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A pegada não morreu; apenas deslocámos a maior parte das nossas pegadas para o facebook. Enorme pecado, bem sabemos; mas por estes instantes, em que o tempo não abunda, é mais fácil interagir e publicar ali. Esta nossa casa não desaparece; será sempre a referência principal e o lugar das pegadas mais profundas. No entretanto, e quando não nos virem por aqui, é porque estamos aqui:pegadabook. Cliquem no link (não é necessário ter facebook para ler, apenas para comentar) e/ou façam like acima. A todos os leitores e ao sapo, que nunca nos falhou, pedimos desculpa. É coisa de momentos; a pegada será sempre aqui. Aqui é a regra, este anúncio não revela mais do que uma excepção. Já agora, e também no facebook, mas numa onda diferente -- e em que todos os leitores podem ser autores --, visitem o ouvir & falar.

 

 


Nota: Este post teve que ser editado para substituir a imagem da curva de Hubbert, visto ter recebido uma notificação, indicando que o peakoil.com não permite a linkagem directa do seu conteúdo. No hard feelings.

Em 1916, franceses e britânicos dividiram as posses do finado, antes de lhe terem feito o enterro. Oficialmente, recebeu o nome de Acordo da Ásia Menor, mas entrou para a História Universal da Infâmia com os apelidos dos seus autores directos, o senhor Sykes e o senhor Picot, altos funcionários dos respectivos ministérios dos negócios estrangeiros. O assunto era petróleo, mas a forma concreta do mapa resultante, essa, era o resultado duma coisa esdrúxula, chamada "teoria das placas paralelas", que não merece grande descrição. Se olharmos para o mapa que se segue, constatamos que o eixo da parte francesa é aproximadamente paralelo ao eixo do Cáucaso -- cujas reservas já eram conhecidas -- e que a parte britânica (para além da faixa costeira do Mediterrâneo) era orientada, grosso modo, no sentido noroeste-sueste, mais ou menos paralela às descoberta que uma outra personagem muito complicada tinha efectuado nos territórios da Pérsia. Pormenor a reter: a zona britânica estendia-se, a sul, mais ou menos até aquilo que é hoje o Qatar e quanto ao resto do Golfo e à Península Arábica, enfim..., era um deserto que todos os sabiam onde ficava e onde ninguém queria ir, com excepção de um ou outro visionários desvairados.



O assunto foi mantido no máximo segredo, mas não podia ser ocultado de todos os aliados. O Império Russo foi informado. Depois, em 1917, após a Revolução de Outubro, Lenin tornou aqueles documentos públicos e cairam o Carmo e a Trindade: os italianos, que tinham realizado um esforço militar considerável no Mediterrâneo, armaram um escaracéu enorme e foram muitas as vozes que se ergueram, nos Estados Unidos, dizendo "...esses europeus não têm emenda, tragam os nossos rapazes de volta e eles que se matem uns aos outros...". Foi com grande dificuldade que Woodrow Wilson conseguiu manter a coligação favorável à participação na Guerra. Perante o escândalo, franceses e britânicos começaram a meter os pés pelas mãos, prometendo uma parte do Arquipélago Grego à Itália, uma parte dos Balcãs à Grécia e outras trafulhices que tais. As placas continuaram paralelas e a Península Arábica continuou um deserto onde ninguém queria ir. Os mandatos da Liga das Nações, limaram as arestas do Sykes-Picot que entravam pela Anatólia dentro e os britânicos perderam o interesse pela extremidade sul da sua própria placa. Nada de muito relevante.

Depois, em 1925 estalou na Arábia uma revolta tribal contra o Sharif de Mecca e os britânicos, aqueles colonizadores tão inteligentes, convenceram o filho do Sharif, Faisal al-Hashimi (o príncipe Faisal do Lawrence da Arábia e dos Sete Pilares) a esquecer aquele deserto que todos sabiam onde ficava e aonde ninguém queria ir e assumir o trono do recém-criado Reino do Iraque. Foi um dos efeitos da erupção de cogumelos, designada por monarquias hashemitas, com origem na conferência de Versalhes, mas os seus patronos britânicos não estavam interessados em mais nada senão na sua própria placa. Faisal sai completamente do quadro desta história, mas não teve qualquer influência nos acontecimentos seguintes.

