Quarta-feira, 02.05.12

DEMOCRACIA E LIBERDADE – 38 ANOS DEPOIS [António Chinita]

por autor convidado às 17:33

Em geral, celebra-se uma Efeméride na ausência do Momento. Serve para trocar um Valor ético-cultural que deveria ser vivido quotidianamente, por uma celebração da sua ausência. É um ritual.

Assim acontece com ‘o Dia da Mulher’ – em que se ‘relembra’ a igualdade de género depois de, consecutivamente a sociedade tolerar 365 dias de salários desiguais nas exemplares ‘empresas privadas’; o trabalho doméstico desigual depois do emprego; o conceito jurídico de ‘cabeça de casal’ a par da Constituição, a hombridade viril casada com o ‘recato’ feminino moralizador.

Assim acontece com o 1º de Maio – em que a sociedade festeja a ‘integração’ das classes trabalhadoras no mito da ‘igualdade’ cidadã, depois de tolerar sucessivos 365 dias de exploração económica (isso agora tem outro nome: “competitividade das empresas”), de desigualdade nas relações laborais (isso agora tem outro nome: “racionalidade empresarial”), de supressão de direitos e garantias (isso agora tem outro nome: “viabilidade das empresas”).

Assim acontece, também – e ‘naturalmente’ – com o 25 de Abril – em que o ‘corpo nacional’ (abramos assim os braços, para caber toda a gente…) celebra ‘a Democracia’ e ‘a Liberdade’ depois de se atolar, durante 36 anos, em parlamentarismo formal,

em puro roubo do direito à sua voz (já que a ‘delegação de voz’ num Partido resulta num ‘cheque-em-branco’ para os ‘nossos representantes’ fazerem o que lhes der na real gana durante 4 anos sem terem o seu mandato cassado por despudoradamente trairem os Programas políticos pelos quais os diversos estratos sociais os elegem…),

e alienação numa pseudo-igualdade consumista (já que, embora com uma amplitude do leque salarial de 1 a 15 salários mínimos, somos todos ‘iguais’ se tivermos Cartão-de-Crédito…)  - e quem é que se quer reconhecer numa tradicional classe menorizada?   

Todos falam em Democracia – mas qual democracia?

- É que, seguramente, a de 75 não é a mesma de 77. A democracia de uns não é, seguramente, a democracia de outros – e já nem essa verdade simples somos capazes de admitir!...

Quanto à ‘democracia-com-todos’ – essa, é pura falácia; um Conto Fantástico para embalar bebés.

Que Liberdade se convida a celebrar no 25 de Abril? Tão-só a ‘saída pela Direita-baixa’ do grupo dirigente da Ditadura, que nos ofereceu as Forças Armadas – mas só depois de se sentirem abandonadas e mal-amadas pelas cabeças políticas da Ditadura Fascista. Foi o ‘fantasma’ de Goa que as assustou – e a percepção que já dormiam com ele na Guiné, e que haveriam a breve trecho de dormir com ele em Moçambique…

Azeda Provocação [Catarina Gavinhos]

por autor convidado às 11:24

É Injusto, muito injusto, insultar uma população cada vez mais pobre!!
Quase todos os portugueses ganham menos, muito menos do que 50 euros por dia e ontem um supermercado resolveu oferecer no mínimo esse valor em compras. E os portugueses foram às compras, no primeiro de Maio, porque podiam comprar fraldas, leite, detergentes, e tudo o resto a 50%, não me parece que mereçam insultos.
Não foram comprar gadgets a 50%, foram comprar mercearia a 50%. Gaspar e companhia devem estar a rejubilar com esta manifestação de empobrecimento do país.
O 1º de Maio merecia melhor sorte, é verdade, mas a nossa liberdade não é um valor absoluto. 
Já o soberbo Soares dos Santos, esse sim, é inqualificável. E numa atitude provocatória a todos os trabalhadores e em particular os seus, das duas uma: ou cometeu um crime económico e vendeu produtos abaixo do preço de produção ou então está sempre a lucrar demasiado com os portugueses que compram os seus produtos, pois pode dar-se ao luxo de vender os seus produtos a 50%. O que ele fez diz tudo sobre a criatura que desperta o pior que há me mim:

Catarina Gavinhos 

Terça-feira, 15.11.11

Convite - Casa de Trás - o Montes e Alto Douro de Lisboa

por Luis Moreira às 14:00

Segunda-feira, 08.08.11

«Jobs for the boys»

por autor convidado às 14:34

Desde que entrou em funções, o Governo liderado por Pedro Passos Coelho já efectuo 447 nomeações para a «nova» orgânica do executivo. Entre ministérios e secretarias de Estado foram nomeadas 73 «personalidades com ligações partidárias», ou, dito de outro modo, 73 boys ligados à coligação PSD-CDS. Os dados estão no site oficial do próprio Governo e foram revelados pelo DN de domingo. Ora, todos nos lembramos que durante a campanha eleitoral, uma campanha vincadamente marcada pelos sound bites dos spin doctors do PS e do PSD, Passos Coelho prometeu não substituir os boys socialistas por boys «laranja». Mais, depois de eleito, alguma comunicação social, com destaque para o diário i de 11 de Julho, escreveu que o Governo estaria a fazer um levantamento exaustivo das nomeações efectuadas nos últimos anos pelos governos de José Sócrates. Contudo, parece que a «nova» orgânica do executivo cede perante velhos hábitos. A força (krathos) dos partidos políticos, ou o funcionamento da partidocracia, permite que altos cargos da hierarquia do Estado sejam ocupados por «boys» partidários sem qualquer pudor ou critério de transparência. Se o escândalo Face oculta e, especificamente, o negócio PT/TVI, acabou por tornar pública a promiscuidade existente entre o público, no sentido de «estatal», e o privado, quod ad singulorum utilitatem, e entre as empresas participadas pelo Estado, caso da PT, e os boys partidários estrategicamente colocados pelo partido do Governo nessas empresas, o mandato de Passos Coelho parece querer dar continuidade à proliferação de jobs for the boys. Resta saber se estas nomeações vão ao encontro da «promoção do mérito no acesso aos cargos» ou da «despartidarização do aparelho do Estado», como consta no programa do Executivo. Por agora, ao olhar para o vencimento da Adjunta do Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional (3.183,63 euros), fico com a sensação que mais valia não se poupar no ar condicionado no Ministério de Assunção Cristas!

