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A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem o ouvir & falar.

 

 


N.B.: Este post deveria fazer parte do anterior. Devido àquilo que tudo indica ser um erro de sistema, teve que ser publicado separadamente.

B.B. Mandelbrot encontrou a curva de Cauchy por todo o lado na Economia, porque ela é a solução da equação diferencial da ressonância forçada. Os estatísticos chamam-lhe “A curva das caudas gordas”, porque ao contrário da curva de Gauss, a sua amplitude se mantém significativamente maior do que zero a uma distância apreciável do centro. É exactamente uma dessas “caudas gordas” que estamos a viver neste país, e neste continente, desde 2007-2008. A excitatriz é a criação monetária pelos bancos (comerciais!) e o coeficiente de amortecimento, o delta na curva de resposta, é a taxa de reservas fraccionárias. Em 2008, estivemos provavelmente tão perto da tempestade perfeita quanto é possível, mas note-se que a Economia não tem um modo de oscilação simples e o sistema bancário não tem uma taxa de reservas uniforme.

De qualquer forma, a ressonância psicológica (!), como Stéphane Laborde lhe chamou, esta sim, é intrínseca ao sistema de criação monetária pela dívida e ao sistema de reservas fraccionárias. A partir daqui, a opção de “quebrar o passo” tem uma forma simples: podemos continuar a ter o sistema de reservas fraccionárias, ou podemos continuar a ter bancos privados. Mas não ambos. No caso concreto de Portugal, necessitamos quanto antes de renegociar a dívida pública, mas devemos ter a consciência plena de que esta é uma medida de limitação de avarias. O mais importante é que a sociedade possa ser libertada para levar a cabo aquela tarefa essencial de “Acabar com os pobres”. Assim, rigorosamente de volta ao início.

§O exército americano manteve sempre um atraso tecnológico apreciável no respeitante a carros de combate. Na Segunda Guerra, esse foi o resultado da decisão política de privilegiar a quantidade, logo aquilo que pode ser fabricado em grande número (nem tudo pode). Nos anos seguintes, enquanto o complexo militar- industrial americano conseguia manter ou aumentar o seu avanço tecnológico noutras áreas, o seu atraso a respeito de “tanques de batalha” ia-se mantendo, até que, em finais dos 1970’s, o Pentágono decidiu que a situação tinha que mudar duma vez por todas. E nada de técnicas metalúrgicas complexas, ou dinâmica de fluidos em regime turbulento. A solução definitiva envolvia apenas o metal mais duro de todos: o urânio. Mas o urânio é também o metal mais pesado existente no planeta e o produto final, o tanque M-1 Abrahms pesa quase o dobro dos carros de combate usados por outros exércitos. Como era destinado às unidade estacionadas na Alemanha, o exército americano informou as autoridades alemãs do facto e das suas implicações. Eles já sabiam. O processo tinha sido acompanhado com toda a atenção ao nível federal, ao nível estadual e ao nível local. As autoridades militares americanas foram submergidas por uma avalanche de projectos de renovação de estradas, de reforço ou substituição de pontes e viadutos, bem como de terminais ferroviários. Com a carne pronta para ser posta em cima do assador, o exército americano pagou a renovação duma parte substancial da rede viária do Centro e do Sul da Alemanha.
¶Isto, em absoluto, não pode ser dito daqueles países a que eu chamei “em vias de desenvolvimento”.
||Os autores testaram inclusive a hipótese inversa, ou seja, que aqueles problemas pudessem ser a causa da desigualdade económica, sem qualquer evidência de correlação.
**No entanto, aquelas estruturas hierárquicas profundamente enraizadas na cultura nipónica, não têm expressão directa no nível de rendimentos e não parecem interferir com aqueles indicadores de bem-estar social.
††Porque não faz sentido falar em sequência temporal quando falamos, por exemplo, de mortalidade infantil ou de crime violento.
‡‡Até meados do século XX, a expressão usada era quase sempre ciclo do comércio. Esta tinha, pelo menos, a dignidade de se referir aos efeitos observados, sem assumir implicitamente nada. A discussão a respeito da natureza “endógena” ou “exógena” do fenómeno tem mais ou menos o mesmo interesse que a afirmação “. . .O Universo é uma forma de onda . . . ”.

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publicado às 16:39

No entanto, se o que ficou dito encerra o capítulo do “Acabar com os ricos” e das liturgias do ódio (de Esquerda, as restantes requerem um tratamento mais alargado que não é o meu propósito aqui), não abre de par em par as portas do “Acabar com os pobres”. No fim de contas, o sucesso da Europa ocidental nos anos do pós-guerra foi, em boa medida, o resultado de os europeus terem ficado no “lado certo”, isto é, o lado dos vencedores, na guerra que se seguiu. Mesmo fria, ou talvez por causa disso, os contendores sentiram a necessidade de beneficiarem os seus aliados e nenhum usou essa necessidade melhor do que os alemães. É um parêntesis, mas virtualmente irrecusável: devemos censurá-los por isso ou aprender com eles?§ Continuemos.

Em boa medida, aquilo que facilitou a implementação dos sistemas de estado-providência dos países da Europa ocidental no pós-guerra, foi apenas o baby boom. Dizimados por duas guerras assassinas, em duas gerações consecutivas, os europeus decidiram virar Thomas Malthus de pernas para o ar. O crescimento demográfico europeu facilitou a introdução daqueles sistemas, mas o próprio caso português, em que a versão local dos mesmos se iniciou após o 25 de Abril de 1974 mostra que o crescimento demográfico não é condição sine qua non para a sua existência e sustentabilidade. Mas eu não estou a escrever acerca da sustentabilidade dos sistemas de segurança social. O assunto é o “Acabar com os pobres”, logo, temos que começar por definir com um mínimo de precisão o que significa pobreza e o facto simples é que, em absoluto, não significa o mesmo em duas sociedades distintas, nem sequer na mesma sociedade, em dois períodos suficientemente afastados no tempo. O facto simples, e reportando-nos apenas a Portugal, é que mesmo os mais pobres do presente são incomparavelmente mais prósperos do que os pobres de há cem anos atrás. Aviso à navegação: os períodos de crise (vamos continuar a chamar-lhes “económica”, para poupar nos detalhes) devem sempre ser tratados separadamente. Se quisermos encontrar pobres como os de há um século, temos que nos reportar aos fenómenos complexos da transumância cultural, gerados em boa medida pela abertura das fronteiras, e ainda assim, mesmo entre aquele fenómeno cronicamente incompreendido que são as populações “Rom”, ou “Roma” (“Romani”?) encontramo-las em piores condições neste país do que em países mais igualitários, como a França, mesmo que aí continuem a ser bodes expiatórios convenientes. A ponta de um padrão começa a emergir, mesmo nestes contra-exemplos extremos, mas, sem cuidar de definir os critérios para a classificação, vamos dividir os países em “desenvolvidos” e “em vias de desenvolvimento”. Para os países desenvolvidos, “Acabar com os pobres” significa “Reduzir a desigualdade”.

Publicado em 2009 (com uma edição revista em 2010), The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, foi rapidamente qualificado como a mais recente “Teoria Britânica do Tudo”. As críticas também não tardaram e seguiram o padrão habitual do “Vodka com Laranja”, embora tenha que ser dito que foi pouco vodka e muita laranja (na versão britânica do cocktail, claro). O essencial das conclusões está na afirmação contida no sub-título “As sociedades mais igualitárias saem-se melhor, quase sempre”. Esta obra tem um ponto muito forte a seu favor: não é um livro sobre Economia (!). O índice de (des)igualdade, tal como indica a primeira figura, é apenas o ratio entre os rendimentos dos 20% do topo e os 20% do fundo e nada mais necessita de ser dito a esse respeito.



A segunda figura sumariza os resultados (embora eu ache que os autores iriam entender esta minha afirmação como uma sobre-simplificação). Sem grande surpresa, os países mais desiguais saem-se muito pior em quase todos aqueles critérios. Portugal e os Estados Unidos andam quase sempre a par, a afirmação essencial é que isto não tem a ver com o nível absoluto (monetário) dos rendimentos, mas sim com a maior ou menor desigualdade existente nas sociedades analisadas.¶ O outro aspecto essencial das conclusões, é que as sociedades mais igualitárias não só “se saem melhor em média”, como “todos (quase) se saem melhor”. Os dados analisados pelos autores são anteriores a 2008, e não me vou repetir a respeito dos períodos de crise, mas é quase chocante constatar que a mortalidade infantil e a esperança de vida à nascença nos 20% do topo, nos USA, é pior do que a observada nos 20% do fundo na Grécia.

Muito, ou quase tudo daquilo a que eu chamei “a laranja no cocktail” das críticas tem a ver com estatística. Não é por acaso. Estatística tem a ver com “acaso”, com fenómenos aleatórios; se precisarmos de saber, sei lá, a distância entre Coimbra e a fronteira espanhola, não precisamos de estatística para nada, certo? Errado, e isso faz parte do problema, mas vejamos primeiro as palavras. “Acaso” é uma categoria que usamos quando não nos queremos comprometer com uma afirmação a respeito da natureza dos fenómenos subjacentes. É o equivalente filosófico a fugir com o rabito à seringa (em muitos casos, inquestionavelmente a melhor atitude). “Aleatório” e “aleatoriedade” chegam-nos através do trabalho de Huygens (1629-1695), “De ratiociniis in aleae ludo” (‘Cálculos em jogos de fortuna e azar’) e aqueles termos impregnaram o pensamento europeu com um sentido de regularidade no meio do acaso. Curiosamente, o inglês “random” não tem nada a ver com jogos de fortuna e azar. Deriva do francês medieval “un cheval à randon”, que designava um movimento que o cavaleiro não conseguia prever, logo, que não conseguia controlar. Temos assim três ideias essenciais: imprevisibilidade, logo, o risco que lhe está associado, mas também a ideia de que estes fenómenos exibem alguma regularidade, mesmo que de larga escala ou longo prazo, mas que pode ser adequadamente definida. O resultado é um dos pontos altos do conhecimento humano e, tanto quanto sei, foi a resposta para o problema de como medir distâncias no terreno; a distância verdadeira, que podemos perfeitamente assumir que existe. Acontece que, se fizermos aquela pergunta (“. . . qual é a distância entre Coimbra e a fronteira espanhola?”) a dez topógrafos diferentes, vamos obter dez respostas diferentes, qual é a verdadeira? A resposta: muito exactamente, a média aritmética das respostas; chamamos-lhe Lei Normal dos Erros Experimentais (com muito maior frequência, apenas “normal”, ou “distribuição de Gauss”). A sua forma algébrica é complicada



mas numa folha de papel, obtemos apenas a familiar curva em forma de sino que, não só mas também, tem vindo a fazer parte de todas as laranjadas a partir de meados dos 1980’s.



Agora, como qualquer pessoa de bom senso saberá, há sinos e sinos. E esta outra curva a seguir, em que é que difere da curva de Gauss?



