Sexta-feira, 14.10.11

Faltava um bocadinho assim!

por autor convidado às 10:51

Ok, eu sei que meia hora é pouco, que o ideal era acoplar um divã à máquina porque o camião não precisa, já traz de origem.
Não pensem em meia hora, que lembra números fracionados e de dividir. Pensem antes em 30 minutos e 30 minutos vai fazer toda a diferença, se não vejamos:
Numa empresa com 2000 trabalhadores, são mil horas a mais e com mil horas a mais já dá para um quadro de pintor mediano para o gabinete do chef, ou juntinho durante um mês, dá para um Mercedes ultimo modelo.
Para pequenos empresários, não deixa de ser também atrativo. 30 minutos multiplicado por uns quantos, já permite mudar o colégio do puto, levar a madame mais uma ou duas vezes ao cabeleireiro, ou em ultima análise ir mais umas quantas vezes às putas.

Fernando Nogueira Gonçalves

Sábado, 10.09.11

Ficou caro, disse ela, mas fica-te bem, disse eu

por autor convidado às 14:24

Estive toda a manhã a trabalhar, desde que comecei, lá por perto das onze da manhã. Até que acabei, uma hora depois. E basta. E depois de almoço, uma soneca. E a seguir escrever um poste. E a seguir enviar o poste para o meu blogue com barriga de aluguer. E vinha para aqui. E cruzei-me com duas miúdas. Uma mais velha que a outra, e reparei melhor. Que as miúdas deram nas vistas. Vinha eu na moto e voltei para trás. E fui confirmar.

(Está um dia lindo como só na minha terra, com um sol radioso e uma brisa ligeira, sem a ventania que os transmontanos para aqui trazem quando de férias em Agosto, e ia ali ao bar junto aos barcos ler o resto do livro do Paulo Castilho, que a história, qual história, já me enjoa, mas agora tenho que acabar, que os únicos livros que deixei por acabar de ler são os Lobo Antunes, e que, em boa verdade, mal os comecei, e o Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez, também, convenhamos, que cem anos é muito tempo).

E que me cruzei com duas miúdas, sendo que umas delas, há bem pouco tempo, a confundiram com a minha mãe, por duas vezes. Uma da primeira vez. E da segunda vez para confirmar, talvez. Mas acontece que é a minha mulher, na sua, e minha, juventude dos cinquentas. Que ali ia com a minha filha. E eu fiquei baralhado. Mas então, afinal, qual é a minha filha e qual é a minha mulher.

(Ficou caro, disse ela, mas fica-te bem, disse eu. Que se lixe o dinheiro, que está bué de bué de fixe. O cabelo está lindo. Igualzinho. Ao teu cabelo. Mas não o rapes muito, mesmo que fiques careca. Eu gosto na mesma).

Quando sair daqui vou voltar de moto, que foi como vim. Devagar. Que foi como vim. Também. Ou não. Logo se vê. Dá-me um abraço… Não quero mais nada… Já me perdi... Estive longe… Estive tão perto. Canta o rádio. Aqui. Ali. Atrás de mim. E que me aperte sem apertar… É nesse abraço que eu descanso. Diz a Paula que é o Miguel Gameiro, e que tem músicas porreiras. E aconselha que eu vá ao youtube. Mas primeiro tenho que pagar a bica, se bem que se eu sair daqui a duzentos e tais à hora. Na moto. Ninguém me apanha. Nem a Paula.

João José Fernandes Simões

Quando se vira o bico ao prego

por autor convidado às 10:20

Sói dizer-se que quando se vira o bico ao prego é que sabemos o que dói. Porque ao longo de uma vida profissional intensa e cheia de muitos episódios tive poder sobre os outros. Mas um dia aquele (meu) poder podia cair-me em cima. E caiu. E aqui se sentem as nossas fragilidades. Não as fragilidades de quem não tem a consciência tranquila. Tendo-a. Mas as de quem fica nas mãos dos outros (poderes). E estavam lá todos.

O juiz presidente. E mais outros dois, um e uma, juízes. Num tribunal colectivo. E um procurador. Este último com pose inquisitória. E este último, ainda, em atitude complexada, porque não julga, antes acusa, antes de mais acusa. Este último, ainda, numa acusação preconceituosa, vezes de mais. E este último, ainda, porque está à direita daqueles e não no centro da decisão. O procurador. Subalternizado.

Todos fazendo lembrar «os tempos do bibe infantil». E também os advogados, deste lado e daquele, ou daquele e deste lado, que nem sempre os da verdade.

E ficamos presos num «infantário» que nos aperta os calos, mesmo quando não os temos, sobretudo quando não os temos. Que não tenho calos, mas que já os senti. Apertados. É que, mesmo quando a consciência está tranquila, se ficamos à mercê dos (outros) poderes até os tomates ficam apertados. Tanto, que quase desaparecem. Por muito que se disfarce. E não me venham com tretas. É que pode ser uma espécie de lotaria. E às vezes é. Mesmo que as coisas acabem bem, só que, entretanto, ficam estragos não reparáveis. Quase sempre.

João José Fernandes Simões

Quinta-feira, 08.09.11

Hoje estou sem paciência para escrever, por isso

por autor convidado às 10:15

Apenas vos conto esta cena. Que merecia ser escrita num blog, se o tivesse, mas acontece que ainda não me apeteceu criar um e tenho quem me ouça, o que basta. Então, é como segue. Adiante.

Fui aos correios enviar um vale. De correio. É que recebi uma carta para pagar uma taxa moderadora, com o aviso de que tenho dez dias para fazer o seu pagamento voluntário, caso contrário, lixo-me.

E diz lá na carta que estou a ser “notificado” mas também diz que estou a ser “informado” o que, convenhamos, são termos que quanto à sua força jurídica não são nada a mesma coisa, nem por lá perto.

E a taxa moderadora para pagar pode ser elevada, muito elevada, precisamente, sem tirar nem pôr, que a quantia de 1.10€. Atenção que são 1.10€ e não 1,10€. O que significa que a diferença entre um ponto e uma vírgula pode fazer a diferença de milhões. E se for de milhões, então, a coisa fica por uma fortuna. Colossal.

Vejam bem que, se não fizer o pagamento voluntário, a coisa a multiplicar «num valor cinco vezes superior» pode ser a minha desgraça. Chiça.

Então, para afastar desgraças, fui enviar o vale. De correio. Aos correios. E o envio do vale custou-me 1,48€. Sim, aqui é mesmo 1,48€ e não 1.48€. O que significa que a taxa moderadora me ficou em 1,10€, atenção, se for com vírgula, mais 1,48€ das despesas de envio. E se àqueles valores somar o tempo perdido na deslocação, o tempo que perdeu o funcionário dos correios, que, por acaso, acho que foi por acaso, era uma funcionária, e que até estava com umas trombas de segunda-feira (Rogério, por favor, não publique isto depois de hoje, ou então tem que ser só na próxima semana, claro, na segunda-feira). Dizia eu.

Que a somar àquela fortuna, ainda há o trabalho que dou a quem me publica estas coisas numa chafarica de um blog, mais o tempo que demorei a chatear o gajo que nunca mais me tem o barco pronto e que tem oficina mesmo ali e que aproveitei para passar por lá. Ao pé dos correios. Onde fui enviar o vale. De correio.

E o hospital, que, neste caso, fica a 50 quilómetros para lá mais 50 para cá, não tem outra forma de pagamento disponível aos utentes, que por coincidência também são os próprios doentes e que podem não poder sair de casa nos próximos dez dias. E a alternativa restante seria enviar um cheque, com a curiosidade de, neste caso, também teria que ir. Aos correios. Mas acontece que eu não uso cheques há mais de 15 anos, porque, porque, porque… E o que têm vocês com isso.

Quando podia demorar segundos a pagar isto pela Internet. Mas o hospital não deve ter Internet em condições. Porque enquanto lá estive, no “Barbeiro de Celas”, a rede, de facto, ia abaixo muitas vezes.

E é assim a minha vida. Hoje não me apeteceu escrever, mas fica o episódio contado. Sempre deu menos trabalho. Ah… E os correios também não têm Multibanco, vá lá saber porquê (por acaso até sei…). Desculpem lá, portanto, o tempo que vos fiz perder.

João José Fernandes Simões

Segunda-feira, 05.09.11

Melros não serão, de certeza absoluta

por autor convidado às 14:29

A reunião foi convocada para o viveiro de aquicultura, por horas do almoço, a um sábado, e pela tarde adentro. Picam o ponto os caciques. Objectivo: definir a estratégia da conquista da câmara. Nem o dono da agência funerária lá faltava, o padre não foi. Conhecia bem o presidente da concelhia, de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. E estava o presidente da distrital (um bom filho da mãe, ia para dizer da puta, mas a mãe não tem culpa) e que não estava de acordo com o presidente da concelhia sobre o candidato a apresentar às eleições para a câmara. O presidente da concelhia queria uma figura política com peso nacional e impunha um seu amigo, acabado de deixar uma vice-presidência no parlamento europeu. O presidente da distrital queria um candidato local, pouco lhe importando se tinha ou não peso nacional.