Hélder Prior

Em % do pibe

por autor convidado às 10:41

As ineficiências geradas por redundâncias que resultam da má organização de processos de trabalho têm significado económico. Não sou eu que o digo, mas sim um professor de uma universidade americana e que se deu ao trabalho de perder tempo com isto. Não me perguntem quem é, que eu não sei, mas sei que é verdade. Porque li algures. E se está algures, então, só pode ser verdade. E se o tal tipo, sendo professor universitário, perdeu tempo com isto é porque tem relevância.

Lembrei-me de falar disto por duas razões, sendo a primeira porque me apeteceu. E, não sendo a primeira razão mas sendo a mais importante, porque preciso de arejar as ideias com coisas tontas. E nada melhor para falar de redundâncias que perdido no mato dum centro comercial, no meio do ruído de pratos e talheres mas que funciona como o silêncio de uma biblioteca. Num exercício de abstracção.

Sendo certo que eu seria mais simpático se desse o lugar a tantos turistas de refeições requentadas a cinco euros que por aqui andam à procura de mesa. E eu aqui armado em tonto. A escrever sobre redundâncias. Enfim, quando acabar de escrever isto, acho que vou levar com as sobras de uma sopa da pedra. E vou comer em pé, porque a mesa vai à vida.

Mas existe uma terceira razão para falar de redundâncias. É que quero demonstrar que é verdade o que concluiu aquele académico de que não me lembro do nome mas que é verdade porque li algures. A prova disso é que há dias bojardei com uma administradora que tem. Acho que tinha porque vai deixar de ter. O péssimo hábito de quando se lembra de limpar a memória da caixa de correio electrónico se pôr a perguntar se este e aquele. E aqueloutro assunto já está resolvido. Mas como não lê os mails dos mais recentes para os mais antigos acaba a fazer-me perder tempo a gerir assuntos as mais das vezes já entretanto resolvidos.

Em dia de pouca paciência respondi-lhe que tal assunto já estava resolvido, há séculos. Ao que me retorquiu que eu estava a ser inconveniente, mesmo muito inconveniente. E como quando me falta a paciência não sou de merdas nem tenho por hábito ver quem está à frente respondi-lhe que não, não estou, você é que acha que estou. Sendo verdade que enchi o saco de andar a abrir mails para o boneco sobre assuntos já resolvidos. Encaixou. E acho que percebeu que a melhor forma de ler o jornal é começar pela última página.

João José Fernandes Simões

Sábado, 06.08.11

Na érretêpêum

por autor convidado às 20:36

Um tipo canta que a sua vida é cantar e que assim se sente feliz. E que adora o seu país. E a Isabel Figueiras com o João Baião. A fazerem de coro. Oferecem prémios. Está lá também um presidente de não sei de quê. Que diz que tem aproveitado ao máximo os fundos europeus. Em passeios pedonais. Onde se pode andar quilómetros. E está também um comandante. Um comandante fardado com uma boina à pára-quedista. Num eufemismo de farda. Onde se põem muitas medalhas em dias de comemorações. Mas que, afinal, é dos bombeiros. E também da protecção civil. E o presidente não usa gravata. Veste informalmente. Mostrando o pescoço até ao externo. Assim à moda do Paulo Portas em dia de encerramento do congresso.

E um casal conversa aqui ao meu lado. Num eufemismo de vida. Discutiam. Há duas horas atrás. Logo no início da visita. Bem alto. Que se é para não atenderes o telemóvel, então, não apareças aqui, faz a tua vida, já tive para ficar com as coisas que me trazes e mandar-te embora, porque assim não te quero cá, podes deixar-me, e fazer a tua vida. A senhora pedia surdamente. Fala mais baixo, que é que tu queres, eu tenho o meu emprego. Mas eu já te tenho ligado quando não estás no emprego, uma, duas, três vezes, e tu não atendes. E Ele. Que julgo ser o marido. Estava nervosíssimo. E a senhora controlava-se. Usando um disfarce para as lágrimas.

Na érretêpêum. Volta o cantor. E canta. Quem é o Pai da Criança. O verdadeiro serviço público. E que justifica como é muito bem empregue a taxa de audiovisual que me debitam na factura da êdêpê todos os meses, sem que eu perceba o que tem a electricidade a ver com tal taxa. A não ser, porventura, que tenha sido uma ideia luminosa de um qualquer governante, que, em tempos, se lembrou de financiar os ordenados da Judite, apesar desta se ter baldado para os lados do seu querido Seabra, a fugir da prometida privatização. Embora me pareça que vai ser, antes, uma putativa privatização, com prazo dilatório ate à próxima abertura da época de caça ao voto.

Entretanto. Hoje. Passei a ter estatuto de visita de referência. Tendo, na investidura, que jurar não estar. Mas sobretudo de não vir a estar. Portador de uma simples constipação. Nem sequer de poder dar um espirro. E se não cumprir fico impedido de desempenhar tal cargo na sua plenitude. Por isso. Hoje. Não saí daqui. Está a cair uma humidade que encharca sem que nos apercebamos. A não ser quando a roupa se cola às costas. E que, a não haver cuidado no devido resguardo, até molha tolos. Optando por uma sandes e uma sopa no bar do Menos Um.

