O que está a suceder à esquerda europeia (onde ela ainda sobra...) é a incapacidade de descobrir e estabelecer um novo paradigma de luta contra um capitalismo que, sendo muito mais cruel que sempre, se apetrechou cientificamente e goza agora o investimento de 4 décadas no terreno do tecido social.
O capitalismo apetrechou-se cientificamente:
Na Sociologia, percebendo as lições de Max Weber e estudando a dicotomia antagonismo/integração - e lançando nos povos desenvolvidos a quimera da qualidade de vida pelo aumento do consumo. Ajudaram esta estratégia outras ciências e tecnologias, subsidiárias da Sociologia: o Marketing, a Comunicação Social, etc.;
Na Economia, digerindo a lição de Keynes (que hoje até já é visto como socialista!) e criando os antídotos contra a humanização das relações de produção que a Europa conquistara em quase um século e o liberalismo estudou a fundo. Digam-me um economista que tenha proposto, nos últimos quarenta anos (depois de Galbraith, por exemplo) uma teoria capaz de rebater os mitos de 'crescimento económico', 'produtividade', 'equilíbrio orçamental' - que hoje prevalescem sobre tudo, incluindo a dignidade e a própria vida humanas, para já não dizer a Democracia e o Estado de Direito.
Nas Finanças Públicas, sobretudo através dos mecanismos da emissão e circulação de moeda - em que é lapidar o gigantesco "golpe de asa" que o capital internacional conseguiu quando a Europa impôs aos governos soberanos que deixassem de emitir moeda e passassem os Estados a ser 'clientes' da banca comercial, ou seja, dos capitalistas especulativos. O caso francês é emblemático: nos últimos 30 anos a França acumulou uma dívida pública de 1,3 biliões de euros (leiam bem, são 1.300.000.000.000), graças a ter pago aos banqueiros privados 1,4 biliões, para assegurar a actividade do Estado!
Um investimento de 4 décadas:
Nos últimos 40 anos, o capitalismo duro e selvagem aprendeu e logrou seduzir e corromper. Os agentes económicos, a classe política, os comunicadores e até... os povos - todos aceitaram a 'facilidade' do raciocínio "Concedem-me privilégios? Tudo bem!" (isto é: vale tudo).
Como sobreviverá então a esquerda?
Os Estados começaram por ser governados por delegados do capital financeiro - e depois, dependentes dele para se manterem vivos, passaram a 'eleger' hommes de paille pagos (corrompidos) e programados para saírem à rua, em cada dia, no desempenho da função de extorquir os sobreviventes, tal como o Sheriff de Nothingam fez à ordem do príncipe João-sem-Terra.
Os povos começaram por se deslumbrar com o devaneio de uma sociedade com apenas classe média - e passaram a 'agarrados' à dívida contraída para aparentemente lhes aumentar o estatuto social, contraída perante os capitalistas especuladores, que agora a cobram e, graças a ela, transferiram para si todo o poder sobre os estados e o mundo.
Ora, quando a esquerda precisa de sair à rua e fazer a sua luta - que é a luta do cidadão contra o abuso, ou de uma maioria oprimida contra uma minoria exploradora - quem consegue mobilizar? Já não aqueles que vêem os filhos ameaçados pela fome resultante de um desemprego cada vez mais ameaçado(r) e iminente. Já não - muito menos! - aqueles que, atrás da tal sedução de estatuto, entretanto se renderam ou... se venderam.
O trabalho escravo e debaixo de chicote está aí, sim. Os senhores são muito mais cruéis, porque muito mais subtis. O chicote muito mais doloroso, porque muito mais técnico.