Acontece apenas que eu fiz batota e esta segunda é que é a verdadeira curva de Gauss em (19.1). A primeira é designada por distribuição (função de densidade) de Cauchy e voltarei a ela. Afirmei acima que The Spirit Level tem como grande trunfo a seu favor o facto de não ser um livro de Economia. Para ilustrar esta afirmação, olhemos de novo para aquela segunda figura retirada do livro. Designa-se por “regressão linear” e a linha a vermelho designa-se por “linha de regressão”. Qualitativamente, é apenas a recta que, de entre as infinitamente muitas que podem ser desenhadas na folha de papel (ou no ecran do computador), minimiza a soma das distâncias de todos aqueles pontos à própria recta; qualquer outra produziria somas superiores. Qualitativamente, não precisamos de mais nada para afirmar a existência de correlação entre desigualdade de rendimentos e todos aqueles problemas sociais; no mínimo, podemos também afirmar a existência de uma hipótese causal razoável.||

A desigualdade, em sociedades desenvolvidas é, pelo menos, uma causa importante de muitas das disfuncionalidades que essas sociedades exibem. Para irmos para além disto e para podermos fazer afirmações quantitativas a respeito daqueles factos, necessitamos de algumas hipóteses constitutivas, nomeadamente, qual daquelas curvas usar. A resposta é: a segunda, a verdadeira curva de Gauss. No entanto, a maior parte das críticas não tem a ver com isto. Voltemos àquela distância e aos nossos dez topógrafos. Então e se um dos resultados fosse substancialmente diferente dos outros, digamos, o resultado dum topógrafo alcoolizado? A normal permite-nos detectar essa condição, que designamos por “aberração estatística”, ou apenas pelo anglicismo “outlier”, portanto, o que fazer nestas circunstâncias? A sabedoria convencional diz-nos que devemos pura e simplesmente descartar esses outliers; no assunto em apreço, isso significaria descartar muitos ou quase todos os resultados americanos. No caso do nosso topógrafo alcoolizado, um teste certificado de alcoolemia, válido à data e hora das medições, autorizaria tal prática. Sem isso, nunca, nem que tivéssemos que invalidar todas as experiências.



Num quadro menos limite, a opção envolveria um juízo a respeito do risco envolvido: podemos viver com um resultado deficiente a respeito daquela distância, ou não? Ou será que um resultado anómalo esconde uma condição de risco elevado? Em 1985, uma expedição científica britânica que realizava observações atmosféricas a partir da base de Mc Murdo, na Antárctida, reportou uma depleção pronunciada da camada de ozono sobre o Pólo Sul. Inicialmente, tais resultados foram recebidos com grande cepticismo. Por um lado, as observações feitas “de baixo para cima” estão sujeitas a múltiplas interferências e, mais importante, naquela altura a Terra estava já coberta por uma rede de satélites atmosféricos e estes, olhando “de cima para baixo” não estão sujeitos às mesmas interferências e não reportavam quaisquer condições fora do normal. Por descargo de consciência, os resultados não processados dos satélites foram re-examinados. E alguém apanhou um grande susto. Não só a diminuição da camada de ozono tinha sido detectada, como a sua magnitude era ainda muito mais elevada do que o inicialmente reportado. O software que fazia a análise das observações tinha eliminado aqueles resultados como aberrações estatísticas. Considero que isto encerra a parte das críticas a The Spirit Level.

Mas vejamos mais um aspecto das suas conclusões e uma das mais inesperadas. O processo pelo qual as sociedades atingem aquela condição de maior igualdade não parece ter qualquer importância. Os autores fazem notar que, invariavelmente, os países que se saem melhor em todos aqueles indicadores são os países escandinavos e o Japão. Ora, dificilmente poderiam ser mais diferentes. Na Escandinávia existem diferenças de rendimentos muito grandes, mas depois, um sistema de impostos progressivos e um estado social muito forte, encurtam fortemente a diferença, pelo que o resultado final é aquele que podemos constatar na primeira figura. No Japão, os impostos são baixos e o estado social fraco, mas a diferença de rendimentos é à partida baixa, pelo que o resultado final é muito semelhante. Em absoluto, não existe na obra em análise qualquer indicação no sentido de que o método para “Acabar com os pobres” tenha qualquer importância. A partir daqui, e sendo provavelmente o resultado da minha incompreensão das áreas em causa, a explicação dos autores (sociológica ou epidemiológica?) causa-me algumas dúvidas.

Com as reticências referidas anteriormente, os autores ligam os problemas causados pela desigualdade às hierarquias sociais daí decorrentes. Ora a sociedade japonesa é fortemente hierárquica; conheço-a o suficiente para saber que algo mais necessita ser dito, mas também não tenho qualquer outra hipótese a apresentar. Uma coisa eu sei: quando se juntam dois japoneses, formam-se pelo menos três níveis hierárquicos diferentes.**

O caso apresentado em The Spirit Level está provavelmente tão próximo do estatuto de “prova experimental” quanto é possível a um assunto de natureza social. E um dos seus grandes trunfos reside (já o disse sem o justificar) no facto de não ser um livro de Economia. Os autores usam a informação empírica disponível, para realizarem aquele índice de desigualdade, e procuram os efeitos, assumindo a desigualdade económica como estímulo causal. Usaram a distribuição de Gauss como modelo teórico e a escolha dos indicadores justifica essa escolha. O facto simples é que esta hipótese não tem que ser aceite como artigo de fé. Pode e deve ser testada a partir dos dados disponíveis e foi testada. Não há nas críticas que eu conheço, qualquer base para contestar aquele estatuto de quasi-prova experimental.

Os textos de Economia têm um elemento em comum, isto é, são todos produtos do equivalente à Cosmologia Ptolemaica. Esta analogia invocará, provavelmente, a imagem do julgamento de Galileu pelo tribunal da Inquisição, mas tem que ser dito que aquele julgamento foi apenas o estágio final da degenerescência duma escola de pensamento que tentou, durante séculos, ajustar os factos observados a um modelo teórico falso, para além de qualquer tentativa de redenção. Benôit Baruch Mandelbrot [15] fez esta analogia em O (Mau) Comportamento dos Mercados e conta-nos como aqueles remédios medievais tentaram contornar, em vez de explicarem, as novas e desagradáveis (para os defensores da teoria) observações astronómicas. “. . . Começaram com «ciclos» planetários, depois corrigiram a insuficiência dos ciclos adicionando «epiciclos». Quando estes se mostraram insuficientes, outro remendo afastou o centro dos ciclos do centro do sistema . . . à medida que iam chegando mais dados, iam sendo adicionados outros remendos para «melhorar» a teoria. Estes [remendos] satisfaziam os seus velhos clientes, os astrólogos . . . Mas será que alguma vez teríamos chegado a viajar no espaço?”. Esta discussão é semelhante à de Popper, [21], a respeito dos «remendos» hegelianos (de Direita e de Esquerda). Sem surpresa, os resultados são quase tão maus num caso como no outro. Não exactamente tão maus, porque os “Ptolemaicos decentes”, de Stiglitz a Krugman, aos menos recentes Galbraith e Samuelson, até ao candidato falhado a Martinho Lutero da Economia, que foi John Maynard Keynes, evidenciam o digno respeito pelos factos que define, em muito boa medida, a honestidade intelectual. Mas estes também, sem conseguirem ultrapassar os erros essenciais de base. Em boa parte, estes erros têm a ver com aquelas duas curvas que eu apresentei (inicialmente) com identificação errada.

B.B. Mandelbrot definiu formalmente sete tipos diferentes de acaso, ou aleatoriedade, mas a maioria não tem interesse em Economia. Apenas três, que ele designou por [aleatoriedade] suave, lenta e turbulenta, ou “selvagem”. O primeiro caso é a situação daqueles topógrafos que chegam a resultados diferentes, mas, perturbações alcoólicas excluídas, não muito afastados uns dos outros, e sobretudo, bem comportados (!); é a sucessão de múltiplos lançamentos ao ar de uma moeda ou de um dado. É o que acontece quando medimos a ocorrência daquelas múltiplas disfuncionalidades sociais, sem consideramos a sequência temporal desses factos.†† Intrinsecamente, a Economia é uma sucessão de eventos que geram ondas de choque através da sociedade. A vasta maioria “não vai longe”, a sua amplitude atenua-se rapidamente até se dissiparem; um pequeno número tem consequências desproporcionadas, os proverbiais bater de asas dum borboleta que produzem um tufão a um continente de distância. Todos geram uma memória de longo prazo, mas aprendemos há muito a normalizar (no sentido de Gauss) essa memória. Isto porque a vida das sociedades é regulada por dois ciclos naturais, o primeiro sendo o ciclo circum-solar, o ano civil. Já lhe atribuímos mais importância, fortemente dependentes como estivemos durante a maior parte da história humana do ciclo agrícola das sementeiras e das colheitas; continuamos a atribuir-lhe uma importância institucional muito grande e, em boa medida, provavelmente exagerada. O outro ciclo natural é apenas o período médio de renovação das gerações, a esperança de vida ev, e não lhe damos a importância adequada. A Economia é essencialmente turbulenta e exibe dependências de longo prazo. Mais do que isso, o “tempo económico” não é linear, não decorre da mesma forma em todos os referenciais de observação. Sem grande surpresa, o tempo económico expande e contrai em função da actividade. A Economia é o domínio do dinheiro-tempo, exactamente como a Física é o domínio do espaço-tempo.

Muito do que atrás ficou dito pode não se aplicar durante uma situação de crise, mas é preciso dizer que em nenhum outro assunto como este a Cosmologia Ptolemaica, dominante, exibe de forma mais nua e crua a sua natureza profundamente medieval. As crises estão associadas ao chamado ciclo económico‡‡, ou seja, a economia sobe e desce, a actividade económica aumenta ou diminui, mas só falamos de “crise” durante a fase descendente. Ou como diz a proverbial voz do povo, “Só se lembram de Santa Bárbara quando ouvem os trovões”.



Os Romanos foram grandes construtores de estradas. Estas tinham como objectivo primordial permitir movimentar rapidamente os exércitos, quando necessário. E essas estradas tinham que atravessar cursos de água, pelo que foram também grandes construtores de pontes. E às vezes as pontes caiam. Provavelmente, algumas terão caído por estarem mal feitas, mas estas não geraram grandes registos. Apenas as outras. Os acidentes registados, esses, tinham sempre um elemento em comum: aconteciam quando a ponte estava a ser atravessada por uma coluna militar. Para além daquele propósito primordial, as vias romanas e as suas pontes constituíram também um estímulo ao comércio e eram por vezes multidões compactas, a caminho dum qualquer mercado das imediações, que atravessavam aquelas pontes e nada de errado acontecia. Apenas quando a ponte era atravessada por um destacamento militar, logo, das duas uma: ou os deuses estavam zangados e com aquela legião em particular, ou algo necessitava de ser feito. Recordemos apenas que as legiões romanas eram formadas essencialmente por infantaria e que eram rigidamente disciplinadas. Como todas as tentativas de aplicar as divindades falhavam, algo mais tinha que ser tentado, e foi, por tentativa e erro, mas resultou. E as pontes deixaram de cair. Ainda hoje, quando uma coluna militar tem que atravessar uma ponte, é dada ordem de “quebrar o passo”. As pontes romanas caiam por efeito de ressonância entre a frequência natural da estrutura e a cadência de marcha das legiões que as atravessavam. No presente, a frequência natural destas estruturas é demasiado baixa para que o problema possa ocorrer, mas não tentem explicar esta parte a um sargento-instrutor. A sua reacção não vai ser simpática e ele é que vai ter razão.

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publicado às 14:45

“Mas então, lá no teu país vocês têm um comunismo?”, perguntou Primitivo.
“Não. É coisa da nossa República”, respondeu Robert Jordan.
“Para mim, tudo pode ser feito pela República”, retorquiu Andrés. “Não
é preciso mais nada”.