Subi. E aquele casal namora. Agora. Já sem discutir. A senhora com as lágrimas. Agora. De reserva. E Ele. Que julgo ser o marido. Mais calmo. Vão-se embora para o quarto. E Ele pega no aparelho a que anda acoplado. Com um ferro que se desloca em quatro rodas. Como se fosse numa procissão de velas. De onde se dependuram líquidos. Cuidado que tem que se retirar da ficha da parede. O aparelho anda ligado à electricidade. Também financiando as despesas da érretêpêum. Ficando feliz. Porque. Na intimidade. Possível. Do quarto. Espero que Ele esteja mais calmo. Continuando acoplado ao tal aparelho. De novo ligado à ficha da parede. E sabendo, entretanto, que o tal presidente é da câmara. Do município de Santo Tirso.

João José Fernandes Simões

Sexta-feira, 05.08.11

Sétimo Céu

por autor convidado às 12:09

Em momentos de tristeza e de solidão. E de angústia. Racionalizo emoções. Ou tento. Escrevendo do menos um. E tendo, ali pertinho, o elevador que me transporta ao Sétimo Céu.

E coisas do quotidiano com que nos deparamos. Ou que vêm ao nosso encontro. Podem ser. São. O argumento para dissimular o que nos faz sofrer. E a vida também tem sorrisos. Tem de ter.

Os rojões à portuguesa estavam bem cozinhados. E a empregada também. Ao que parece. Pelo olhar guloso de um cliente. Que eu vi como lhe comia as curvas. Que, embora bem anafadas para o meu gosto, bem que apeteciam.

Comi que nem um alarve. Num almoço rápido e sem conversa. Até que fiquei preso num doce da casa. Que é igual a todas as casas. Mas, sei lá porquê, em todo lado, dizem ser o doce da casa. Mas igual a todas as casas.

Mas aquele doce da casa. Saboroso. Quebrou a minha pressa. Uma pressa que nunca percebi à procura de quê. Se, afinal, há tempo para tudo. Até para sofrer. Fazendo de conta que estamos felizes. E podemos estar felizes. Mesmo sofrendo. Por contraditório que possa parecer.

E ali estava. Em fim de almoço. Um careca camuflado. Com um risco de cento e oitenta graus. De norte a sul. Ou de sul a norte. Conforme esteja de costas ou de frente para o Sol. A fazer uma tangente à orelha. Dissimulando uma careca. Num penteado de raízes. Cujas pontas resistem no coiro. Cabeludo. Mas sem cabelo.

Aquele penteado. Preso à conta de um amaciador. Ou de um cola cabelos. É uma coisa absurda. Porque que nunca percebi qual o problema de ser careca.

Estou a suar. Está quente aqui. Abafado. No menos um. Vou subir ao Sétimo Céu. Com vistas sobre uma Coimbra linda. Lá no alto. Vou namorar. A um canto do número dezasseis. Bem juntinho a Ela. Entre carecas.

João José Fernandes Simões

Segunda-feira, 27.09.10

Todos os nomes

por autor convidado às 21:54

Neste fim-de-semana fui a um casamento (e não há nada melhor que um casamento - ou as bebidas alcoólicas que por lá se servem gratuitamente - para desatar um bloqueio de escrita) de um amigo, companheiro de muitas aventuras durante os loucos anos do ensino superior.
No final da noite (ou ao início do dia, visto que já eram quatro da manhã), depois dos últimos copos e estórias, dei por mim a pensar numa historieta que tinha no principal papel, precisamente, o recém-casado...
Decorria o UEFA Euro 2000, e tínhamos improvisado um lounge no nosso apartamento de estudantes para assistir aos jogos, com sofá, uma televisão de tamanho razoável e cerveja sempre fresquinha. Muita cerveja. Nessa altura morávamos quatro lá em casa: eu e mais dois que já lá estávamos há uns anos, e um rapaz cabo-verdiano há cerca de duas semanas. O nosso amigo agora recém-casado não morava connosco, era do prédio ao lado, mas passava lá a vida. Era assim uma espécie de Kramer (quem se lembra do Seinfeld?) que comia as nossas batatas fritas, jogava nos nossos computadores e usava a nossa retrete. Um prato.
Adiante... Estávamos já nos descontos de um Roménia x Portugal, empatado a zero. Luís Figo prepara-se para bater um livre, faz um compasso de espera enquanto outro jogador português corre devagar para a área. O nosso amigo, exasperado, grita “anda, preto do carago!”. Olhámos para ele em pânico, mas sem tempo para o admoestar: Figo cobra o livre, esse tal jogador salta e cabeceia para o fundo das redes. Golo de Portugal, Francisco da Costa, também conhecido por Costinha, o Ministro.
Depois dos saltos, dos chapadões nas costas e mais uma ronda de cervejas, lá lhe chamámos a atenção, “então, pá?”, “tu és louco?”, “‘tá o cabo-verdiano lá dentro, caraças!”. “E então, eu não sou racista”. E não era, de todo, facto que eu poderia atestar com várias situações que não vêm ao caso.
Como é que certos nomes ganham dimensão depreciativa? Preto, chinês, marroquino, cigano. Conheço uma ou duas pessoas a quem os amigos chamam “preto” e que o são, de facto. Trabalhei com uma marroquina a quem chamávamos, carinhosamente, “marroquina”. Estudei alguns anos com um tipo cigano a quem chamávamos “ganet” sem qualquer malícia (e por quem nos envolvemos certa vez ao milho com um tipo que lhe deu um pontapé no meio da avenida, sem qualquer razão).
Os “nomes” são aquilo que as pessoas querem que sejam. É incomodativo ao início? Talvez seja. Mas sei que estas pessoas de quem falei nunca tiveram problemas com quem lhes chamava daquela forma, sabendo que essa forma de tratamento seria mais um reconhecimento da amizade ou companheirismo, do que um insulto. E um insulto dos piores.
Um gajo corta a rotunda, “oh boi, calhou-te a carta no Cérelac?”, e responde ele, “vai lamber sabão, oh palhaço”; o mesmo gajo corta a rotunda, “oh preto, pareces uma avozinha”, o tipo pára o carro em derrapagem, sai, deixa a porta aberta, e encaminha-se a passos largos para o desbocado.
Porquê a desproporcionalidade na resposta? Sim, sou preto. Sim, tenho pressa. Sim, não devia ter cortado a rotunda. Mas agora vou-te rebentar as beiças porque me chamaste por aquilo que eu sou. E dou de barato o pormenor da avozinha. Vá-se lá perceber. O tipo que vai levar na trombeta ainda há-de ter um genro preto, ou ser casado com uma preta, ou trabalhar com uma carrada de pretos, com zero problemas até este dia. E escrevi “pretos” umas poucas de vezes neste parágrafo propositadamente. Preto, preto, preto. Quando os “brancos” (pergunto eu, em Portugal, com toda a nossa história colonial e de mistura racial, quem é que pode atestar que é mesmo, mesmo branquinho em toda a sua linhagem?) deixarem de usar estes termos duma forma depreciativa, os pretos, os ciganos e os marroquinos vão deixar de se importar. Afinal, é só uma palavra.
Como os processos de pensamento são retorcidos, estava a escrever isto a pensar na minha filha.
Assim que o CPMS foi aprovado, decidimos conversar com ela a propósito disso, não fosse ela apanhar algum colega este ano com dois pais, ou duas mães (doutro casamento, ou duma adopção individual, ou o que seja - bem sei que ainda temos a completa aberração dos casais do mesmo sexo não poderem adoptar). “Sabes filha, podes vir a ter um coleguinha com duas mães ou com dois pais”, “Com dois pais?”, e ri-se. “Sim, filha, com dois pais”. “Está bem”. Isto foi fácil de mais. “Não vês nenhum problema?”, “Não, o Pedro não tem pais nem mães e a Teresa só tem uma mãe e uma tia”. Pois é.
Ainda assim, alguns dias depois decidimos voltar à carga, junto a uma amiga nossa que é lésbica. “Vês, filha, por acaso a Joana não namora, mas se namorasse, tinha uma namorada”. Pergunta ela à nossa amiga “Não gostas dos meninos?”, “Não, gosto de outras meninas”. “Eu também não gosto dos meninos, dão-me pontapés por baixo da mesa ao almoço”. Ah, a inocência da infância.
É esta inocência que a sociedade faz questão de extirpar das nossas crianças. Se o fizesse abrindo-lhes os pequenos olhos para a multiplicidade de condições, não só sexuais, como culturais, religiosas, étnicas, sociais e financeiras, estaríamos a prestar um excelente serviço às gerações futuras. Mas não, somos burros que nem umas portas: não fales, que são Jeovás; não fales que são ciganos; não fales que são paneleiros.
Filha, fala com eles, que são preconceituosos. Talvez tu possas furar a carapaça.