Achava eu (sendo eu também um bom filho da puta, ainda por cima desconfiado quanto a filhos da mãe) que o presidente da distrital preferia um candidato da sua confiança, mesmo que em prejuízo de um candidato teoricamente mais forte (sim, sim, que estas coisas são muito de teorias, e também de práticas) e que não fosse apenas da confiança do presidente da concelhia. Pois. E disse ao meu amigo de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. Onde é que ia? Ah! Que o presidente da distrital lhe andava a fazer assim a modos que a folha, porque eu sabia de contactos dele com um tipo que andava em manobras para ser o próximo candidato a presidente da concelhia. Não sei se estão ver? Claro! Feito com o presidente da distrital. E avisei que se pusesse a pau. E o candidato da confiança do presidente da distrital até era o meu médico de família, por acaso casado com a mulher daquele, também médica, mas que até podia ser enfermeira. Pois. Mas isto são teorias minhas, que quanto aos factos são mesmo assim.

Acontece que o candidato do presidente da distrital perdeu a câmara, que foi ganha por um filho da puta ainda maior, este sim, da puta e da mãe, vindo de lá de baixo na companhia, putativa, de uma socialite das revistas que a gente lê quando esperamos na sala de espera do dentista, por exemplo, que até podia ser de um ginecologista, não no meu caso que talvez fosse mais apropriado um especialista daqueles que nos enfiam o dedo no cu para medir o tamanho da próstata (lá está esta palavra a dar erro, quando próstata se escreve próstata, mas que coisa!). Pois. E então o tal que andava em manobras, achava eu (e achava bem) contra o meu amigo de pescarias ao fim da tarde no viveiro e de bons almoços regados com vinho, do bom, e de onde saímos um pouco virados, as mais das vezes, virados de todo, mais ele, mas eu também. E já me perdi outra vez! Já sei! Foi derrotado em eleições antecipadas para presidente da concelhia. E lá andei eu com o meu amigo por montes e vales e pelas residências dos presidentes das juntas de freguesia, e por donos de agências funerárias, a arregimentar votos para o meu amigo, assim a modos, então, já conhece aqui fulano (que era eu) e coisa e tal, assim para impressionar, que eu era um tipo importante. Estão a ver? E por conta de quotas pagas de militantes até então à revelia (e que ainda deve ter sido uma boa maquia) lá conseguiu ganhar e manter-se como presidente da concelhia. Mas foi sol de pouca dura, porque só durou alguns meses tanta foi a vilania. Novas eleições, então. E perdeu, finalmente.

Lembrei-me destas vidas passadas, não há muitos anos, porquê? É que por conta de outras desgraças, hoje, ia a passar por de cima da ponte. E olhei para os viveiros que estão em obras há algum tempo. Consta que foram comprados pelos espanhóis e que, em vez de fabricar robalos e douradas, como dantes, vão passar para linha de fabricação de pregado (não estou bem a ver que raio de peixe é, mas acho que é assim parecido com a solha, e se não for, então, passa a ser, pronto, melros não serão, de certeza absoluta). E onde é que eu quero chegar com esta conversa? Pois. Muito simples: É que aqueles viveiros foram comprados à manga, por conta, na altura, de apoios europeus a fundo perdido e com orçamentos inflacionados, para dar para os todo-o-terreno que floresceram nesse tempo, e para dar a mais não sei quem mas que não vou aqui dizer, nem é preciso, mas a mim não foi, juro. E o negócio, porque não tinha escala para se aguentar, foi ao fundo, por conta da concorrência do reles robalo e dourada que são importados dos, também falidos, gregos e que não valem uma merda quando comparados com os que eu ali pescava, e em boa verdade também comia. À borla, bem entendido, e se querem saber, antes que mo perguntem. Pois: O que um gajo tem que escrever para desopilar!

João José Fernandes Simões

Domingo, 04.09.11

Lutos que nem sempre se conseguem fazer (porque se foge deles)

por autor convidado às 21:23

Evito passar por lá, sequer olho para lá. Evito. Porque fujo. De lutos que não fiz, ou que ainda vou ter que fazer. Passo pelo monte e não olho para lá em baixo. Para aquele sítio. Passo lá em frente e viro o olhar. Penso que devo lá ir e fujo desse pensar. Penso se não estou a ser mórbido em pensar nestas “coisas” que me atormentam. Mas não estou. Apenas tenho uma difícil relação com essas “coisas”. E escondo-me. Dentro de mim.

Já pensei em falar com o homem dos mármores. E pedir para mudar a lápide. Que apenas lá fique. Que os amo. Sem palavras escritas, apenas com este pensamento. Que os amo. Mas os pensamentos não se escrevem numa lápide em uma pedra de mármore. E incomodam-me as flores. De plástico. Que lá põem. E incomodam-me as flores que eu lá devia pôr. Mas que não sejam de plástico. Mas eu acho que as flores. Que as flores não servem para isso, nem sequer as de plástico.

Também já pensei em pedir ao homem dos mármores que retire as fotografias da lápide. Porque as fotografias me incomodam. Também me incomodam. As fotografias. Naquela lápide. São os meus espíritos que dançam. Porque olham para mim num olhar que me faz sentir culpas. De culpas que eu sei não ter. E que (eu sei) não me atribuem.  

E me incomoda porque me é difícil entrar naquele quarto. Onde me esforço em não olhar para trás. Eu sei que não me perseguem. Mas esse pressentimento. Persiste. E, por vezes, até estremeço com um barulho qualquer. Como se um dedo pudesse estar, ali, apontado para mim. De noite, então. 

Mas eu sei o que me incomoda. O que me incomoda. É que não consigo fazer lutos. Fujo. É que apesar de ter estado sempre por perto. De até beijar no último leito o corpo frio. Mas o corpo frio já não sente tal ternura. Uma ternura que faltou tantas vezes quando não devia levantar a voz. Quando devia dar beijos num corpo quente. E talvez, então, não sentisse a necessidade de plantar árvores.

João José Fernandes Simões

Sábado, 03.09.11

O meu Jardim

por autor convidado às 20:44

Por falta de paciência para tratar do jardim contratei os serviços de um jardineiro, tarefa que, dizem alguns, ajuda a ter paciência, mas que no meu caso assim não acontece. E a minha mulher tem paciência para isso mas não tem saúde. E eu tenho saúde, por enquanto, mas não tenho paciência. Pedi ao jardineiro para encher o jardim de árvores. De árvores de fruta, e não de palmeiras que apenas parecem bem. De árvores que me lembrem a vida e não de palmeiras, egoístas, que roubam a água e secam o resto.

Uma árvore é pelo meu Pai. Outra pelo meu Irmão. Outra pela minha Mãe. E outra pelo Gigio, que está ali, para onde o levei a passear pela última vez, ao colo e a chorar, que alguém ou algo lhe roubou o andar, e que também é de família. E uma outra árvore que em momentos de maior fraqueza me incomoda e me empurra para uma tristeza que faz doer. E que eu não quero que seja plantada, nunca.

João José Fernandes Simões

Quarta-feira, 31.08.11

Continua, um dia destes (3)

por autor convidado às 11:05

A rigidez implodiu, e implorou que não fossem lá a casa, que ia ser um problema familiar grave, e uma fraqueza é sempre de compreender em certas circunstâncias da vida, afinal, e as partes ficaram recolhidas, amorfas, sem vida. O aposentado, de bancário, estava assustado

O ponto estava programado para a partir das vinte e uma, em zonas mais discretas até menos, quase logo que descia a noite, na cidade, elas iam aparecendo nos lugares do costume, há anos arrendados num aluguer com renda de contrato escrito nas entranhas da intimidade. Elas

Voltaram para trás, prescindiu-se do bilhete de identidade necessário para se identificar nestes imprevistos, não foram lá a casa, o aposentado ficou mais sereno, não por ele, mas por ela, mas levando o sermão de que bem podia satisfazer necessidades num quarto de pensão, seria escusado a vergonha assim passada, enxovalho demais, desnecessário, e o bancário agradecido. Que a mulher

Tomavam conta da rua, satisfaziam apertos de quem carecia, estabelecidas por conta própria ou avençadas a um qualquer chulo, para pagar necessidades, delas e outras as mais das vezes dos vícios do chulo, os filhos na escola, obras em casa, mulheres lindas, algumas, outras, nem por isso, mas todas vendendo a alma, as que ainda a tinham.

A mulher não podia devido a uma doença, argumentou, mas então, tantos quartos por aí, com uma aposentação que deve dar para isso, também para isso, mas enfim, que são fraquezas, tentações, necessidades, e que ainda não tinha internet onde se fazem estas coisas a toda a hora e onde até se fazem filhos gerados em filmes a três dimensões.

