Quinta-feira, 23.02.12

Poesia ao nascer do dia - Marquesa de Alorna

por Luis Moreira às 08:00

(Lisboa, 1750 - idem, 1839)

Escritora portuguesa. Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, 4.ª marquesa de Alorna, é uma das mais notáveis vozes do pré-romantismo em Portugal. Neta, por parte da mãe, dos marqueses de Távora, executados pela justiça do marquês de Pombal devido ao seu envolvimento numa conspiração contra o rei D. José I, é, em 1758, enclausurada no Convento de Chelas, de onde é libertada dezanove anos depois, em 1777, após a queda política do marquês. No entanto, a sua prolongada reclusão é o principal motivo para a esmerada formação literária e científica que recebe. Leituras de Rousseau, Voltaire, da Enciclopédia de Diderot e d'Alembert, abrem o seu espírito vivo e inquieto às ideias do iluminismo francês. Casa com o conde de Ovenhausen, oficial alemão que viaja pela Europa, do qual fica viúva aos 43 anos. Apesar das dificuldades económicas que a viuvez lhe acarreta, a sua residência transforma-se num foco de ebulição cultural, onde se debatem as novas ideias políticas e também as novas correntes estéticas e literárias. Bocage e Alexandre Herculano, em períodos diferentes, são dois dos frequentadores do seu salão. Sob o nome árcade de Alcipe trabalha em traduções do latim (a Arte Poética, de Horácio, por exemplo), do alemão (textos de Christoph Wieland), do inglês (o Ensaio sobre a Crítica, de Alexander Pope) e do francês (textos de Lamartine), cultiva a epistolografia (Cartas a Uma Filha Que Vai Casar) e escreve poesia. Recreações Botânicas, poema em seis cantos dedicado às «Senhoras Portuguesas», prenuncia já o sentimentalismo romântico que avassalará a literatura anos mais tarde. A sua poesia está reunida nos seis volumes das Obras Poéticas da Marquesa de Alorna (1844).

 

Se me aparto de ti, Deus da bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!


Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!


À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.


Se, justo, castigar-me te é forçoso,
lembra-te que te amei, e me criaste
para habitar contigo o Céu lustroso!

 

Quarta-feira, 22.02.12

A ERVA MOLHADA

por Adriano Pacheco às 16:00

Paira o cheiro da erva molhada

Pela encosta do soalheiro

No cume do monte cimeiro

Solta-se um fogo que arde

E nos olhos vai caindo a tarde

 

Soltam-se os dias e o tempo passa

Num espaço leve e sereno

Assim a vida se vai gastando

Mas como, onde e quando

Se o cantinho é tão pequeno?

 

Minha terra minha doce lonjura

Meu espaço de breve lembrança

Longe, tão longe, ficou a criança

Perto, tão perto se estende

brancura

Bordada pelo fumo da distância

 

Verde, tão verde breve ficaste

Num tempo em que tudo mudou

Tudo mas tudo se esfumou

Na mente e na gente que criaste

 

 

 

 

Poesia ao nascer do dia - Marquesa de Alorna

por Luis Moreira às 08:00

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (1750-1839) nasceu em Lisboa. Tendo o seu pai sido preso, acusado de participar no atentado ao rei D. José, Leonor, de oito anos, entrou com sua irmã para o convento de Chelas, vindo somente a sair após a morte do Marquês de Pombal. Casou com o Conde de Oeynhausen e viajou por Viena, Berlim e Londres. Enviuvou aos 43 anos de idade, vivendo com algumas dificuldades económicas, dificuldades estas que não a impediram de se dedicar à literatura. Adoptou na Arcádia o nome de Alcipe. Traduziu a Arte Poética de Horácio e o Ensaio sobre a Crítica de Pope. É considerada uma poetisa pré-romântica. As suas obras foram publicadas em 1844 em seis volumes com o título genérico de Obras Poéticas.

