Passei décadas num optimismo humanista e numa ascese cristã demasiado nefelibatas e extasiadas, na proximidade palpável de um Cristo Humano e Divino, para aceitar, sem morder ninguém, o inferno em que lentamente mergulha o meu País e com ele, jangada-de-podre, todas aquelas pessoas de quem gosto e mesmo aquelas pelas quais me posso compadecer, não as conhecendo de lado nenhum.
O velho núcleo dos interesses estabelecidos — Media, Banca, Política (com a sua indústria de brochistas dedicados ao marketing da salsicha-que-parece-erecta quando fala), Empresariado Chulante —, amálgama que não tem rigorosamente cor nenhuma, a não ser listras de zebra róseo-laranja-emerdado, fez espesso silêncio, barragem de fumo, enquanto as coisas se degradavam no cerne.
Agora todo esse Zoo de Cevados pelos Orçamentos abriu-se-em-flato num brado de alarme, saltou para as costas de Coelho a clamar pela nudez do rei e a meretrizocracia da rainha, tanto bastou que as coisas más, mas ocultas, do défice, da dívida, da mortiça economia, se declarassem no seu viscoso odor a ultra-Grécia.
O Orçamento parece o derradeiro orgasmo do Regime, recompensa a que se chega numa coreografia extrema sado-parola sobre os pobres, essa gente sebosa para a qual não existe Governo nem Lei. Só fisco. Só lábia. Só saque.
Não sei se tais cabrões passentos, coniventes, aquela tal amálgama de interesses, à Esquerda, à Direita, pelo entre pernas desidiologizado do Regime, não merecem um mandato de captura para internamento compulsivo no hospício mais próximo.
Aliás, sei e digo-o. Está dito. Trata-se de uma multidão de coirões que culmina com o lamentável Primadonna-Sócrates mas não esquece todos os maneirentos passarellistas das últimas décadas.
A Catarse de o pensar e escrever está feita por agora, pelo que agradeço ao Rogério a mudança de púlpito.
Entretanto, angustia-me conceber a magreza da juventude que efectivamente desaprende de se alimentar.
E temo. Temo o meu salário risível, a minha precariedade crónica e a dos demais como eu e as putarias público-privadas, os neo-aeroportos, o de Beja às moscas, TGV, em troca da dignidade miserável e endividada das nossas gentes.
Temo ainda mais perante a ousadia simbólica e prospectiva de a minha filha com dois anos raptar uma revista do Ruca, em pleno Supermercado, reparar que eu o notei, desatar a correr em fuga pela peixaria, chapinando pela gosma húmida de gelo e peixe, correr ainda pelo talho, sob o baque dos cutelos, voltar à direita, para a secção dos pensos higiénicos e das fraldas, correndo, correndo sempre, numa fuga risonha e linda, dobrar à esquerda, na secção dos vinhos...
Alcanço-a. Era a brincar.
E se o futuro for isto, investidas furtivas por pão? A falta de tudo como parede fria, último reduto de esperança aonde ir bater com os cornos?
Perguntarão um dia de quem fora a culpa. Eu, que cuspilhei para cima disto, que insultei isto e me insurgi muito cedo contra o esterco imoral no cerne da decisão e da influência político-económica, não terei tido nem culpa nem o consolo de ter podido evitar o mal.
A culpa, difusa, anónima, mas também concreta nos seus actores pífios, resume-se neste tripé escachado: ignorância popular, mistificação política, extensa sofreguidão da velha putaria beata público-privada.
Joaquim Carlos