João José Fernandes Simões

Terça-feira, 30.08.11

Continua, um dia destes (2)

por autor convidado às 11:05

As serras eram subidas a suar de esforço, aflito, recuperando em íngreme descida, pelo mesmo caminho mas em sentido inverso, em idas e vindas que o levava e trazia em mais de doze horas de viagem, dando apitos nas curvas, onde quase parava e se descia dos estribos, e subia. Umas jovens riam

A viagem era longa e desproporcionada, doze horas, levando apenas três a chegar a um terço da viagem mas daqui demorava o resto do tempo até chegar ao alto, com paragem dormida em bancos de carruagens estacionadas em Campanhã e só depois, pela noite toda, fazendo o rio que fugia e aparecia. E

Eram estagiárias de engenharia florestal, bonitas, elas as três, em início de carreira, havendo por isso que prestar comissão em terras dos confins, lá por Bragança, onde se namorava no castelo com vista para a cidade, até voltarem cá para abaixo se a paixão das serras as não apegasse. Por amores

O rio espreitava nas curvas de soslaio ou fazia companhia lado a lado na itinerância da viagem, dentro do comboio chovia ou fazia sol conforme o tempo, e quando chovia se abria o chapéu para fechar os buracos do tecto da carruagem, e outros cumpriam a tropa com semanas de campo nas serras de Samardã e crosses logo na primeira hora de instrução no circuito onde corriam automóveis, vestindo cuecas compridas para suportar o frio das neves do Marão, e de botas com dois pares de meias altas ao comprimento do joelho. Vindo

Voltou uma delas, pelo menos, por amor a um engenheiro, daqui, que assim se chamava, o engenheiro, e acabou a desmerecer a Alda, engenheira florestal, vindo a passar um mau bocado, muito magra em elegância desfrutada naquele comboio mas agora mais por culpa do divórcio. Uma besta, o engenheiro.

A Coimbra fazer exames a meio da semana, de cadeiras do curso que ficaram atrasadas, estudando por sebentas de empréstimo, já tão riscadas de tanto serem estudadas, até conseguir uma oral, que garantia mais uma escapadela cá abaixo, a juntar às consultas de simuladas dores de dentes, porque se estava tão longe, vindo de volta a Campanhã, à sexta-feira. E depois, outras doze horas.

João José Fernandes Simões

 

Segunda-feira, 29.08.11

Continua, um dia destes (1)

por autor convidado às 11:05

A irrequietude nem na velocidade desvanecia, não uma velocidade elevada e que às vezes resolve, porque a condução suave moderava as ideias que corriam, estas sim, em velocidade imparável. Pensava na forma

O pai esperava com o cinto pelas costas que era como ele achava de melhor dar educação, era assim que entendia como arrumar as ideias do filho já nesse tempo irrequieto. Sempre atrasado

De materializar o que corria sem travão numa mente esmagada por pensamentos de hoje e de ontem, e dos confins do tempo preso na consciência. Custou seis euros e noventa

O comboio vinha nesse tempo quase sempre à tabela e obrigava a uma corrida galgando os carris e saltando para cima do estribo, mesmo a tempo de conseguir chegar à primeira aula. O comboio era

O preço da péne que permite guardar as ideias usando um qualquer computador, desmaterializando a arrumação de pensamentos que se avolumam e que se perdem se não forem logo passados para o papel. Mesmo usando-a

Ainda do tempo dos cowboys, e mesmo com os estribos que permitiam um salto fácil nem sempre conseguia ir à primeira aula, sendo garantido a tareia correctiva com o cinto de pouco mais que meio metro pelas costas abaixo e pela barriga das pernas. Para aprender a levantar cedo.

Algures, ou aqui mesmo, e mesmo que seja num computador que seja de quem for.

João José Fernandes Simões

Sexta-feira, 26.08.11

O Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos

por autor convidado às 14:33

Depois de trocar uns comentários sobre gaivotas e melros no meio do fastio que me começa a dar fazer controlos sobre a gestão dos outros, armado em espécie de bufo de custos operacionais. Chegou a hora de almoço

Na sala continuava a dormitar no sofá (hoje é um dia mau) e percebi que não dava para ir ao Tapas onde ontem num dia que pareceu normal. Comeu um robalo inteiro

Consegui enviar o controlo que me faltava, embora sempre com a ralação da internet sem fios a andar devagar no escritório, no local, preciso, onde devia andar mais rápido. E fui ver

Ontem à noite entusiasmou-se com a pressa de recuperar peso (se vier a recuperar, o que não sei, não) e o chouriço do caldo verde foi pesado para um corpo aleijado e que não ajuda. Nada

Fui tratar do bife, que já estava a adivinhar, porque ficou de reserva, e coisa rápida, grelhado, como eu gosto e só com sal. E fez-se uma canja, e por aí ficou, ela, e voltou. Ao sofá

E eu, na cozinha, acendi a luz para ver na escuridão de um dia que, embora um pouco cinzento, está cheio de luz, aqui junto à janela de onde olho para os arrozais do Mondego. Fui fazer um descafeinado, que isto passa (e vai passar, tem que ser)

(Sendo, entretanto, distraído por um sms no telemóvel, que estava esquecido do lado de lá da casa na sala da frente, estou na cozinha que fica atrás, e me dão a notícia de que o Jumbo-Box faz anos e dá 10% de descontos) mas eu não lhes perguntei nada

(Acho mesmo que um dia vou responder ao desafio de escrever um livro, que só eu leia, e que um amigo meu vai editar, e que ele também vai ler porque é um tipo simpático). Hoje é um dia mau, sem saber se vou continuar a ler, ou a escrever, porque a trabalhar, chega. Por hoje

(A canja fez-me bem). Veio ter comigo, e disse-me. Talvez o dia ainda venha a valer a pena, penso para comigo, só. Levantou-se

João José Fernandes Simões

Quarta-feira, 24.08.11

Sendo assim vou contar o resto da história

por autor convidado às 15:00

É que o cliente do meu amigo advogado tinha apenas dois ou três dentes que eram dele, porque o resto da cartilagem foi um leasing feito a um dentista, sendo este também meu amigo. E uma das armaduras, logo uma de um dos da frente, aquilo andava sempre a desmontar-se. O cliente do meu amigo advogado, e também cliente do meu amigo dentista, vinha lamentar-se, a mim, que queria ir ao Brasil e que não podia comer fruta sem correr o risco de ficar desarmado, mais, é que o pior seria de correr o risco do dente mal encanado se encanar por outras bandas.

Pois ia ao Brasil pela época da fruta ainda mal madura e não queria fazer má figura, ainda por cima que era com tal que melhor ainda a coisa funcionava, que, quanto ao resto, já empancava mais do que se alavancava. Acho eu, que pela idade que ele tinha e sendo eu menos usado cá sei do que já não vou vendo. 

E já agora vos dou conta que foi pelo Brasil que fez fortuna em dono de padarias, lá para as bandas de Santos onde tinha apartamento à beira da praia (também, se é isso que querem saber, este apartamento me foi oferecido, mas nesta já não embarquei), dizia, que fez fortuna, em tempos idos de escravaturas, e que ainda hoje por lá há, e cá, ao que dizem as notícias, como outros assim fizeram, também, nas roças do cacau e do café e que depois por cá apareceram e multiplicaram os ainda escudos por essa altura em fortunas colossais sobretudo na compra de terrenos e em construção em tudo por quanto foi sítio e a avença (municipal) assim dava uns jeitinhos.

O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, era, de facto, um mulherengo incorrigível, com apetência por jovens que a vida fez delas putas ainda em idade de crianças.

Mas acabou com um fim triste (e merecido, embora eu ache que ninguém merece fins tão malvados) bebendo do próprio veneno. Pois um dia com o cio se fez a uma funcionária de uma bomba de gasolina, e de gasóleo, e onde também se deve poder encher os pneus e pôr água no radiador se o ar for preciso e a água já se tiver gasto. E a coisa acabou mal. Tão mal que nunca mais foi visto.

Com a assinatura falseada se vendeu o jipe para onde se vendem jipes assim, com documentos também falseados. E muito dinheiro se levantou em caixas multibanco e em cheques, até que a mulher dele tal estranhou. E foi-se a ver e o cliente do meu amigo advogado e do meu amigo dentista foi apanhado numa rede de bandidos com quem estava feita a tal funcionária. O meu amigo, dizia ele que eu era dele, porque eu, a partir de certa altura, mais queria era vê-lo pelas costas, mas ele não despegava, acabou encontrado a fazer entulho numa barragem. Azar.

João José Fernandes Simões

Terça-feira, 23.08.11

Embora conduzisse como as senhoras

por autor convidado às 15:00

(O Paulo Castilho que espere, embora o livro esteja muito bem escrito mas muito arrumadinho para o meu gosto. É que, primeiro, tenho umas coisas para dizer).

Estamos a falar da mesma treta, ia antes para dizer que estamos a falar da mesma merda, mas não quero ser mal-educado, por isso fico-me pela mesma treta.

(Aquele Eduardo Barroso é um chato com o-meu-querido-seportingue e com o-meu-filho-diz-que-foi-pénalti e o Fernando Seara é assim a modos que muito intelectual a falar de futebol e, pior que isso, enjoa a sua conversa de que não-interessa-não-interessa e também o tenente-coronel-árbitro-comentador que usa um penteado rapado com uma carapinha que só lhe falta os brincos para se parecer com o Cristiano Ronaldo, mas que ponha uns com diamantes que assim tem mais estilo).