O que os britânicos, aqueles colonizadores tão inteligentes não sabiam, é que aquela revolta tribal não tinha acontecido por acaso. Uma companhia americana, chamada Standard Oil da Califórnia, tinha realizado prospecções petrolíferas em segredo e tinha acertado no jackpot. Os americanos não foram mãos-largas, 50 000 libras esterlinas em empréstimos e mais 5 000, pelo primeiro ano de produção, mas já lá diz o povo, p'ra quem é, bacalhau basta. Os membros do clan de Saud não sabiam exactamente o que era uma libra esterlina, a única exigência que fizeram foi de o pagamento ser efectuado em ouro. Em 1939, foi fundada a companhia privada mais importante da História, a Arabian American Corporation, ou ARAMCO. O propósito inicial, era o de alimentar o complexo militar-industrial nazi, pelo que a companhia foi alvo duma nacionalização punitiva temporária, decretada em 1943 por Franklin Roosevelt. O petróleo do Médio-Oriente não teve qualquer intervenção no conflito. A bomba de gasolina dos aliados, incluindo, em menor parte, a União Soviética, foram o Texas e o Oklahoma.

O que o senhor Rockfeller, aquele investidor tão inteligente não sabia, era que tinha acabado de escancarar a caixa de Pandora, mantida entreaberta durante séculos pelas tempestades de areia da Península Arábica. As aspirações do clan de Saud ao sharifado de Mecca tinham raízes históricas. O império otomano foi, nas palavras de Ferdinand Braudel, "um poder displicente". Os turcos otomanos procuravam sempre líderes locais, em quem sentissem que podiam depositar alguma confiança, e depois mantinham um núcleo de tropas seguras a uma distância segura, para qualquer eventualidade. Por meados do século XVII, as cidades santas de Mecca e Medina, mas também os principais portos da região, Yenbo e Jedahh eram de facto governadas pelo clan de Saud. E estes manifestavam-se incapazes de dominar as revoltas periódicas das tribos beduínas do deserto que, sobretudo quando incidiam naquelas regiões costeiras, davam origem a inevitáveis episódios de pirataria, extremamente complicados numa faixa marítima tão estreita como o Mar Vermelho. Ora, os interesses do império otomano na região, consistiam essencialmente em assegurar a liberdade e segurança da navegação. Por isso, quando aqueles episódios de pirataria aconteciam, o império intervinha. No princípio ou no fim, nunca se esquecia de punir o clan de Saud pela sua incompetência, o que, logo à partida, os tornava ainda mais incapazes para fazer frente à revolta seguinte.

Confrontados com o círculo vicioso, os membros do clan de Saud realizaram uma aliança político-militar com um outro grupo tribal, com origens no outro lado da Arábia e que praticava uma forma de Islão muito antiga, mas que tinha sobrevivido apenas em locais isolados e remotos. Em troca daquele apoio, o clan de Saud concedeu ao clan de Wahhabi plena jurisdição em todos os assuntos de natureza religiosa. Foi uma novidade absoluta, pois em toda a história do Islão sunita, o poder temporal devia sempre exercer também o poder religioso, mas a novidade permaneceu esquecida por entre as areias do deserto arábico, até ser renovada e institucionalizada aquando da formação da Arábia Saudita. O investimento Wahhabita começou a internacionalizar-se em finais dos 1950's, com predominância naquela região na margem direita do Indo, entre o recém-formado Paquistão e o Afeganistão. Há quem afirme que, hoje em dia, três em cada quatro novas mesquitas erigidas em todo o Mundo, são-no com dinheiro Wahhabita, não sei se corresponde à verdade, mas o facto é que, ao pensarmos nos trágicos acontecimentos do início deste século, aquele provérbio popular americano, a respeito do que acontece quando as galinhas fugidas voltam ao galinheiro para chocar os ovos, vem imediatamente à mente. Não é uma análise racional e eu sei-o. Adiante, que é preciso encontrar um caminho para fora da espiral de loucura.



O modelo de Hubbert tem exactamente a mesma idade do que eu e as controvérsias que tem gerado são um dos exemplos do trólaró a que aludi anteriormente. Hoje em dia, ninguém o nega, nem os executivos das companhias petrolíferas, nem sequer o ministro saudita do petróleo. Apenas discutem datas. Esquecem o mais importante. Estou numa minoria ridícula com o que vou dizer a seguir, mas peço aos leitores que façam algo simples. Peço que olhem para as datas e tentem localizar os pontos de inflexão: quando a curva inicia o seu percurso exponencial, no início do século vinte — o Sykes-Picot e as suas tragédias; quando a curva muda de exponencial para logarítmica — os choques petrolíferos dos 1970's, continuados pela guerra Irão-Iraque, até à invasão do Koweit e o que se seguiu; quando o pico acontece — a segunda Guerra do Iraque, que ainda não terminou. Estamos hoje a aproximarmo-nos de uma nova zona de inflexão, os Estados Unidos voltaram ao tempo dos geiseres petróliferos. A única coisa que eu não sei, é de quem vai ser o sangue derramado.

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publicado às 23:53



 

 

 

 

 

 

 

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