Ernest Hemmingway — in «Por quem os sinos dobram»

Pelo final de 1975, Otelo Saraiva de Carvalho (já comandante do Copcon), foi à Suécia participar num evento organizado pelo Partido Social-Democrata Sueco. No regresso, e com aquela ingenuidade que o caracteriza, contou um episódio ocorrido durante a sua estadia. Um dos seus anfitriões perguntou-lhe “Ainda não conseguimos compreender o objectivo da vossa revolução. Afinal, o que é que vocês pretendem?”, e ele respondeu “Nós queremos acabar com os ricos, pois claro!”, ao que o outro respondeu “Pois nós aqui queremos acabar com os pobres”.

Tanto quanto me consigo aperceber, naquele momento histórico em particular, aquela conversa poderia ter ocorrido em qualquer país da Europa além-Pirenéus, mas foi extremamente adequado que tenha ocorrido na Suécia. No início do século XX, a Escandinávia era uma região historicamente pobre, como Tony Judt a descreveu, «[. . . ] uma região de florestas, herdades, indústrias de pesca e uma mão-cheia de indústrias primárias, quase todas na Suécia». No meio duma população constituída maioritariamente por pequenos agricultores, madeireiros e pescadores, os sociais-democratas suecos compreenderam que, se se mantivessem agarrados aos dogmas do movimente socialista do século XIX, com a sua aversão ao rural,* os seus eleitores “proletários”, mesmo que associados a alguma da classe média urbana (pouco significativa, na altura), iriam assegurar-lhes uma minoria permanente.

A Escandinávia e a Suécia em particular não seguiu o caminho do desespero, trilhado por outras sociedades na Europa de entre as guerras. Naquela passagem fabulosa da Espanha de Hemmingway, os guerrilheiros do grupo do Pablo e da Pilar questionam o dinamitista Inglés (que eles sabem perfeitamente que é americano) a respeito do seu país, e, quando ele descreve o sistema de “homesteading”† no seu estado natal do Montana, ficam extasiados. É sem surpresa que tal estado de coisas tivesse aparecido a camponeses espanhóis sem-terra como um paraíso comunista. Por toda a Europa Central e do Sul, os camponeses amargurados foram presa fácil para os fascistas e outros extremismos. A sua cultura católica tornava-os atreitos a deixarem-se conduzir por quem quer que se afirmasse como detentor da verdade e capaz de dar todas as respostas. Os não menos deprimidos agrários, madeireiros, caseiros e pescadores do extremo norte estavam marcados pelo individualismo da sua tradição protestante; os sociais-democratas suecos e escandinavos em geral, não só não os hostilizavam, como apoiavam as suas cooperativas. Em Saltjöbaden, em 1938, representantes dos patrões suecos e dos trabalhadores assinaram um pacto que iria formar a base das relações sociais do país. Foi também nessa altura que Orwell escreveu “Homenagem à Catalunha”. Isto não encerra o capítulo “Acabar com os ricos”. A liturgia do ódio é muito antiga na cultura europeia, mas, na Esquerda em particular, essa liturgia, desde Babeuf em finais dos 1790, tem sempre duas constantes. Uma é aquela divisão entre a cidade “avançada” e o campo “atrasado”; a outra é o facto de se dirigir sempre a uma minoria. Em The Good Society, Galbraight escreveu que o “Contrato com a América”, o programa transformativo dos conservadores americanos, em 1984, era reminiscente do “Manifesto Comunista”, de 1948. No estilo, na estrutura lógica, inclusive no facto de se dirigir a uma minoria de menos de um quarto dos americanos. O original dirigia-se a um sexto dos britânicos, a sociedade mais industrial da época, e a menos de um décimo dos alemães e dos franceses. Metade destes números no resto da Europa.

As sociedades europeias de entre as guerras eram ainda sociedades agrárias em grande medida. Em 1938-1939, com cerca de 5% da sua população ocupada na agricultura, a Grã-Bretanha era o único país a respeito do qual se podia dizer ter completado a transição para uma sociedade industrial; não muito distante, vinha a Bélgica, com cerca de 8% da sua população ligada à agricultura, logo seguida pela Checo-Eslováquia com 10% (e destes, a grande maioria concentrada no Sul, nas montanhas da Eslováquia). Eram quase 25% os franceses e os alemães que se dedicavam à agricultura, mas com uma diferença essencial: a França era quase sempre auto-suficiente em termos alimentares, enquanto que a Alemanha era fortemente deficitária. A Europa só entrou no clube restrito dos “Alegres Gigantes Verdes” (USA, UE, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), os grandes exportadores alimentares, trinta anos depois, com a Política Agrícola Comum, da então CEE. E fê-lo recorrendo em boa medida às abordagens escandinavas, sobretudo dinamarquesas, que visavam resolver problemas concretos, e.g., como recolher o leite produzido por um número elevado de pequenos produtores, para ser posteriormente processado em unidades industriais de dimensão adequada. A Europa tinha entrado na época do juízo prático: foi precisa uma guerra devastadora para que as sociedades europeias, deste lado do Canal da Mancha, deixassem de estar em guerra consigo próprias. Não foi a “3ª Via” dos 1990’s que enterrou Marx. Foi a PAC.

Mas as sociedades são entidades dinâmicas. Até aos finais da Segunda Guerra, todos os países do Mundo podiam ser designadas por “sociedades da escassez”. Uns mais do que os outros, mas mesmo nos mais ricos, mesmo que todos os bens e serviços produzidos que produziam fossem distribuídos de forma absolutamente igualitária pelos seus cidadãos, todos continuariam a ter bastante pouco. Para todos os países, a produção era essencial. Então, a partir de de meados dos 1950’s, nos USA, e uns dez anos depois na Europa Ocidental, as sociedades industriais passaram por uma mudança de fase, única na história humana. John Kenneth Galbraight chamou-lhe “A sociedade da abundância” e fez notar que esta alteração não resolvia todos os problemas; essencialmente, mudava-lhes o centro de gravidade. Numa “sociedade da abundância”, o bem social produzido por muitas empresas já não é o conjunto de bens ou serviços que criam, mas sim o emprego a que dão origem. E essas empresas, para além dos seus produtos, têm também que criar a necessidade para os mesmos. Tinham nascido as ilusões de óptica que viriam a dar origem ao mito da “sociedade pós-industrial”: todos aqueles que trabalham no marketing e na publicidade dum qualquer produto industrial, são “trabalhadores da indústria” ou são “trabalhadores dos serviços”? I rest my case.

Estas alterações qualitativas essenciais foram rapidamente percebidas, embora de forma confusa. “Os revolucionários” do Maio de 1968, marchavam contra a conformidade do “metro, bulot, dódó” à sombra duns barbudos com mais de cem anos. Os jovens do Maio de 1968 ainda não se preocupavam com a toxicidade dos produtos fora de prazo. Viriam a fazê-lo muito em breve, mas no imediato, a sua incongruência foi rapidamente captada pelos membros da geração mais velha. Como Pier Paolo Pasolini disse aos estudantes italianos, “Quando vocês atacam os polícias, eu estou do lado deles. Eles são os filhos dos pobres, vocês são os filhos dos ricos”. Mas o mundo não pára e em 1989 o Muro caiu. Não trouxe nenhuma alteração civilizacional importante. Apenas libertou a História. Um ou dois anos antes (esta é a versão de Tony Judt, ouvia-a contada de diversas formas), um ouvinte duma estação de rádio arménia telefonou para a estação e perguntou: “Mas afinal, o futuro é previsível, como afirma o materialismo histórico, ou não é?”. O locutor de serviço respondeu “Claro que sim, todos os dias prevemos o futuro. O passado é que é mais difícil . . .Não pára quieto”. A dissolução da União Soviética abriu os arquivos de leste e aquela área essencial do conhecimento humano a que chamamos História moveu-se. Já por aqui escrevi a esse respeito e mais do que uma vez. Mas ninguém tem que formar a sua visão do mundo a partir daquilo que eu escrevo. Falem com pessoas que tenham vivido a Europa de Leste. E leiam. Vão ter aquela sensação física de movimento de que aquele locutor arménio descreveu.

Não foram apenas os documentos relativos à história das sociedades do século XX. A Academia das Ciências da URSS, honra lhe seja feita, compilou e preservou ao longo de décadas, um grande repositório de todos os textos do marxismo, incluindo a correspondência dos seus pais-fundadores. Mais de cinquenta mil páginas e a opinião dos historiadores que a ele tiveram acesso, é que aquilo que ali não se encontrar é porque foi perdido por causas naturais, na época. O papel é um suporte físico muito mais frágil do que o pergaminho e a pedra da antiguidade e o papel do século XIX é particularmente de má qualidade, pelo que o acesso a estes documentos é mais recente. Aquilo que aí vem é borrasca e não o afirmo de ânimo leve. Contudo, é possível chegar às mesmas conclusões a partir de muito menos dados. A transcrição que se segue faz parte de correspondência particular, tornada pública com a autorização explícita do seu autor.

Fiquei pessoalmente abalado pelo livro de Schwartzschild, e foi apenas a minha visão da estatura moral de Marx que foi destruída. A razão para o meu ponto de vista a respeito da estatura de Marx como cientista não ter sido abalado é muito simples. Desde o início que não tinha uma opinião muito elevada, mas tinha-lhe dado todo o benefício da dúvida que era possível; e a minha opinião tinha-se deteriorado, tanto ao escrever o livro como após o ter escrito; tão lentamente, que nunca me apercebi disso. Quando li [o livro de] Schwartzschild não havia mais nada para ser destruído.
Assim, foi apenas quando li a sua Introdução‡ que me apercebi que devia ter referido a alteração da minha visão a respeito da seriedade científica de Marx. Portanto, aceito a sua crítica por completo.

Karl Popper

No entanto, se o que ficou dito encerra o capítulo do “Acabar com os ricos” e das liturgias do ódio (de Esquerda, as restantes requerem um tratamento mais alargado que não é o meu propósito aqui), não abrem de par em par as portas do “Acabar com os pobres”. . . (cont.)

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*No caso de Marx e dos movimentos da III Internacional, “aversão” é um termo manifestamente desadequado, pois o único suficientemente descritivo é “ódio”. Não é muito fácil compreender o asco com que Marx tratou os pequenos agricultores franceses, na sua vasta maioria criados pelas reformas agrárias da Revolução. Mas o melhor exemplo é, sem dúvida, a demonização do kulak russo, por Lenin e pelos seus sucessores. Veja-se que o termo russo teria que ser traduzido por “agarrado”, ou “unhas-de-fome” visto que designa aquele movimento com os dois punhos cerrados à altura do peito, que por vezes fazemos para ilustrar tais comportamentos. Os kulaks eram “camponeses ricos”, por vezes o seu capital resumia-se a uma vaca. Como categoria sociológica, tem uma dignidade rigorosamente igual a zero; como epíteto, diz imediatamente aos destinatários aquilo que podem esperar de quem o usa.
†Não é claro a partir do texto, se Hemmingway se referia ao “Homestead Act” de Lincoln, em 1862, ou às iniciativas “Subsistence and Homestead” de Roosevelt, do início dos 1930’s. Talvez ao primeiro, pela área de terra referida pelo protagonista, mas o mais significativo é o facto de se tratar dum conjunto de tradições anglo-saxónicas muito antigas, veja-se e.g. a discussão de Noam Chomsky a respeito da(s) Magna(s) Carta(s).
‡A discussão entre Flew e Popper reporta-se à nota que o último adicionou à 5ª edição de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, exactamente a respeito do livro citado: “Schwartzschild descreve-o como alguém que via ‘o proletariado’ meramente como um instrumento da sua ambição pessoal. Embora isto possa ir para além daquilo que a evidência documental permite, tem que se admitir que essa evidência, em si mesma, é devastadora.”