É que detesto o politicamente correcto de chamar mentiroso usando eufemismos de inverdades e de não verdades, além de que tais termos não existem, vá lá, concedo que não verdade ainda pudesse ser uma não-verdade. Mas não é coisa nenhuma. É mentira. Ponto.

Mas uma verdade também pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. É que dizia-me um advogado meu amigo que teve que dizer a um seu cliente: olhe, eu acho que me está a mentir, mas, então, vamos construir a verdade em cima da sua mentira.

E tinha razão o meu amigo advogado, porque o seu cliente ganhou a causa e foi buscar mais de dez mil euros pelo salvado de uma viatura acidentada depois de muita guerra com a seguradora. Eu explico, então.

O cliente do meu amigo advogado tinha alguma proximidade comigo, embora eu fugisse dele como o diabo da cruz, mas eu estava com o rabo preso porque tinha caído na asneira de aceitar, em tempos, a estadia numa sua casa de férias. À borla, pois claro. Mas que ele me quis cobrar. (Já explico porquê).

(É que tenho que me concentrar no que estou a querer dizer, mas o Eduardo Barroso continua histérico e a fazer de conta que está a ralhar com o Fernando Seara, se bem que já quase andaram à chapada. Ó Eduardo, ó Eduardo, é melhor começar a retratar-se, é pénalti-é-pénalti-é-pénalti. Estes tipos distraem-me, caramba).

Mas (então, vamos lá) estava eu a explicar que o cliente do meu amigo advogado tinha-me preso pelo rabo, de modos que me pediu que fosse testemunha de um acidente em que foi interveniente. E eu aceitei ser testemunha de abonação, porque, em boa verdade, eu sabia que embora conduzisse como as senhoras o facto é que procurava ser sempre o mais cuidadoso possível, ou tão possível quanto era capacitado.

Mas a casa de férias ficou cara, pois o que ele queria era: sabe, se você aceitasse testemunhar como se viesse comigo e dissesse que eu vinha na minha mão e que o outro é que veio para cima de mim (ou de nós, se eu aceitasse).

Concluindo que fui dispensado de ser testemunha de abonação, porque era de presencial que lhe interessava. Mas eu não me dou bem com uma verdade que pode ser uma mentira, desde que sustentada numa argumentação consistente, ou coerente. E assim fiquei sem casa de férias na Manta Rota. E o que vos conto não é uma não-mentira. É verdade. Foi.

(Vou continuar com Domínio Público, pág. 98, avancemos, capítulo IX, Os nossos indígenas). Indígenas, pois!

João José Fernandes Simões

Domingo, 21.08.11

Ao preço de mixórdia

por autor convidado às 19:08

Olhou para mim com o ombro esquerdo e o pescoço meio torcido para a mesma banda. E confidenciou num sorriso meio irónico que lhe apetecia desopilar. Já nos conhecemos de há mais de vinte anos em lides de prende e solta. Eu prendendo. E ele soltando. E compreendi que o bafio dos processos era um bom argumento para arejar, em jeito de mudar de vida. Vinha acompanhado dos apaniguados, em jornada eleitoral. Em dia, em noite, de conjuntos musicais e de ranchos folclóricos em ritmos de acordeões com músicas e cantares de vira para aqui e de vira para lá.

Em algumas tertúlias ouvia falar de chapeladas com votos que mudam de secção no mesmo dia e à mesma hora e de quotas pagas a propósito, num dom de omnipresença que é de espantar. Mas não ligava muito, estava ali com alguns amigos para conviver e votava em quem me apetecesse. Em boa verdade, confesso, já não votava sequer, porque tinha, e tenho, um certo despeito pelos políticos. Que não pelas suas pessoas, pois não será por tal defeito que se desapegam de algumas virtudes. E alguns, se bem que cada vez mais poucos, são boa gente. E, afinal, há gente boa em todo o lado, e má também.

Mas foi com surpresa que vi em papel de político o magistrado judicial que conheci por terras de outras bandas, só mais tarde sabendo que nascemos no mesmo ano, e na mesma terra. E na mesma maternidade, e, quem sabe se não nos conhecíamos já de tempos mais idos mas que a memória, por muito precoce que possa ser, é de impossível reminiscência. Com surpresa, pois foi. Que o vi. Em papel de político. E com surpresa maior porque foi como independente. Mas. Apenas após ter saído do partido da concorrência umas escassas semanas antes. Coisas que me espantam mas que já não me surpreendem.

E ambos conhecemos um rapaz com carreira na delinquência. Que eu prendia. E ele soltava. E que eu soltaria se fosse ele a ter que o prender. Andaria hoje pela casa dos trintas, não fora um voo mal planeado que o levou a estatelar-se. De um quarto andar. De um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo. Directo lá de cima. Mas sobreviveu àquele voo. Como um gato com sete vidas. E, afinal, ele era um sobrevivente de algumas vidas, que resgatou com fome, tantas vezes ou quase sempre. Uma fome de falta de ter que comer e que satisfazia com a astúcia do saber dos que sabem enganar gananciosos. A vender de tudo, sempre surripiado a alguém, e sempre com a arte de saber enganar os que sabem que o que compram pode ter sido surripiado mas que não deixam de comprar ao preço de mixórdia.

O rapaz que ambos conhecemos sobreviveu àquele voo, de um quarto andar, de um elevador que apenas tinha a porta e um buraco até ao piso térreo, directo lá de cima. Até que um voo mal planeado o levou desta para melhor ou sabe-se lá para aonde. Um voo mal guiado por adentro da veia já sumida. Começou por cheirar e depois por meter. Na veia. Na veia já sumida. Até que se sumiu. Eu gostava daquele rapaz. E o presidente. Da câmara. Hoje desembargador. Também. Quem sabe se, por estas coisas, decidimos ambos mudar de vida.

João José Fernandes Simões

Sábado, 20.08.11

A (minha) irmã lá saberá porquê

por autor convidado às 20:00

(Não sei do meu Fernandinho, devia estar ali ao fundo da cama, mas deve ter pensado que eu não lhe estava a ligar nenhuma. E foi para a outra sala).

E dando voltas à cabeça sobre se devia confidenciar. Já. A conversa que tive hoje com a (minha) irmã de uma irmandade religiosa, uma conversa que valeu mil vezes o pudim esquecido da sobremesa e que só terminou quando percebemos que o pessoal da cantina do hospital precisava de acabar de arrumar a loiça. E nós, os dois, para ali numa conversa sem fim. Sem fim. Porque o fim é sempre o mesmo. É que não consigo encontrar um sentido para a religiosidade que exclua a essência do ser humano, o de ser pessoa na sua materialidade plena. Um sentido que justifique a discriminação da mulher no sacerdócio. Um sentido que exclua o matrimónio no sacerdócio. Um sentido que explique os fundamentalismos religiosos. Entre tantas exclusões que as religiões excluem. Um sentido que justifique a pedofilia (protegida) de demasiados.

A (minha) irmã e eu acabamos a conversa com uma conclusão que foi (para mim) uma inevitável não conclusão. Contei-lhe que, há dias, senti um impulso em entrar naquela capela, mas não o fiz. Que se o fizesse estava a ser fraco, porque estava a recorrer ao (seu) Deus que me acudisse, argumentei que não fazia sentido lembrar-me d’ Ele só quando me vejo no maior aperto da minha vida. Porque nos devemos lembrar todos os dias e não apenas num dia de aflição maior. Mas ela diz-me que devia ter entrado porque o (seu) Deus se lembra e ajuda sempre. Todos. Sem discriminar (não) crentes. Acabámos a conversa dando-lhe dois beijinhos, porque a (minha) irmã os mereceu, mas foi uma conversa inconciliável, ela argumentando com o conceito teológico da vida e eu com a minha incorrigível descrença. Mas ela disse-me que eu tenho um espírito cristão. A (minha) irmã lá saberá porquê. Já eu não consigo saber.

Mas não era da (minha) irmã que eu queria falar, até porque tinha decidido nos próximos tempos dedicar-me a ler o Paulo Castilho e o Leopoldo Brizuela, com 402 páginas prensadas no Domínio Público e 731 em Lisboa. Um Melodrama. E. Também. Acho. Que ando a falar de mais e acabo a ser aborrecido, e, pior que isso, a não dizer nada. Mas ao fim de poucos minutos de leitura fico preso no facto de «no geral o Fernandinho prefere permanecer deitado na minha cama. Mas hoje resolveu andar atrás de mim, passo a passo, sala a sala (…) e fiz um gesto mais largo com o braço e assustei o Fernandinho, que recuou num movimento brusco. Devem ter-se passado coisas sinistras no canil antes de eu o trazer para casa, porque decorrido um ano continua a ter medo de tudo e às vezes põe-se a tremer sem razão nenhuma».

