Sexta-feira, 11.05.12

Algures entre Outubro e Novembro de 1963, houve um espermatozóide que não deveria ter tido uma oportunidade

por Miguel Cardoso às 20:30



"O DESEMPREGO NÃO TEM QUE SER ENCARADO COMO NEGATIVO. PODE SER UMA OPORTUNIDADE PARA MUDAR DE VIDA."

(Pedro Passos Coelho, ainda 1º Ministro de Portugal)

Faço pisca e encosto o carro, tenho de apontar para não me esquecer. Escrevo na última página do Correio da Manhã, que está no banco do lado e que comprei hoje por causa do Império dos Sentidos de Nagisa Oshima. 

A frase foi dita num encontro de empresários em tanto-me-faz-de-cima e não houve uma alma que lhe escarrasse em cima, talvez porque muitos deles se encarregaram já de dar centenas de oportunidades destas a outras tantas pessoas, às vezes duas oportunidades por agregado familiar, não fossem os "acomodados" não entender à primeira. A seguir foram almoçar ou jantar ou tanto-me-faz e todos conseguiram fazê-lo sem se engasgar, servidos por pessoas que todos os dias pedem para que não lhes caia em sorte uma oportunidade destas. Ah, mas dos escarros ou coisa pior não se escaparam aqui, "Está mal passado Sr. Doutor? Esteja descansado que levo e trago de volta num minuto"; "Uma bába-de-camelo para o Sr. Primeiro Ministro? Boa escolha, é a especialidade da casa". Fraco consolo ou vingança, mas servido quente, do fundo das entranhas, como aqui convém.

Talves um destes dias lhe saia alarvidade semelhante, mas com outro público à frente, talvez seja no idílico campo para onde nos vai mandando sempre que lhe ocorre, talvez haja uma enxada mesmo ali à mão e alguém desesperado com tantas oportunidades destas umas em cima das outras. Talvez...

Entretanto, chego a casa e folheio o Correio da Manhã, que diabos, afinal comprei-o, é só para ler as gordas, digo para me enganar, que sem luvas de látex é arriscada a exposição prolongada. Aguento até à página 5: "ARMANDO VARA , ARGUIDO NO PROCESSO FACE OCULTA, É UM DOS NOMES APONTADOS PARA A PRESIDÊNCIA DA CIMPOR". O reflexo do vómito é contido no limite.

Ligo a televisão para entorpecer a mente com 20 minutos de publicidade e, de imediato, sem estar à espera, vindo sei lá de onde, sou atingido violentamente na cabeça e quase perco o equilíbrio, vale que a cozinha é pequena e não arranjei espaço para cair, só minutos depois me apercebo do que me atingiu, ainda lá está, de charuto nos beiços a passear-se pelo meu ecrã TDT-em-que-não-se-vê-muito-bem, mas agora estou sentado e dá para ler as notas em rodapé: "CRIME POR CORRUPÇÃO PRESCREVEU PARA ISALTINO MORAIS - O PRESIDENTE DA CÂMARA DE OEIRAS JÁ NÃO PODE SER CONDENADO POR CORRUPÇÃO NO PROCESSO DE CONTAS NA SUÍÇA, APESAR DO CRIME TER FICADO PROVADO NO JULGAMENTO". Parece que lhe perguntaram se aceitava ser julgado de novo e ele disse que não. Tenho um espasmo facial e fico como o Homer Simpson a olhar para um donut que se afasta. Volto a mim quase duas horas depois ao ritmo pastoso de uma telenovela portuguesa. Descanso. Amanhã volta o circo a entrar-me pela cabeça adentro.

Segunda-feira, 07.05.12

Aristóteles e a classe média

por Miguel Cardoso às 11:09

 

Exercício de análise textual para alunos de 10º ano (mas que pode ser aproveitado por todos):

Todo o Estado, ou sociedade política, se compõe de três partes ou classes de cidadãos: os que são muito ricos, os que são muito pobres e, enfim, aqueles que se encontram numa condição média, ou intermediária, entre os dois primeiros (...). Os homens (que estão) nessa situação (os da classe média) submetem-se facilmente à razão; pelo contrário, naquele que possui no mais alto grau as vantagens da beleza, da força, do nascimento ou da riqueza, e bem assim naquele que possui em excesso a pobreza, a fraqueza ou a abjecção, tal submissão é muito difícil de obter. Pois os primeiros estão mais sujeitos a tornar-se violentos e arrebatados e a tentar actuações audaciosas contra o Estado; e os segundos são mais inclinados à intriga e à prática de numerosas pequenas desordens. Ora, a violência e a intriga são duas fontes de iniquidades. Pelo contrário os cidadãos de condição média não empregam violências nem intrigas, porque não ambicionam as magistraturas.

Aqueles que gozam de vantagens imensas (...) não querem nem sabem obedecer aos magistrados; e este espírito de insubordinação manifesta-se neles desde a infância; pois a moleza em que são educados impede-os de contrair o hábito da obediência, mesmo nas escolas. Ao passo que aqueles que têm uma carência excessiva de todas essas vantagens tornam-se demasiado humildes e rastejantes. De maneira que estes, incapazes de comandar, não sabem senão mostrar uma submissão servil; e aqueles, incapazes de se submeter a qualquer poder legítimo, não sabem senão exercer uma autoridade despótica.

Se numa cidade só há gente muito rica e gente muito pobre isso implica que a Cidade não se compõe senão de senhores e de escravos - e não de homens livres; uns, cheios de desprezo pelos seus concidadãos, os outros tomados pelo sentimento da inveja; o que fica muito longe da boa vontade e do carácter de sociabilidade que são apanágio do verdadeiro cidadão. Pois a benevolência é o elemento ou condição da sociabilidade: é assim que nós não apreciamos de todo fazer uma viagem com inimigos nossos. Por isso, é necessário que a república seja composta o mais possível por cidadãos semelhantes e iguais; o que só acontece quando todos estão, o mais possível, numa condição média.