P.S.: Como é lógico, todos os nomes são fictícios; ou então, não. Mas é o mais provável.
P.P.S.: Um dos meus maiores amigos durante a infância e adolescência era preto. Mestiço, vá. A vida atirou-nos para caminhos separados, mas acho que continua a ser preto. E que continua a ser um tipo porreiro.

Marco Amado

Sexta-feira, 10.09.10

A propósito de Sita Valles

por autor convidado às 15:20

José Manuel Fernandes escreveu um artigo no Público [sobre uma pessoa que eu conheci vagamente há muitos anos atrás e que recentemente foi objecto de um livro/biografia]: Sita Valles.

Agora descrita como uma rapariga “bonita” e até “sedutora”, dela me lembro apenas, nesses anos intensos, ainda sob a ditadura, em que várias linhas de tempo pareciam acontecer em simultâneo, da rapariga morena com um ar franzino, normalmente vestida em tons beije, as costas levemente arqueadas e ar determinado, cuja voz estridente era presença marcante nas assembleias de estudantes.

Como muitos ou todos nós, Sita era uma fanática, ou intervinha como tal nas reuniões. Eu, fanático com outra leitura da época em que vivíamos, não a suportava.

Depois do 25 de Abril estranhei o desaparecimento súbito daquela que era uma das estrelas da facção dos estudantes mais próxima do PC. Como soube pouco depois, o seu fanatismo e coerência, os seus tomates, levaram-na a Angola. Chegaram depois as notícias de que tinha sido morta no chamado “golpe do Nito Alves”.

Ter-se-á tratado duma situação “matar ou morrer”, mas infelizmente não sabemos, se calhar nunca o saberemos, como é que as coisas realmente se passaram.

Ninguém sabe bem a verdadeira história das relações entre as potências comunistas de então, URSS e China e as várias facções lutando pelo poder em Angola e o papel do PC nesta história. Ninguém, quero dizer, ninguém que esteja em condições ou tenha interesse e possibilidade de o investigar e documentar. Para quem se dedicava à política, mesmo julgando-se “de esquerda”, Angola era ( e provavelmente é) um local muito perigoso.

O que eu sei é que apesar de não sentir qualquer espécie de simpatia pela Sita Valles (amigos meus dizem-me que ela se portou impecavelmente quando após o fecho da associação do Técnico pela polícia e preso o Presidente da Associação, nos foram disponibilizadas as infra-estruturas da Associação de Medicina para o prosseguimento da luta estudantil), fiquei chocado quando soube do seu destino, e a forma bárbara como foi torturada e executada. Saber que resistiu, que enfrentou a morte com coragem, dá-me, não sei porquê, conforto, independentemente de saber se ela estava certa ou errada no conflito em que pereceu, admitindo que havia alguma racionalidade no que se passou.

Ninguém sabe quem seria a Sita Valles hoje em dia se tivesse sobrevivido.

Teria voltado a Portugal desiludida e hoje seria uma médica de sucesso com ou sem ideias políticas na órbita da Zita Seabra e outros neocons pró-bushistas?

Teria ficado em Angola e integrado a nomenklatura cleptocrata que dirige aquele País sendo hoje uma respeitável investidora?

Muitas outras hipóteses são viáveis, sendo que de muitas delas faria inevitavelmente parte uma sua reavaliação crítica do seu papel, das suas ideias de então.

Poucas pessoas na minha geração o não terão feito ao longo da vida, mais do que uma vez, eventualmente chegando a conclusões diferentes de cada vez, algumas delas pouco abonatórias.