Então percebi o motivo de um dos meus Fernandinhos tremer todo quando o quero ter dentro de casa. Dos três que adoptei é o único que treme quando lhe faço festas. É o único que se encolhe todo quando lhe faço festas. É o único que se assusta comigo quando lhe faço festas. E como ele gosta que eu lhe faça festas. E então percebi que hoje o dia valeu bem a pena. Porque tive uma conversa que valeu mil o vezes o pudim esquecido da sobremesa. Porque percebi a razão de ser do meu Fernandinho tremer todo. Porque dei um beijinho à Joana que tem 23 anos e me parte do coração, de um coração de um não crente que também treme. E que também chora, com uma alma que a (minha) irmã diz que eu tenho. Mas uma alma que eu não encontro. Ou quem sabe se a encontro de vez em quando. Ou então que talvez seja ela a vir ter comigo.

(A Joana que tem 23 anos e me parte o coração foi para casa, mas volta na quarta-feira para uma consulta, com a bolsa cheia de remédios. Que não curam. Apenas. Fazem não doer).

João José Fernandes Simões

Quarta-feira, 17.08.11

Falam português baixinho e francês em alta vozearia

por autor convidado às 23:49

Hoje vi-o a nascer, a oeste, a romper daquele monte, em quase fim de gravidez, para uma lua cheia, imensa, barriguda, que, quando passar em frente ao meu janelão, despido, com a portada aberta, já estarei a dormir, espero, mas não estou seguro que assim seja; Quando o vi nascer estava a vir da foz, do Mondego, e o Sol da Noite despontava, numa gravidez em quase parto, e eu aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) vindo de um jantar, sozinho, e em que tive que esperar por mesa quase uma hora por conta dos àvéques que falam português baixinho e francês em alta vozearia; E lembrei-me; De, há tempos, ter ido ao Porto levar a minha madrinha, que ia apanhar o avião para Bruxelas, e quase ter que encostar o carro tal a selvajaria de lata que me invadia da esquerda e da direita, por cima e por baixo; Como hoje, enquanto esperei quase uma hora por mesa livre para jantar (e eu aflito, não por culpa da próstata, mas da ansiedade) de tal forma que foi um alívio quando entrei no meu quintal; E despejei o que me afligia, deixando de estar aflito (não por culpa da próstata, mas da ansiedade) numa intimidade apenas partilhada pelos meus cinco cães, que, de tão contentes de me ver, nem se apercebiam que (eu) lhes chovia em cima; E, hoje, vou dormir, mas talvez ainda acordado, à espera do Sol da Noite, que se atrasa cerca de três quartos de hora por dia; E também não percebo a razão de próstata dar erro ortográfico se próstata se escreve próstata. E um dia destes vou falar da Joana, que tem 23 anos…

João José Fernandes Simões

Terça-feira, 16.08.11

Assim me apareceu o coronel

por autor convidado às 11:09

Só lhe faltando o boné. De calção e t-shirt e com sapatinho sem meia, estava eu com a minha gerente de conta, e então o coronel, ó comandante. Olhe lá

Bem que você (que sou eu) podia ter agradecido à senhora por lhe ter resolvido o problema, é que nem uma palavra e isso não lhe ficou bem. E

A gerente que me atendia ficou assim-a-modos-que-não-sei-como quanto ao que é que este tipo (que sou eu) terá feito ao coronel. Mas fisgando-me

Um sorriso meio irónico de quem bem conhecia aquele e não sendo normal uma tal intromissão. Inusitada

Na discrição que se é devida no atendimento do Caixa Azul. Deixei a gerente pendurada. E fui ter

Ó senhor coronel. É. Pois. Sabe. Eu. Tenho andado. E assim e assado

Pois é, mas não lhe ficou bem, podia ter (pelo menos…) telefonado à senhora a agradecer, porque se empenhou a resolver o seu problema. Mas

O coronel (pelos vistos…) não percebeu que eu não tenho feitio para pagar favores. Como. Ou ao jeito. Que ele tem (terá…). Mas talvez ainda lhe vá oferecer

Um boné. 

João José Fernandes Simões

Sábado, 13.08.11

O inspector e as duas disquetes

por autor convidado às 20:00

Para aí há uns seis anos, estava, como estou agora, a ocupar o tempo em conversa com o meu computador, estando a meio caminho entre Lisboa e Nova Iorque, sentado na secretária, aliás, na cadeira da secretária, do gabinete que me tinham dispensado para as tarefas que são a um Inspector acometidas.

Estava a meio da primeira das duas semanas em que por ali andei a fazer estrago e reparei na minha agenda que, naquele dia, terminava o prazo para pagar a electricidade ou o telefone ou outro calote qualquer, daqueles de que não nos livramos todos os meses, se bem que no caso da electricidade, agora, pode ser de dois em dois, e que, já na altura, eu pagava através do caixadirecta.cgd.pt.

Os blogs ainda não se tinham massificado, pelo menos, de tal eu nunca tinha ouvido falar, por isso lia os jornais e espreitava algumas páginas da Internet, sempre com aquele meu feitio metódico, tudo bem organizado com atalhos, para ir directo a quem gostava de ler, alguns ainda sobrevivendo hoje nos mesmos jornais como comentadores e que me ficaram como referências de leitura obrigatória.

Por ali, as coisas até estavam muito bem quanto a equipamento informático, graças à carolice de um estudante de engenharia, que fazia autênticos milagres à época, que até a ordem de serviço já ia, como se fosse hoje, no comboio da Vodafone ou no kanguru da Optimus, sem necessidade de tal serviço se fazer por conta de resmas de papel transportadas em motociclo, e que melhor uso este servia para o serviço de vigilância.

E habituado a recolher a informação para os relatórios, tendo apurado, com a experiência, a criação de matrizes onde condensava a informação que mais tarde analisava já na capital, foi com surpresa que me entregaram duas disquetes, quando este suporte era ainda de uso corrente, já que hoje os portáteis já destas prescindiram, tal a vulgarização das penes amovíveis com capacidade para armazenar informação superior à do disco rígido do meu primeiro computador.

Que um dia deixei cair e que me deixou saudades pela suavidade do seu teclado, quase sensual, tal o prazer que ambos sentíamos em que nos amaciar, era um Toshiba cinzento, com meio giga de disco.

E a minha surpresa, quanto ao motivo de duas disquetes para uns escassos caracteres que cabiam em duas folhas A4, quando me foi respondido que era por não caber apenas numa folha, se tornou deliciosa e gratificante.

Porque aquele profissional quis resolver um problema e, de facto, seria muito aborrecido se, por falta de uma disquete para a segunda folha, a informação de que necessitava viesse incompleta.

(Escrito no Funchal em 5 de Outubro de 2007 e publicado às 01:44)

 João José Fernandes Simões

O diário de uma mentira: Sobre o aumento do IVA…ou sobre a mentira na Política

por autor convidado às 17:46

30 de Maio de 2011- Estávamos na última semana das «tendas de campanha» eleitoral, para me socorrer das palavras do Nobel Elias Canneti. Pedro Passos Coelho, então futuro Primeiro-ministro de Portugal, lançava mais um importante trunfo: «o PSD e eu próprio não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA (…) nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, e não aumentando ou agravando as taxas de imposto». Passos Coelho falava da sua promessa numa acção de campanha em Valença do Minho.

12 de Agosto de 2011- Pela manhã, os portugueses são surpreendidos com o aumento do IVA do gás e da electricidade em 17 pontos percentuais. Com o Primeiro-ministro de férias, a «boa nova» é avançada pelo (colossal) Ministro das Finanças. Escusando-se a avançar de que forma o Executivo irá proceder aos cortes na despesa, Vítor Gaspar confirmou, acreditamos que inconscientemente, uma velha máxima da acção política: a mentira e o segredo estão estreitamente vinculados à própria essência da arte de governar. De facto, razão tinha Hannah Arendt quando afirmou, no célebre artigo intitulado «Verdade e Política» (1967), «que nunca ninguém teve dúvidas que a verdade e a política estão em bastantes más relações». Quando a mentira organizada domina a res publica, a verdade tem, com efeito, ténues possibilidades de resistir ao assalto do poder. 