Os cidadãos da classe média são também os que se mantêm e conservam melhor: pois não desejam os bens dos outros, como os pobres, nem são eles próprios objecto de inveja ou de ciúme, como os ricos (...). Não são tentados a prejudicar ninguém, e ninguém procura prejudicá-los a eles. (...) É evidente que a sociedade civil mais perfeita é a que existe entre cidadãos que vivem numa condição média; e que não pode haver Estados bem administrados senão aí onde a classe média é numerosa, e mais poderosa do que as outras duas, ou pelo menos mais poderosa do que cada uma das outras; porque ela pode fazer inclinar a balança em favor do partido a que se juntar e, por este meio, pode impedir que uma ou outra (das outras duas) obtenha uma superioridade decisiva.

E pois uma grande sorte que os cidadãos possuam uma fortuna mediana, suficiente para as suas necessidades. Pois, quando uns têm riquezas imensas e os outros não têm nada, daí resulta sempre ou a pior das democracias, ou uma oligarquia desenfreada, ou uma tirania insuportável, consequência necessária dos dois excessos opostos.

(Aristóteles, A Política)

 

Agora, explica as razões que levam Aristóteles a defender que uma sociedade harmoniosa deve possuir uma classe média numerosa.

(imagem: Escola de Atenas de Rafael) - negrito meu

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Quinta-feira, 03.05.12

Apologia da desobediência civil no Principezinho, digo eu.

por Miguel Cardoso às 22:13

 

O principezinho ficou maravilhado com tanto poder. Se o tivesse, poderia assistir, não a quarenta e quatro, mas a sessenta e dois, ou, quem sabe, talvez mesmo a cem ou talvez até a duzentos pores do sol por dia, sem sem ter de estar sempre a empurrar a cadeira! A lembrança do seu pequeno planeta abandonado entristeceu-o. Atreveu-se a fazer um pedido ao rei:

- Gostava tanto de ver um pôr do sol... Concedei-me essa graça... Ordenai ao sol que se ponha...

- Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa: minha ou dele?

- Era Vossa - respondeu firmemente o principezinho.

- Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar -  prosseguiu o rei. - A autoridade baseia-se, antes de mais, no bom senso. Se um rei ordenar ao seu povo que se deite ao mar, ele revolta-se. Eu, eu tenho o direito de exigir obediência porque as minhas ordens são sensatas.

 

(Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, Editorial Presença (trad. Joana Morais Varela), Lisboa 2009)

Negrito meu.

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Um dia destes num país perto de si

por Miguel Cardoso às 20:01

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Sábado, 28.04.12

Cavaco Silva demite Governo e renuncia ao cargo

por Miguel Cardoso às 15:42

 

Em visita ao Núcleo Empresarial de Vagos, o Presidente da República afirmou que " alguns, eventualmente, não conhecem os estudos feitos sobre a importância da imagem do país para as nossas exportações, mas se falassem com aqueles que produzem sapatos, vinhos ou móveis, eles dirlhe-iam que são prejudicados por essa imagem". (Público)

De acordo com este raciocínio, e no sentido de melhorar de imediato a imagem do país no exterior, a primeira medida a implementar será a dissolução do Parlamento, a demissão do Governo e dele próprio, os principais responsáveis pela deterioração da mesma.

Finalmente, alguém faz algo de concreto pelo país.

Ou terei entendido mal?

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Quarta-feira, 25.04.12

Isto é quase sobre o 25 de Abril

por Miguel Cardoso às 11:03

 

Andava eu pelos quinze anos e corria 1988. Frequentava o décimo ano do curso de Humanidades e era uma sala cheia de mulheres, cinco tipos para cerca de vinte raparigas. E isso era bom.

Cresci numa família em que a política sempre esteve sentada à mesa e os adjectivos não se poupavam aos seus piores intérpretes, aqueles que se iam anafando com o poder sem ligar pataco ao povo eleitor. Dia-sim-dia-sim, uma discussão com o meu pai, egocentrismo adolescente versus cristalização de ideias própria da idade adulta, luta de titãs, iludia-me eu, na realidade, apenas arrogância e euforia do puto que dava os primeiros passos no uso da razão. Mas isso sei eu agora e sabia já ele na altura. Falta-me ele e a sua argumentação irritante. Haveria de achar piada a esta coisa amorfa que vivemos, penso que podia até, veja-se bem como o mundo é composto de mudança, dar-lhe razão, pelo menos numa coisa ou outra menos importante. Nunca dei o braço a torcer. Gosto de pensar que nisso sou parecido com ele. E sinto que isso é bom.

Por essas e por outras, o 25 de Abril nunca me foi estranho, tal como o antes e o depois e o entendimento do que significava a privação de liberdade e a conquista da mesma.

O passado é uma coisa mutante, uma mescla de realidade-que-já-não-é com imaginação-criativa-e-tendenciosa-que-gostávamos-que-fosse. Ainda assim, tenho em mim a imagem, mais ou menos distinta, de uma turma de Humanidades curiosa e interventiva. Havia pessoas com ideias e convicções, não tão boas como as minhas, claro está, mas estavam lá e havia luta. E isso era bom.

Calhou-me em sorte uma professora de Filosofia demasiado jovem que volta e meia se esquecia dos rapazes numa turma que era um mar de raparigas e embarcava por conversas e gestos que, mais não fosse, nos traziam de volta da Lua à sala de aula. E isso era bom. No ano seguinte, o azar compensou-nos com um professor de formação padreca.

Sentado na última carteira, com vista para a rua incluída no pacote, a atenção era só a necessária. Ao meu lado estava o Nuno, dois anos mais velho e a mesma atenção. Já nos tínhamos cruzado, mas foi nesse ano que nos conhecemos. Na teoria, trazíamos o manual em aulas alternadas, na prática acertámos meia-dúzia de vezes. Continuo a ver o Nuno de vez em quando, não convivemos, mas ainda o tenho como amigo. Acredito que ele pensará de forma semelhante. E isso é bom. Vou enviar-lhe este texto.

Numa dessas aulas de Filosofia, sei lá a propósito de quê, disse-me o Nuno que o seu pai tinha festejado o seu nascimento em plena Serra da Gardunha, às escondidas, com três ou quatro amigos de confiança. Que fazê-lo em casa era arriscado, não era dia de alegrias e festejos, mesmo a pretexto do berro para a vida do primogénito. Alguém ouviria e chamaria as autoridades. As paredes tinham mais ouvidos que hoje. E olhos também.