Quando quizermos estudar os processos que geram os jovens fanáticos e extremistas, e isso é tarefa sem dúvida essencial, tempos um amplo campo de estudo: nós, à saciedade. Basta olharmos para dentro, não precisamos de sujar a memória dos mortos.

Por essa e outras razões, acho desonesto que pessoas que partilhavam, à época, do mesmo fanatismo que Sita, à época ( e infelizmente para ela não houve outra época), se julguem autorizadas hoje, a usar o seu exemplo trágico como pretexto para perorar num tom paternalista sobre as suas ideias e a sua forma de estar na política. Em particular quando pessoas como o José Manuel Fernandes acabaram, eles de novo, na sua nova condição de “democratas”, a apoiar barbaridades cometidas em nome de um “fim”, o da suposta implantação da “democracia liberal” à bomba noutros países, enquanto se permitem fazer avaliações do carácter de terceiros reagindo a circunstâncias de há trinta e cinco anos, quando é patente o fragoroso fracasso dessa nova espécie de messianismo, hoje.

É desleal, é desonesto este discurso feito do confortável mirante do “hoje”, sobre uma pessoa com intenso mérito dentro do referencial em que todos mais ou menos nos movíamos, e que apenas teve o azar de ter tido demasiados tomates. Se tivesse ficado em Lisboa nas suas tamanquinhas, poderia estar agora, quem sabe, a debitar fétidas postas de pescada sobre outros “fanáticos”, eles, em vez dela, brutal e barbaramente assassinados em luta pelas suas ideias.

rui david

Quinta-feira, 07.05.09

As vítimas da inveja (Jorge Carvalho)

por Rogério da Costa Pereira às 10:49

O Futebol Clube do Porto é uma grande equipa!


Ao longo dos últimos 20 anos tem sido a equipa que mais campeonatos tem ganho. É verdadeiramente impressionante! Mesmo com treinadores medíocres o FCPorto consegue campeonatos atrás de campeonatos chegando mesmo a ter margens enormes dos seus adversários directos. O ano passado acabou com mais de 20 pontos de diferença e este ano será, certamente, campeão.


O que se pode dizer? Nada! Tem de se dar a mão à palmatória e admitir que estamos perante um super-Porto, uma equipa que tem uma máquina tão bem oleada que qualquer jogador se torna um craque e qualquer treinador um herói.


Apesar disto há quem continue a insinuar que o FCP domina não só a sua própria máquina mas também a máquina do futebol nacional, que tem tudo controlado. Diz-se mesmo que terá os seus capangas e que muitos desses homens não são propriamente cidadãos exemplares. O seu presidente ad eternum, Jorge Nuno Pinto da Costa, está quase a completar 30 anos à frente do clube e é tudo menos um ser pacífico ou bem-amado fora do clube (há quem diga que até mesmo lá dentro). As suspeições de corrupção são enormes mas em tribunal nada se provou até hoje. Aos olhos da lei e consequentemente de todos os cidadãos, Pinto da Costa é um homem inocente cujos únicos méritos são a competência, a disciplina e a organização. Aos seus pés rastejam empresários e figuras reconhecidas da praça. Por várias empresas e noutros cargos relevantes circulam altos responsáveis do FCP. Há quem fale em promiscuidade, mas num pais tão pequeno e democrático como Portugal este tipo de insinuações são especulativas e até insultuosas! Nunca se provou nada.


Lá fora fazem um brilharete – às vezes – e são bem vistos e até temidos pelos seus adversários. Apesar disso a UEFA achou que o processo em que o clube estava envolvido não poderia colocar a credibilidade do futebol (?) em causa e tentou calá-los na Europa. Mais uma vez ganharam.


O adepto do FCP diz-se bairrista e popular, mas cá fora encontram-lhe traços de sectarismo e novo-riquismo desportivo. A sua agressividade é hoje também conhecida pelo ódio que destila pelo seu arqui-inimigo (o Porto tem inimigos e não rivais) – Benfica – e pela sua imagem de marca, uma claque furiosa chamada Super Dragões envolvida numa série de polémicas, a última das quais no último jogo frente ao Marítimo, na Madeira, quando “alegadamente” roubaram a loja de Cristiano Ronaldo. Do seu discurso fazem parte uma série de chavões que qualquer pessoa mais atenta pode reconhecer: a vitimização, a perseguição e o regionalismo provinciano. Para contrariar isso dizem que são do clube da sua terra, no limite do melhor de Portugal, e que tiveram mesmo de lutar contra tudo e contra todos. Dizem-se invejados e ao Domingo lá vão beijar a mão do Presidente em jeito de agradecimento.


Cada vez mais este Futebol Clube do Porto me faz lembrar o Partido Socialista.


Jorge Carvalho

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Sábado, 17.01.09

A Crise! Somos ouvidos! [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 23:44

Para quem tinha dúvidas que a Jugular tem influência ao mais alto nível, estão aí as provas. Basta reler "A Crise! E se a vendêssemos?" e "A Crise! De passo trocado?"!


Agora vamos prever (eu e o Prof. Bambo):


A economia na próxima década vai crescer abaixo dos 1% (tal como, grosso modo, na década anterior). Isto quer dizer que os desempregados de hoje nunca mais terão emprego. Só a partir de um crescimento de 2% é que há criação de emprego, logo, o desemprego vai crescer até aos 10%. Dizem os livros que a partir dos 10% de desemprego iremos ter problemas sociais, com violência nas ruas, aumento de roubos e furtos. Como não temos folga nenhuma, o deficit já vai nos 3,9% - é como parar a água com a palma das mãos. Acresce que a dívida externa já está nos 70%, o que quer dizer que o custo do dinheiro vai aumentar e vai ser mais difícil contrair empréstimos no exterior, o que, por sua vez, quer dizer que os grandes investimentos públicos já foram. Adeus TGV, Aeroporto, terceira ponte sobre o Tejo. Pelo menos nos próximos anos. Estes investimentos esgotariam toda a pequena folga de crédito ainda existente deixando, perigosamente, o fornecimento de bens essenciais à beira da ruptura! Como tudo isto é mau demais o que fazer? Deficit para 7% e dívida para os 100% do PIB! E adivinhem quem vai pagar? Pois é, amigos, comecem a poupar que vem aí a crise!