Bibliografia: Clara Rocha, As Máscaras de Narciso, p. 95. Marquês de Ávila e de Bolama, A Marquesa de Alorna, Lisboa, 1916. João Jardim de Vilhena, A 4ª Marquesa de Alorna (Alcipe), Coimbra, 1931. Hernâni Cidade, prefácio a Poesias e Inéditos, Sá da Costa, Lisboa, 1941.

Outras páginas sobre o autor:

Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; cá ficará meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

Já não me iludirá um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas razões do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.

Segunda-feira, 20.02.12

Poesia ao nascer do dia - Sofia de Mello Breyner Andresen -

por Luis Moreira às 08:00

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Domingo, 19.02.12

PARA ONDE VAMOS

por Adriano Pacheco às 16:00

De silêncio em silêncio

Chego ao murmúrio das águas

Ao som que deixou brado

Às serras vales e fragas

Num tempo morno acabado

 

Longe do tempo segue a brisa

Em busca das vagas do sonho

São luzes de vagos sinais

Vêm de perto ou de longe

E perdem-se nos vendavais

 

Perto bem perto soa o clarim

Dum tempo já acabado

Mas o murmúrio do riacho

Lembra-me o som doutro lado

 

De silêncio em silêncio

Lentos, vazios, caminhamos

Sem sabermos… para onde vamos

 

Poesia ao nascer do dia - Natália Correia - Quando um ramo de doze badaladas

por Luis Moreira às 08:00

Quando um ramo de doze badaladas

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
Sábado, 18.02.12

POEMAS DAS ÁGUAS - RESISTENTES DO TEMPO

por Adriano Pacheco às 16:00

Na erma solidão da terra

Os que não morrem

velam

Os que velam testemunham

amanhã

Os que cheiram a passagem

do tempo

Levam consigo o pensamento

 

Somos deste tempo confidentes

Desta chama fogo trepidante

Deste nefasto murmúrio

complacentes

Ouvidos calmos e tolerantes

 

Somos produto mal tratado

Dum tempo que não se contém

Quando vai não se despede

Anuncia-se logo, quando vem

 

Ficamos assim mal tratados

E dum tempo desapossados

 

 

Poesia ao nascer do dia - Joaquim Pessoa - Morrer de amor é assim

por Luis Moreira às 08:00

Quem morre de tempo certo
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei, e falo por mim,
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora,
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar,
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

Quarta-feira, 15.02.12

Poesia ao nascer do dia - Ruy Belo - poema quotidiano

por Luis Moreira às 08:00

 

 

 É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Tema(s): Quotidiano 

Terça-feira, 14.02.12

Poesia ao nascer do dia - Joaquim Pessoa

por Luis Moreira às 08:00

De onde chegam estas palavras?
De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Segunda-feira, 13.02.12

Poesia ao nascer do dia - Cesário Verde

por Luis Moreira às 08:00
O Sentimento dum Ocidental
               I

           Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. O céu parece baixo e de neblina, O gás extravasado enjoa-me, perturba; E os edifícios, com as chaminés, e a turba Toldam-se duma cor monótona e londrina. Batem carros de aluguer, ao fundo, Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos, Ou erro pelos cais a que se atracam botes. E evoco, então, as crónicas navais: Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jamais! E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! De um couraçado inglês vogam os escaleres; E em terra num tinir de louças e talheres Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda. Num trem de praça arengam dois dentistas; Um trôpego arlequim braceja numas andas; Os querubins do lar flutuam nas varandas; Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas. Vêm sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, à cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas. Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; E apinham-se num bairro aonde miam gatas, E o peixe podre gera os focos de infecção!
Domingo, 12.02.12

MAR SERRA E BRISA

por Adriano Pacheco às 17:00

 

Solta-se a brisa e o mar rebenta

Solta-se areia em bancos

de espuma

Solta-se a manhã de cinzenta

bruma

E na crista da onda tudo se esfuma

 

Solta-se o brado numa onda

de fúria

Solta-se uma vaga nebulosa

E um olhar vago se descuida

Numa face condoída

A crista da onda vitoriosa

 

Assim se rasga novo espanto

Na cor do céu contemplativo

No rosto aberto vem encanto

Entre céu e mar fica o sentido

 

Nada mais cabe neste horizonte

Apenas mar, serra, vale e monte

 