O Nuno nasceu a 27 de Julho de 1970, dia da morte de António de Oliveira Salazar. Faltavam quatro longos anos para o 25 de Abril, as pessoas ainda se confundiam muito quanto aos direitos e deveres e a liberdade era uma coisa estranha. Ainda hoje as pessoas se confundem quanto a isso tudo. E isso é mau.

Sei bem que há muitas outras histórias, bem mais importantes e sérias, terríveis, sobre a ditadura e o 25 de Abril. Mas a liberdade, ou a falta dela, também se constrói de pequenas coisas com significado. Um pai e a alegria escondida do primeiro filho. Coisas para não apagar nunca. Para que não volte a ser mau.

Nuno, gosto de pensar que ando perto da verdade. Faz de conta, que nem me digas o contrário, afinal, o passado é o que queremos fazer dele.

Como o 25 de Abril.

Como o futuro.

A jogada volta a estar do nosso lado.

 

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Terça-feira, 24.04.12

O idiota norueguês

por Miguel Cardoso às 12:20

Quando não escreve com a barriga, o MEC ainda é capaz destas coisas.

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Quinta-feira, 19.04.12

Depois da queda...

por Miguel Cardoso às 20:00

 

Ainda que de uma forma algo doentia, sinto que serei um privilegiado, poucos serão os que no decurso de uma vida terão a oportunidade de assistir e viver a queda de todo um sistema económico-social. Conseguindo sobreviver, direi, daqui a uns anos, que estive lá quando tudo ruiu, quando a economia colapsou e se formou um governo de homens bons com a tarefa de reerguer um país e um continente, vítimas de uma estratégia financeira de terra queimada imposta por lobbys e de uma corja política cuja única ideologia se resumia ao poder servir-se a si mesmo. Saberemos todos, nessa altura, que devíamos ter deixado cair os bancos e que pecámos por ser demasiado complacentes com os psicopatas que fingiam importar-se.

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Quarta-feira, 18.04.12

Novo corte nas indemnizações por despedimento

por Miguel Cardoso às 20:25

Ora aí está mais uma chupadela de sangue... 

 

"Estudo do Governo diz que as indemnizações devem baixar para seis a dez dias" (negócios online).

 

Um estudo do Governo aconselhou isto? Quem diria!

 

Os trabalhadores com mais anos de casa também vão sofrer cortes significativos nas indemnizações. O Governo vai discutir com os parceiros sociais a hipótese de reduzir o número de dias de salário que contam para o cálculo da indemnização, afectando todos os contratos de trabalho, e não apenas os novos, através dos limites máximos para as indemnizações anunciados esta semana. Nos documentos que o Governo enviou hoje aos parceiros sociais está previsto que, a partir da entrada em vigor da nova legislação, todos os trabalhadores vão ser abrangidos por esta medida, independentemente da antiguidade que têm nas empresas.

 

Não sei se leram bem, será progressivo, mas não tardará a aplicar-se a TODOS OS TRABALHADORES(excepto os senhores que deixam o Governo, passam pela Caixa Geral de Depósitos, e integram o conselho de administração onde passam meia dúzia de anos a coçar os tomates até os convidarem de novo para o Governo)

 

Não será preciso ser muito inteligente para concluir que irá aumentar a taxa de desemprego nos trabalhadores mais velhos e também a desigualdade social. Se ao menos o Paulinho das Feiras não nos tivesse esquecido.

 

João Proença coloca o seu ar de ingénuo (ou parvo) número 4 e diz "olha que eu vou-me a eles". Tu é que já foste.

 

O Presidente não comentará, começo a pensar que é patológico e tenho pena.

 

Para o Tribunal Constitucional tudo é constitucional.

 

Quanto se pouparia com a eliminação do Tribunal Constitucional?

 

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Sexta-feira, 13.04.12

twilight zone

por Miguel Cardoso às 19:53
Coisas que circulam pela comunicação social lusa e que parecem verdade: 

"A partir do próximo ano lectivo, os pais vão ter total liberdade de escolha na escola que querem matricular os alunos."

Admito que tenha alguma verdade ao nível do pré-escolar e 1º ciclo... Mas estou ansioso por ver o Director da escola de elite da cidade x ou y aceitar uma catrefada de alunos problemáticos de meios sócio-económicos desfavorecidos só porque os pais deles decidiram que aquela era a escola indicada para eles.

Lá se ia a média e o ranking.

A realidade?
Os alunos serão (como já se faz aqui e ali) diplomaticamente reorientados no seu percurso escolar, que é como quem diz, chutados para o canto que lhes pretendem destinar..

A educação o c______, o que tu queres sei eu!

por Miguel Cardoso às 13:55

 

Aumentar o número de alunos por turma de 28 para 30.

Ora aí está a chupadela de sangue diária, às pinguinhas, para não darmos por isso e continuarmos todos de pescoço exposto (e sei lá que mais), uma atrás da outra, sem descanso.

Talvez seja isto que a OCDE entende por "centrar a educação no aluno".

É que com 30 alunos numa sala de aula é muito mais fácil.

Até porque sempre foi isto que os senhores dePUTAdos do PSD e acólitos do Portas costumavam defender, cheios de sangue na guelra, na Assembleia da República.

Ah não! Espera, defendiam precisamente o contrário.

As turmas deixam de desdobrar aos 28. Significa isto que haverá menos turmas e, voilá, diminuição do número de professores.

Motivações?

Pilim, cash, guita, papel, cacau, carcanhol, cheta.

A educação que se lixe.

CHUPAR! CHUPAR! CHUPAR!

Até porque a escola pública não é algo que assista aos petizes destas iluminárias.

Previsões a curto prazo?

Escolas privadas para os bons alunos com papás endinheirados, ensino profissional miserável e ao monte para o resto.

O ministro Nuno Crato?

A evidência de como é fácil destruir-se uma imagem e reputação de rigor e seriedade em poucos meses.

Nuno Crato reduzido a um pau-mandado.

Estás a prestar atenção Francisco José Viegas? Consegues aprender com o exemplo, ou é preciso enfiar-te numa turma de maus alunos?