E, então, a que vem esta lamúria? "Estamos de tanga" dizia o fugitivo. Vamos cair no "Pântano" dizia o assustado. Lembram-se?


Luis Moreira

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Quarta-feira, 14.01.09

A crise! De passo trocado? [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 09:58

Digo eu: Após o primeiro embate em que todos reagiram da mesma forma, segurando o sector financeiro, estamos numa fase em que as coisas começam a ser claras. A liquidez serviu e serve para o sistema financeiro lamber as feridas, pouca chega à economia real. A deflação ameaça. O consumo e o investimento retraem-se. O desemprego é o monstro resultante destas condicionantes. Que fazem os governos?


Obama: Democratas e Republicanos estão de acordo. Investir no apoio directo às empresas que têm um efeito de arrastamento a montante, criando empregos. Escolhe sectores estratégicos para o futuro. Saúde, ambiente e energias alternativas.40% dos 700 mil milhões de dólares em redução de impostos vão relançar estas empresas. O resto do dinheiro é devolvido às empresas e aos indivíduos para aumentar a procura interna. Enfim, a intervenção é directa na economia real, nas empresas de bens e serviços transaccionáveis, nas empresas exportadoras, nas empresas criadoras de emprego. Geograficamente em todo o país!


Economistas e empresários nacionais: Atrair investimento estrangeiro de bens transaccionáveis. Mobilizar os portugueses para consumir o que é nosso. Apoiar as empresas de bens transaccionáveis financeira e fiscalmente. Expandir a procura interna. Melhorar a sustentabilidade dos modelos energéticos e urbanos. Progredir na produção de bens e serviços transaccionáveis. Libertar o Estado do envolvimento das actividades económicas não estratégicas. Reduzir a concentração de investimento em obras públicas. Eliminar os entraves às empresas exportadoras. Rever o programa de investimento público para reduzir as importações e o endividamento. Encorajar as actividades agrícolas e das pescas. Reduzir o IRC para fomentar as exportações e diminuir as importações. Apoiar financeira e fiscalmente jovens empresários com novas ideias e projectos.


Governos da UE: No essencial, aumentar a protecção no desemprego e expandir os apoios sociais aos indivíduos e às famílias. Apoiar fiscalmente as empresas com redução de impostos. Estimular a procura interna!


Governo português: Grandes investimentos públicos, com fraca rentabilidade e nenhum efeito em 2009, no emprego. Aumento da dívida externa e das importações.


Mãe do recruta: o meu filho é o único que vai com o passo certo!


Luis Moreira

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Quarta-feira, 07.01.09

A Crise. E se a vendêssemos? [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 18:22

Como se esperava, o BdP veio confirmar as piores previsões. Só confirmar, porque há muito que os empresários que mantêm contacto com as empresas lá fora recebiam essas informações e, bem pior, viam as suas carteiras de encomendas encolherem. Cá dentro, a ordem era gerir expectativas, deixando para o mais tarde possível o anúncio das más notícias. Mas a realidade, mais tarde ou mais cedo impõe-se, e o futuro próximo é negro. O emprego, ou a falta dele, é a prioridade das prioridades. Sabemos que as PMEs representam 70% do emprego. Porque é que esta realidade não se impõe em medidas concretas? Até agora vimos o governo "segurar" bancos e grandes empresas. O investimento que se promete é dirigido às grandes empresas. Decisões vão no mesmo sentido, como é exemplo a bem recente de entregar por ajuste directo as obras públicas até cinco milhões de Euros. É hoje pacífico, para a maioria dos observadores, que as grandes empresas que constituem a coluna dorsal da economia portuguesa há muito que não respondem às necessidades de uma economia competitiva, moderna, aberta ao exterior. São as PMEs que asseguram a produção dos bens e serviços transaccionáveis, que inovam, que competem em mercados abertos, onde a inovação e a competitividade são argumentos decisivos. As grandes empresas nacionais ou operam em quase monopólio ou em quase cartel. Esta "docilidade" leva-nos sempre aos mesmos resultados. Um país pobre e a afastar-se e a divergir da média europeia. As empresas recentemente orgulhosas dos seus imensos lucros e "performances" empresariais estão hoje a pedir a "bênção" do Estado. Como é isto possível, em escassos meses? Porque grande parte dos seus resultados resultavam, não do seu "core business", mas de actividades financeiras! Esta relação Estado/grandes Grupos económicos levar-nos-á, periodicamente" a crises, ao empobrecimento permanente, porque não conseguimos uma economia sustentável, competitiva a nível global. Mas é possível, como mostram sinais aqui e ali, ainda incipientes, mas também já casos de sucesso a nível global. Empresas que trabalham com a NASA! Se alguém dissesse isto há dez anos seria crismado de demente! Investigação científica reconhecida ao mais alto nível científico! Empresas a lançar medicamentos inovadores disputados a preço de ouro nos mercados mais competitivos. E tudo isto foi conseguido com uma política coerente e sustentada nos últimos anos, com apoios específicos por parte deste governo. Ainda só investimos cerca de 1,1% do PIB mas os resultados começam a aparecer. A Espanha investe cerca de 1.2% a Itália cerca de 1.4% para não falar dos países mais fortes. São estes bens e serviços que podemos vender lá fora (e, já agora, que não precisaríamos de comprar lá fora) que pode dar um pontapé na crise permanente em que o país vive há séculos. Entre investir nas empresas de sempre e manter a crise em "incubadoras" douradas, que tal exportá-la?