 

 

 

 

Poesia ao nascer do dia - Almada Negreiros

por Luis Moreira às 08:00

Ruinas Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.
Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.
Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.
Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um instante - tem mêdo do frio dos subterraneos.
Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.
Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido - cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.
Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar...
Noites de insonia com as galés no mar e a alma nas galés.
Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.
Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.
O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.
Noticias da guerra - choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.
E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1' Tema(s): Ruínas  Ler outros poemas de José Sobral de Almada Negreiros 

Sábado, 11.02.12

Poesia ao nascer do dia - Miguel Torga - Súplica

por Luis Moreira às 08:00

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgad

Sexta-feira, 10.02.12

Poesia ao nascer do dia - Ruy Belo

por Luis Moreira às 08:00

Cadernos de Poesia - O HOMEM DOS SONHOS

 

 Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
um só encontro próprio e justo:
o de José o homem dos sonhos

Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É José o homem dos sonhos

Deus põe  e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser José o homem dos sonhos

Quinta-feira, 09.02.12

O principio e o fim

por Adriano Pacheco às 17:30

Há um caminho para seguir

Num vale que não conheço

Por que estou e por que vou?

Num rio largo que encheu

E nos contornos se perdeu

 

Somos feitos desse caudal

Desse movimento sem fim

Por momentos estancou

E logo tudo se renovou

Porque ficou dentro de mim

 

Há um princípio e um fim

Numa longa caminhada

Mas se o fim nos redime

Há sempre quem se afirme

Por tudo, que reduz a nada

 

Mas é no caminho que tudo

se resume

Onde tudo se devora na chama

do lume

Poesia ao nascer do dia - Sá-Carneiro

por Luis Moreira às 08:00
Como eu não possuo
 Olho em volta de mim. Todos possuem ---
 Um afecto, um sorriso ou um abraço.
 Só para mim as ânsias se diluem
 E não possuo mesmo quando enlaço.
 Roça por mim, em longe, a teoria
 Dos espasmos golfados ruivamente;
 São êxtases da cor que eu fremiria,
 Mas a minhalma pára e não os sente!
 Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
 Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
 Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
 Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
 Forçoso me era antes possuir
 Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
 E eu não logro nunca possuir!...
Castrado de alma e sem saber fixar-me,
 Tarde a tarde na minha dor me afundo...
 Serei um emigrado doutro mundo
 Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
Como eu desejo a que ali vai na rua,
 Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
 Como eu quisera emaranhá-la nua,
 Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...
Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
 Sob o meu corpo arfando transbordada,
 Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
 Se fosse aquele sexo aglutinante...
 De embate ao meu amor todo me ruo,
 E vejo-me em destroço até vencendo:
 É que eu teria só, sentindo e sendo
 Aquilo que estrebucho e não possuo.
Quarta-feira, 08.02.12

Poesia ao nascer do dia - António Botto - À memória de Fernando Pessoa

por Luis Moreira às 08:00
Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
 
António Botto
Poema de Cinza
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999
Terça-feira, 07.02.12

Poesia ao nascer do dia - Vinicius de Morais

por Luis Moreira às 08:00

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
                                                                     [ extático da aurora.


Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

Segunda-feira, 06.02.12

O TOM E O SOM

por Adriano Pacheco às 16:30

Queria dizer uma palavra

Fosse ela apenas um som

Uma palavra que mudasse

o rumo

Nas faldas da serra ou no vale

Apenas um sinal de fumo

 

Podia ser apenas um verso

Que alterasse todo o sentido

Uma sílaba ou um fonema

Parte vibrante do poema

Nem que fosse um latido

 

Se tudo começa no latido

E se fica no puro som

Para que nos serve o tom

Por que busco então o sentido?

 

O tom é o ponto de partida

O som é caminho p’ra saída

 

Poesia ao nascer do dia - Neruda

por Luis Moreira às 08:00

Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.

 

Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem, 
a meu nome que todo afugentam. 
Tantas vezes vimos arder o luzeiro 
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças 
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos. 
Sobre ti minhas palavras choveram carícias. 
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado. 
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos. 
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.