 

 

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Quarta-feira, 11.04.12

A demência do político é uma coisa muito triste...

por Miguel Cardoso às 17:33


 

Tanto a IGF como o TC constataram que o programa de modernização dos estabelecimentos de ensino, lançado em 2007, ultrapassou largamente a estimativa inicial para 332 escolas, apesar de a execução do programa estar a pouco mais de metade.

(...)

 No seu relatório, a IGF refere que a evolução dos custos redundaria num aumento de 84% por comparação ao previsto em 2008 para a execução do programa na sua totalidade. O Tribunal de Contas aponta, por seu lado, um acréscimo de 218,5% por comparação à estimativa de 2007.

(...)

 Esta diferença deve-se ao facto de a IGF tomar como ponto de comparação o que foi estimado no Plano de Negócios apresentado pela Parque Escolar em 2008 (2,4 mil milhões de euros), enquanto o Tribunal de Contas compara com a estimativa apresentada quando do lançamento da empresa em 2007 (940 milhões).

 (PÚBLICO)

 

Como responde Maria de Lurdes Rodrigues?

 “O programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitectura, para a engenharia, para o emprego e para a economia”.

 O que é que merecia Maria de Lurdes Rodrigues?

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Sábado, 07.04.12

OUVIR E FALAR - I Tertúlia pela Democracia e Cidadania (segunda abertura, ena tantas)

por Miguel Cardoso às 17:20

 Notas para a abertura da I Tertúlia pela Democracia e Cidadania... Ou colecção de frases soltas com um cheirinho de coerência.

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Diz-nos Platão, dessa mesma Grécia de que tanto agora nos procuramos afastar, mas que tanto deu à Humanidade:

“Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós, se não queremos governar nós mesmos.” (República, livro I, 347c)

Noutros termos, o preço a pagar pela não participação na política, é ser governado por quem é inferior.

O facto é que “esses que são piores que nós” de que nos fala Platão, esses inferiores, medíocres, aprendizes de pensamento único, sem ideias ou a memória que implique a vergonha que vai do que disseram ontem ao que fazem hoje, há muito que chegaram ao poder e a culpa é nossa.

Demitimo-nos, abdicámos das nossas responsabilidades e da nossa consciência. E pior, fizemo-lo de livre vontade.

Os gregos, de novo eles, designavam de idiótes o indivíduo que nada queria saber de política, que vivia imerso nas pequenas coisas de ordem doméstica e sentia que nada podia oferecer aos restantes, acabando manipulado por todos. Do termo grego deriva o nosso idiota actual.

Tornámo-nos invisíveis.

Acomodámo-nos e já não contamos para o que quer que seja.

Desabituámo-nos de pensar e falar, embora não pareça, dada a quantidade de chavões repetidos até à exaustão pela comunicação social e que já não estranhamos, mas que continuamos sem entender. Encolhemos os ombros e mudamos para o mesmo num outro canal televisivo. A nossa escolha reduzida a isto.

Perdemos o hábito de pensar e começa a desenvolver-se o medo de o fazer, e mais, de estar junto a quem pensa e fala, não vá contagiar-nos, não vá estar alguém de olhos postos em nós.

Optámos por permanecer quietos, fingir de mortos quando as coisas se complicam, não levantar ondas, aninhar-nos no sofá ou no cada vez mais restrito grupo de amigos de confiança (nunca deixando de espreitar por cima do ombro e medir a exacta extensão de cada palavra) ou, opção dos nossos tempos,  proteger-nos atrás do ecrã de computador (numa irreflectida ilusão de segurança).

Deixámos de ouvir, falar e, sobretudo, pensar. Um dia acordámos transformados no “analfabeto político” de Brecht.

Deixámos de OUSAR PENSAR e fazê-lo na praça pública (na Ágora), dar a cara por uma ideia sem medo de represálias ou expectativa de agradar a este ou àquele.

Uma das implicações da Democracia grega foi que os cidadãos passassem a “ver-se” uns aos outros (na Ágora, na disposição das próprias assembleias, onde cada cidadão podia tomar a palavra, no teatro, onde era sempre a decisão humana e suas implicações que estavam em causa).

Foi isto que deixou de suceder, “ver” os demais e deixar que nos “vejam”, unicamente apoiados na convicção que resulta do uso autónomo da razão.

Mas não é um trabalho fácil este de recuperar a autonomia.

Não é fácil porque exige uma modificação de mentalidade. É algo a longo prazo. Não se trata de acreditar que podemos mudar tudo aqui e agora, como que por milagre. Não pode ser esta a verdadeira atitude política.

Mas essa é a única forma de mudar uma forma de vida e de fazer política (ou não fazer) que não funciona, exceptuando para uns poucos privilegiados em regime rotativo.

Não é correcta esta substituição da pessoa pelo número.

Não é correcta esta política de trabalhar mais, para produzir mais, para consumir mais, para desperdiçar mais.

A qualquer custo.

Viver não se pode resumir a isto. Viver tem de ser mais.

Não é o fim do Governo que se pretende. Não é o fim da Democracia que se pretende. Apenas o fim de um paradigma de Governo e Democracia. Para voltar a colocar a pessoa e os valores no centro. De onde nunca deveriam ter sido arredados.

Isto cabe-nos a nós, porque um Governo (enquanto colectivo) não tem consciência.

O trabalho tem de começar em nós. A mudança tem de começar em nós. Para que o colectivo mude também.

Por isso mesmo, é fundamental que não participemos das misérias que condenamos em silêncio… E isso passa por dar pequenos passos, como este, aqui, hoje, nesta tertúlia, mas que sejam para sempre…

Que produzam efeito em nós.

Que fiquemos mais esclarecidos, maiores.

Para fazer o que é correcto, da forma correcta, pelas razões correctas. (Barry Schwartz)

Porque não nascemos para ser coagidos.

Se não vivermos de acordo com a nossa natureza, que não é esta coisa amorfa, então é como se já estivéssemos mortos.

No essencial, tudo se resume ao tipo de pessoa que queremos ser.

No essencial, é uma escolha nossa.

No essencial, é a imagem e o exemplo que queremos passar aos que se seguem, aos nossos filhos.