 


PS: Claro que os "atentos" de serviço me vão dizer que os mercados que recebem as nossas exportações também estão em crise e não há quem compre. Mas também é claro que se não começarmos a trabalhar já os outros vão chegar primeiro! Aí está uma oportunidade de ouro que a crise nos dá! Mudar a malha da economia, eis o verdadeiro sentido que nos deverá nortear!



Luis Moreira

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Domingo, 30.11.08

Bagagem de mão - 3 [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 20:19

Libanesa no Rio. Uma mistura à terceira geração. Olhos verdes, tez branca, estrutura óssea que dá mote à descendência. Pomos do rosto salientes, o que lhe alarga os olhos e nariz pronunciado. Alma dorida. De quem sobe a vida a pulso. Trabalha como guia para pagar a escola privada da filha. Não aceita que um país como o Brasil, que tem tudo, não consiga uma vida melhor para os seus cidadãos. Tem dos políticos uma imagem de gente sem vergonha. Digo-lhe que o Presidente Lula tirou da miséria quarenta milhões de pessoas. Olha para mim como se visse o diabo. Nem pensar, é o resultado de vinte anos de desenvolvimento e que ele abocanha como sendo fruto do seu trabalho. Lula é um vaidoso, nem o Brasil conhece, não sai de Brasília e do ar condicionado e, quando sai, é para ir para a Europa mostrar-se. Atrasa o Mercosul para guardar o lugar para si. Chavez, que na sua opinião, envergonha toda a região, não diz uma palavra sem se aconselhar com Lula. Faz de bobo da corte enquanto Lula o papel do grande estadista. Digo-lhe que nem acredito no que me diz. Lula, não é a alma do Mercosul? Vai ser mas ao ritmo que lhe interessa. Não há saída para a região fora do Mercosul. Para acabar de vez com ditadores, golpadas e humilhações. A política dos US na região foi sempre a de dividir para reinar. Encontra sempre quem esteja disposto a fazer o papel de criado. No quadro do Mercosul estas coisas não acontecem. Conservadora, tem uma enorme admiração pela família real portuguesa, cujos descendentes são pessoas de trabalho e grandes brasileiros. Despede-se de mim sem ponta de emoção. Mais um trabalhista...


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Domingo, 23.11.08

Bagagem de mão - 2 [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 00:43

Rumo a sul, rumo às neves que já foram eternas. O imenso glaciar, de um azul transparente (dizem-me que a cor é o efeito da refracção da luz), recuou dezenas de quilómetros nos últimos anos. Efeito do "efeito de estufa". O aquecimento global, pese embora estarmos a milhares de quilómetros dos conglomerados humanos, faz tremer o gigante. Grossas fatias caem, num ritmo que não abranda, com fragor, agitando as águas frias e transparentes da baía. Os barcos, cheios de turistas deslumbrados, balançam com a agitação da água, com as ondas que se formam com o cair do gigante. É belo e terrível. O desenvolvimento económico que nos deu o bem-estar que gozamos está a pôr em perigo o equilíbrio do planeta azul. Jamais esquecerei a famosa fotografia tirada pelos astronautas americanos. A terra bela, esplêndida, a flutuar no escuro celestial. Percebe-se que há ali vida, essa mesma vida que vamos destruindo com a nossa proverbial falta de senso. Que mundo vamos deixar às gerações futuras?


 


Fugimos do vento agreste, a norte, à procura da vida selvagem. As baleias. Estes enormes animais curiosos e pacíficos (alguns de nós estiveram a menos de um metro da mãe baleia e do seu filhote). O jovem biólogo chama-nos a atenção para a serenidade dos animais. Não há pingo de ferocidade. Como é que nos contaram aquelas histórias heróicas dos baleeiros a lutar até à morte? O animal só reage depois de ferido, de arpoado, acção muito fácil de executar como se vê. Os animais estão ali à mão, pacificamente. Brincam, passando de um lado ao outro por baixo do barco que balança como casca de noz. Se quisessem, num só golpe punham-nos no fundo da baía.


 


Jovens biólogos, normalmente casais, vieram viver para estes sítios inóspitos, belos e afastados de tudo. Vivem com paixão e tristeza o ruir destes santuários de vida. Tentam que todos os que os visitam saiam dali com uma visão real do admirável mundo que estamos a destruir. Vamos a tempo se começarmos já?


 


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Quarta-feira, 19.11.08

Bagagem de mão - 1 [Luis Moreira]

por Rogério da Costa Pereira às 09:00

Aterrei no Rio e tinha à espera dois violinistas (rascas). Um pobre homem entre o aparvalhado e o cómico esperava a esposa. Com música. Deu para ver que a sonoridade não era a melhor e que o ambiente era muito pobre. Comparado com a Portela aquilo não passa de um barracão internacional. De aeroporto tem as duas excelentes pistas de 3000 metros cada o que lhe permite receber cada vez mais aviões. Aqui, quem quis um aeroporto novo foi inviabilizando o actual construindo enormes torres de habitação junto da pista. E construindo sempre óptimas instalações aeroportuárias para deitar fora mais tarde. Adiante.


 


Já na cidade "os condomínios" apertam o coração. Aquela é, na verdade, a cidade do futuro. Casas e pessoas atrás de grades. Um "gorila" em cada porta. O táxi tem que ser chamado pelo hotel. O destino previamente conhecido não vá o diabo tecê-las. Gente em grandes carros e grandes restaurantes. Não há meia forma. O contraponto são as prostitutas, quase crianças, os mendigos, o pequeno comércio em toalhas estendidas no chão. Não há classe média. Entra pelos olhos a falta de gente que não ande protegida. Pensei muito em Olof Palme, o homem bom e o político sábio que percebeu como ninguém e antes de todos a importância da classe média. Dizia ele, que as grandes jogadas (como no futebol, acrescentava) fazem-se no meio, ao centro. Pai da social-democracia e socialismo democrático, enquanto governo, deixou-nos as mais equilibradas sociedades do nosso tempo. Ele percebeu que uma sociedade que só tem ricos e pobres seria uma sociedade injusta e, pior do que isso, perigosa. Tão perigosa que ele próprio foi assassinado numa rua da sua terra, por alguém que nunca foi apanhado. Quem, tão poderoso, está na sombra deste assassínio executado há mais de vinte anos, e que sempre conseguiu fugir à polícia? É possível que tenha sido um qualquer desgraçado louco a fazê-lo?