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Domingo, 05.02.12

Poesia ao nascer do dia - Sofia de Mello Breyner Andresen -

por Luis Moreira às 08:00

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sábado, 04.02.12

Poesia ao nascer do dia - Herberto Helder -

por Luis Moreira às 08:00

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.

Herbertohelder
Do Mundo
Assírio & Alvim, 1994

Quinta-feira, 02.02.12

QUE PAÍS É ESTE

por Adriano Pacheco às 16:00

Soltam-se vagas de vento

Em fúria quase errante

Solta-se o mar por dentro

E no pensamento

Brilha uma luz distante

 

Soltam-se ondas alteradas

Trazem espuma de degredo

Trazem brancura doutro sal

E nos sulcos do areal

Soltam algas, escondem medo

 

Nesta faixa verde de luz

Que cheira a algas e a resina

Sopra vento no monte cimeiro

E quando o sal cristaliza

Brilha na água, cresta o pinheiro

 

Qual o país onde isto existe

Cor cinzenta do amanhecer

Num sol dourado

Que se mostra num rosto triste?

 

 

 

 

Poesia ao nascer do dia - Miguel Torga

por Luis Moreira às 08:00

 Á Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

Terça-feira, 31.01.12

Poesia ao nascer do dia - Ary dos Santos

por Luis Moreira às 08:00
Segunda-feira, 30.01.12

Poesia ao nascer do dia - Ary dos Santos

por Luis Moreira às 08:00

 É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

Domingo, 29.01.12

ÁGUA E ESPUMA

por Adriano Pacheco às 18:30

POEMAS PERDIDOS

 

Correm torrentes de água

Num vale que se chama rio

De mágoas elas vão cheias

Nas rochas ficam sereias

Na escuta d’eterno vazio

 

No grande rio ou nas veias

Correm sempre em turbulência

Serenas num lastro vazio

Num vale que se chama rio

Vão fogosas na aparência

 

São águas que enxameiam

Correntes em turbulência

São chamas que incendeiam

Alma cheia de inocência

 

Desta água que me atormenta

Haverá espuma que acrescenta

 

Poesia ao nascer do dia - Sofia de Mello Breyner Andresen -

por Luis Moreira às 08:00

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Quinta-feira, 26.01.12

Poesia ao nascer do dia - Jorge Luis Borges

por Luis Moreira às 08:00

 Nem Sequer Sou Poeira


Não quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manhã
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solidão que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
Já sou entrado em anos. Uma página
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as operações e truques de magia.
Cavaleiros cristãos lá percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solitária.
Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino. Serei sonho.
Nesta casa já velha há uma adarga
Antiga e uma folha de Toledo
E uma lança e os livros verdadeiros
Que ao meu braço prometem a vitória.
Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Tema(s): Sonho 

 

 

 

 

 

 

Quarta-feira, 25.01.12

SENHORA DOS VENDAVAIS V

por Adriano Pacheco às 16:00

No alto dos montes sagrados

Espera-se o pôr do sol

Como logo o amanhecer

Os tempos como os momentos

Tudo assim se encaminha

atrás do sol

Tudo se compraz e se aninha

 

Tudo se afasta e se aconchega

Com harmonia e beleza

Num Deus que dialoga por

momentos

E com a natureza por alguns tempos

 

Se a beleza nos aproxima de Deus

De um Deus tão luminoso

A natureza faz o quadro final

Então onde está o mal

Ser da natureza produto

E de Deus ser um fruto?

 

Poesia ao nascer do dia - Al Berto

por Luis Moreira às 08:00

Euforia

 
cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração
dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca
o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina
a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões
quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al-Berto
Horto de Incêndio
 
Segunda-feira, 23.01.12

Poesia ao nascer do dia - Maria da Graça Varella Cid

por Luis Moreira às 08:00

Corujas nos geraram numa noite imensa

.
               Baionetas consagraram    túmulos    degredos.
               Morcegos presidiram rituais secretos,
               como se f'ossem únicos senhores do tempo.
           