Sexta-feira, 06.04.12

Políticos em saldo com defeito

por Miguel Cardoso às 17:33

Irrita-me.

Mais, revolta-me as entranhas. 

Enoja-me que a palavra seja algo de descartável, que tenha deixado de marcar o homem-dito-político que a profere, quando devia marcá-lo como ferro em brasa.

"Prometo" não é apenas uma palavra, é um acto. Prometer é fazer. Vincula.

Enoja-me o "moralismo padreco" com que Passos Coelho me olha através do ecrâ de TV. Com um desdém que já é incapaz de disfarçar.

Enoja-me a falta de carácter de quem prometeu, escassos meses atrás, que o futuro seria difícil para os portugueses, mas que tudo seria feito "às claras", sem subterfúgios, sem uma agenda escondida, por respeito, porque os portugueses mereciam saber todas as razões e pormenores dos sacrifícios a que seriam submetidos. Gritava-se a pulmões cheios (sabemos agora, de vento) que a atitude seria outra, diferente, melhor, correcta.

Atitude muito diferente daquela que nos tem vindo a ser escarrada em cima.

O esconder da suspensão das reformas antecipadas e do fechar da Maternidade Alfredo da Costa é apenas o último dos insultos, mais virão.

A confusão com o ano de recuperação dos subsídios de desemprego e de Natal, o último malabarismo de palavras e números proferido por aqueles que pouco mais já são que arremedo de homens.

Como se fossemos nós a não compreender. Como se o que foi dito não significasse, nem pretendesse significar, aquilo que realmente foi dito. Como se não se quisesse dizer o que se disse com o que se disse de papo cheio para ganhar umas eleições. Como se a confusão fosse nossa, imbecis que somos.

Que não nos esqueçamos nós na altura de colocar a cruz.

Que não se esqueça Passos, o sonolento Gaspar e o cão-de-guarda Relvas das últimas palavras escritas pelo grego da praça Syntagma.

Que não se esqueça a UGT, já agora.

 

Imagem, aquela com bom aspecto

 

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Sexta-feira, 30.03.12

Millôr contra os homens cinzentos

por Miguel Cardoso às 19:02

 

 

Algumas (ir)reflexões de Millôr Fernandes (n. em 1923 ou 1924, fisicamente ausente desde o  passado dia 27 de Março, brasileiro, humorista, poeta, dramaturgo, jornalista, escritor e tudo o mais), das muitas com que anos a fio foi brindando e abalando os políticos no seu poleiro. Pertinentes aqui e em qualquer lugar, hoje e sempre, podiam ser outras, foram estas, para usar e abusar:

 

“Os homens não são iguais, são apenas feitos da mesma maneira.”

 

“Não se esqueça de que, quando você mistura um litro de leite bom com um litro de leite ruim, o resultado são dois litros de leite ruim.”

 

“É melhor calar a boca e passar por imbecil do que falar e acabar com as dúvidas.”

 

“Toda a lei é boa desde que seja usada legalmente.”

 

“Estranha é a química do corpo humano: você põe uma coroa na cabeça de um homem e ele fica logo com o rei na barriga.”

 

“Um ministro prevenido nunca vale por dois.”

 

“Político é um sujeito que consegue não dizer nada sem deixar nada de ser dito.”

 

“Democracia é um sistema em que as autoridades não se importam com o que você diz, desde que tenham os meios de impedir que você o faça.”

 

“O dinheiro não é só facilmente dobrável, como dobra facilmente qualquer um.”

 

“E como dizia, melancolicamente, um burocrata para outro: ‘Pois é, meu caro, a vida é assim mesmo, hoje estamos aqui e amanhã também.”

 

“Chato é um sujeito que faz a você uma pergunta, ele mesmo responde e logo começa a provar que você está redondamente enganado.”

 

“Aquele político roubava, sim. Mas só em legítima defesa!”

 

“Chama-se político coerente aquele que, tendo-se vendido uma vez, permanece fiel aos seus princípios e se vende o resto da vida.”

 

“Chama-se entrevista política o acto de falar naquilo que se devia estar fazendo.”

 

“Chama-se celebridade um débil mental que foi à televisão.”

 

“No seu sono profundo o deputado sonhou que estava na Câmara ouvindo um discurso. E, quando acordou, estava.”

 

“Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção; é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja.”

 

“Certas pessoas jamais nos abandonam... aí é que está o mal.”

 

Porque o humor sempre serviu de arma contra os monstros!

 

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Quarta-feira, 21.03.12

Amanhã faço greve

por Miguel Cardoso às 22:36

 Abre o noticiário com a douta análise de um senhor-professor-doutor-raioqueoparta-catedrático-bem-na-vida dizendo que “fazer greve não adianta nem resolve nada”. Diz ele, lá do cimo, onde a lama não chega, para a ralé, que luta para se manter à tona cá em baixo. “Que não resolve”, “que não adianta”, “que prejudica o país”, “que são sempre os mesmos”, “que perdes um dia de salário”… Um dia de salário? Já perdeste MESES de salário e teimas em permanecer caladito a fingir de morto, à espera que a coisa se resolva por si só, como quando reinicias o computador cheio de fé que o vírus tenha desaparecido. O problema é que para a vida não há botão de reiniciar e a fé nem a chuva traz. O mal está no facto de pensares que o estado de coisas se muda logo no dia a seguir à greve. Não funciona assim, um dia de greve é apenas um passo num longo caminho para recuperar o que nos últimos anos te foi tirado. E sim, acredito nos direitos adquiridos. E sim, sei que de tanto te bombardearem a cabeça com o fim dos mesmos, já duvidas inclusive de que alguma vez os teres tido. Destruir é fácil, construir leva tempo. Infelizmente é assim. E que diabo, que mensagem estamos a passar à geração que se segue? Que responderemos aos nossos filhos quando nos perguntarem, daqui a uns anos, que fizemos nós para tentar contrariar este "fatalismo" a que nos votam e pretendem lhes deixemos em testamento? Nada filho, não consegui levantar o rabo do sofá. Nada filho, na altura um dia de salário pareceu-me muito. Nada filho, o teu pai é um banana e este é o exemplo que te dou, filho de banana, banana é. Amanhã faço greve. Irão acompanhar-me 10, 20, 50, não faço ideia (até faço), Na sexta-feira vou entrar de cabeça erguida no meu local de trabalho, com o peito inchado do dever cumprido, e haverá olhares postos no chão, e haverá desculpas coloridas... Eu vou de sorriso-amarelo-retributivo, que não adianta discutir com “cadáveres adiados que procriam”, mas o arreio, esse que levam, já não se consegue disfarçar, vê-se ao longe. Para a “trupe do não adianta”, boa sorte com a justificação aos filhos, força no ensaio frente ao espelho, para que pareça que acreditam mesmo no que dizem.