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publicado às 13:15


A dignidade ensinada aos cristãos

por Luís Grave Rodrigues, em 18.04.14
              

Dignidade photo Dignidade_zps08ac9826.jpg

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publicado às 19:19


Gabo diz que morreu – a minha vida com pardais

por Rogério Costa Pereira, em 17.04.14

Gabo,

Não era suposto sentir-me assim. Chamaste a um dos teus livros “Crónica de uma Morte Anunciada”. Pego apenas no título que escolheste para o livro, não no que nele dizias. Quem não o leu que o leia ou que não o leia, como prova de que continuas vivo. Adiante.

Quando há dois anos te esqueceste, eu sabia que continuavas a anunciar a tua morte. Continuavas a anunciar, sim; porque já antes havias dito ao mundo que não mais escreverias.

Sacana. Tu és sacana. Quiseste morrer-te, ou descansar-te do mundo, mas não nos morreste. Assim como – lamento – não nos morreste hoje. Tenho um milhão de palavras guardadas que o gritam. São a tua prova de vida.

Mas há mais.

Tenho mais provas. Provas de que vives e não morrerás. És culpado. Eternamente culpado. Condenado a fazer magia. Parte de mim veio de ti. Essa magia que punhas nalguma da tua escrita, aquela magia que eu faço por fazer todos os dias com o Francisco, com o meu filho.

Quando me lembro de desistir, olho-te e faço o contrário. Insisto. E estico a corda ainda mais além. Um metro mais além. Cem metros mais além. Um mundo mais além. E, como que por magia – essa tua magia –, ela nunca rebenta. E tem um milímetro, ela. Não lhe inventas mais um metro, à corda. Mas ela não rebenta... E quando a solidão trepa por mim abaixo, lembro-me do nosso cigano. Lembro-me de trechos de ti. E eis-te de volta. E eis-me de volta.

Não era suposto sentir-me assim. Tu já tinhas anunciado a tua hora. Amarraste-te àquela árvore e disseste que dali não saías mais. E dali não saíste. Mula teimosa.

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar…

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar. A Nina veio dizer-me. “O Gabriel García Márquez morreu”. Acho que respondi nada. Também não era uma pergunta. Que morreste. “O Gabriel García Márquez morreu”. Fiz muito de conta que era nada comigo. Para mim. Morreu? Qual Gabriel García Márquez? Ele há tantos com esse nome.   

Não era suposto sentir-me assim.

Mas sinto. E senti. E chorei. E depois ri-me a pensar na puta da árvore a que te prendeste. Que imagino a mesma onde prendeste "o outro". E a seguir chorei de novo. E consegui rir e chorar ao mesmo tempo. Sempre fizeste de mim o que querias. E não tenho como te agradecer por isso. Ensinaste-me que o impossível se reduz ao tamanho de uma frase mal imaginada. Uma frase sem magia. Um acto sem magia. Uma vida sem vida. Sou o teu pombo-correio para o meu filho.

Magia.

Agora paro.

Não tenho mais ganas, por hoje. Com ou sem magia, hoje morreu-me um amigo. Quando o Saramago se foi, escrevi uma coisa a que chamei Saramago morreu – a minha vida sem pardais.

A esta tua crónica, dei outro título.  

E, agora que escrevi... Não era suposto sentir-me assim. E já não me sinto assim. 

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publicado às 23:59


A História da Páscoa

por Luís Grave Rodrigues, em 17.04.14
        

       

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publicado às 00:15

Um inimigo simplesmente derrotado nunca se submete. Tem que ser dominado pelo terror, até que a própria ideia de resistência se lhe torne inconcebível.

Genghis Khan, em carta a um dos seus filhos, censurando-o por não ter exercido represálias sobre a população duma cidade que tinha resistido à conquista.


Os biólogos chamam-lhe Haplogrupo C-M217 (Y). O 'Y' significa que faz parte do cromossoma Y, pelo que só se transmite por via patrilinear. Está presente no genoma de cerca de 0,5% de todos os homens actualmente vivos, mas sendo as leis da estatística aquilo que são, serão mais ou menos outras tantas as mulheres com a mesma ascendência. Terá ocorrido naturalmente por mutação, algures pelas estepes da Mongólia, uns 10 000 anos atrás, pelo que não chegou a fazer parte do genoma das populações que povoaram as Américas. Há uns 1 000 anos, a sua incidência explodiu e hoje está presente em cerca de 8% dos homens nascidos algures entre Nizhny Novgorod e o Pacífico. Os biólogos chamam-lhe 'Factor G' (de Genghis Khan). O comentário anterior a respeito da população feminina aplica-se, mas avancemos no tempo.



O diplomata americano George Kennan, escreveu nas suas memórias, a respeito dos últimos meses da Segunda Guerra, que «Os Russos [...] fizeram uma limpeza total das populações nativas de uma forma que não tem paralelo desde o tempo das hordas asiáticas.» Kennan não tinha, na altura, conhecimento de coisas como o plano da fome, ou do "plano geral para o Leste" (Generalplan Ost), mas a sua reminiscência era adequada. «As principais vítimas foram os homens adultos (no caso de restarem alguns) e as mulheres de todas as idades. As clínicas e os médicos relataram que, após a chegada do Exército Vermelho à cidade, 87 000 mulheres de Viena foram violadas pelos soldados soviéticos. Em Berlim, foram violadas mulheres em número ainda um pouco superior durante o avanço soviético pela cidade, a maioria delas entre 2 e 7 de Maio, precisamente uma semana antes da rendição alemã. Estes números estão certamente subestimados. Aliás, neles não se incluem os incontáveis ataques às mulheres das aldeias e vilas que se encontravam no caminho das forças soviéticas no seu avanço pela Áustria e pela Polónia Ocidental em direcção à Alemanha.
O comportamento do Exército Vermelho não foi segredo para ninguém. Milovan Djilas, colaborador próximo de Tito no exército de partisans e que era, nesse tempo, um fervoroso comunista, falou mesmo do assunto a Estaline. A resposta, tal como Djilas a registou, é reveladora: "Saberá Djilas, ele mesmo um escritor, o que são o sofrimento e o coração humano? Não poderá ele compreender o soldado que passou pelo sangue, fogo e morte, se se divertir com uma mulher ou com qualquer ninharia?"»
Tony Judt, Pós-Guerra.

Em 2003, um grupo de investigadores que trabalhavam no mapeamento do genoma humano, reportou aqueles resultados incríveis que referi inicialmente: «Identificámos uma linhagem do cromossoma Y com diversas características fora do comum. Foi encontrada em 16 populações numa grande área da Ásia, desde o Pacífico até ao Mar Cáspio, estando presente com uma frequência elevada: ~8% dos homens desta região têm-na e forma cerca de ~0,5% do total mundial. O padrão da variação dentro da própria linhagem, sugere que teve origem na Mongólia, ~1 000 anos atrás. Um desenvolvimento tão rápido não pode ter ocorrido por acaso; tem que ser um resultado de selecção. A linhagem está presente em prováveis descendentes masculinos de Genghis Khan, e nós propomos que se disseminou por uma nova forma de selecção social, resultante dos seus comportamentos.», pode ler-se na sinopse. Regressemos ao passado recente da Europa.



«No seu caminho para oeste, o Exército Vermelho violou e pilhou (a expressão, neste caso, é brutalmente adequada) na Hungria, na Roménia, na Eslováquia e na Jugoslávia, mas foram as mulheres alemãs as que mais sofreram. Nasceram entre 150 000 e 200 000 "bebés russos", em 1945-1946, na zona alemã ocupada pelos soviéticos, e estes dados não consideram a enorme quantidade de abortos, em resultado dos quais, a par dos seus fetos não desejados, muitas mulheres morreram. Muitos dos bebés que sobreviveram juntaram-se ao número cada vez maior de crianças órfãs e sem lar: os destroços humanos da guerra»ibidem. Desde sempre que os assassinos se convenceram que os seus crimes não iam deixar rasto, mas enganaram-se. Vejamos as provas.

«Este aumento de frequência, se espalhado uniformemente ao longo de ~34 gerações, iria necessitar de um aumento médio por um factor de ~1,36 por geração, isto para ser compatível com os eventos selectivos mais extremos observados em populações naturais, tais como a disseminação de mariposas melânicas [?? melanic moths (*)] no século 19 na Inglaterra, em resposta à poluição industrial ... Avaliámos as probabilidades desta disseminação poder ter ocorrido por acaso. [...] Mesmo com o modelo demográfico mais susceptível de conduzir a uma disseminação rápida da linhagem, crescimento exponencial duplo, a probabilidade seria inferior a 10 —237; se a mutação fosse 10 vezes mais lenta, a probabilidade seria ainda assim inferior a 10 —10. Logo, o acaso pode ser excluído: a selecção [social] tem que ter intervido neste haplotipo.» — op. cit.. Veja-se que "selecção social" é o eufemismo da linguagem académica para os factos relatados pelo Tony Judt, ou como o follow-up daquele artigo o colocou, «[...]Este efeito seria ampliado pela eliminação de machos não pertencentes à linhagem principal».



Na Ucrânia, os europeus estão hoje a assistir, atónitos, na sua vasta maioria (com uma minoria cada vez mais asquerosa de deliciados), ao regresso da expansão mongol. Não há grandes mistérios no contorno geral da situação. A Crimeia tem uma maioria de "russo-falantes", porque os seus pais e avós foram colonizar os territórios deixado vagos pela população tártara, deportada para a Ásia Central; a Ucrânia, no seu conjunto, tem uma percentagem elevada de "russo-falantes", porque as terras despovoadas pelo assassínio em massa do Holodomor, foram povoadas por russos. E ainda assim, muitos desses russo-falantes dizem claramente "Pushkin, not Putin!". E nós, dizemos o quê? "Ai, o meu umbigo, tão redondinho que ele é..."? Era o que os franceses e os ingleses diziam, enquanto Varsóvia se desmoronava sob as bombas. Não vai ficar por aqui, veja-se o mapa da BBC: ainda não existe contiguidade territorial entre o território russo e a península anexada.

There was a saviour
Rarer than radium,
Commoner than water, crueller than truth;
Children kept from the sun
Assembled at his tongue
To hear the golden note turn in a groove,
Prisoners of wishes locked their eyes
In the jails and studies of his keyless smiles.
[...]
For the drooping of homes
That did not nurse our bones,
Brave deaths of only ones but never found,
Now see, alone in us,
Our own true strangers' dust
Ride through the doors of our unentered house.
Exiled in us we arouse the soft,
Unclenched, armless, silk and rough love that breaks all rocks.

Dylan Thomas





(*) Este post tem um número inusitadamente alto de links (mesmo para mim). Quem quiser saber o que são as tais "melanic moths", estou certo que o Google fará o seu melhor para lhes satisfazer a curiosidade.

