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A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem o ouvir & falar.

 

 


Da cobardia e da coragem

por Isabel Moreira, em 28.05.10

Começa, desde logo, pela escravatura da gramática. Pela escolha das palavras. Eis o início da cobardia ou do medo de se dizer o que se é, o que se pensa, por causa daquilo que tem um nome: consequências. Numa pátria de gramática, a cobardia é uma cobra, os cobardes são escravos da língua, encostamo-nos para trás ao fim de um dia de opiniões e o ar está poluído de silêncios, isto é, do ruído enorme das palavras subsidiárias, as que acautelam as malditas consequências, as que asseguram que não se criam inimigos, as que não afunilam oportunidades futuras de convívios, desde logo profissionais. Eis então o silêncio desse ruído, todos os dias.


Nos murmúrios das mesas de café, dezenas de afirmações categóricas, dedos em riste, tanta gente afirmativa, tanta gente de peito aberto às balas, mas, depois, as faces desses murmúrios dão a sua fotografia aos textos que as desmentem, às intervenções que as integram no sistema dos bons costumes, faces sorridentes em apertos de mãos aos inimigos dos murmúrios das vésperas secretas, tudo assegurado, os amigos oportunos, os convívios para o que possa ser, os empregos de amanhã.


Há quem não tenha medo de uma máquina que não perdoa essa falta de medo passem os anos que passarem. Em bom rigor, há quem viva, mesmo, sem uma película de plástico transparente, porque genuinamente pensa, diz, escreve e fala sem a percepção de um sistema que regista, que pune, que cobra e que demite.


Os loucos, livres, ingénuos, na verdade, corajosos na vida pública porque o são numa mesa de café como o são na defesa de um amigo que leva uma facada numa esquina, são gente pouco atenta à manipulação dos cobardes com vestes de gente brava. São como as crianças recrutadas para os exércitos. Motivam-nos para darem a cara, para escreverem, para dizerem, para gritarem, aplaudem-nos em telefonemas privados, dão sugestões, dizem do que diriam no seu lugar, mas reservam esse lugar para os tais loucos, loucos de tão livres, que se esquecem, ou não sabem sequer pensar sobre isso, que cada palavra tem um preço, que cada intervenção assertiva cria um inimigo, que cada luta desinteressada interessa a alguém e é sempre olhada como interessada por tantos outros.


Os loucos de tão loucos pela liberdade caracterizam-se pela generosidade. Não sabem dizer não a qualquer pedido no qual vejam justiça. Emagrecem até ao limiar dos ossos pelos outros, se for necessário, e um dia, às vezes, acordam no espantoso acontecimento de um pedido deles não ser atendido pelo camarada, descobrem com a mesma perplexidade de um navegador que a bitola ética do outro não é a sua, verificam que há vinte portas fechadas por causa de uma denúncia justa, ligam para quarenta caixas de mensagens, encontram, enfim, um outro silêncio, o seu preço, e esse dá pelo nome de solidão.


É aí, nesse lugar, nesse lugar que é uma doença, a doença que predomina todas as doenças, a solidão, que o louco pela liberdade faz uma escolha: descobre o polvo que o rodeia e avança com os passos de sempre ou adere à poluição dos silêncios e junta-se em mesas de cafés, com a sua acutilância, de dedo em riste, denunciando as injustiças, as corrupções, as mentiras, murmurando-as, portanto, mas escorrendo-as no dia seguinte subordinado à gramática do compromisso, a ver se assegura portas abertas, chamadas atendidas, convívios sociais, amigos que dão jeito, trabalhos futuros.


Quando, nesse lugar, nesse lugar doloroso, mas de amadurecimento, o louco pela liberdade, o anterior ingénuo que tinha por normal não sofrer por carregar apenas a sua consciência, escolhe subordinar a gramática e não se subordinar a ela, escolhe riscar a palavra consequências do seu dicionário de convicções, temos um corajoso.


Em seu redor, um degelo. Ficarão poucos; os que contam. Mas, recordando Shakespeare, ele experimentará a morte apenas uma vez na vida. Já os cobardes, esses morrem várias vezes antes da sua morte.


 

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publicado às 12:22


16 comentários

De Deus a 28.05.2010 às 12:48

uma nostalgia do tipo pachecopereiriana. uma coisa que poderiamos encontrar pensada no abrupto.

o dito não escreveria melhor (até porque na realidade escreve pior, porque escreve à pressa).

ai as coisas que não se escreveram na adolescência (ou mesmo na adolescência política)... e que depois se escrevem e pensam na vida adulta...

a gramática que é tão mázinha.
a sociedade que é tão mázinha.

um estado de alma. respeitável.

De Isabel Moreira a 28.05.2010 às 12:57

sentença: estado de alma (um texto, em mim, tão antigo e dedicado a umas quantas pessoas, cristo). mas se é dada por "Deus" vou acatar! ui, ui.

De tiago mota saraiva a 28.05.2010 às 13:11

Os meus parabéns para quem tem a honestidade de dar nomes ao que escreve. Só acrescentaria que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos.

De Pedro a 28.05.2010 às 13:56

Confesso.



Que já não lia um texto tão bom há/faz/tem muito tempo.

De Espírito-Santo a 28.05.2010 às 14:27

Os dois caminhos possíveis em ditaduras como a que actualmente oprime o Povo português: calar ou ser suficientemente doido para tudo enfrentar e arcar com as consequências. Isto para pessoas, claro. Os invertebrados escrevem no Jugular e lambem o rabo ao Poder fascista, criando saudades de Salazar e seus torcionários.

De S-íssimaTrindade a 28.05.2010 às 15:11

credo, assustei-me. pensei que deus tinha um blog no sapo :-)
 
para a Isabel - que outro deus a abençoe. merece!

De Zé do Telhado a 28.05.2010 às 16:12

Isabel, que bela ficção. Em tom de novela, porque o tempo correu rápido neste texto.

O louco, só mesmo em novelas é que se encontram, mas também na vida real. Só que na vida real o Louco morre de forma anónima: ninguém o conhece, ou melhor, alguém o conhece, mas acha que ele é louco.
Não conheço mais nenhum louco, para além do que vive na solidão e no anonimato. O resto é ficção, loucuras que pretendem imitar o louco.



 

De Marcelo do Souto Alves a 28.05.2010 às 16:35


Eh pá, Isabel, piedade, tenha pena de nós, não nos faça sentir assim tão pequeninos e quase mesquinhos ao lê-la, é tão genuína, tão maravilhosa, olhe, publique depressa um livro, tenha um bom fim-de-semana e, sim, seja muito, muito feliz, que decerto bem o merece...

De Fábio a 28.05.2010 às 16:59

Está muito Sophia, hoje. Fez-me lembrar o teor dos Contos Exemplares. Uma redonda salva de palmas ;)

De LMr a 28.05.2010 às 18:03

Como???
Sarcasmo, certo?

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