 

Domingo, 18.03.12

O exemplo de escola que não interessa

por Miguel Cardoso às 13:15

 

Na Finlândia, 40% das escolas têm menos de 50 alunos e as que têm mais de 600 estudantes não ultrapassam os 3%. Os estudantes finlandeses também não podem ser colocados em escolas que estejam a mais de cinco quilómetros de distância de casa. A pequena dimensão das escolas é mesmo reconhecida como um factor de sucesso para um dos sistemas de ensino com melhores resultados académicos. 

 

 Abandonar as escolas de grande dimensão e substitui-las por outras mais pequenas é o objectivo do "small schools project", lançado nos EUA. O projecto já se estendeu a todo o país e tem por base estudos científicos que provam que os alunos têm melhores resultados e o facto de cada um ser reconhecido pelos professores ajuda a reduzir a violência escolar. Melhorias que acabam por reduzir o custo de cada aluno.  (A taxa de sucesso escolar subiu de menos de 40% para 69%)

 

No Reino Unido, a preocupação também já é de reduzir a dimensão das escolas. Pelo menos foi essa a promessa feita pelo primeiro-ministro David Cameron, no ano passado, invertendo assim a tendência dos últimos anos em que 55% das secundárias têm mais de 900 alunos e passaram a existir cinco vezes mais escolas com mais de 2000 estudantes. O objectivo é humanizar mais as escolas britânicas.

(DN, 17/03/12)

 

Sucedeu o mesmo com a treta das novas pedagogias do "eduquês", chegaram a Portugal quando os demais países as abandonavam, foram anos de inanidades, o mesmo sucederá com a dimensão das escolas, daqui a 20 anos. Até lá, quanto e quantos se perdem?

 

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Quarta-feira, 14.03.12

Pronto, não encontrámos o raio da acta da reunião onde decidiram concertar os preços

por Miguel Cardoso às 16:19

 

 

"Autoridade da Concorrência (AdC) está a analisar os preços dos combustíveis nas auto-estradas, um estudo que vai estar pronto 'em breve' segundo o presidente da AdC, Manuel Sebastião." (Jornal de Negócios)
Mas é que eu antecipo-me já, a conclusão do estudo será: "não há indícios de concertação de preços, blá blá blá, recomenda-se blá blá, transparência, blá blá blá, podem ser introduzidas algumas melhorias, blá blá blá, os números de afixação dos preços têm de ser maiores, que ao longe não se vêem, blá, blá". E pronto, será isto, mais ou menos blá. Para a próxima talvez me contratem a mim para autor do estudo (este ou qualquer outro do género), chego às mesmas e mui úteis conclusões e saio por certo bem mais barato. Aproveito também para dizer que, mesmo não sabendo nada de economia e finanças, faço orçamentos para obras públicas e afins, mesmo "a olho" não deve ser difícil errar por menos e ficar aquém das derrapagens orçamentais dos especialistas.

 

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Domingo, 11.03.12

A difícil arte de ser maior

por Miguel Cardoso às 23:26

 A propósito de uma troca de argumentos com dois dependentes religiosos à porta de minha casa, lembrei-me de um texto de Immanuel Kant que costumo atirar de chofre ao cérebro adolescente no início do ano lectivo a pretexto do que é fazer Filosofia (o como vem um pouco mais tarde).

Sirvo-me de Kant contra essa mania ou necessidade que tem o homem de encontrar um messias de verdade em riste. Contra essa miserável tendência que o homem tem de encontrar quem lhe diga o que pensar e o que fazer. Contra essa tendência de ficar à espera de quem avança e criticar o modo de andar daquele que se decide a fazê-lo, que assim não, que não adianta, se ao menos fosse de outra forma, se calhasse noutro dia, se… Aí ninguém me parava, eeeepá, porque em chegando-me a mostarda ao nariz eu faço e aconteço, que a mim ninguém me cala! Onde é que eles estão? Onde? Quantos são? Para quando? Eeeepá, nesse dia tenho aquela coisa combinada.

Sobre esta propensão para ser menor e gostar, bem melhor do que eu, Kant:

“lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.

A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio, continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro.

Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. (…) Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente com os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.

Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade.”

 ENTÃO COMO É?

 (Immanuel KANT, in Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?”, tradução de Artur Morão)

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Quarta-feira, 07.03.12

O VERDADEIRO Pai Nosso

por Miguel Cardoso às 00:09

 

Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim e nunca apenas como um meio.

 

(Immanuel Kant)

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Terça-feira, 06.03.12

O político light recuperado

por Miguel Cardoso às 21:25

 

A propósito da “literatura light”, escreve Silvina Rodrigues Lopes, ensaísta a quem valeria a pena dedicar mais atenção: “É preciso impedir que a banalidade que aparece hoje consensualmente como literatura não se assuma em breve um direito de exclusividade” (in Literatura, Defesa do Atrito). Substituamos “literatura” por “políticos”. Haverá com certeza políticos para além disto, deste resto, fundo de tacho, políticos para além da náusea das ideias prontamente descartáveis, da contradição e da falta de substância, do “aqui e agora” e do futuro logo se verá tão caro ao “político light”. Vemo-nos confinados à espectacularização que esteriliza, “relegando o humano para o mais triste da vida animal  -  a domesticação” (idem). Arquitecta-se uma imagem e dizem-nos “esta é a tua vida”, “olha para aqui”, “a felicidade é isto”. Ficção. Vivemos num mundo ininteligível ao “político light”, que vive em função do espectáculo e para quem o espectáculo é tudo quanto há, monstro que a comunicação social ajuda a perpetuar. Assim deverá ser para nós, resignados consumidores de espectáculo.