Hélder Prior

Sexta-feira, 12.08.11

Na metáfora de outros penduricalhos

por autor convidado às 10:10

Acabo de encontrar um procurador-geral adjunto que está em comissão de serviço por terras do Dão e do Porto

A levantar dinheiro numa caixa multibanco

Aqui

A passar férias na terra dele e que também é a minha vindo eu directamente do Barbeiro de Celas onde não se usa tesoura nem navalha porque o cabelo se trata de cair

E me ponho a escrever coisas que pretensiosamente pretendo que ironias sejam

Pois andei todo o dia ensimesmado de que os políticos me andam a gamar tendendo que a abusar

A avença dos próximos quatro meses vai ser para pagar o iérreésse mas o meu desatino nem tem que ver bem com a avença dos próximos quatro meses que vai ser para pagar o iérreésse

Mas antes com actos de misericórdia que me incomodam e em que o usufrutuário vai ser um gato com sete vidas já mil vezes dado como morto mas que sobrevive como que sendo imortal

Um ícone da política no paradigma de menino guerreiro

Que umas vezes usa o cabelo por cima da gola da camisa e outras aparado em pose assim a modos que mais de estado e porventura

Não usando dois relógios

Um em cada pulso ao estilo pedrograngé de quem este já viu naquele o seu ídolo talvez porque tais acessórios já lhe tenham feito uso na metáfora de outros penduricalhos

A confirmar-se o que por aí li hoje

Pois bem que podia no jogo da sorte e do azar ter mais sorte a santacasa que um penduricalho

Mas há sempre um lado positivo em tudo na vida e se calhar também na morte

Não sei

Pois talvez possa voltar a ver a têvêivinteequatro com a constançacunhaesá sempre a tremer em companhia do medeirosferreira e dum tipo do blocodeesquerda

Sendo que deste último agora não me lembro da sua graça mas também não interessa porque estar lá este ou outro qualquer sempre irá dar no mesmo

E o outro

Que se atrase a pôr o boletim do totoloto e deixe de aparecer na companhia daqueles

Espero.

João José Fernandes Simões

Quarta-feira, 10.08.11

O Sol da Noite

por autor convidado às 14:37

Levantei-me e fui confirmar, e sim, estás em quarto crescente. E fui confirmar, mas agora na néte, e sim, estás em quarto crescente quase desde o início do mês.

Estava na dúvida, porque, ontem, por esta hora, inundavas o meu quarto atravessando a cortina, e um vidro nu, com a portada aberta. Para me fazeres companhia. Mas hoje não te via e começava a sentir que me tinhas deixado. Sozinho.

Mas eis que desces ao meu encontro, e pareces um sol. De tal forma o Sol te inunda dos lados onde ainda é dia.

E por aqui, onde a noite ainda não trouxe o sono, te vejo engordar. Barriguda. Num crescendo que irá parir, dentro de dias. O Sol da Noite.

Vou esperar para Te abraçar, na falta de outro abraço. E então vou abrir os braços para Te prender, e Te apertar. Bem juntinha a mim.

João José Fernandes Simões

Terça-feira, 09.08.11

Os espíritos dançam

por autor convidado às 16:26

Num bailio desordenado, em voos picados, rasantes. E logo se contorcem na vertical. Quando seria normal que se estatelassem no chão. Mas não. Desafiam a gravidade. Nunca aterram. Nunca param. Desafiam a máquina do tempo. Indo e vindo. Num único instante.

E fazem ruídos esquisitos. E batem com gestos surdos. Mas fazem barulhos estrondosos. E não nos damos conta de onde estão. Apenas os ouvimos num linguajar estranho. Que se confunde com zumbidos. Batem do lado de fora. Mas estão cá dentro. Que até nos assustam.

E olham para nós, nunca de frente, sempre de soslaio. Num olhar de esguelha, fugidio. Até parece que nos gozam. Nunca dão a cara. Ou. São isso mesmo. Não se querem mostrar. Ou não têm rosto. Apesar de nos olharem. E de se rirem de nós.

Já pensei em avençar um exorcista, mas fica caro. E os baratos são uns charlatães, uns bruxos de vão de escada, que nos dão tanga, daqueles que põem anúncios em revistas e mesmo em jornais, e alguns até patrocinam programas na rádio renascença.

Uns brincalhões, os espíritos que dançam. O melhor é usar a táctica de se não os vencemos então juntamo-nos a eles. Dançando com os espíritos, pisando-lhe os calos, não lhes dando descanso. E depois. Que vão à vida deles. Os cobardes. Pensam que têm piada.

João José Fernandes Simões

Segunda-feira, 08.08.11

«Jobs for the boys»

por autor convidado às 14:34

Desde que entrou em funções, o Governo liderado por Pedro Passos Coelho já efectuo 447 nomeações para a «nova» orgânica do executivo. Entre ministérios e secretarias de Estado foram nomeadas 73 «personalidades com ligações partidárias», ou, dito de outro modo, 73 boys ligados à coligação PSD-CDS. Os dados estão no site oficial do próprio Governo e foram revelados pelo DN de domingo. Ora, todos nos lembramos que durante a campanha eleitoral, uma campanha vincadamente marcada pelos sound bites dos spin doctors do PS e do PSD, Passos Coelho prometeu não substituir os boys socialistas por boys «laranja». Mais, depois de eleito, alguma comunicação social, com destaque para o diário i de 11 de Julho, escreveu que o Governo estaria a fazer um levantamento exaustivo das nomeações efectuadas nos últimos anos pelos governos de José Sócrates. Contudo, parece que a «nova» orgânica do executivo cede perante velhos hábitos. A força (krathos) dos partidos políticos, ou o funcionamento da partidocracia, permite que altos cargos da hierarquia do Estado sejam ocupados por «boys» partidários sem qualquer pudor ou critério de transparência. Se o escândalo Face oculta e, especificamente, o negócio PT/TVI, acabou por tornar pública a promiscuidade existente entre o público, no sentido de «estatal», e o privado, quod ad singulorum utilitatem, e entre as empresas participadas pelo Estado, caso da PT, e os boys partidários estrategicamente colocados pelo partido do Governo nessas empresas, o mandato de Passos Coelho parece querer dar continuidade à proliferação de jobs for the boys. Resta saber se estas nomeações vão ao encontro da «promoção do mérito no acesso aos cargos» ou da «despartidarização do aparelho do Estado», como consta no programa do Executivo. Por agora, ao olhar para o vencimento da Adjunta do Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional (3.183,63 euros), fico com a sensação que mais valia não se poupar no ar condicionado no Ministério de Assunção Cristas!

Hélder Prior

Em % do pibe

por autor convidado às 10:41

As ineficiências geradas por redundâncias que resultam da má organização de processos de trabalho têm significado económico. Não sou eu que o digo, mas sim um professor de uma universidade americana e que se deu ao trabalho de perder tempo com isto. Não me perguntem quem é, que eu não sei, mas sei que é verdade. Porque li algures. E se está algures, então, só pode ser verdade. E se o tal tipo, sendo professor universitário, perdeu tempo com isto é porque tem relevância.

Lembrei-me de falar disto por duas razões, sendo a primeira porque me apeteceu. E, não sendo a primeira razão mas sendo a mais importante, porque preciso de arejar as ideias com coisas tontas. E nada melhor para falar de redundâncias que perdido no mato dum centro comercial, no meio do ruído de pratos e talheres mas que funciona como o silêncio de uma biblioteca. Num exercício de abstracção.

Sendo certo que eu seria mais simpático se desse o lugar a tantos turistas de refeições requentadas a cinco euros que por aqui andam à procura de mesa. E eu aqui armado em tonto. A escrever sobre redundâncias. Enfim, quando acabar de escrever isto, acho que vou levar com as sobras de uma sopa da pedra. E vou comer em pé, porque a mesa vai à vida.

Mas existe uma terceira razão para falar de redundâncias. É que quero demonstrar que é verdade o que concluiu aquele académico de que não me lembro do nome mas que é verdade porque li algures. A prova disso é que há dias bojardei com uma administradora que tem. Acho que tinha porque vai deixar de ter. O péssimo hábito de quando se lembra de limpar a memória da caixa de correio electrónico se pôr a perguntar se este e aquele. E aqueloutro assunto já está resolvido. Mas como não lê os mails dos mais recentes para os mais antigos acaba a fazer-me perder tempo a gerir assuntos as mais das vezes já entretanto resolvidos.

Em dia de pouca paciência respondi-lhe que tal assunto já estava resolvido, há séculos. Ao que me retorquiu que eu estava a ser inconveniente, mesmo muito inconveniente. E como quando me falta a paciência não sou de merdas nem tenho por hábito ver quem está à frente respondi-lhe que não, não estou, você é que acha que estou. Sendo verdade que enchi o saco de andar a abrir mails para o boneco sobre assuntos já resolvidos. Encaixou. E acho que percebeu que a melhor forma de ler o jornal é começar pela última página.

João José Fernandes Simões

Sábado, 06.08.11

Na érretêpêum

por autor convidado às 20:36

Um tipo canta que a sua vida é cantar e que assim se sente feliz. E que adora o seu país. E a Isabel Figueiras com o João Baião. A fazerem de coro. Oferecem prémios. Está lá também um presidente de não sei de quê. Que diz que tem aproveitado ao máximo os fundos europeus. Em passeios pedonais. Onde se pode andar quilómetros. E está também um comandante. Um comandante fardado com uma boina à pára-quedista. Num eufemismo de farda. Onde se põem muitas medalhas em dias de comemorações. Mas que, afinal, é dos bombeiros. E também da protecção civil. E o presidente não usa gravata. Veste informalmente. Mostrando o pescoço até ao externo. Assim à moda do Paulo Portas em dia de encerramento do congresso.