              Mas num momento    simples    limiar tangente
              nasceu outra manhã    encantatória    e    branca :

              a cidade era nova    vigorosa    e    tanta,
              que extravasou seus muros    e chegou aos campos
              onde acordou os homens    duros    que    na sesta
              retemperavam forças    para seus fazeres.

              E     aí    foi que se ouviu    um restolhar de gente
              pois     do frescor da cal    chegaram as crianças
              que atrelaram carroças    a muares    em espanto,
              levando os homens    dentro    e as mulheres à frente.

Maria da Graça Varella Cid
perfeito do indicativo
luz 29 Mar 81
& etc

 
3.2.      
Sexta-feira, 20.01.12

Senhora dos vendavais IV

por Adriano Pacheco às 15:00

Há na sombra dos meus pecados

Dúvidas das minhas certezas

Por que te chamo e te oiço

Por que te falo e me escutas

Se não sei rezar…

Por que me esperas e me perguntas?

 

Vejo-te tão longe e distante

Quando os ventos sopram de feição

Por que te afastas quando me elevo

Por que te aproximas protectora

E depois… me deixas senhora?

 

Não sei as coordenadas do teu

trajecto

Mas sei que em cada rua há

uma esquina

E logo um ângulo cortado

Há uma serra verdadeira, outra

em sentido figurado

 

 

Poesia ao nascer do dia - José Tolentino de Mendonça

por Luis Moreira às 08:00
A casa onde às vezes regresso é tão distante
 
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te 
o coração


José Tolentino Mendonça
A Que Distância Deixaste o Coração
Quinta-feira, 19.01.12

Poesia ao nascer do dia - Casimiro de Brito

por Luis Moreira às 08:00
Do Poema
 
O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas vegetação. Nem
tão- pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -


o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.



Casimiro de Brito
Ode & Ceia
Poesia
1955-1984.
 
Quarta-feira, 18.01.12

Senhora dos Vendavais III

por Adriano Pacheco às 14:34

 

Senhora de mistérios e arrogância

Trazes contigo um segredo

Se é do teu boreal, zéfiro ou noto

Diz por que é que me esperas

E por que me trespassas de medo

 

Há nesse teu contínuo arfar

Um brilho no sentido mágico

Corres lesta com mensagem

Vejo-te sempre em viagem

E afugentas o sinal trágico

 

Levas contigo um segredo

Senhora de todas distâncias

Não sei por que tenho medo

Se em ti tudo são fragrâncias

 

Toda ironia em ti se conjuga

Como se os versos fossem teus

Não sei se és a natureza

Ou se te confundo com Deus

 

 

Poesia ao nascer do dia - António Rramos Rosa

por Luis Moreira às 08:00
Não desisti de habitar a arca azul
 
Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.



António Ramos Rosa
Três - 1975
in Antologia Poética
Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
 
Domingo, 15.01.12

SENHORA DOS VENDAVAIS II

por Adriano Pacheco às 14:00

Não sei dos teus aposentos
Senhora por que sopras tanto?
É a angústia dos teus lamentos
Azedume dos teus ventos
Ou lampejos do teu encanto?
 
Vento, sorte, sina e destino
Amor firme e verdadeiro
Tudo em ti tem o mesmo
fado
Canto soalheiro, sol dourado
Tudo se conjuga no mesmo
tempo
E são rajadas do mesmo vento
 
Senhora por que me esperas
No vale da tua fertilidade
Cruzas-te no meu caminho
Sabendo que sofro sozinho
Doença de eterna saudade

Sexta-feira, 13.01.12

SENHORA DOS VENDAVAIS

por Adriano Pacheco às 15:00

I

De que lado sopram os teus ventos

Donde vêm e para onde vão

Arrastam tudo pelo chão

Não entendem os teus sinais

Quem és senhora dos vendavais?

 

Não conheço os teus ideais

Senhora que te deitas e te

levantas

Que semeias tantas esperanças

Vens lá dum ponto cardial

Percorres montes e montes

Sem nunca deixares sinal

 

Quem és tu senhora dos vales

e das serras

Quem és tu que há tanto tempo

me esperas?

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