Falta-nos a “estratégia de saída” da fantasia. Fabricou-se uma espécie de insidiosa realidade televisiva que diluiu a fronteira entre real e espectáculo (já alertava Guy Debord) e à qual temos de nos curvar. Se ao político-filósofo de Platão coube outrora conduzir os demais no caminho da virtude e do saber, é agora o mesmo que nos empurra para as trevas ou nos fecha numa redoma ficcional, como em The Truman Show de Peter Weir.

Percamos a ingenuidade, apesar dos aparatosos números de equilibrismo e ilusionismo, o pão continuará a faltar. Antes que o “político light” nos devore ou nos convença de que o caminho da felicidade passa por nos devorarmos uns aos outros, antecipemo-nos e comamo-lo já. 

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Domingo, 04.03.12

Um subsídio, dois subsídios, três subsídios a voar...

por Miguel Cardoso às 18:23


O Estado (nós) pagou 4,4 milhões de euros à Lusoponte (onde se farta de suar Ferreira do Amaral) como compensação pela isenção de portagens na ponte 25 de Abril no mês de Agosto, apesar de no ano passado esta não se ter verificado (esqueceram-se) e a empresa ter arrecadado as respectivas receitas. O Governo (do austero Passos) defende que respeitou o contrato assinado (afinal há direitos adquiridos) e que este será brevemente (à escala portuguesa) renegociado para levar em conta o fim da isenção das portagens em Agosto. António José Seguro está indignado (segurem-no).

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Sábado, 25.02.12

Ou então já estamos mortos…

por Miguel Cardoso às 22:08

 

Pode ser só o desejo de tocar um outro tempo e respirar do berço desta civilização que é a minha. Ganhar alento na Antiga Grécia. Tomar balanço e percorrer a Ágora. Trazer o pensamento para a rua. Demorar-me nele. Sem medos, donos, arreios ou dogmas. Sem uma agenda explícita ou escondida. Sem inimigos declarados ou amigos a proteger. Sem tomadas de posição colectivas ou histerismos de momento. Só pensamento livre e crítico. Reflexão e opinião. Usar a razão e exercer a cidadania. O que me faz humano. Libertar a palavra e dar-lhe forma. Voltar por instantes à Antiga Grécia, trazê-la para Portugal, para junto de minha casa, aqui e agora, onde tudo começa e acaba. Onde eu sou. Sair do conforto do café e da televisão, da protecção do virtual, dar a cara por uma ideia e arriscar levar com outra bem no meio das trombas, dar o braço a torcer ou nem por isso, descobrir outra forma de ver o mundo. Inconformar-me com o fato que me vestem. Não comer e não calar. Direito, mas também dever. Ousar pensar para conseguir fazer. SER MAIOR. Esclarecido. Para tornar a vida digna. Para contar aos filhos. Não é preciso saber exactamente para onde vou. Apenas mudar o ponto de vista, o meu, e é todo o mundo que muda. Ou então permanecer como observador passivo, que é uma outra forma de já estar morto.

É disto que se trata, no Fundão, no final de Março, ser mais, ser melhor, basta aparecer. 

 

(Imagens daqui)

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Segunda-feira, 20.02.12

Mas que raio fizeram os gregos por nós?

por Miguel Cardoso às 14:32

Cena 9 - Interior - dia

        (Reunião ordinária do Governo alemão, gabinete pequeno para poupar em luz e aquecimento, 17:45h, sem pausa para lanche, cada ministro trouxe a sua sandes de casa.)

CHANCELER MERKEL (irritada): Os malditos gregos tiram-nos o dinheiro todo, os bastardos. Trabalham pouco e levam-nos o dinheiro que tanto nos custou a ganhar, a nós, aos nossos pais e aos pais dos nossos pais…

WOLFGANG SCHÄUBLE: E aos pais dos pais dos nossos pais.

CHANCELER MERKEL: Sim.

WOLFGANG SCHÄUBLE: E aos pais dos pais dos pais dos nossos pais.

CHANCELER MERKEL: Sim, Wolfgang, não aprofundemos mais a questão. Mas o que é que eles nos deram até hoje?

PHILIP RÖSLER: o Teatro?

CHANCELER MERKEL: O quê?

PHILIP RÖSLER: o Teatro… Ésquilo, Sófocles, Aristófanes…

CHANCELER MERKEL: Oh! Sim, pois. Eles deram-nos isso, é verdade.

HANS – PETER FRIEDRICH: E a Filosofia, com Sócrates, Platão e os outros todos…

URSULA VON DER LEYEN: Sim, a Filosofia, lembras-te como pensávamos antes da Filosofia?

CHANCELER MERKEL (condescendente): Sim, pronto, o Teatro e a Filosofia foram duas coisas que os gregos nos deram.

ILSE AIGNER: E a Oratória.

CHANCELER MERKEL: Bem, sim, obviamente a oratória, quer dizer, nem era preciso dizer, certo? Mas, para além do Teatro, a Filosofia e a Oratória…

ANNETE SCHAVAN: A Ciência, com Arquimedes, Aristóteles…

DANIEL BAHR: A Medicina, lembras-te de Hipócrates?

MINISTROS EM CORO: Pois, pois, isso…

ANNETE SCHAVAN: Heródoto e a História

MINISTROS EM CORO: Oh, sim…

CHANCELER MERKEL (a ficar impaciente): Sim, pronto, ok, é justo.

THOMAS DE MAIZINE: E estratégia militar.

KRISTINE SCHRÖDER: Introduziram as vogais no alfabeto.

MINISTROS EM CORO: Oh, sim, isso foi importante.

DIRK NIEBEL: Sim, isso seria algo de que sentiríamos realmente falta!

NORBERT RÖTGEN: Os Jogos Olímpicos.

PETER RAMSAUER: Pitágoras.

RONALD POFALLA: Arte.

SABINE LEUTHEUSSER-SCHNARRENBERGER: Organização social.

THOMAS DE MAIZENE: Ajudaram-nos depois daquela chatice da segunda guerra.