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publicado às 17:06

Amigos 

Maiores que o orçamento 

Para a austeridade amigo vem 

Para a austeridade amigo vem 

Não percas tempo que o parceiro da PPP

É meu amigo também 

Não percas tempo que o parceiro da PPP

É meu amigo também

 

Enterras

Em todas as fronteiras

Seja bem ido quem emigra, e bem.

Se alguém houver que não queira

Leva-o contigo também.

 

Aqueles

Aqueles que ficarem

(Em toda a parte todo o mundo tem)

Em sonhos se ambicionarem

Traz outro amigo pró call-center  também

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publicado às 14:30

Os crimes de Stalin teriam sido justificados se tivessem produzido a Revolução Mundial.

Eric Hobsbawm

Quando Joachim von Ribbentrop aterrou no aeroporto de Moscovo engalanado com cruzes suásticas, a 23 de Agosto de 1939, houve quem tivesse percebido que tinha sido criada uma nova realidade geopolítica. A revista Time chamou-lhe "O Pacto comunazi", e repetiu-o durante quase dois anos, até que pelo Verão de 1941, a traição de Hitler ao seu parceiro soviético tornou o assunto nulo. Depois, a partir de Dezembro desse ano, Stalin passou a ser "...o nosso filho da puta..." e a narrativa da memória da Europa durante os cinquenta anos seguintes ficou traçada, nos seus contornos gerais. Nessa narrativa já não havia lugar para aquela realidade, nem, em boa medida, para as centenas de milhões de seres humanos que seriam marcados por ela. Entre esses milhões, um chamava-se Chiune Sempo Sugihara; outro chamava-se Andrey Sheptytsky.



Foi naquela Europa de Molotov-Ribbentrop — o mapa acima diz respeito ao acordo final — que ocorreram a vasta maioria dos assassínios em massa, antes, durante e após a 2ª Guerra; de 1933 a 1950. Foi naquela faixa que vai desde o Báltico até ao Mar Negro que os nazis fuzilaram, mataram pela fome e gasearam as suas vítimas; foi ali que os soviéticos mataram pela fome, fuzilaram, violaram e deportaram as suas. Foi ali que as populações civis foram sujeitas a duas, na maior parte, a três ocupações sucessivas. Foi ali que soviéticos e nazis efectuaram as suas paradas militares de vitória, três pelo menos, em Brest, Lublin e Lvow (hoje Lviv).

Hoje, mais de vinte anos após a abertura dos arquivos de Leste, a narrativa bastarda do "nosso filho da puta" começa, finalmente a esboroar-se, sem deixar de persistir em muitos aspectos da nossa mente colectiva. Em meados da década passada, um grupo de artistas plásticos austríacos lançou uma campanha com o propósito de chamar a atenção para o crescimento do movimento de extrema-direita do sr. Georg Haider. O símbolo dessa campanha era uma suástica amarrotada e rasgada. Foram acusados e condenados ao abrigo da lei austríaca que proíbe terminantemente a utilização dos símbolos nazis, mesmo que o propósito seja o de os denegrir. Não passa pela cabeça de ninguém que o símbolo da foice e do martelo tenha o mesmo tratamento.

E muito bem. Nem uma dos milhões de vítimas do nazismo foi atingida por uma cruz gamada: foram fuziladas, mortas à fome e gaseadas; nem uma dos milhões de vítimas do estalinismo foram golpeadas com uma foice e um martelo: foram fuziladas, mortas à fome, violadas e deportadas de territórios onde elas e os seus antepassados tinham vivido durante séculos. Os símbolos esgotam-se no seu propósito simbólico. Todos aqueles milhões de vítimas tinham um nome. Quando hoje, e não é por acaso, alguns tentam reduzir o movimento popular ucraniano aos símbolos usados por alguns movimentos nacionalistas, estão apenas a reproduzir exactamente o mesmo processo de desumanização a que aqueles milhões de vítimas foram sujeitas; estão a dar o primeiro passo naquilo a que Hannah Arendt chamou "A construção do homem supérfluo". Hoje, como então, nenhum nome é citado. Apenas símbolos.



Mas de entre as vítimas, recordamos sobretudo os sobreviventes e aqueles que com eles se cruzaram. Chiune Sugihara foi um diplomata de carreira, como indica a página do Yad Vashem, mas foi mais do que isso. Sugihara foi um espião, treinado na Academia de Harbin, na Manchúria ocupada. Convertido à Igreja Ortodoxa russa, casou com uma mulher russa e tornou-se um especialista nas complexas relações entre o Império do Japão e a União Soviética. O pacto Molotov-Ribbentrop teve consequências imediatas no Extremo-Oriente. Tornava automaticamente nulo o pacto Anti-Komintern, o que permitiu que o exército vermelho atacasse os japoneses em Khalkin Gol, sem que Stalin tivesse que temer uma segunda frente na Europa. O governo japonês caiu, como aconteceria com vários outros nos meses seguintes. Tóquio estabeleceu um consulado em Kaunas, na Lituânia, e o russo-falante Sughiara foi lá colocado, com a missão de observar o desenvolvimento das movimentações alemãs e soviéticas. Sem uma equipa própria, usava oficiais polacos como informadores e assistentes e recompensava-os com passaportes japoneses e acesso ao correio diplomático japonês. Muitos, tinham-se apercebido que era possível fazer a viagem através da União Soviética. A partir de meados de 1940, Sugihara começou também a emitir centenas de vistos a judeus. A diferença é que estes últimos tentavam atingir o Japão, e a partir daí, os Estados Unidos por mar; os polacos preferiam a fronteira do Irão, para depois se juntarem ao Exército Polaco do Exterior. Alguns estiveram em Mont Ormel; alguns foram entregues pelos britânicos ao governo fantoche de Lublin. Sugihara afirmou, nos seus relatórios, que a Alemanha atacaria a leste em Junho de 1941. Enganou-se num mês.

Andrey Sheptytsky era o Metropolita da Igreja Católica Grega ucraniana. Acolheu os alemães como libertadores (a Ucrânia ocidental fazia parte da Polónia até ao Pacto Molotov-Ribbentrop e foi ocupada pelos soviéticos depois disso), mas muito cedo começou a criticar a sua actuação. Escreveu uma carta irada a Himmler, instando-o a não usar a polícia ucraniana na perseguição aos judeus e emitiu cartas pastorais instruindo os seus fiéis a protegerem os seus vizinhos judeus. Com o auxílio do irmão, Kliment, salvou muitos judeus. Em 1943, enviou capelães para acompanharem a divisão Whaffen-SS "Galícia".

Eric Hobsbawm foi um dos maiores historiadores do século XX. Perpétuo embaraço para a Academia Soviética das Ciências, recusou-se sempre a aceitar qualquer "linha oficial", ou a pensar sem ser pela sua própria cabeça, sem nunca por em causa o marxismo. Pela sua profissão, pela vastidão do seu conhecimento e pela postura de independência que foi sempre a sua, duma coisa podemos ter a certeza: foi pela sua própria cabeça que Hobsbawm chegou àquela conclusão monstruosa.

Estas três personagens não são comparáveis. Sugihara era o agente duma potência agressiva, ela também assassina. Apesar disso, quando as circunstâncias o colocaram perante a escolha, optou por salvar seres humanos. Sheptytsky era um aristocrata de casta militar, que via na ocupação alemã a oportunidade de concretizar uma oposição militar à próxima ocupação soviética, que se adivinhava. Apesar disso, optou por salvar seres humanos. Hobsbawm era um esteta.

Heidegger era um filósofo e apoiou os nazis. Não lhe ligaram, porque não precisavam de filósofos para nada: o nazismo era, sobretudo e acima de tudo, um discurso estético. Seja lá o que for, tem que existir alguma beleza naquela ideia de "Revolução Mundial" que justifique o sofrimento e o sangue de milhões. A única coisa que não pode existir em ambos os casos é o Ser Humano. Apenas o Horror.

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publicado às 16:39


Feliz 1º de Abril

por Luís Grave Rodrigues, em 01.04.14
      

             

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publicado às 00:15


Dies irae

por Licínio Nunes, em 26.03.14
N.B.: O que se segue pode ser insuportável. Eu sei!

As crianças que nasciam na Ucrânia no final dos anos de 1920 e no início dos anos de 1930 viam-se num mundo de morte, entre pais impotentes e autoridades hostis. Um rapaz nascido em 1933 tinha uma esperança de vida de sete anos. Mesmo em tais circunstâncias, algumas das crianças mais jovens conseguiam mostrar alguma alegria. Hanna Sobolewska, que perdera o pai e cinco irmãos e irmãs por causa da fome, recordava a dolorosa esperança do irmão mais novo, Jósef. Ao mesmo tempo que inchava devido à fome, não deixava de encontrar sinais de vida. Certo dia tivera a certeza de ver culturas que se erguiam do chão; noutro julgara ter encontrado cogumelos. «Agora viveremos!», exclamava, e repetia aquelas mesmas palavras antes de ir dormir, todas as noites. Depois, certa manhã, acordou e disse: «Tudo morre.»

Timothy Snyder — Bloodlands




Depressa estas situações deixaram de ser dignas de nota. Na escola de Yurii Lysenko, de oito anos, na região de Kharkiv, uma rapariga caiu, simplesmente, durante uma aula, como se tivesse adormecido. Os adultos correram para ela, mas Yurii sabia que não havia esperança, «que ela tinha morrido e que eles a iam enterrar no cemitério, como tinham enterrado outras pessoas no dia anterior e no dia antes desse e em todos os dias». Os rapazes de uma outra escola encontraram a cabeça decepada de um colega de turma enquanto pescavam num lago. Toda a família tinha morrido. Tê-lo-iam comido primeiro? Ou teria ele sobrevivido à morte dos pais apenas para ser morto por um canibal? Ninguém sabia; mas tais questões eram comuns entre as crianças da Ucrânia, em 1933.

Os deveres dos pais não podiam ser cumpridos. Os casais sofriam enquanto as esposas, por vezes com o angustiado consentimento dos maridos, se prostituíam junto dos líderes locais do partido, em troca de farinha. Os pais, mesmo quando ainda estavam juntos e agiam com a melhor boa vontade, dificilmente podiam cuidar dos filhos. Certo dia um pai, na região de Vynnitsia, saiu para enterrar um dos seus dois filhos e, ao regressar, encontrou o outro morto. Alguns pais amavam os filhos, protegendo-os, trancando-os em cabanas para os manterem a salvo dos bandos itinerantes de canibais. Outros enviavam os filhos para longe, na esperança de que pudessem ser salvos por outros. Havia pais a entregar os filhos a familiares distantes ou a estranhos e a abandoná-los em estações de comboios. Os camponeses desesperados que erguiam os filhos pequenos junto às janelas dos comboios não estavam necessariamente a pedir comida: muitas vezes estavam a tentar entregar as crianças a um qualquer ocupante do comboio, decerto um residente da cidade e que, como tal, não estava prestes a morrer à fome. Os pais e as mães enviavam os filhos para pedir na cidade, com resultados diversos. Algumas crianças morriam de fome no caminho ou chegadas ao seu destino. Outras eram levadas pela polícia para morrer no escuro, numa metrópole estranha, e serem enterradas numa vala comum com outros corpos pequenos. Mesmo quando regressavam, as notícias raramente eram boas. Petro Savhira partiu com um dos seus irmãos para Kiev, para pedir, descobrindo ao regressar que os seus outros dois irmãos já tinham morrido.