E um casal conversa aqui ao meu lado. Num eufemismo de vida. Discutiam. Há duas horas atrás. Logo no início da visita. Bem alto. Que se é para não atenderes o telemóvel, então, não apareças aqui, faz a tua vida, já tive para ficar com as coisas que me trazes e mandar-te embora, porque assim não te quero cá, podes deixar-me, e fazer a tua vida. A senhora pedia surdamente. Fala mais baixo, que é que tu queres, eu tenho o meu emprego. Mas eu já te tenho ligado quando não estás no emprego, uma, duas, três vezes, e tu não atendes. E Ele. Que julgo ser o marido. Estava nervosíssimo. E a senhora controlava-se. Usando um disfarce para as lágrimas.

Na érretêpêum. Volta o cantor. E canta. Quem é o Pai da Criança. O verdadeiro serviço público. E que justifica como é muito bem empregue a taxa de audiovisual que me debitam na factura da êdêpê todos os meses, sem que eu perceba o que tem a electricidade a ver com tal taxa. A não ser, porventura, que tenha sido uma ideia luminosa de um qualquer governante, que, em tempos, se lembrou de financiar os ordenados da Judite, apesar desta se ter baldado para os lados do seu querido Seabra, a fugir da prometida privatização. Embora me pareça que vai ser, antes, uma putativa privatização, com prazo dilatório ate à próxima abertura da época de caça ao voto.

Entretanto. Hoje. Passei a ter estatuto de visita de referência. Tendo, na investidura, que jurar não estar. Mas sobretudo de não vir a estar. Portador de uma simples constipação. Nem sequer de poder dar um espirro. E se não cumprir fico impedido de desempenhar tal cargo na sua plenitude. Por isso. Hoje. Não saí daqui. Está a cair uma humidade que encharca sem que nos apercebamos. A não ser quando a roupa se cola às costas. E que, a não haver cuidado no devido resguardo, até molha tolos. Optando por uma sandes e uma sopa no bar do Menos Um.

Subi. E aquele casal namora. Agora. Já sem discutir. A senhora com as lágrimas. Agora. De reserva. E Ele. Que julgo ser o marido. Mais calmo. Vão-se embora para o quarto. E Ele pega no aparelho a que anda acoplado. Com um ferro que se desloca em quatro rodas. Como se fosse numa procissão de velas. De onde se dependuram líquidos. Cuidado que tem que se retirar da ficha da parede. O aparelho anda ligado à electricidade. Também financiando as despesas da érretêpêum. Ficando feliz. Porque. Na intimidade. Possível. Do quarto. Espero que Ele esteja mais calmo. Continuando acoplado ao tal aparelho. De novo ligado à ficha da parede. E sabendo, entretanto, que o tal presidente é da câmara. Do município de Santo Tirso.

João José Fernandes Simões

Sexta-feira, 05.08.11

Sétimo Céu

por autor convidado às 12:09

Em momentos de tristeza e de solidão. E de angústia. Racionalizo emoções. Ou tento. Escrevendo do menos um. E tendo, ali pertinho, o elevador que me transporta ao Sétimo Céu.

E coisas do quotidiano com que nos deparamos. Ou que vêm ao nosso encontro. Podem ser. São. O argumento para dissimular o que nos faz sofrer. E a vida também tem sorrisos. Tem de ter.

Os rojões à portuguesa estavam bem cozinhados. E a empregada também. Ao que parece. Pelo olhar guloso de um cliente. Que eu vi como lhe comia as curvas. Que, embora bem anafadas para o meu gosto, bem que apeteciam.

Comi que nem um alarve. Num almoço rápido e sem conversa. Até que fiquei preso num doce da casa. Que é igual a todas as casas. Mas, sei lá porquê, em todo lado, dizem ser o doce da casa. Mas igual a todas as casas.

Mas aquele doce da casa. Saboroso. Quebrou a minha pressa. Uma pressa que nunca percebi à procura de quê. Se, afinal, há tempo para tudo. Até para sofrer. Fazendo de conta que estamos felizes. E podemos estar felizes. Mesmo sofrendo. Por contraditório que possa parecer.

E ali estava. Em fim de almoço. Um careca camuflado. Com um risco de cento e oitenta graus. De norte a sul. Ou de sul a norte. Conforme esteja de costas ou de frente para o Sol. A fazer uma tangente à orelha. Dissimulando uma careca. Num penteado de raízes. Cujas pontas resistem no coiro. Cabeludo. Mas sem cabelo.

Aquele penteado. Preso à conta de um amaciador. Ou de um cola cabelos. É uma coisa absurda. Porque que nunca percebi qual o problema de ser careca.

Estou a suar. Está quente aqui. Abafado. No menos um. Vou subir ao Sétimo Céu. Com vistas sobre uma Coimbra linda. Lá no alto. Vou namorar. A um canto do número dezasseis. Bem juntinho a Ela. Entre carecas.

João José Fernandes Simões

Sexta-feira, 29.07.11

A Certeza da Dúvida

por autor convidado às 19:02

Acabei de almoçar no Nora, ali ao virar da esquina. Comida mais ou menos requentada e do tipo enfarta brutos. Com fome só fica quem não tenha vontade de comer ou que tenha juízo e se preocupe com uma alimentação mais saudável, que não é seguramente do tipo de encher a panela do estômago ficando a tampa com as formosuras a lembrar um pneu com baixa pressão.

Ontem foi colocada nos HUC após uma passagem pelos Covões, que foi um interposto por mera formalidade administrativa. Como se por razões administrativas um paciente tenha que andar em bolandas. A enjoar aos tombos dentro de uma ambulância, para entrar num hospital de onde logo a seguir vai sair. Para ir para onde devia ter ido directamente, já que era para lá o destino.

Embora aquela formalidade me pareça que pode ter sido por uma boa causa, porque a médica filha do major quis que viesse para os HUC onde o Bicho parece ter um Inimigo maior. Vamos ver se é capaz de o derrotar.

Mas vá que as coisas até correram bem, após o médico, nos Covões, a ter confundido com a minha mãe. Ironias que, embora mórbidas, nos põem a sorrir. De desalento. E de desconforto para o médico. Que me pediu mil desculpas, pois a confusão só pode ter sido por culpa dos óculos a pedir nova armadura, porque as lentes mais graduadas, de que se justificou estar precisado, exigem suporte mais robusto.

Tomei um café, ali por detrás dos elevadores, após andar perdido no meio de tosses, de máscaras nas bocas para aparar cuspidelas do tipo fralda para os cães não evacuarem no passeio. E de braços e pernas com dedicatórias nos gessos.

E passei por uma capela. Ali, já nem si bem onde, se no rés-do-chão ou no primeiro andar. Hesitei. Dei um passo e espreitei. Não se rezava missa, porque sem padre não há missa e o padre não o vi por lá. E senti as dúvidas que sublimam sentimentos de culpa.

Eu, um tipo de tantas certezas, e, afinal, com tantas dúvidas. Que bom que seria acreditar num deus que nos salve. Mas por muito que procure não o encontro onde tantas vezes parece estar ausente. Uma ausência impossível. Porque apenas pode existir ausência onde também haja presença.

Mas acho que um dia destes vou lá parar. Naquela capela. Para rezar a um deus que tenho cá dentro. Um deus de acreditar na ciência e na capacidade de tantos homens e mulheres que árdua e dedicadamente mantém a vida que lhes foge por entre as mãos.

Simpático, o médico dos óculos. No interposto dos Covões. Com os óculos a precisar de saldo na conta, que eu bem sei que são caros. Enquanto escrevo à janela. Algures no segundo andar dos HUC, com vista para o Nora. E a dois passos do quarto onde Ela dorme. No entorpecimento do soro de onde destila a vida. E eu aqui. Escrevendo. Ou talvez rezando.

João José Fernandes Simões

Nota: coube ao João José retomar as coloborações "itálicas". Aqui está explicada a ideia e o termo. 

Terça-feira, 02.11.10

Limpar os pés antes de entrar

por autor convidado às 12:36

A blogger mdsol (a viver aqui), comentadora habitual em vários blogs que costumo frequentar, deixou, aqui há dias, o seguinte comentário no Aspirina B (posteriormente promovido a post de pleno direito):

Os blogs são como uma praça de cidade pequena: onde todos se podem encontrar e onde todos se podem evitar. Há os gregários militantes (...); há os gregários soltos (...); há os institucionais (...); há os que (...) são mais desalinhados (...); há os errantes e sonhadores (...). E há, como em todas as praças, os loucos, fundamentais para a manutenção da sanidade mental dos restantes.

A comparação é bonita, lírica. E também demagógica, errada e fonte da maioria dos problemas dos blogs e foruns portugueses (nos estrangeiros, vê-se muito menos).

Por muito que eu gostasse de concordar — e juro que gostava que funcionasse assim — não posso; essa é uma lição árdua que vem do tempo em que a comunicação era feita em bulletin boards, acedidos através de um modem 14.4 externo, importado da Suíça, que dava esticões de cada vez que tinha que mexer nos fios presos com fita cola (que o encaixe telefónico era diferente, e o meu eu de 15 anos não tinha máquina de soldar e muito menos pistola de cola quente). As mais das vezes, o BBS era de um particular e não de uma empresa, e tudo o que por lá se encontrava (normalmente, documentação técnica, uma vez por outra uma imagem muito fraquinha de gajas em bikini) era fruto do esforço dessa pessoa e de dois ou três carolas que ajudavam à festa.

