

Este relata de como passei, e passo, parte da vida agarrado a um passado que vivi e a um futuro que sonho ter, apercebendo-me, apenas quando racionalizo, que o meu presente foi o tal futuro idealizado aqui há atrasado. Felizmente, e embora ande constantemente, não à beira de um ataque de nervos, mas em pleno ataque de nervos, posso considerar-me um homem, não de projectos realizados, mas de presentes feitos de futuros sonhados. Este futuro há já uns anos que está comigo, a meu lado, todos os dias. Digamos que o meu presente e o meu futuro vivem numa perfeita e razoável harmonia - apenas razoável porque ainda não consegui realizar o projecto de viver seis meses em Porto de Galinhas e o resto do tempo aqui pelas berças.
O busílis é mesmo o passado com o qual eu não me consigo conciliar. Não consigo conformar-me com a travessia do tempo, com aquilo que ele vai apagando para nunca mais deixar voltar.
O problema, significava, o verdadeiro problema, tem a ver com os “sentires”, com o imenso espaço aberto que era a vida, espaço que, quer se queira quer não, e por mais que se reme contra essa maré, se vai estreitando, afunilando. Tudo de acordo com as nossas próprias escolhas, os caminhos que esse nosso ser passado decidiu trilhar e nos levou, e condicionou, a ser aquilo que somos hoje.
Uma das grandes diferenças é essa, como um caminho que se vai trilhando, em que as estradas se vão fechando à medida que as vamos caminhando. “No hay camino, el camino se hace al andar”, sem dúvida, mas esqueceu-se António Machado, melhor, nem vinha a propósito, de dizer que o caminho andado se vai fechando. A diferença, dizia, reside precisamente no número de estradas que já trilhámos e que se fecharam a futuros alternativos. E isso condiciona, por certo, a forma de sentir o tal passado.
Quando entramos na idade adulta, já aprendemos, de uma forma ou de outra, com maiores ou menores penas, a lidar com a morte. Ainda há tempos olhava os meus avôs maternos e avó paterna, ainda vivos, e dava graças por os ter comigo. Porém, a verdade é muito mais dura que isso, as pessoas que eles foram, que ajudaram, para o bem e para o mal, a construir aquele que sou hoje, já não estão comigo. Nem eu estou com eles. Ambos envelhecemos. Essa é a realidade. O que eu dava, o que eu pagava, para voltar a passar uma tarde de férias grandes, do verão de 74 ou 75, com a minha avó materna.
Para isso teríamos de entrar naqueles caminhos que já se fecharam, a minha avó e eu, ambos tínhamos de recuar, pelo menos, 30 anos. Hoje, quando olho para eles, para ela, muito particularmente para ela, a minha avó, para além do olhar, do sorriso, que continua a ser o mais bonito que eu alguma vez vi, sem contar com o do meu filhote, vejo uma memória dolorosa de tempos passados. Dolorosa porque, e era aqui que eu queria chegar, por causa dos tais caminhos que se fecham, das pessoas que se renovam em si mesmo, morrendo continuamente, saudade é dor. Fado. Uma dor não lancinante, uma dor demarcada do seu próprio conceito, mas sempre uma dor.
Gostava de conseguir viver em paz com o meu passado. Infelizmente, e sem que isso seja agrura tremenda e insuportável, parece-me demanda impossível.