Confrontadas com a fome, algumas famílias dividiam-se, os pais viravam-se contra os filhos e os filhos uns contra os outros. Como a polícia estatal, o OGPU, se viu obrigada a relatar, na Ucrânia as «famílias matam os seus membros mais fracos, normalmente as crianças, e usam a carne para se alimentarem». Inúmeros pais mataram e comeram os filhos, tendo acabado por morrer de fome mais tarde. Uma mãe cozinhou o filho para si e para a filha. Uma menina de seis anos, salva por outros parentes, viu o pai pela última vez, enquanto este afiava uma faca para a matar. Outras combinações eram possíveis, é claro. Uma família matou a nora, deu a cabeça a comer aos porcos e assou o resto do corpo.

Contudo, num sentido mais lato, o que destruiu as famílias foi tanto a política como a fome, virando a geração mais jovem contra a mais velha. Os membros dos Jovens Comunistas serviam nas brigadas que requisitavam comida. No entanto, crianças ainda mais jovens, nos Pioneiros, deviam ser «os olhos e os ouvidos do partido no seio da família». Os mais saudáveis estavam encarregados de tomar conta dos campos para impedir os roubos. Meio milhão de rapazes e raparigas adolescentes e pré-adolescentes ocupavam as torres de vigia, observando os adultos na Ucrânia, durante o Verão de 1933. Esperava-se de todas as crianças que entregasses os pais.

A sobrevivência era uma luta moral, tanto quanto física. Uma médica escreveu a uma amiga, em Junho de 1933, que ainda não se tinha tornado canibal, mas que «não estou certa de que isso já não terá acontecido quando receberes esta carta». As pessoas boas foram as primeiras a morrer. Os que se recusavam a roubar ou a prostituir-se morriam. Os que davam comida a outros morriam. Os que se recusavam a comer cadáveres morriam. Os que se recusavam a matar os seus iguais morriam. Os pais que resistiam ao canibalismo morriam antes dos filhos. Em 1933, a Ucrânia estava repleta de órfãos e, por vezes, havia pessoas que os acolhiam. Contudo, sem comida, havia pouco que até o mais gentil dos estranhos pudesse fazer por tais crianças. Os rapazes e raparigas jaziam sobre lençóis e cobertores, comendo os próprios excrementos, à espera de morrer.

Numa aldeia na região de Kharkiv, várias mulheres fizeram o melhor que puderam por tomar conta das crianças. Como uma delas recordava, tinham formado «algo semelhante a um orfanato». As crianças que acolhiam estavam em condições miseráveis: «Tinham estômagos protuberantes; estavam cobertas de feridas, de crostas; os seus corpos rebentavam. Levávamo-las para a rua deitadas em lençóis e elas gemiam. Certo dias calaram-se de repente; voltámo-nos para ver o que se estava a passar e constatámos que estavam a comer Petrus, a criança mais pequena. Estavam a arrancar-lhe pedaços e a a comê-los. E o pequeno Petrus estava a fazer o mesmo, estava a arrancar pedaços do seu próprio corpo e a comê-los. Comeu tanto quanto pôde. Os outros miúdos encostavam os lábios às suas feridas e bebiam-lhe o sangue. Levámos Petrus para longe das bocas famintas e chorámos.»

ibidem




O canibalismo é tabu, tanto na literatura como na vida, já que as comunidades procuram proteger a sua dignidade suprimindo o registo de tão desesperada forma de sobrevivência. Os ucranianos no exterior da Ucrânia, então e até hoje, têm tratado o canibalismo como fonte de grande vergonha. Contudo, ainda que o canibalismo na Ucrânia, em 1933, diga muito sobre o sistema soviético, nada diz sobre os ucranianos enquanto povo.

idem ibidem


Existe na baixa de Manhatann um café literário chamado "KGB", local de tertúlias avant garde. Pequena provocação no género chic, nada demais. Ninguém em seu perfeito juízo imaginaria fazer o mesmo num local chamado "Gestapo". Óptimo! Agora falta o resto. Falta o mesmo peso do mesmo opróbrio. Ninguém pode dizer "Nós não sabíamos..."

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publicado às 18:28


O Primeiro Mandamento

por Licínio Nunes, em 21.03.14
Não terás outros deuses ante a Minha face.
Exodus 20 2-17

As necessidades dum povo nómada, vivendo na margem dos grandes desertos, são simples e limitadas. Algumas direcções, apenas; para onde conduzir os rebanhos; onde encontrar água e locais para pernoitar. As necessidades dum estado moderno têm uma complexidade que seria incompreensível para os seus antepassados, contudo, podem ser enunciadas com a mesma simplicidade: "A quinta colectiva fornece o Estado e só depois o povo". Foi assim que os activistas do partido comunista da Ucrânia enunciaram e difundiram aquilo a que chamaram «O Primeiro Mandamento de Stalin», no início da década de 1930.

Em "O Arquipélago de Gulag", Alexander Solzhenitsyn cita um velho provérbio russo: "Não devemos olhar o passado. Aquele que olha o passado perde um olho." e acrescenta logo a seguir "E aquele que o esquece perde os dois". A história dos povos é feita destes esquecimentos selectivos; a sua memória colectiva tem, em grande medida, o propósito de permitir aos sobreviventes superarem os traumas dos eventos que eles próprios viveram, ou aqueles de que ouviram falar. A memória colectiva da Europa impõe hoje, como condição sine qua non de pertença, o reconhecimento formal do Holocausto. Os europeus passaram algumas décadas em tratamento oftalmológico intensivo, para, em boa medida, acabarem com óculos de lentes espessas e convenientemente rosadas. Convenhamos, a imagem industrial do Holocausto nazi, é a perpetuação duma falsidade. É a tentativa de perpetuar o mito da "competência técnica alemã", a realidade do genocídio foi essencialmente artesanal, sem ser menos assassina por isso. Começou muito mais cedo do que a versão oficial regista. Os Ucranianos chamaram-lhe Holodomor, ou extermínio pela fome.



Porque eu, o Senhor vosso Deus, sou um Deus invejoso e trarei os crimes dos pais sobre os seus filhos e os filhos dos seus filhos, até à terceira e quarta gerações
ibidem

Os camponeses da Ucrânia tinham aceite o estado bolchevique, porque este lhes tinha permitido libertarem-se dos grandes proprietários tierra-tenientes. Mas de repente tinham passado a ser inimigos de classe, kulaks ricos (em muitos casos, o seu capital reduzia-se a um porco ou uma vaca) e alvos a destruir.
Foram erigidas torres de vigia nos campos para impedir que os camponeses tomassem qualquer coisa para si. Só na região de Odessa, foram construídas mais de setecentas torres de vigia. As brigadas [de activistas do partido comunista] iam de casebre em casebre, mais de cinco mil membros nas suas fileiras, apoderando-se de tudo o que conseguissem encontrar. Os activistas usavam, como recordou um camponês, «longas varas metálicas para procurar em cavalariças, pocilgas, fogões. Procuravam por todo o lado e levavam tudo, até aos mais ínfimo grão». Atravessavam as aldeias «como a peste negra» gritando «Camponês, onde está o teu cereal? Confessa!». As brigadas tomavam tudo o que se parecesse com comida, incluindo o jantar sobre o fogão, que eles próprios comiam.
Como um exército invasor, os activistas do partido viviam da terra, tomando o que podiam e comendo até estarem cheios, obtendo poucos resultados do seu trabalho para além da miséria e da fome.Talvez devido a sentimentos de culpa, talvez devido a sentimentos de triunfo, humilhavam os camponeses onde quer que fossem. [...]
Mulheres apanhadas a roubar numa quinta colectiva foram despidas, espancadas e arrastadas nuas através da aldeia. Numa aldeia, a brigada embebedou-se no casebre de um camponês e os seus membros violaram, à vez, a filha deste. As mulheres que viviam sozinhas eram rotineiramente violadas, de noite, sob pretexto de confiscação de cereais... e, de facto, depois de violarem os seus corpos, levavam-lhes a comida. Este era o triunfo de Stalin e do seu Estado.

Timothy Snyder — Bloodlands

Um deus invejoso, sem dúvida. Pela primeira vez na história, no meio duma fome generalizada, as cidades sobreviviam melhor do que os campos que as rodeavam. Invejoso e sádico, mas cheio de imaginação. Os refugiados camponeses não estavam de facto a pedir pão, mas sim, envolvidos num complot contra-revolucionário, oferecendo-se como propaganda viva para a Polónia e outros estados capitalistas que desejavam desacreditar as quintas colectivas. À medida que o sucesso da grande reforma socialista se aproximava, os seus inimigos, levados ao desespero por esse sucesso, imolavam-se pela fome, para o tentarem sabotar.

Mas mostrarei o Meu amor àqueles que seguirem a Minha palavra e obedecerem aos meus mandamentos.
idem ibidem

Tal como o velho provérbio russo nos lembra, há sempre quem pense que os demónios ficam guardados em segurança nos armários onde os tentamos trancar. Mas eles teimam em regressar, não é verdade, Vladdy?. Ou talvez os cidadãos de países democráticos sejam de facto idiotas que odeiam aquilo que têm. Ou talvez aquele "amor" dos deuses sádicos dure pouco. A verdade simples é que temos sempre o olho da mente para usarmos desde que estejamos dispostos a fazê-lo. E a verdade ainda mais simples, é que, dos dois grandes assassinos do século XX, Adolfo Hitler nunca enganou ninguém, nem nunca pretendeu ser outra coisa senão um monstro racista; até os seus propósitos genocidas estavam já razoavelmente enunciados nas leis da "higiene racial", da eugenia e da eutanásia. O outro, embrulhou-se no manto da "libertação" — categoria escatológica distinta da "liberdade", note-se — e do "progresso social"; e da "felicidade dos povos". Será que estes mantos desculpam, de alguma forma os seus seguidores? Ou será apenas a crença naquela promessa?

O conhecimento dos crimes nazis levantou a pergunta inevitável, isto é, "O que é que os alemães sabiam?". O péssimo espectáculo recente do Vladdy torna a outra pergunta de novo urgente: "O que é que os comunistas sabiam?". Desconfio que vai ficar tão mal respondida como a anterior, mas não é menos incontornável por isso.

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publicado às 15:45


Crucifixo

por Luís Grave Rodrigues, em 21.03.14
                



      

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publicado às 00:29


Realidade

por Luís Grave Rodrigues, em 16.03.14
          



   

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publicado às 00:15


Universo

por Luís Grave Rodrigues, em 13.03.14
            




        

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publicado às 00:15


Uma luta chamada Afonso, de apelido Monsanto

por Rogério Costa Pereira, em 09.03.14

Quero agradecer aos monsantinos Hélène e João a forma como têm lutado por Monsanto e pela preservação do Património de Monsanto. Sem eles (e mais alguns, lamentavelmente poucos, mas certamente bons), sem a Taverna e agora o Fornvm, Monsanto continuaria a trilhar o caminho do esquecimento e da degradação.

Não me lembro de nos últimos tempos termos ido a Monsanto sem que o cantinho deles fosse o nosso poiso certo. Continuam a encabeçar a luta contra as antenas que o capitalismo selvagem permitiu que fossem instaladas no Castelo. Com a sua luta mexeram com os pequenos e podres poderes que fazem de erva-daninha por esse portugal dos pequeninos afora.