Nesse tempo não havia dúvidas: o BBS tinha um dono, bem definido, e ponto final. Podíamos ficar de fora de uma BBS por uma razão tão simples como termos humilhado o dono da linha no torneio de Heretic que se jogava nas aulas de Tecnologias de Informação. Chegávamos a casa à noite, e nada de ligação. Não havia cá essa conversa do "estão-me a censurar". Pois estão. Isto não é um espaço público, pá.

Como tal, cara mdsol, isto não é como a praça duma cidade pequena; quando muito, seria como os pátios que se vêm nos bairros históricos de Lisboa: tem dono e o dono pode ser mais tolerante, ou não. Se vais para lá dizer que o dono é um bêbado, cheira mal da boca e tem as unhas dos pés grandes, na melhor das hipóteses não voltas a lá entrar. Na pior, levas dois milhos na corneta (e não voltas a lá entrar).

Eu poderia ter uma regra no meu blog de "proibida a permanência a pessoas que digam olaré". É uma regra arbitrária? É. Estúpida? Também. Válida? Concerteza. O espaço é meu, faço dele o que entender. Quem quiser entrar, tem mais é que cumprir as regras. Presentes e futuras, por mais estapafúrdias que possam ser. Quando jogávamos futebol na rua, não passava pela cabeça de ninguém falar mal do puto que era dono da bola.

Em Portugal, talvez fruto da ditadura que nos governou durante uma porrada de anos, há muito essa tendência de gritar "CENSURA" (normalmente acompanhado de "FASCISTA") de cada vez que desaparece um comentário num blog ou uma posta num fórum. E que o Criador tenha dó da alma do blogger que decida banir permanentemente um comentador, como esta que o Maradona não compreende (e se não compreende, é porque não é tão bom como eu pensava que fosse). É uma cena cultural, só pode. A mim, que nasci depois do 25 de Abril, e que não conheço outra coisa que não seja a liberdade, faz-me confusão que a minha liberdade de blogger seja posta em causa pela liberdade do palerma que vem dizer disparates para o meu blog.

Por acaso, nunca censurei nenhum comentário, mas como é um blog de cariz fortemente técnico e pouco dado a discussões, não chega à vintena de comentários - no entanto, e durante os anos em que fui moderador do fórum do euromilhoes.com, também devo ter censurado duas ou três postas, no máximo, e penso que nunca bani ninguém. Pode-se dizer que a minha tolerância a disparates é bastante alta, o que também leva à minha política de aprovação de comentários: qualquer pessoa registada pode deixar um comentário, que será censurado a posteriori, se for caso disso; alguns blogues têm a política contrária, os comentários ficam em fila de aprovação, o que consiste numa censura a priori. Isso permite-lhes aprovar comentários de anónimos, mas sobre o anonimato falarei noutro dia.

Bloggers e comentadores portugueses, metam uma coisa na cabeça depressinha: um blog é como a casa de uma pessoa ou, nalguns casos, de um colectivo. Há lá quem mande. Eventualmente, se o blog estiver alojado numa plataforma, como o Blogs do SAPO, o Wordpress.com ou o Blogger, os gestores da plataforma poderão impor algumas regras genéricas, como temas xenófobos, pornografia, etc. Aí, o blog continua a ser como uma casa, mas que tem de obedecer às regras do condomínio. No entanto, isso não confere mais nenhum direito aos comentadores, senão aqueles dados pelo "dono da casa". Se não gostam do que lá se diz, discutam com elevação e educação. Se não conseguem, vão arrotar postas de pescada para outro lado ou passem adiante.

Sobre o estranho espaço dos blogs (e, embora não se fale disso, dos fóruns) e do direito de resposta (o que implica a censura e os impedimentos de acesso), ler aqui e aqui o presidente do conselho regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o Prof. Dr. Azeredo Lopes.

Marco Amado

Segunda-feira, 25.10.10

Beata putaria em jangada podre

por autor convidado às 10:01

Passei décadas num optimismo humanista e numa ascese cristã demasiado nefelibatas e extasiadas, na proximidade palpável de um Cristo Humano e Divino, para aceitar, sem morder ninguém, o inferno em que lentamente mergulha o meu País e com ele, jangada-de-podre, todas aquelas pessoas de quem gosto e mesmo aquelas pelas quais me posso compadecer, não as conhecendo de lado nenhum.

O velho núcleo dos interesses estabelecidos — Media, Banca, Política (com a sua indústria de brochistas dedicados ao marketing da salsicha-que-parece-erecta quando fala), Empresariado Chulante —,  amálgama que não tem rigorosamente cor nenhuma, a não ser listras de zebra róseo-laranja-emerdado, fez espesso silêncio, barragem de fumo, enquanto as coisas se degradavam no cerne.

Agora todo esse Zoo de Cevados pelos Orçamentos abriu-se-em-flato num brado de alarme, saltou para as costas de Coelho a clamar pela nudez do rei e a meretrizocracia da rainha, tanto bastou que as coisas más, mas ocultas, do défice, da dívida, da mortiça economia, se declarassem no seu viscoso odor a ultra-Grécia.

O Orçamento parece o derradeiro orgasmo do Regime, recompensa a que se chega numa coreografia extrema sado-parola sobre os pobres, essa gente sebosa para a qual não existe Governo nem Lei. Só fisco. Só lábia. Só saque.

Não sei se tais cabrões passentos, coniventes, aquela tal amálgama de interesses, à Esquerda, à Direita, pelo entre pernas desidiologizado do Regime, não merecem um mandato de captura para internamento compulsivo no hospício mais próximo.

Aliás, sei e digo-o. Está dito. Trata-se de uma multidão de coirões que culmina com o lamentável Primadonna-Sócrates mas não esquece todos os maneirentos passarellistas das últimas décadas.

A Catarse de o pensar e escrever está feita por agora, pelo que agradeço ao Rogério a mudança de púlpito.

Entretanto, angustia-me conceber a magreza da juventude que efectivamente desaprende de se alimentar.

E temo. Temo o meu salário risível, a minha precariedade crónica e a dos demais como eu e as putarias público-privadas, os neo-aeroportos, o de Beja às moscas, TGV, em troca da dignidade miserável e endividada das nossas gentes.

Temo ainda mais perante a ousadia simbólica e prospectiva de a minha filha com dois anos raptar uma revista do Ruca, em pleno Supermercado, reparar que eu o notei, desatar a correr em fuga pela peixaria, chapinando pela gosma húmida de gelo e peixe, correr ainda pelo talho, sob o baque dos cutelos, voltar à direita, para a secção dos pensos higiénicos e das fraldas, correndo, correndo sempre, numa fuga risonha e linda, dobrar à esquerda, na secção dos vinhos...

Alcanço-a. Era a brincar.

E se o futuro for isto, investidas furtivas por pão? A falta de tudo como parede fria, último reduto de esperança aonde ir bater com os cornos?

Perguntarão um dia de quem fora a culpa. Eu, que cuspilhei para cima disto, que insultei isto e me insurgi muito cedo contra o esterco imoral no cerne da decisão e da influência político-económica, não terei tido nem culpa nem o consolo de ter podido evitar o mal.

A culpa, difusa, anónima, mas também concreta nos seus actores pífios, resume-se neste tripé escachado: ignorância popular, mistificação política, extensa sofreguidão da velha putaria beata público-privada.

Joaquim Carlos

Não vou ajudar a limpar o lixo

por autor convidado às 10:00

Existe por ai quem adore etiquetas e, pior ainda, adore auto-etiquetar-se. Um camarada de Esquerda, um fulano de Direita, um gajo de Centro. Depois existem a adaptações: centro-esquerda, centro-direita, extrema-direita, extrema-esquerda, faneca, sardinha, cherne e afins.

Não sou de nenhuma dessas posições, mas sou de todas elas. Ao contrário dos ferrenhos adeptos futebolístico-partidários, de todo o lado se podem tirar boas ideias, como em todo o lado se podem encontrar más ideias.

Por aqui, blogosfera portuguesa, o sentido é ainda mais clubístico. Em vez da sã troca de ideias, temos troca de insultos entre claques. Que o fulano tal disse aquilo e é um grande filho-da-mãe, que o camarada defendeu aquilo e é um grande filho-do-pai. Talvez se contem pelos dedos de uma mão os blogues de onde se podem tirar umas ideias e fazer uma discussão saudável.

Claro, depois também há os "Daniéis", que, no seu espírito participativo e cívico, conseguem ser censurados na Direita e na Esquerda. Certo, Rogério?!

Uma coisa é certa: o mundo dá muitas voltas. A blogosfera e a politica também. Um dia, os de cima cairão do cavalo. Teremos um grande 31 armado, pois o lixo vai ser imenso e eu não estou, nem estarei, disponível para ajudar na limpeza.

Daniel Santos

 

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