 


A quem agrada ser rico numa sociedade destas? Sair de manhã com a família protegida por gente contratada para o efeito. Não seria bem mais sensato partilhar essa riqueza em esquemas de distribuição sociais, apaziguar rancores e miséria? E, no entanto, o que vemos é o mais desavergonhado ataque ao Estado Providência que tem mantido tanta gente, durante tanto tempo, com níveis de bem-estar e em paz nunca conseguidos antes. Depois Buenos Aires, com grandes avenidas e grande miséria. Roubos em plena rua e no hall do hotel são uma constante. Ali, do outro lado do Rio, Sacramento, uma cidade Portuguesa, de ruas com paralelepípedos, casa de rés-do-chão, telhas lusas, nomes de portugueses. Uma jóia. Um almoço que jamais esquecerei. A três horas, Montevideu e a sua bela baía. Sigo para o Sul e para o interior. Países continentes, grandes planícies, rios impressionantes, florestas pujantes e verdejantes. É bem verdade. O que vale a pena sempre cá esteve.





Luis Moreira

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Segunda-feira, 15.09.08

faz de conta (texto de Jaime Roriz)

por Rogério da Costa Pereira às 14:45
O Sr Presidente da República vetou a lei do divórcio. Os partidos políticos chamaram ao novo regime do divórcio, lei do divórcio. Os jornais, a televisão e a imprensa em geral (ainda não percebi porque carga d'água rádio e televisão são imprensa) continuam a clamar pela lei do divórcio, uns contra outros a favor. Na blogosfera discute-se assanhadamente que ... porque tal ... e coiso ... ai ... que não querem que as pessoas se divorciem ... ou pelo contrário que o divórcio fica um contrato a prazo.
Resumindo, todos andam muito preocupados com aquilo que pode acontecer a adultos, capazes de consentir, caso queiram, ou não queiram, divorciar-se. Todos acham que vão surgir umas pobres pessoas vitimadas pela lei actual ou pelo novo regime.
Porém, e eu não me conformo com isto, será que alguma destas cabeças pensantes terá efectivamente lido os documentos todos? É que, não devem ter reparado ainda mas, metade do texto da alteração legislativa refere-se às responsabilidades parentais.

O Presidente "faz de conta" que não deu por isso, os partidos fazem de conta que não deram por isso, a ordem dos advogados, a imprensa e até na blogosfera, a jornalista Fernanda Câncio invectivando, muito bem, contra o veto presidencial – sempre tão atenta e com análises profundas dignas do melhor jornalismo que por cá se faz – "faz de conta(?!?)" que não deu por isso.
O texto aprovado na Assembleia da República vem rectificar uma situação profundamente injusta e dar o primeiro passo no sentido de as crianças terem direito ao pai e à mãe em caso de separação. O texto, repito, muda o termo "Poder Paternal" para "Responsabilidades Parentais" retirando do ordenamento jurídico essa expressão medieval, rural e sexista. Ao mesmo tempo o novo regime preconiza que ambos os progenitores devem estar o mais próximo possível dos filhos, mesmo em caso de separação, plasmando na lei o regime de guarda conjunta como regime obrigatório (salvas algumas, raras, excepções).
Como membro de uma IPSS e parceiro social, tive o privilégio de poder discutir com todos os grupos parlamentares as questões relativas às responsabilidades parentais. Fiquei abismado pelo facto de estar a dar novidades aos srs deputados – que nos receberam sempre bem e com um interesse que, pelo menos no que se via, parecia genuíno – ninguém tinha pensado ainda, de tão preocupados que estavam com o divórcio, nas consequências benéficas desta alteração legislativa, mais uma vez, lá estavam todos preocupados com as contas dos divorciados e com todas as questões de sexismo, conservadorismo, religião, etc etc. E as crianças Senhor? ("porque lhes dais tanta dor?" como dizia o poeta Augusto Gil)
Eis, assim, um assunto que apaixonou a opinião pública e em que o mais importante passou completamente ao lado a toda a gente. Adultos capazes de consentir que se cuidem, digo eu, ao contrário de toda a gente. Dos menores temos todos nós que cuidar, não só porque são o futuro de Portugal, porque também é hoje que, formando os homens e mulheres de amanhã, faremos deste país um lugar melhor, ou pior, para se viver. Mas as crianças não dão polémica, não servem para fazer chicana política, não votam enfim.
No fim serão as crianças que hoje vocês maltrataram, pela via da chicana política, que, quando crescerem, vos assaltarão os carros, vos violarão as filhas e que encherão o, depauperado, sistema de saúde de pedidos de consultas de psicologia. Vocês estão a roubar-lhes um dos pais.
Do direito ...
Fiquei a saber que a disposição transitória no que respeita aos processos pendentes foi feita à pressa porque algum jurista presente nas comissões de especialidade lá se terá lembrado ... "Errr.... e a disposição transitória?" .... "Não se aplica aos processos pendentes" pronto(s)! Esqueceu-se, neste caso, o legislador e o sr jurista que os processos relativos às responsabilidades parentais só deixam de estar pendentes com a maioridade da criança (repare-se no disposto no artigo 292.º do CPC [aplicável aos processos de jurisdição voluntária, ex vi artigo 463.º/1 do CPC], que considera renovada a instância nos casos ali previstos, onde se pode incluir a regulação do poder paternal). Ou seja, um processo que seja regulado quando a criança tem 1 ano de idade manter-se-á regulado pela lei actual, na melhor das hipóteses, durante dezassete anos, ou, na pior das hipóteses, durante até 25 anos.
Resta-me levantar aqui a questão. Quando daqui a 20 anos se queixarem da juventude mostrar-vos-ei este texto.

Jaime Roriz

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