Quem ora os afronta e os vota a um quase ostracismo, acompanhado pelas sempiternas queixinhas disto e daquilo nos tribunais, nas câmaras e o diabo a quatro, já perdeu à partida. A Luta da Hélène e do João não é luta que se perca. E nem um nem outro são gente de baixar os braços por causa de tiros de inveja seca.

A vossa Luta, meus caros, é uma luta de Mulheres e Homens Bons. Uma luta pela dignidade de uma terra. Impossível de perder, demore o tempo que demorar a vencer. Vieram de Lisboa e, para além do resto – e já é tanto –, deram a Monsanto um bebé; Afonso, Monsantino de gema, esse, que um dia virará homem e continuará de peito feito e aberto a luta dos pais.

Tenho orgulho em conhecer-vos e em ser vosso amigo. A vossa luta e as vossas ganas cimentam ainda mais a minha certeza de que um dia teremos de volta o nosso Portugal, esse que tantos transformaram nessa areia que ora quase nos escapa pelos dedos. Mas não escapará. Com gente assim, gente como vocês, não escapará.

Bem-hajam por Monsanto, bem-hajam pelo vosso exemplo. Bem-hajam por tudo. E continuem a fazer por ser felizes. Os cães ladram mas a caravana passa.

Vocês são a caravana.

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publicado às 00:04


Isto dá pica, pá!

por Licínio Nunes, em 05.03.14
Ora eis que o mundo encontrou um tema de discussão mais excitante do que o pontapé-na-bola, ou seja, a Ucrânia e mais exactamente a invasão (!) da Crimeia. A qualidade lógica dos argumentos é muito semelhante, sendo que a sua forma geral tem a seguinte forma: "Se Iraque então Crimeia; Iraque, logo, Crimeia". Não vou discutir a falácia, ainda corria o risco de estragar a emoção que a (dis)puta manifestamente produz. Nem uma palavra a respeito do "et tu quoque". Vou apenas fazer notar que, em termos bíblicos, poderíamos dizer de forma logicamente equivalente "Se Adão então Caim; Adão, logo, Caim", et voilà, todos os pecados e crimes da história explicados e justificados no milagre duma falácia elementar.

Mas isso iria estragar a emoção dos golos mais recentes, das peripécias da arbitragem — ou neste caso da sua ausência — e, sobretudo, da incerteza a respeito do resultado final, aquele que vai contar para os livros de história, ou da FIFA, vai dar ao mesmo. Vou apenas referir um dos aspectos mais referidos pelos..., analistas, digamos. Estou-me a referir à fraqueza geo-estratégica dos Estados Unidos, incluindo mas não limitado a, fraqueza da sua liderança, isto é, a tese "...O Obama é um banana. O Putin é um líder forte...". Quem é que os tais anal(istas) preferem no domínio estrito do pontapé-na-bola? Na actualidade, o Cristiano Ronaldo baralha tudo e elimina toda e qualquer informação pertinente que a comparação pudesse conter. Adiante.

A única super-potência restante à superfície do planeta está efectivamente num situação de grande impotência, do ponto de vista militar. E ainda bem, acrescento eu. Mas isso não se deve a nenhuma crise de vontade, nenhuma falta de liderança. Deve-se a algo mais simples — e acho que o falcão McCain, ele próprio ex-piloto da Marinha, também não viu — deve-se à geografia. Qualquer escalada militar da confrontação, por parte dos USA, implicaria sempre o envio duma esquadra para o Mar Negro. Os porta-aviões da classe Nimitz são 33 metros mais compridos do que o comprimento máximo possível/permitido nos estreitos dos Dardanelos e do Bósforo.



Ou seja, a crise actual ainda não descambou em confrontação quase aberta, graças àquelas curvas apertadas, na imagem acima. Mas vamos aos factos, porque no que respeita às análises, essas oscilam apenas entre os silogismos do Tadeu e a californicação do Tavares.

E os factos são que o Vladimir pestanejou. É rigorosamente como se o Adolfo tivesse pestanejado em Munique. Nenhum de nós tem como saber o que seria o mundo se isso tivesse acontecido, mas quem quer que tenha um mínimo de conhecimentos da história do nosso tempo, sabe que muita coisa teria sido diferente, não digo sequer que seria diferente para melhor. Diferente, de certeza. Por isso, Vladimir, vai brincar como os teus foguetes, vai. Já muitos perceberam o que eu disse, tanto que os teus sabujos já andam por aí a preparar a justificação da retirada. Quanto aos istas cá do burgo: consolem-se, a selecção joga hoje, o fcp vai ter um novo treinador, isto é, o vosso mundo vai voltar à chatice do costume.

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publicado às 14:27


Um Oceano não nos separa…

por Rogério Costa Pereira, em 04.03.14

Ontem estive na conversa com o André J. Gomes. Brasileiro. O curioso, e isso acontece-me quase sempre que falo com brasileiros, foi a facilidade com que passámos adiante o que não interessa, a forma como não falámos do que é meramente instrumental (embora, convenhamos, o André seja um tipo diferente; basta ler os textos dele na Bula).

Nunca tínhamos trocado palavra e avançámos directo para o "- Tás bom, pá?; - Sim, o que contas?". Passe o exagero, fica a ideia. E eu contei, e ele contou. Alguém já havia caminhado quinhentos anos por nós. Alguém falou a mesma língua. Quinhentos anos a musicar confianças. O mais próximo que sinto, em termos de afinidade – e ainda assim a léguas de separação, por causa de uns cheques carecas pelo meio −, é com Espanha e com os espanhóis.

E dou por mim a pensar que, Espanha à parte, mas essa também se deixou enrolar no mesmo nó górdio que nós (e este tipo de nós só se “desatam” à espadeirada), − dizia, Espanha à parte, a distância geográfica não é um bom referencial.

A Alemanha, no que respeita a caminho caminhado, fica bem mais longe de nós do que o Brasil. A Europa, essa, fica no outro lado do mundo. Puta de jactância, a nossa, que nos cegou a boca e emudeceu os olhos. Portugal virou-se para o lado errado. Fomos atraídos pela cenoura do dono que nos cavalga e hoje já nem a cenoura é necessária. Nem sequer a ameaça de chicote; obedecemos sem ameaça e de rojo lambemos as patas de quem nos põe a pata em cima.

O tempo que não perdi a falar com o André é bem o exemplo do tempo que Portugal perdeu nesta caminhada inglória em que o caminho não se faz andando. Rio, para não chorar, quando penso no que seria ter tido aquela conversa, com um alemão. Ainda que fossemos percebendo, em inglês, o que o outro diz, nunca nos entenderíamos. As nossas referências são outras. Trocámos uma identidade, feita de História comum, por dinheiro fácil.

Agora, chegou a factura da nossa estupidez. Paguem e não bufem. Ou  façam como eu, não paguem e bufem… Soltemos a jangada de pedra, com ou sem além-Olicença, e não paremos onde parou a de Saramago. Porto de Galinhas é um bom destino, desta vez sem que seja porto de descarga de escravos (as tais “galinhas” que deram o nome àquele sítio de aportar). Não literalmente, entenda-se, que um Oceano não nos separa…

Alea jacta est, a porra. O Rubicão existe nas nossas cabeças amestradas. Não há rio para atravessar. Basta tirar a venda e olhar.

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publicado às 19:42


O IV REICH − DEUTSCHLAND, DEUTSCHLAND ÜBER ALLES… *

por Rogério Costa Pereira, em 03.03.14

Quando partimos da parte para definir o todo corremos o risco de generalizar; e quando generalizamos cometemos injustiças, porque necessariamente excluímos ou incluímos no todo algo que, por Princípio, mereceria ser considerado à parte. E tratado como tal.

Inventei esta espécie de trava-línguas de má colheita para avisar que, ao dizer o que vou dizer, necessariamente cometerei injustiças. Porque nem todos os alemães são iguais (adiante explicarei o propósito disto). Mas são injustiças medidas, calculadas, submetidas a uma espécie de Princípio da Concordância Prática.

Normalmente, este Princípio é usado quando se verifica o confronto de dois Direitos e um tem de prevalecer sobre o outro – veja-se a questão da Liberdade de Imprensa versus o Direito à reserva sobre a Intimidade da Vida Privada; até que ponto é legítimo um jornalista revelar factos da vida privada de quem quer que seja?

A resposta tem de ser dada caso a caso. Será legítimo um jornalista dizer que o vice-Primeiro Ministro é homossexual? Obviamente que não. E se esse mesmo político for o líder de um partido que tem como uma das bandeiras a luta contra o casamento entre homossexuais? Aí a coisa complica-se. Mas a resposta, para mim, continua a ser não. E podíamos ir por aí adiante com esse vice-Primeiro Ministro. Ou então mudar de assunto.

Não mudemos de assunto. E se um jornalista seguir o conselho de Ana Gomes que, no programa Conselho Superior, da Antena 1, disse, antes da formação do actual Governo, em 7 de Junho de 2011, o que foi resumido (presumo que por um jornalista) assim?: «Em relação à formação do Executivo, a eurodeputada socialista defende que os meios de comunicação social devem assumir o seu papel de contribuir para a transparência do passado dos políticos, nomeadamente do presidente do CDS-PP, Paulo Portas. Ana Gomes acredita que estão em causa a idoneidade e credibilidade pessoais e políticas de Paulo Portas para voltar a desempenhar cargos governamentais e lembra o caso dos submarinos. Ana Gomes vai mais longe e acusa Paulo Portas de ter encetado uma “campanha de desinformação” e de calúnia de dirigentes socialistas, associando-os ao processo Casa Pia.»

Mas Ana Gomes foi ainda mais longe e falou de “dois ministros do Governo de Durão Barroso que fariam investidas em meios de prostituição, um deles até disfarçado de cabeleira postiça”. E termina, alertando a Imprensa para que “não digam que não sabiam e que não foram avisados.”. Na altura não tive dúvidas, e referi-me a Ana Gomes como alguém que toca-e-foge, mas deixa as incumbências e os trabalhos sujos para os outros. Mas, no que aqui interessa, ficou o desafio de Ana Gomes à Imprensa. Investiguem e revelem o passado de Paulo Portas. E a verdade é que nem a Imprensa investigou (o que Ana Gomes insinua que a Imprensa já sabe), nem Paulo Portas moveu qualquer processo contra Ana Gomes. Só isto dava uma notícia.

Mas e se um jornalista investigasse? E se um jornalista escrevesse sobre “os dois ministros do Governo de Durão Barroso que fariam investidas em meios de prostituição, um deles até disfarçado de cabeleira postiça”? Seria legítima esta invasão, por um jornalista, na vida privada dos tais “dois ministros do Governo de Durão Barroso”? Se o benefício adveniente dessa intromissão resultasse em ganhos para o país, obviamente que a mesma estaria legitimada.

Em suma, Concordância Prática de Direitos é isso mesmo. Colocá-los, na prática, em concurso e, perante a impossibilidade de ambos se exercerem na plenitude, verificar qual deve prevalecer. Olhando, com bom-senso, os deves e os haveres. Os ganhos e os perderes.

Apliquemos agora este mesmo Princípio, ainda que violentado, à tentacular Alemanha de agora. Será possível legitimar a injustiça em que se traduz a violenta generalização de afirmar que todos os alemães são iguais? E qual a importância de tão ingrata tarefa?

Vamos a factos.