CHANCELER MERKEL (fora de si): Sim, pronto, ok, mas para além do Teatro, a Filosofia, a Oratória, a Ciência, a Medicina, a História, a estratégia militar, as vogais, os Jogos Olímpicos, a Matemática, a Arte, a organização social e aquilo da guerra, O QUE É QUE OS GREGOS NOS DERAM?

ILSE AIGNER: A Democracia.

CHANCELER MERKEL: A Democracia? Cala-te lá com essa merda!

 

(Descaradamente adaptado dos senhores Chapman, Gilliam, Cleese, Idle, Palin e Jones)

 (imagem daqui)

Domingo, 19.02.12

An Apology by Monty Python

por Miguel Cardoso às 22:06

Domingo, 12.02.12

Shunnoz Fiel dos Santos - Pensólogo, Poeta e Sofredor Profissional

por Miguel Cardoso às 15:33
Tempos atrás, por mero acaso, descobri o documentário É Dreda ser Angolano da autoria da Família Fazuma. Uma pequena pérola sobre Angola que logo tratei de adquirir. Foi "neste mambo tipo documentário" que descobri o "pensólogo" Shunnoz Fiel dos Santos. Descreve a realidade angolana, mas podia ser a nossa: "Eu quero viver, eu vou beijar o cú de quem?"

Quinta-feira, 09.02.12

Ah! Bom! Se a igreja aceita...

por Miguel Cardoso às 22:17

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Terça-feira, 07.02.12

... de brandos costumes

por Miguel Cardoso às 11:49

(imagem daqui)

 

Ainda se lembram da sentida declaração de pobreza do presidente Aníbal? Escrever hoje sobre isso quase se assemelha a fazer arqueologia ou exegese bíblica. Se a “espuma dos dias” de Boris Vian fosse um país, era Portugal, onde a memória não dura um bater de asas e o Q.I. dos naturais fica em suspenso no domingo-de-colocar-a-cruzinha-depois-da-missa. Ainda assim, chegou para meia-dúzia de entendedores, levados pelo impulso vai-não-vai da “tesão do mijo”, se apressar a hipotecar-lhe a carreira política. Assim, sem fazer por menos. Caramba, o homem vai a caminho dos 73 e já leva na testa um post-it amarelo a anunciar o has-been. Daqui para a frente, pouco mais que sofá, fatia de bolo-rei e chinelos ao xadrez em frente à Júlia Pinheiro, como bom e vigilante senador da nação. Como se ser desbocado tivesse implicações no que quer que seja. Só uma brisa que passa, a lusa indignação é coisa de dias e de usar no café para fazer peito aos amigos. Passa com uma boa noite de sono.

Entretanto, num país que parece outro mas é o mesmo, estou eu a ocupar o sofá e a coçar-me ao ouvir João Pereira Coutinho e José Manuel Fernandes, com a inteligência de fase lunar, curvada para minguante, que os caracteriza, a afirmar que, sim senhor, antes levar uns trocos e embalagens de arroz ao Presidente e à sua Maria em jeito de gozo e ir rindo, que fazer como os gregos e sair para a rua partir montras. Felizmente, dizem eles em uníssono, os portugueses, nós, eu, somos um povo de brandos costumes. Espartilham-nos num modo-de-ser inócuo como se de uma qualidade se tratasse… Aquilo a sair-lhes da boca e eu a ouvir: “papalvos”, “cornos mansos” e “coninhas”. Brandos costumes é bom, brandos costumes é bom, brandos costumes… Não, não te estou a sodomizar… Olhai além os lírios do campo… Brandos costumes é bom… Pronto, já está, estás a ver que não doeu nada! Era inevitável, tinha mesmo de ser, as pessoas não compreenderiam que fosse de outra forma… Toma lá outra coisa em que pensar, a tua equipa que não ganha, o Carnaval desmascarado, o (des)acordo ortográfico, a Ana Drago a vergastar um deboytado do PSD, o que seja, para teres assunto na pausa do café, desde que longe dos ouvidos do patrão-que-é-mais-ou-menos-primo-do-vereador-que-não-elegeste-mas-que-agora-é-presidente-porque-o-outro-foi-para-melhores-pastagens, ou ir derramando pelos blogues em jeito de lamber os tomates. Faz-te bem. É catártico. Tens de ir deitando cá para fora. Deita filho, deita, chama-me nomes agora, mas não te esqueças de vir pedir a bênção quando for lá à terra e de me colocares o catraio nos braços para a fotografia. E entretanto alombas com mais um aumento dos transportes, toca a ladrar, ok, já chega, senta, lindo menino, querias folgar mas quatro feriados já cá cantam, não sejas piegas, engole mais um aumento das taxas moderadoras, festinha no cachaço pelo bom comportamento, trabalha, trabalha, já não te lembras das portagens pois não? E nunca tiveste subsídio de Natal e de férias. Foi uma impressão que te deu.

E uma voz cá dentro, recalcada por décadas de domesticação a sussurrar a medo… “Porra, faz qualquer coisa, aponta, fixa tudo o que fazem, tudo o que dizem, tudo o que te tiram e te calam, não esqueças, aponta, faz uma lista… É importante recordar… que não te tirem a memória, o que tu és, o teu passado, o deles não começou há uma semana, aponta, lembra os outros… Porra, faz qualquer coisa, manifesta-te. COMO SE ADIANTASSE ALGUMA COISA, impõe aos gritos um super-ego amansado.

“Coninhas”? Eu? Do que é que estávamos a falar?


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Terça-feira, 31.01.12

Fernando Assis Pacheco (01-02-1937 a 30-11-1995)

por Miguel Cardoso às 21:41

Este ministro é um mentiroso

que agonia quando ele discursa

e se fosse só isso: bale sem jeito

às meias horas seguidas – e não pára!

 

bem-aventurados os duros de ouvido

a quem o céu abrirá as portas

desliguem p.f. o microfone

ou então tirem o país da ficha

 

Fernando Assis Pacheco, Respiração Assistida

 

 

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Domingo, 29.01.12

The Union: The Business Behind Getting High de Brett Harvey

por Miguel Cardoso às 18:41

 

 

 Ver legendado aqui e depois reflectir e debater.

 

 

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