uma mãe lhe pedisse leite para o seu bebé de colo?”
Resposta rápida: “ Que não lhe dava. Que saiba gerir a sua vida. Eles ( voltou a coisificação) vão sofrer muito em breve e todos vamos. O que vai fazer então? Dar o que tem na sua casa e vir para aqui andrajada?” “ Com esta gente só se consegue fazer alguma coisa se não houver pessoas como você armadas em polícia bom” [ o tom aqui era quase ensurdecedor].
As lágrimas não se contiveram e rolaram na mesa. Levantei-me. Decidida.
“ Desculpe a honestidade e a ética que me acompanham, mas eu não ficaria descansada sabendo que uma criança de colo poderia estar sem leite durante, pelo menos três dias!”
“Inadmissível! “- gritou VSª.
Saí porta fora e ninguém tentou deter-me ou defendeu que o meu ato não fora uma monstruosidade.
Malditos projetos revestidos de solidariedade. De humanismo. De coisa nenhuma.
Estou sem trabalho, mas sei que de 28 de Outubro até hoje um bebé tomou leite. Amanhã não sei , mas enquanto cidadã irei saber.
Caro senhor e senhoras, passem bem que o vosso projeto não vai sobreviver. Porque o dinheiro também se vai acabar para VSªs.
Viva Portugal [dos pequeninos e pequeninas pessoas].