A Alemanha entre 1914 e 1945 tentou por duas vezes dominar a Europa e, em medidas diferentes, praticamente a reduziu a escombros (em termos físicos, económicos, políticos e sociais). Sendo que de ambas as vezes o domínio da Europa seria o trampolim para o domínio do mundo. Esta questão aparece para além do explícito quando propagandeado pelo ideal nazi. Um império de mil anos, imutável e perfeito à imagem da “raça alemã” (o que quer que isso seja). Não me vou alongar em questões como o “misticismo nazi”, que é por muitos visto como a trave mestra do “ideal ariano”; mistura de esoterismo, fanatismo, megalomania, homofobia, racismo, anti-semitismo, xenofobia e demais maleitas congéneres. Basta dizer que a ideia assenta no facto de o nazismo ser a religião e o führer o deus.

A questão é, pois, elementar. Em cerca de 30 anos, a Alemanha (vou aqui ser simplista e chamar-lhe apenas Alemanha; na verdade há mais do que uma Alemanha) foi a génesis das duas grandes guerras convencionais à escala global. Durante a II Guerra Mundial, já com os aliados portas adentro, os alemães (e aqui vem a primeira generalização) ficaram com Hitler até ao fim. Já Hitler se tinha reduzido à sua primeira essência de cobarde, encafuando-se num buraco e terminado com a infeliz nascida que mudou a rota do planeta, e continuavam os alemães a lutar por esse desatino genocida de um louco com voz de rádio.

Mais factos.

Século XXI; eis de novo a Alemanha como potência económica mundial. E eis de novo a Alemanha, reunificada desde 1989, com ganas de dominar o mundo. Há, desta feita, uma nada ténue diferença para as vezes anteriores. É que em 2013 a Alemanha está efectivamente a comandar os destinos, no terreno, de pelo menos três países; Chipre, Grécia e Portugal. E com ganas de o alcançar em tantos quanto possa, o que rapidamente conseguirá, se os homens de bem e sem preço marcado na testa não se mexerem. Espanha, Itália, França, Holanda. E caídos estes, os restantes vêm com o troco. Omito propositadamente a Irlanda, porque não passou de um ensaio. Um teste à Inglaterra. E a Inglaterra é (são), por razões históricas, económicas e geográficas, “outros quinhentos”.

Ainda mais factos.

E agora vou apenas limitar-me ao que não oferece dúvida. Ao que nos toca, embora na Grécia as coisas não sejam muito diferentes. Desde que permitimos, empurrados pelo actual Governo, a entrada da troika em Portugal, quantas vidas se perderam? Entre suicídios, doença, fome, frio; ou “apenas dor e mágoa”. Quantos morreram antes de tempo e quantos não chegaram a nascer? Quantos emigraram? Quantos não imigraram?

Mas há algo que devo esclarecer, sob pena de estas palavras perderem aqui o sentido. Estarei, de forma abusiva, a confundir a troika com a Alemanha? E os infames mercados e as agências de rating?; e bildenberg e o Goldman Sachs? Obviamente, nem tudo isto é Alemanha, basta atentar no declarado ódio visceral que Merkel tem ao Goldman Sachs. Quanto ao triunvirato “Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional” estamos conversados. Os dois primeiros são notoriamente marionetas da Alemanha e o FMI é uma espécie de sempre-em-pé onde haja tostão para extorquir. Alemanha, pois. Os mercados, as agências de rating, bildenberg e o Goldman Sachs, não sendo dominados pela Alemanha − que apenas terá algum poder partilhado nos três primeiros e alguns agentes infiltrados no último −, não vão muito além da agiotagem em grande escala, sem pretensões de ocupar efectivamente o terreno. E a Alemanha, com brio e vocação, aproveita o que mais lhe interessa, a médio e longo prazo. A germanização da Europa. Um império de mil anos, imutável e perfeito.

E, com esta conjugação de factores, teremos em breve um Portugal que manterá o nome como mera referência geográfica. O Algarve e parte do Litoral Alentejano serão uma espécie de Flórida europeia, onde os boches virão morrer no descanso do führer. No resto do país, uma China a custo zero. Trabalho escravo. Construir aqui, espetar a etiqueta “Made in Germany” (ao “made in” não podem eles fugir) e vender para o resto do mundo.   

Apliquemos agora a esta loucura, quiçá minha, o tal Princípio da Concordância Prática, ainda que necessariamente adulterado.

De um lado temos uma nação próspera, organizada como nenhuma outra, que pé ante pé se foi recuperando, também graças a um Mundo que lhe garantiu rédea solta e lhe tirou o açaime. Uma nação que vive numa Democracia interna bem mais saudável do que a nossa (suprema ironia). Um país repleto de fervorosos cidadãos, que exercem cidadania efectiva.

Do outro lado, temos todos os factos atrás elencados. Aquilo que, sem arriscar, chamo de IV Reich. Por mera curiosidade − ou nem por isso −, diga-se que esta expressão, IV Reich, foi usada pela primeira vez por Rudolf Hess, já depois do Julgamento de Nuremberga, quando grunhiu algo como “eu serei o führer do IV Reich”. Não calhou. Mas a verdade é que calhou o sacana morrer tarde, já com 93 anos, em 1987. Teorias acerca das causas da sua morte não faltam, mas a maís razoável, atendendo ao facto de o bicho estar cego e praticamente não se conseguir mexer, é que tenha mesmo sido assassinado e o suicídio “versão oficial” não passar de uma emenda bem pior que o soneto. Adiante.

Ser-me-á, perante tais factos, legítimo cometer a injustiça de enfiar todos os alemães no mesmo saco e olhá-los por igual, porque não há tempo para fazer distinções? Ver em cada alemão um inimigo só porque é alemão? Por natureza (minha) diria que não, que mais vale ousar a injustiça de deixar em liberdade mil culpados, do que a maior injustiça de prender um inocente. [e agora entrem os violinos]

E se em vez do Euro, a arma fosse de guerra convencional? E se em condições “ideais” cada alemão fosse agora chamado de volta às trincheiras?; chamado de volta ao viver e matar hitleriano? Os netos da Alemanha genocida estariam aí para as curvas? Se sempre estiveram (ainda não passaram 100 anos sobre a Primeira Guerra Mundial), se economicamente estão… Se para um alemão de classe média viver ao estilo “Deutschland,Deutschland über alles” é necessário chacinar de fome, de frio e de doença dez portugueses (eufemismo, bem sei; serão mais), se a Merkel acabou de ser reeleita, que conclusões posso tirar?

Eis-nos, pois, em pleno matar ou morrer de um IV Reich, bem mais “eficaz” do que os anteriores.

Será injusto tomar a parte pelo todo? Mas e se a parte andar perto do todo? Se for o quase todo? E eis a Justiça de não generalizar versus a Justiça de perder tempo a escolher. E digo perder tempo porque os alemães já provaram (demasiadas vidas matadas) que, quando somados (quando em matilha), perdem a individualidade em favor de um “ideal” de conquista que lhes corre na massa do sangue. A Historia não mente e insiste em não errar. O problema dos homens é precisamente terem memória curta. A reunificação da Alemanha equivaleu, metaforicamente, à união da fome com a vontade de comer. Quem come é sempre a Alemanha, os devorados somos nós; os outros.

“A História é uma velhota que se repete sem cessar” [Eça de Queirós, in Cartas de Inglaterra] e a verdade é que a Alemanha já nos disse − gritou, ameaçou, matou −, por demasiadas vezes, que não cabe nela.  

Arriscai por Justiça não ser injustos (é perigoso e longo o caminho de separar tão pouco trigo de tanto joio). Eu arriscarei, também por Justiça, sopesar a injustiça que a História me grita com a injustiça de ser “Justo”. Ainda que os alemães não sejam todos iguais, os resultados da Alemanha aplicada no terreno são sempre os mesmos. No que me toca, antes morrer de pé e berrar de dor do que rastejar às ordens de um kapo que no momento tem assento em São Bento e em Belém.

É possível alterar este fado? Claro que sim! Levanta-te, descruza os braços, ergue os punhos e muda o teu mundo. Se cada um mudar para melhor o seu mundo, o mundo muda (e sim, continuo a acreditar; vivo ao som de violinos, se isso vos fizer felizes; mas sei que um dia alguém inventou a roda, e muitas rodas se seguiram e outras tantas se seguirão.)

E a velhota pára de se repetir.   

 

* Texto escrito em 17 de Novembro de 2013 e que, por razões que para aqui não interessam, não foi publicado. O actual cenário na Ucrânia não me faz mudar a essência do que escrevi, mesmo porque o que penso da Alemanha não se altera por causa do que penso desta Rússia putinesca. Não sigo a teoria do mal menor e não troco o péssimo pelo mau

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publicado às 23:58


As terras de sangue e o mosaico que resiste

por Licínio Nunes, em 03.03.14
No final do século XIX, houve um historiador inglês que se lamentou de, para estudar as comunidades cossacas na região de Lviw, ter que dominar o polaco, o ukraniano, o moldavo, o yiddish, o russo e o arménio; comentou que para fazer o mesmo estudo algures na bacia do Don lhe bastava saber falar russo...

O mesmo poderia ser dito a respeito daquela 'Europa do Meio' que se estende geograficamente do Báltico aos Cárpatos e ao Mar Negro. Deste lado da Europa, tudo estabilizou relativamente cedo; a Península Ibérica manteve muito exactamente as suas fronteiras actuais, após a conquista de Granada, em finais do século XV. A Europa central foi, durante séculos, um mosaico étnico e linguístico complexo, e a sua história política é, em boa medida, a historia dos compromissos que aquele mosaico exigia. Enquanto os dois grandes imperialismos (e totalitarismos) da Europa continental foram mantidos sob controlo. Quando deixaram de o ser, primeiro aliaram-se e depois degladiaram-se numa guerra de extermínio mútuo.

Terras de Sangue de Timothy Snyder conta-nos essa história. Surpreendente em muitos aspectos, sobretudo para aqueles como eu que ainda consideravam que o genocídio nazi tinha sido uma construção industrial demoníaca, mas relativamente restrita no espaço. E conta-nos como os dois bigodudos à compita pelo título de maior assassino de massas do século vinte transformaram esse aspecto da sua actividade em ocupação diária, no caso do grande pai dos povos, durante 15 anos.



Hitler ganhou o título. Por uma margem menor do que muitos julgam, mas ganhou-o. Houve um outro campeonato em que, pelas suas características espácio-temporais mais vastas, os nazis não chegaram a ser competidores sérios. Estou a falar da limpeza étnica, título maior e indiscutível de Stalin. A uniformidade étnica e linguística que hoje existe na maior parte da Europa é o resultado da acção daqueles dois, embora em minha opinião, para compreendermos este segundo fenómeno e a maneira como fez a Europa tal qual é, seja necessário recorrer a algo mais vasto do que o trabalho de Timothy Snyder.

Resta um único exemplo daquele mosaico complexo que a Europa já foi, é a Ucrânia e os ucranianos não parecem nada dispostos a deixarem-se "normalizar". E por isso, àqueles que hoje ecoam as mentiras do homem em imitação ferrugenta do aço que se conseguiu arranjar, digo-lhes apenas para irem para a putin-que-os-pariu. Ou será que alguém com dois dedos de testa não percebeu o que significa a presteza com que o tiranete de Moscovo aceitou o convite alemão para conversações?

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publicado às 15:49


 

 

 

 

 

 

 

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